Seija Musou | The Great Cleric Vol 02
– Arco 3: Uma Pedra Melhor Deixada Intacta –
Capítulo 8 [O Labirinto das Provações]



Quando acordei, minha saúde e magia estavam completamente recuperadas. Eu estava imensamente grato ao papa por aquele travesseiro.

Levantei-me e me espreguicei, rapidamente percebendo que algo no quarto havia mudado. Especificamente, agora havia uma porta gigantesca, bem maior do que a que eu havia entrado. Algo nela era estranhamente reconfortante, como se emitisse uma aura pura e sagrada.

— É como se... estivesse me chamando. Como se estivesse ecoando algo dentro de mim.

Coloquei minha mão contra a porta, e imediatamente ela começou a sugar minha magia.

— Ah, qual é! Eu estava tendo um momento aqui!

Minha mão não se mexia. A porta começou a brilhar enquanto drenava minha energia.

— Me solta! Espera, o que está acontecendo?

Um padrão luminoso começou a se formar em sua superfície. Mas eu estava perigosamente perto de ficar sem magia. Quando essa coisa ia me soltar?!

No exato momento em que minha energia estava prestes a acabar, a porta parou. Todo o seu corpo brilhou intensamente e então se abriu.

— Não quero zicar, mas é bom que não tenha um ‘chefão final do final’. Não que eu tenha muita escolha...

Sem mais opções, entrei, bebendo mais uma poção. Não demorou muito para que eu chegasse a uma pequena escada. Mas, na metade do caminho, senti algo — algo ruim. Todos os alarmes na minha mente dispararam, cada instinto meu gritava para eu não descer mais. Senti um arrepio percorrer todo o meu corpo, meus joelhos ficaram fracos.

Abaixei-me para espiar o que havia lá embaixo. Meu instinto me mandava voltar, mas eu sabia que não havia nada para mim daquele lado. Eu tinha que continuar. Forcei meus olhos e olhei para o 51º andar.

— Você só pode estar brincando.

Havia um dragão morto-vivo.

Neste mundo, os dragões tinham diferentes categorias, alguns inferiores, outros superiores. Esse era do segundo tipo. Dragões inferiores tinham asas, mas eram mais pesados e geralmente não podiam voar. Já dragões como esse eram mais esguios e podiam alçar voo com facilidade. Também existiam os wyverns, que não conseguiam usar ataques de sopro.

Mas esse não era o momento para uma aula de biologia.

— Eu não acredito que essas coisas realmente existem. Como diabos eu vou derrotar um dragão?!

Metade da criatura era de um preto profundo, como se tivesse sido carbonizada, enquanto a outra metade brilhava com um branco quase místico.

— Um curandeiro tem que derrotar essa coisa? Ok, ele é um morto-vivo, mas... espera, ele é um morto-vivo. E só está aí, parado.

Observei alguns detalhes. Um: ele não ia me atacar de tão longe. Dois: dragões eram inteligentes e, supostamente, podiam falar. Três: talvez o Círculo de Santuário pudesse “desvirar” mortos-vivos. Essa última era uma aposta arriscada, mas valia a pena tentar. Afinal, minha única outra opção era morrer ali.

O que aconteceu com aquela história de viver uma vida pacífica? Como eu fui parar no subsolo enfrentando dragões? Memórias e promessas não cumpridas passaram pela minha cabeça.

— Eu não vou morrer aqui. Eu não posso.

Preparei um círculo mágico grande o suficiente para envolver toda a criatura enquanto tomava uma poção de ação extremamente rápida, amplificando-a ainda mais com minha própria energia. Assim que terminei de traçar um anel de runas bem sólido, fiz uma prece silenciosa e lancei o Círculo de Santuário.

— Ó sagrada mão da cura. Ó sopro criador da terra. Pegue minha energia e me proteja com muralhas de luz angelical. Engula toda impureza em uma fortaleza de radiância. Círculo de Santuário!

Uma luz sagrada irrompeu em direção ao teto, e o dragão finalmente se moveu. Ele se contorceu e tentou escapar em vão, mas o círculo não o soltava.

Então, o enorme pilar de luz foi sugado para dentro da criatura.

— Não me diga que ele... absorveu isso.

