Seija Musou | The Great Cleric Vol 02
– Arco 3: Uma Pedra Melhor Deixada Intacta –
Capítulo 5 [Desastre na Cidade Santa]
As pessoas não crescem tão facilmente quanto nas histórias. A vida real não tem um arco de treinamento que leva alguém do ponto A ao ponto B como se fosse algo predestinado. Protagonistas lutam, se esforçam ao máximo, enfrentam suas fraquezas, desafiam a sociedade. E então, com um pouco de sorte, superam as dificuldades e crescem. Eles ficam mais fortes, vencem batalhas que perderam no passado, e a história segue em frente.
Mas isso aqui não era ficção.
Um mês depois de descobrir a verdade sobre a Substância X, eu já havia concluído a exploração dos andares trinta e um ao quarenta. Eu estava orgulhoso do meu ritmo. Mas não tinha nenhuma grande história de sucesso para contar, nenhuma aventura de tirar o fôlego digna de um protagonista. O que estou fazendo de errado? me perguntei. Eu tinha sorte, sorte monstruosa até, mas talvez Monsieur Sorte não funcionasse exatamente como aquela sorte absurda dos protagonistas das histórias que eu lia.
Por exemplo, a experiência que ganhei ao mapear cada andar me levou a desenvolver uma habilidade que me permitia visualizar mapas mentalmente. E não foi só isso. A maior ameaça naquele labirinto, as armadilhas, sempre eram ativadas primeiro pelos monstros. Depois de um tempo, parecia até intencional. E o primeiro baú do tesouro que encontrei, depois de já ter começado a duvidar de sua existência, não só estava completamente livre de armadilhas como também continha um grimório avançadíssimo de cura que eu nunca tinha visto em nenhum outro lugar.
Criaturas esqueléticas aterrorizantes, envoltas em mantos negros que evocavam a própria imagem da Morte, não representavam nem um desafio. Eram apenas espectros, mas eu esperava uma luta muito mais difícil. Aposto que eles nunca imaginaram que meu Revestimento de Aura e minha Resistência Espiritual anulariam completamente sua magia negra. Eu quase me senti mal por atacá-los de surpresa quando se aproximaram, achando que seus feitiços tinham funcionado em mim. A Substância X me tornara imune às suas ilusões e controle mental, então sua magia simplesmente se despedaçava e sumia ao me envolver.
A maneira como cada uma dessas criaturas sorria de forma presunçosa ao pensar que tinha vencido me dava arrepios e me fazia sentir pena das pessoas imaginárias que supostamente morreram em suas mãos. Gostava de imaginar que, ao desaparecerem em uma nuvem de fumaça púrpura, gritavam: “O quê?! Impossível!” em total descrença.
Normalmente, eu estaria empolgado por ter ficado tão forte depois de limpar dez andares inteiros em apenas um mês. Mas eu já tinha uma ideia do que seria o quarto chefe, e isso me deixava mais preocupado do que satisfeito. Se o papa realmente construiu esse lugar, esse seria o clímax do cenário que ela criou— a primeira expedição. Eu estava prestes a encontrar os capitães paladino e templário que haviam derrotado o chefe original do quarto andar.
— Sinto que vou ser dilacerado se simplesmente entrar lá, então talvez eu passe na Guilda dos Aventureiros primeiro. Ver se consigo alguma informação.
Eu não conseguia me livrar daquela sensação ruim, então deixei o próximo chefe para outro dia.
— Bem-vindo de volta. — Esperando por mim assim que saí do labirinto, estava o sorriso caloroso de Cattleya de sempre.
Depois de descobrir a chocante verdade sobre a Substância X, senti a necessidade de contar para ela os detalhes do que me levou a bebê-la em primeiro lugar.
— Isso soa horrível. Ainda bem que os boatos que espalharam sobre você não foram piores.
E com essa frase um tanto ominosa, nosso diálogo voltou ao normal.
— Finalmente cheguei ao quadragésimo andar — falei.
— Você nunca para de me surpreender, Luciel. Que tipo de monstros tem lá?
— Espectros, cavaleiros da morte, múmias, necrófagos... Nada agradável, na verdade.
— Pergunta... Alguém já te disse que você não tem um pingo de bom senso?
