Seija Musou | The Great Cleric Vol 02
– Arco 3: Uma Pedra Melhor Deixada Intacta –
Capítulo 9 [Um Zumbi e Seu Mestre]
Com imenso esforço, segurei o grito de vitória ao sair do labirinto e fui abrir a porta da loja da Cattleya. Só consegui desviar da lâmina prateada que voou em direção ao meu pescoço graças aos meus sentidos aguçados depois de meses lá embaixo. Percebendo que meu agressor não iria parar após um único ataque, conjurei um escudo a tempo de bloquear outro golpe. Olhei para o lado e vi Cattleya parada ali, olhos arregalados e boca entreaberta.
— O segundo era mesmo necessário? — reclamei, pouco antes de algo me acertar de repente, me jogando escada abaixo.
Meu cérebro parecia ter sido chacoalhado dentro do crânio. Um rápido feitiço de Cura logo resolveu a dor de cabeça latejante.
— O que eu fiz pra merecer isso?!
Cambaleei de volta para ficar de pé enquanto Cattleya corria na minha direção. Me preparei para mais dor, mas ela nunca veio. Em vez disso, ela jogou os braços ao redor do meu pescoço e me abraçou.
— O que diabos deu em você? Ei, estou falando com você!
Era difícil ficar feliz com um abraço de alguém que tinha acabado de tentar me matar. Meu coração estava disparado, e não era por amor ou emoção. Parecia um pouco com quando os zumbis me mordiam na primeira sala do chefe.
— Você está vivo — disse ela.
Ah, claro, ela podia sorrir o quanto quisesse, mas eu não ia cair nessa... Espera, “eu estou vivo”? Quando foi que eu morri?
— Sim, estou. Por pouco, mas estou. O quadragésimo andar foi complicado. Demorei cerca de meio ano para vencer a câmara principal, acho. Tentei voltar logo depois disso, mas as coisas se complicaram, e tive que continuar.
— Estou tão feliz que você está bem. Mas agora não é hora para isso. Precisamos ir para... Não, antes disso, você precisa sair lá fora e parar aqueles aventureiros.
Ela estava praticamente em pânico.
— Dá pra ir mais devagar e me explicar o que está acontecendo, por favor?
Cattleya não atendeu a nenhum dos meus pedidos e praticamente me jogou dentro do elevador. Desisti de tentar entender tudo e comecei a pensar no quanto eu mataria por uma refeição gostosa agora, enquanto ela me arrastava até a recepção.
Rostos familiares me aguardavam ali.
— Mestre?! Gulgar, Galba! O que todo mundo está fazendo aqui? Você também, Grantz? Aconteceu alguma coisa? Seja o que for, eu ajudo no que puder.
Silêncio.
— Hã... olá?
Um silêncio muito constrangedor.
Então, de repente, todos avançaram e começaram a me dar tapas nas costas.

— Bom, ele me parece bem vivo, sim — resmungou Brod.
— Olha pra ele! Ainda tem a cabeça nos ombros!
Galba riu.
— O que diabos você esteve fazendo esse tempo todo?
Então, claramente, eles acharam que eu tinha morrido. Não era minha intenção ficar tanto tempo no labirinto, mas agora me sentia mal por ter preocupado todo mundo. A reação de Cattleya começava a parecer mais justificável. Eu tinha avisado que poderia demorar um pouco mais do que o normal, mas ninguém em sã consciência descreveria minha estadia lá como “um pouco mais”. Eu devia um pedido de desculpas para ela mais tarde.
Grantz se dirigiu até a entrada e então se virou.
— Ei, Furacão, vou avisar o pessoal lá fora. E você, Santo Esquisito, quero ver sua cara de volta no salão da guilda logo.
— Ah, certo — respondi distraído enquanto o mestre da guilda local partia. — Então, desculpem por preocupar vocês, mas o que todo mundo tá fazendo aqui?
Brod suspirou.
— Pelo amor de...
— Dá um desconto pro cara. Você sabe que o Luciel tem uns parafusos a menos — cortou Gulgar.
— Quer nos contar no que você esteve metido? — perguntou Galba com um sorriso.
Antes que eu pudesse responder, uma comoção estrondosa veio de fora.
— Tem algum festival acontecendo hoje?
Os três, junto com Cattleya (até as recepcionistas?), pareciam ter morrido por dentro ao mesmo tempo. Resolvi ignorar estrategicamente. De qualquer forma, o labirinto ainda era segredo.
— Tem uma instalação de treinamento para curandeiros aqui. Algo deu errado enquanto eu estava lá dentro, e acabei preso por uma eternidade.
Brod me deu um tapa na cabeça sem aviso.
— Ai! Cara, você ainda é rápido demais pra mim! O que eu fiz nesses dois anos de treinamento, afinal? — Meus olhos começaram a arder.
— Eu te avisei, não avisei? Você pode ser meu aprendiz, mas não tem talento nenhum. Volte daqui a cem anos e talvez a gente converse — resmungou ele. — Tem muita coragem de me fazer me preocupar assim.