O dragão rugiu com força enquanto uma violenta explosão de luz emanava de seu corpo. Logo depois, ele caiu no chão com um estrondo que fez tudo tremer.

Ou talvez não. Falei cedo demais.

— Isso significa que... eu derrotei ele?

A criatura ainda emitia um brilho pálido enquanto eu me aproximava, mas aquela imensa sensação de perigo que eu sentia antes tinha desaparecido. Na verdade, meus instintos agora pareciam me empurrar em sua direção.

Assim que cheguei perto o suficiente para tocá-lo, o brilho diminuiu de repente, e eu vi sua enorme mandíbula se abrir diante de mim.

Pronto. Acabou pra mim. Não tinha como escapar.

Fechei os olhos e esperei pela morte.

Mas a dor nunca veio.

Lentamente, abri os olhos novamente e encarei o dragão. Ele não tinha me devorado. E, caramba, ele era incrível de perto. A parte antes enegrecida de seu corpo agora estava tão branca quanto o restante.

Ele manteve meu olhar e disse, com uma voz profunda:

— Com um único ataque, você me derrotou. Muito bem. Você conquistou sua recompensa. Pois este labirinto é um de provações. Passe por aquele círculo arcano e será abençoado. Não vejo ninguém mais digno do que um covarde como você. Mas fique avisado, você não poderá retornar. Pegue tudo o que conseguir carregar.

Finalmente, olhei ao redor da sala. Estava repleta de dinheiro, armas, armaduras, itens mágicos e todo tipo de bugigangas valiosas. Ainda assim, eu meio que havia trapaceado na luta. Será que ele não estava bravo por eu ter vencido assim?

— C-Como eu sei que isso não é um truque? — gaguejei. — Ninguém consegue decidir se o seu tipo é divino ou apenas um monstro.

— Acalme-se. A maldade deste andar foi erradicada. Pegue a joia mágica desta sala e o labirinto deixará de existir, mas a decisão é sua. Esse é o seu direito como vencedor.

Não tinha como ignorar que havia um dragão morto-vivo bem na minha frente, mas percebi que o fedor horrível do labirinto havia sumido. Se eu pudesse confiar nele, talvez conseguisse algumas respostas.

— Então... que lugar é esse? Para que serve esse labirinto? Não pode ser normal ter um dragão selado no porão.

— Nós, dragões, os Eternos, passamos por um ciclo de morte e renascimento a cada milênio. No entanto, buscando impedir isso, uma divindade do puro mal, o mestre de todos os demônios, nos caçou e nos selou em locais densos em energia mágica. Assim nasceu este labirinto.

Uma “divindade do mal” parecia coisa demais para um simples curandeiro lidar.

— Isso não é trabalho para um herói? — Falei, mas percebi tarde demais que ser sarcástico com um dragão talvez não fosse a melhor ideia.

— Infelizmente, nenhum veio em nosso auxílio. Pela maldição do Vil, fomos condenados ao isolamento e à morte-viva.

O papa mencionou que o herói perdeu seus poderes depois de lutar contra os demônios. Mas espera... se eu estava aqui e o herói não...

Tive um mau pressentimento.

— Espera aí, eu sou só um curandeiro. Nem paladino eu sou.

— Um novo herói nascerá em cerca de quarenta anos. Antes desse tempo, meus irmãos devem ser libertos de nossa maldição. Eu te imploro.

O que diabos ele queria que eu fizesse a respeito? Certamente havia um limite para expectativas tão insanas. O que aconteceria se eu simplesmente recusasse?

— Certo, deixando isso de lado por um momento, o que aconteceria se seus irmãos não fossem libertos?

— A escuridão reivindicará a essência mágica dessas terras, fortalecendo assim os demônios. A luta do herói contra o novo Lorde Demônio só piorará.

Ah, beleza, isso estava muito acima do meu nível de pagamento. Ir para outro labirinto e fazer tudo de novo? Não, nem pensar. Dane-se.

— Hm, desculpa, mas eu já estou com as mãos cheias só tentando sobreviver. Seu povo vai precisar encontrar outro salvador, porque eu conheço meus limites, e isso tá muito além deles.

A sala tremeu quando o dragão riu.

— Não é sempre que um fraco, como você mesmo se descreveu, derrota um dragão. Você me intriga. Concederei minha proteção a você.