— Hã, sim. Lumina me disse isso uns quinze minutos depois de me conhecer em Merratoni, na verdade. — Isso me trouxe uma certa nostalgia. Tirando, é claro, o olhar fulminante que ela me lançou na época. Isso eu poderia ter dispensado.
— Isso não me surpreende nem um pouco — comentou Cattleya. — Eu sei que você já enfrentou espectros superiores, mas wraiths superam até mesmo monstros de rank A em nível de perigo.
— Eu sei, mas magia negra não tem efeito nenhum sobre mim. Minha magia de suporte e resistências garantem isso. Além disso, acho que sou mais resistente do que imagino. — Claro, eu tinha uma certa substância a agradecer por isso.
— Por causa... daquilo?
— Sim. Me deu muito trabalho nos últimos anos, mas sou grato por isso.
— “Trabalho” é um jeito bem brando de colocar as coisas.
— Bem — ri —, acho que vou dar um pulo na Guilda dos Aventureiros para variar um pouco.
— Ah, antes que eu esqueça, as Valquírias voltaram rapidamente, mas só para fazer um relatório. Depois foram mandadas de volta.
— Hã, sou só eu ou parece que o regimento da Lumina é o único que está tão ocupado assim?
— Não, não é só você, mas não vai demorar muito agora. — Ela sorriu de forma ameaçadora e fria. — Uma ferida precisa ser desinfetada antes de cicatrizar. Lembre-se disso, Luciel, e me avise se algo acontecer.
— S-Sim, senhora! — gaguejei.
A intensidade esmagadora de Cattleya me lembrou de Brod quando Bottaculli invadiu o salão da guilda. Saí para a Guilda dos Aventureiros suando frio.
Senti um puxão na minha túnica justo quando estava prestes a entrar no prédio.
— Hm? — Virei-me, mas não vi nada. — Devo ter imaginado.
Tentei abrir a porta de novo quando finalmente percebi uma pequena garota fera segurando a barra da minha túnica.
— Pode me soltar, por favor? Precisa de alguma coisa?
A menina assentiu repetidamente, lágrimas brotando em seus olhos. Ela soltou minha túnica, e eu me abaixei para ficar na altura dela. Enquanto tentava pensar no que fazer, percebi que estar sozinho com uma garotinha podia ser um problema sério para minha já danificada reputação. Levar ela até os funcionários da guilda parecia a opção mais sensata.
— Então, você precisa de ajuda? Que tal entrarmos na guilda primeiro, tudo bem?
A garotinha de olhos marejados hesitou, mas então assentiu de novo. Eu esperava que fosse apenas uma criança perdida.
— Bem-vindo à Guilda dos Aventureiros, Santo Esquisitão! — duas vozes gritaram assim que entramos. — Estávamos esperando por você, Senhor Luciel!
— O quê?! Nanaella? Monica? O que vocês duas estão fazendo aqui?

Eu não podia acreditar nos meus olhos. Esperei tanto tempo para ter notícias delas, apenas para ser recebido com um silêncio ensurdecedor... e agora, lá estavam elas. Bem na minha frente. Talvez tivessem vindo me contar pessoalmente sobre seus casamentos. Afinal, já fazia vários meses desde que ouvi falar dos noivados.
Eu já estava me preparando para a notícia quando um grupo de aventureiros surgiu do nada e me arrastou para o andar de baixo.
— Ei, esperem! — gritei. — Eu não tenho tempo para isso agora!
Minhas súplicas foram completamente ignoradas. Nanaella e Monica eram uma coisa. Elas entenderiam. Mas eu não queria assustar a garotinha que trouxe comigo.
Assim que entrei, os aventureiros que estavam no salão começaram a comemorar.
— O Santo Estranho chegou, pessoal!
— Estamos salvos!
— Não era o Zumbi Masoquista Curandeiro?
— Cala a boca, idiota! Esse nome é proibido! Ele é o Santo Estranho, ou melhor, Santo Sir Estranho, o Cavaleiro, para você.
— Atenção, pessoal! A ajuda chegou!
— Por aqui, Santo Estranho! Depressa!
— Tragam os feridos da cidade!
— Se alguém incomodar o Santo, eu rebaixo seu maldito posto agora mesmo. Todo mundo entendeu?! — Até o mestre da guilda se juntou à gritaria. Meu timing não poderia ter sido melhor.
Assim que meus captores finalmente me soltaram, verifiquei se a garota fera ainda estava comigo e então chamei a atenção de Grantz.