Alguém estava de bom humor.
— Cem anos?! — Meu estômago roncou alto. — Ei, Gulgar, tô morrendo de fome aqui. Eu bem que queria provar a sua comida.
O lobisomem soltou uma gargalhada.
— Tá certo, parceiro! Que tal irmos até a Guilda dos Aventureiros? Vou preparar algo especial! Ei, moça, vamos levar seu curandeiro emprestado por um tempo!
— Vamos precisar que ele faça um relatório depois, mas... suponho que seja o melhor a se fazer — respondeu a recepcionista.
— Essa aqui entende das coisas!
— Cattleya, pode avisar a papa que eu saí? E diga a ela que tenho algo importante para contar.
Ela assentiu.
— Certo, vou avisá-la.
Um instante depois, me vi encarando o teto.
— Vamos nessa, pessoal!
— Mestre! Solta meu pescoço! E Gulgar, por que você tá segurando minhas pernas?! Não você também, Galba! Por favor, vão começar a espalhar boatos de novo! Qualquer coisa menos isso!
— Não seja um bebê, Santo Senhor Esquisito — Brod segurou uma risada.
Gulgar, no entanto, gargalhava sem reservas.
— Segura firme, Esquisitão!
— Agora, agora, não resista. Só relaxe. Logo você vai ter um apelido novo.
— Me soltemmmm!
E lá fomos nós. Eles me carregaram pela Cidade Santa como se eu fosse um palanquim humano até o salão da guilda.
***
Cattleya transmitiu a notícia do retorno de Luciel para a papa e os diversos altos oficiais da Igreja. Até mesmo os críticos do jovem curandeiro pareciam aliviados ao saber que ele estava vivo. Os cavaleiros eram fortes, mas os aventureiros estavam a um passo de cercar o castelo, e poucos padres ou bispos tinham experiência no campo de batalha. O medo genuíno havia se espalhado pelos corredores do castelo ultimamente, e a influência de Luciel era inegável. Aqueles que sentiam as repercussões das ações do jovem curandeiro começaram a traçar planos para ganhar sua confiança, ficar em sua boa graça ou, pelo menos, manter-se bem longe dele.
***
Pouco depois de me empanturrar com uma refeição deliciosa (uma colaboração entre Gulgar e Grantz), trouxeram a famigerada Substância X, e, previsivelmente, fui forçado a beber.
O salão da guilda estava cheio de aventureiros que não podiam ir a uma clínica por motivos financeiros, raciais ou outros, então reinstalei o Dia do Santo Maluco. Apesar de estar tão cheio que quase doía, ajudar os outros era melhor do que enfrentar mortos-vivos qualquer dia.
Depois que terminei meu trabalho, pedi uma luta de treinamento com meu mestre. Dessa vez, eu tinha certeza de que acertaria um golpe com as técnicas que aprendi com meu falecido "segundo mestre".
— Eu baixei a guarda mais cedo, mas não estava brincando quando disse que treinei por dois anos. Não vou me segurar!
— Parece que tudo o que você treinou foi sua língua. Quem diabos te ensinou a segurar uma espada e uma lança desse jeito?
— Vamos descobrir isso na luta, pode ser?
— Beleza, manda ver!
Saltei para cima dele, carregando meu corpo com energia mágica, desferi um golpe ascendente com minha lâmina e avancei com a lança.
E então... eu estava no chão.
Espera, no chão?
— Você tá melhorando, eu admito, mas se acha que é algum prodígio, acho que preciso te lembrar do seu lugar.
— Foi mal. Você deve estar certo.
— Levanta. Vamos consertar isso.
— Sim, senhor!
Ninguém disse em voz alta, mas depois fiquei sabendo dos comentários dos aventureiros que assistiram eu me erguer, de novo e de novo: a lenda de Merratoni—o Curandeiro Masoquista—não era um exagero.
Os aventureiros sabiam quem Brod era (o lendário Furacão, ex-ranque S), e a forma como eu me arrastava, exausto, para continuar enfrentando-o era igual a de um zumbi perseguindo carne viva com determinação insana.
E assim nasceu mais um apelido: o Zumbi Vivo. Mas ainda levaria um tempo até eu descobrir isso.
— Tá planejando tirar uma soneca? Levanta antes que eu arranque esse braço.
— Tô pronto... pra qualquer coisa! — gemi entre as dores.
— Oh, então temos um durão aqui, é? Impressionante que ainda consegue falar tanta besteira. Beleza, agora vou pegar pesado!
— Gaaaaah!
Não me surpreenderia se Brod fosse capaz de enfrentar sozinho toda a força de combate da Igreja. De certa forma, era como se eu estivesse de volta à Guilda dos Aventureiros de Merratoni. Me sentia em casa e genuinamente feliz por ter pessoas ao meu redor que se preocupavam comigo.
Tradução: Carpeado
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