Os últimos anos da minha vida foram só um prólogo? O que era isso, um videogame? Sério, isso tudo estava um pouco demais.

— Não, valeu; pode ficar com ela.

— Você é um humano estranho. Como é chamado? Quero saber o nome daquele que triunfou sobre mim.

— Luciel. E eu falei sério. Não quero nada do que você está oferecendo. Sou apenas um curandeiro local tentando seguir meu caminho. As únicas pessoas que posso proteger sou eu mesmo e aqueles com quem me importo.

Esse mundo não era meu para salvar. Essa não era minha história. Aventuras eram para heróis e altruístas.

— Saiba que minha proteção o tornará mais forte.

Agora ele estava falando a minha língua.

— Perfeito. Eu aceito. A única maneira que planejo bater as botas é deitado na cama, meio gagá.

A criatura gargalhou.

— Você continua me fascinando. Ainda assim, rezo para que encontre em si mesmo o desejo de resgatar meus irmãos.

— Não posso prometer nada. Eu não sou o protagonista aqui. Honestamente, só estou tropeçando por aí. Não sirvo pra isso.

— Eu sei. Mas o tempo está acabando. Meus restos não se deteriorarão tão cedo. O que restou de mim é seu, Luciel. Agora vá com minha bênção.

— Aceito com prazer.

— O poder dos demônios cresce. Estenda sua mão àqueles que precisam. Salve todos que puder.

— Eu vou. Vou sobreviver.

— Cumpri minha promessa — disse ele suavemente. — Fjil...na... Adeus...

O dragão desapareceu, libertando-se de seu selo para renascer... Eu presumi. Junto com os pedaços de seu corpo que ficaram para trás, um pedestal surgiu de repente. Sobre ele repousava uma joia gigantesca.

— Isso deve ser...

Tinha que ser o núcleo do labirinto de que o papa havia falado. Removê-lo faria a masmorra desaparecer, então deixei onde estava por enquanto. Claro, destruir o labirinto era algo positivo, mas eu não queria estar por perto para ver o que aconteceria se eu ainda estivesse dentro quando isso ocorresse.

Reuni o tesouro do dragão. Essa sala aparentemente era uma viagem sem volta, então fiquei feliz por ter minha bolsa mágica para guardar tudo. E eu achando que a Senhora Sorte tinha me abandonado... Até encontrei mais duas bolsas mágicas dentro de um baú.

Depois de limpar a sala, voltei minha atenção para os restos da criatura.

— Me pergunto que tipo de dragão ele era antes de se tornar um morto-vivo.

Guardei suas escamas (incluindo a lendária invertida), presas e ossos (tanto normais quanto em decomposição) na bolsa.

Quando achei que já tinha pego tudo, uma lança e um colar surgiram em um clarão de luz. Ao segurar a lança, senti como se ela fizesse parte de algo maior, de um corpo de algum tipo, e no colar havia uma esfera azul incrustada. Também havia vários outros espaços vazios que pareciam feitos para conter esferas adicionais.

Por fim, um círculo mágico brilhou intensamente no centro da sala.

— Não gosto das implicações desse colar. As coisas saíram muito dos trilhos para um simples curandeiro, mas pelo menos agora posso ir para casa... eu acho.

O quanto disso era seguro contar para alguém além do papa? Provavelmente não muita coisa. Como seria fácil se esse labirinto tivesse sido apenas uma ilusão de treinamento, como eu esperava no início?

Respirei fundo e então entrei no círculo brilhante. A luz se intensificou. Então, um som soou em minha cabeça.

Título Obtido: Bênção do Curandeiro Divino
Título Obtido: Proteção do Dragão Sagrado
Título Obtido: Matador de Dragões
Título Obtido: Aquele que Libertou o Selo

Um juramento foi feito. Agora você conhece a localização dos dragões aprisionados.

Quando a luz se dissipou, percebi que estava de volta à entrada do labirinto.

— Sinto que fui passado para trás. Nada santo da parte do Dragão Sagrado, se querem saber minha opinião.

Meu estômago roncou.

— Ah, é, esqueci que não como há tipo... meio dia. Quer saber? Estou com fome demais para ficar irritado. Tô indo embora.

Minha longa, longa jornada finalmente havia chegado ao fim. Pela primeira vez em meses, saí do labirinto.


Tradução: Carpeado
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