— Nossa, hoje tem muitos feridos. Mas antes de mais nada, encontrei essa garotinha pedindo ajuda na frente da guilda. Pode ver o que ela quer?
— Já falei pra entrar na maldita fila! — ele rosnou para os aventureiros. — O quê? Ah, a garota. Crianças não são minha especialidade. Milty, cuida da garota do nariz afiado ali.
— Claro — Milty respondeu. — Santo Estranho, por favor, comece com aquele grupo ali. Eles precisam de cuidados urgentes.
— Entendido.
Com a cabeça ainda girando por causa do caos, comecei a administrar os tratamentos. Três Cura Suprema em Área, alguns Curar, Recuperar e Dispersar, e trinta minutos depois, finalmente terminei. Engoli uma poção amarga para afastar o cansaço e quase me esqueci de Nanaella e Monica enquanto me concentrava em recuperar minha magia. Mas antes de conversar com elas, precisava resolver o que realmente me trouxe aqui.
— Com licença, Mestre da Guilda, eu gostaria de aprender mais sobre monstros mortos-vivos. Poderia investigar isso para mim?
— Ratos de biblioteca! — ele gritou. — Abram os livros! O Santo Estranho não escapa hoje!
Os aventureiros responderam com um grito entusiasmado.
— Eu vou fazer o quê agora?
Os pacientes recém-curados correram escada acima, deixando apenas eu, o pessoal da guilda e a garotinha fera, que agora segurava as mãos de Nanaella e Monica, que se juntaram a nós em algum momento.
— Desculpe, Santo Estranho, mas poderia acompanhar a garota de volta aos cortiços? Rápido — disse Milty.
— Hã... rápido? Tem alguma urgência?
— Sim, tem.
— Desculpem, Nanaella, Monica. Parece que vamos ter que conversar depois.
— Ah, nós vamos com você — declarou Nanaella.
— Vamos logo — acrescentou Monica.
Desde quando ficaram tão determinadas? Eu sabia que não obteria uma resposta real se perguntasse, então apenas guardei meus pensamentos.
— Tem algum aventureiro que possa vir ajudar a proteger as meninas, Mestre da Guilda? — perguntei.
— Eu mesmo vou escoltar vocês.
Você não se tornava um mestre de guilda sem ser um aventureiro de renome. Com ele como guarda, poderíamos ficar tranquilos.
— Ótimo, isso seria de grande ajuda. Nanaella, a Cidade Sagrada é ainda mais dura com os ferais do que Merratoni. Tome cuidado.
— Eu sei.
Aventureiros feridos, Nanaella e Monica, e uma garotinha fera perdida. As coisas estavam ficando complicadas. Mas mantive a calma e nós cinco partimos para os cortiços. Nenhum de nós fazia ideia do que encontraríamos ao chegar.
Eu nunca tinha saído das ruas principais da Cidade Sagrada, então isso era uma experiência nova para mim. Ao entrarmos nos cortiços, passamos de uma rua para outra, e era quase inacreditável como as coisas foram de impecáveis para decadentes tão rapidamente.
Então, perdi o fôlego.
Poças de sangue manchavam o caminho como uma praga. Seguimos em frente, empurrando a multidão enquanto eu preparava um encantamento. Quantas pessoas tinham se ferido para derramar tanto sangue? Quantas vidas estavam em perigo? Quantas já haviam sido perdidas?
Passando pela multidão, havia um homem-fera de pé na frente de um grupo de outros, como se os estivesse protegendo. Todos estavam ensanguentados. Ele parecia congelado, como se tivesse desmaiado em pé. Me aproximei e preparei um Cura Suprema em Área.
— Cuidado!
Reagi tarde demais. A faca afundou na minha lateral. Ele me pegou completamente desprevenido. Pode me chamar de maluco, mas eu não esperava ser esfaqueado por alguém inconsciente enquanto tentava curá-lo e seu povo. Doía pra caramba, mas pelo menos ele não atingiu nenhum órgão vital. Ainda assim, Nanaella, Monica e a garotinha que precisava da minha ajuda estavam atrás de mim. Agora era a hora de ser forte.
— Tá, isso dói — gemi. — Nossa, isso dói. Quer saber? Todo mundo vai ser curado!
Descobri que era bem difícil "ser forte" com uma faca enfiada na lateral. Arranquei a lâmina, lágrimas nos olhos, e lancei Cura Suprema em Área. Assim, os ferais ao nosso redor também não ficariam em perigo. Mas eu já tinha drenado minha magia na guilda, e isso me levou ao meu limite absoluto.
— Luciel! — Nanaella gritou. — Você está bem?!
— Ele acabou de te esfaquear?! — Monica berrou.
— Parece que ele estava inconsciente, então vamos dizer que eu deixei essa passar — brinquei.
Eu estava feliz que elas estavam preocupadas comigo, mas também meio irritado. Mas gritar com a pessoa que acabei de salvar não seria uma boa ideia. Nem reclamar na frente de uma criança. Respirei fundo.
— Me desculpe, Santo Estranho — Grantz disse. — O cara passou direto por mim.
— Tudo bem, faz tempo que você não está no campo. E você não poderia sentir as intenções dele enquanto ele estava inconsciente. Eu mesmo não senti.
Quase me esqueci de que o mestre da guilda deveria estar nos protegendo. Pelo seu porte, parecia ser mais um brutamontes do que um lutador veloz.
Tomei outra poção, lancei Purificação em mim e nos ferais ensanguentados para nos limpar, e então joguei um Recuperar rápido para remover possíveis efeitos negativos, só para garantir.
Suspirei.
— Certo, ninguém mais corre risco de vida agora. Precisamos levar essas pessoas para um lugar seguro. Acho que a Guilda dos Aventureiros seria o melhor lugar.
— Boa ideia. Qualquer um com as mãos livres, levem esses feridos para a Guilda dos Aventureiros!
Aventureiros próximos e ferais que ainda conseguiam andar começaram a carregar os feridos sob as ordens de Grantz. A garotinha acompanhava o homem que me esfaqueou. Seu pai, talvez.
De repente, me vi cercado por moradores locais que se prostravam diante de mim.
— Hã... vocês precisam de alguma coisa?
— Por favor — um deles implorou —, nos salve.
Para eles, provavelmente parecia que eu tinha curado todo mundo ali apenas por bondade, sem esperar nada em troca. Mas eu poderia me meter em problemas se ficasse oferecendo ajuda de graça por aí.
— Eu não sou um salvador. Só curo ferimentos, alivio dores de estômago, curo venenos, esse tipo de coisa — expliquei.
— Você vai curar essas pessoas de graça? — Nanaella perguntou.
— Eu não acho que seja uma boa ideia, Luciel — Monica alertou.
— Não, não de graça. Que tal fazermos um acordo?
Ninguém receberia tratamento sem antes concordar com algumas condições.
*
Sem que Luciel soubesse, já que estava ocupado demais com a situação, o Mestre da guilda havia designado vários outros aventureiros para escoltá-los enquanto entravam nos becos da cidade. E a cena que acabara de acontecer diante deles mexeu com seus sentimentos.
— Vocês viram isso? Aquele cara esfaqueou o Santo Estranho! Ele ficou puto, mas mesmo assim curou todo mundo!
— Qualquer curandeiro normal teria morrido ou desmaiado.
— Isso se conseguissem lançar feitiços depois disso.
— Nem tentariam. Como se fossem se dar ao trabalho de curar gente das tribos ferais.
— Mas deve ter doído. Vocês ouviram? Ele mesmo disse.
— Esse cara é um maldito zumbi, de verdade. Nada para ele.
— Cara, a gente teria se ferrado se ele tivesse morrido aqui, né?
— Com certeza. Nem sei contar quantos de nós ele já salvou. Aquelas pessoas das tribos ferais teriam morrido sem ele.
— Provavelmente. A gente esquece porque ele é jovem, mas aquela armadura significa que ele deve ser alguém importante na Igreja. Ouvi dizer que ele tem conexões com as Valquírias também.
— Pode ter sido algum grupo de supremacistas humanos que tentou linchar aquele povo.
— Melhor ficarmos de olho ou ele pode acabar se metendo em encrenca.
— Vamos manter os ouvidos atentos.
Enquanto isso, Luciel continuava tratando os moradores dos becos, completamente alheio às conversas que aconteciam ao seu redor.
*
Nanaella, Monica e eu estávamos sentados em um café perto da Guilda dos Aventureiros, um lugar de onde eu costumava comprar suprimentos, aproveitando um descanso depois de tanta cura.
— Me desculpem por vocês terem vindo até aqui só para acabar envolvidos nessa bagunça.
— Não se preocupa com isso. Esse é o seu jeito — disse Nanaella, tentando me confortar.
— Sinceramente, eu queria que você se preocupasse mais consigo mesmo — Monica me repreendeu. — Quando vi aquela faca em você… eu quase surtei.
Fiquei aliviado ao perceber que, para elas, eu não parecia ter mudado tanto com o passar do tempo. Nós ainda podíamos conversar como antes. Mas, por trás do sorriso de Monica, eu sabia que ela ainda estava preocupada. Enquanto eu tratava os feridos nos becos, ela não tirava os olhos de mim e perguntava o tempo todo como eu estava. Podia contar nos dedos quem, nesta cidade, se preocupava comigo desse jeito. O fato de Nanaella e Monica terem vindo me ver parecia uma pequena bênção dos deuses, um empurrãozinho do Senhor da Sorte para me dar coragem antes da batalha contra o chefe do quadragésimo andar.
— Desculpa por fazer vocês se preocuparem. Para falar a verdade, eu nunca imaginei que algo assim fosse acontecer comigo, mas vou tomar mais cuidado de agora em diante.
— Não estamos cobrando desculpas, né, Monica?
— Nope. Só deixa a gente se preocupar com você.
Bom, pelo menos elas não estavam bravas comigo.
— Desculpem a demora. — A garçonete chegou com as bebidas, e aproveitei para mudar de assunto.
— O que vocês duas estão fazendo aqui, afinal? Imagino que não seja fácil para a guilda ficar sem duas de suas recepcionistas.
— Pois é. Só imagina o caos que vai ser depois dos casamentos.
— Queríamos visitar enquanto ainda tínhamos tempo.
Senti meu estômago afundar ao ouvir a palavra “casamentos”. Mas espera… se elas estavam preocupadas com a guilda ficando ocupada, isso significava que não eram elas as noivas? Eu precisava ter certeza.
— Então… quem são as sortudas?
As duas se entreolharam, e então Nanaella respondeu:
— Melina e Mernell.
— Mandamos cartas para você, Luciel. Você não leu nenhuma?
Fiquei tenso.
— O quê?! Vocês mandaram cartas para mim? Eu não recebi nenhuma resposta das que enviei, então já estava pensando em desistir. Achei que estava incomodando.
— Espera, você nos mandou cartas?! Eu não vi nenhuma! — Monica exclamou, chocada.
— Nem eu.
Que diabos estava acontecendo? Nenhuma das nossas cartas tinha chegado ao destino?
— Tenho escrito para o Mestre regularmente, contando como as coisas estão indo.
— Ah, lembro que o Brod ficou especialmente feliz uma vez — Nanaella recordou. — Acho que ele recebeu uma carta, mas nada além disso.
— O Grantz, o mestre da guilda daqui, deveria estar enviando as cartas para a Guilda dos Aventureiros de Merratoni.
— E nós endereçamos as nossas para a Guilda dos Aventureiros da Cidade Sagrada, já que a Igreja não aceita correspondência.
Provavelmente para evitar vazamento de informações.
— Então estão pegando nosso dinheiro para enviar as cartas e você não recebeu nada?
— Nada. Acho que isso é um problema para resolver com a guilda — resmunguei. — Bom, pelo menos agora estamos juntos, então vamos colocar o papo em dia.
Não podia contar a elas sobre o labirinto ou meu trabalho, mas falei sobre como Brod teria ficado orgulhoso de eu estar mantendo meu treinamento em dia, como comecei a praticar equitação e sobre a origem do meu novo apelido — Santo Estranho. Elas, por sua vez, me contaram sobre tudo o que havia acontecido em Merratoni desde que parti.
Depois do almoço, levei-as para conhecer algumas ruas e lojas que eu conhecia. Nosso tempo juntos foi curto, mas precioso.
*
No fim, o culpado pelo sumiço das cartas era o próprio mestre da guilda. Como eu aparecia pouco na guilda e, quando pedia para enviarem uma carta, isso sempre virava uma festa, ele simplesmente esquecia de fazer o pedido. E nas raras ocasiões em que lembrava, o fã-clube de Nanaella e Monica se recusava a aceitar o trabalho.
Vários aventureiros estavam envolvidos nesse crime, e como punição, a vice-mestre da guilda Milty os obrigaria a tomar uma caneca de Substância X.
Nanaella e Monica ficariam na cidade por três noites, então decidi que passaria o máximo de tempo possível com elas. No entanto, como sempre, meus planos não saíram como esperado, e elas me incentivaram a continuar aceitando pedidos da guilda. Assim, acabei gastando os dias curando aventureiros no campo de treinamento e purificando latrinas nos becos para combater uma praga local.
As pessoas dos cortiços recuaram ao ver minha túnica branca, mas a presença de Nanaella e Monica ajudou a acalmá-las. Eu estava apenas cumprindo minha parte do acordo, limpando suas casas e tratando os doentes, mas ainda assim havia aqueles que insistiam em me endeusar. Isso não podia ser minha responsabilidade para sempre, então eu precisava deixar isso bem claro.
— Por favor, não esperem que eu continue fazendo isso, pessoal — anunciei. — Isso foi um serviço público pontual, então espero que essa limpeza ajude vocês a se protegerem contra a epidemia. Mas se não manterem tudo higienizado, nada disso terá efeito a longo prazo.
Uma coisa que aprendi no tempo que passei nos cortiços foi que a comunidade era ativa e disposta a trabalhar. Se todos se unissem, poderiam quebrar o ciclo que os mantinha presos naquela situação.
— Uma gentileza gera outra, que gera outra, e assim a corrente continua. Eu acredito que é assim que criamos um mundo melhor. E é por isso que quero que vocês trabalhem juntos para tornar seu lar um lugar melhor e mais limpo. Eu sei que vocês conseguem.
O tempo que passei com as garotas durante a visita delas não teve nada de especialmente único ou memorável. Nós apenas trabalhamos. Foi só isso. Eu sabia que não era certo elas se esforçarem tanto durante as férias, mas, mesmo assim, pareciam estar se divertindo.
Na próxima vez, no entanto, eu tinha que garantir que elas aproveitassem. Dessa vez, eu faria direito.
***
Depois de terminar meu trabalho no salão da guilda em um dia qualquer, fui chamado para a sala de Grantz.
— Hã, vocês podem, por favor, sair do chão? Eu juro que estou completamente bem agora. E, sinceramente, preferia não ter mais rumores ridículos circulando sobre mim.
Um grupo de pessoas-besta estava ajoelhado diante de mim, com a cabeça pressionada contra o chão, e, meu Deus, aquilo era constrangedor. Eu preferia lutar contra mortos-vivos a passar por essa cena. Suspirei fundo.
— Estou simplesmente envergonhado além das palavras por ter causado mal a um curandeiro tão nobre e respeitável. Nem mesmo minha vida seria suficiente para reparar esse erro.
— É, não, eu não quero isso. E, francamente, você não devia jogá-la fora logo depois de tê-la recuperado — respondi secamente. — E, ahm, o que foi que vocês disseram que eram mesmo? Representantes de Yenice?
— Sim. Você é generoso demais.
A cidade-estado independente de Yenice era única por sua ausência de discriminação explícita e era governada por representantes de diversas raças de pessoas-besta, eleitos a cada dois anos. Esses representantes estavam em uma situação delicada porque não tinham sido atacados por monstros, mas sim por outras pessoas.
— Só para ter certeza absoluta, vocês não sabem nada sobre quem os atacou ou por quê?
— Não. Viemos apenas para solicitar a criação de uma Guilda de Curandeiros em nosso país.
— Vocês são diplomatas estrangeiros e ninguém foi enviado para recebê-los? — Os agressores quase certamente eram supremacistas humanos. Ou um grupo que tinha algo a ganhar mantendo Yenice sem curandeiros.
— Recebemos uma oferta, mas não queríamos chamar atenção para nossa chegada, então recusamos — explicou o representante. — Nosso único objetivo era conseguir uma audiência com o papa.
— Entendo.
Decidi deixar os assuntos de Yenice para Yenice. Havia, com certeza, contextos históricos complicados por trás disso tudo, e não era meu lugar me envolver em política estrangeira.
— Onde exatamente vocês foram atacados?
— Um bando de criminosos nos emboscou logo do lado de fora dos muros da cidade. Eram bem organizados e disciplinados. Um único movimento errado poderia ter sido o nosso fim.
— Disciplinados, hein? Isso me cheira a conspiração — resmungou o mestre da guilda.
— Eu sou apenas um curandeiro, então não há muito que eu possa fazer a respeito. Mas estou impressionado que vocês tenham conseguido sair dessa.
— Sim, tivemos muita sorte. Só conseguimos escapar graças à chegada de alguns aventureiros e a um ataque oportuno de um bando de monstros voadores.
Isso explicava o número de aventureiros feridos ultimamente. Não havia muito que eu pudesse fazer para combater inimigos aéreos além de curar suas vítimas, mas, felizmente, a situação parecia estar se acalmando.
— E quanto à audiência? Tiveram sucesso?
— Concluímos nossas negociações recentemente. Com segurança, desta vez.
Já haviam terminado? Então, por que eu estava aqui? Para ouvir um pedido de desculpas no lugar de Grantz, como um bode expiatório?
Lancei um olhar de soslaio para o mestre da guilda. Nanaella e Monica partiriam amanhã, e eu estava preso aqui bancando o diplomata. Melhor prevenir do que remediar, suponho.
— Só para garantir, recomendo que vocês sejam extremamente cuidadosos no caminho de volta. Talvez contratar alguns guarda-costas até cruzarem a fronteira. Vocês podem ser atacados novamente ou, pior, podem inventar alguma desculpa e acusá-los de serem bandidos.
— Você acha mesmo que isso pode acontecer? — perguntou o homem-besta, apreensivo.
Na verdade, eu não achava que fosse tão sério assim, mas era melhor preveni-los. Sua segurança não era garantida.
— Talvez seja melhor ficarem aqui na guilda por um tempo e pedirem para um aventureiro levar as notícias adiante.
— Faz sentido. Se nossas negociações forem formalizadas, qualquer mal-intencionado perderia a motivação para nos atacar.
Eles também estavam acompanhados de uma garotinha, então cautela era mais do que necessária.
— Se o orçamento permitir, peçam para o mestre da guilda escolher os melhores e mais confiáveis aventureiros como guarda-costas.
— Você realmente acha que tudo isso é necessário?
— Sim, acho — respondi com firmeza. — Tenho muitos amigos entre os povo-besta, pessoas a quem devo muito. Eu não gostaria que eles, ou vocês, fossem vítimas do racismo neste país. Ouvi dizer que ele corre profundamente, até mesmo dentro da Igreja.
— Isso é... triste de se ouvir. Obrigado pelo conselho.
— De nada. Se puder cuidar do resto, Mestre da Guilda, tenho coisas para fazer agora.
— Sem problema — respondeu Grantz. — Valeu pela força, parceiro.
— E obrigado por todas as informações sobre os mortos-vivos. Talvez eu não possa voltar tão cedo, então tome cuidado. Até a próxima, pessoal.
Ao me virar para sair, vi a pequena loba muda que me havia parado em frente à guilda. Sheila era seu nome, e ela havia perdido as cordas vocais em um acidente há muito tempo. Ela me envolveu em um abraço apertado. Algo sobre mim e os lobos parecia simplesmente combinar.
— Você é uma heroína, Sheila. Você salvou todo mundo — disse a ela. — Mantenha a cabeça erguida e nunca deixe que o destino decida quem você é.
Tentei lançar um feitiço de cura nela, em vão, já sabendo que aquilo estava além das minhas capacidades. Então, deixei a sala do mestre da guilda.
***
Desci as escadas e encontrei Nanaella e Monica cercadas por aventureiros locais.
— Elas estão comigo — declarei alto, com uma voz tão profunda que até eu mesmo me surpreendi. — Algum problema?
— Aí está ele — disse um dos aventureiros. — Então, qual das duas é sua garota? Deve ser uma delas, né? Afinal, vieram até aqui só por você.
— Digo, não pode ser as duas. Duas recepcionistas lindas de Merratoni? Por favor, me diga que não são as duas! — implorou um deles.
— Tem que ser por dinheiro. Ou talvez pela aparência? Cara, como diabos ele é tão popular com esses apelidos que tem?!
Ignorando a grosseria do último comentário, ao menos eles não estavam incomodando diretamente as garotas. Mas agora Nanaella e Monica não paravam de me encarar.
— Elas são importantes para mim. São a razão de eu estar onde estou hoje — declarei. — Sem elas, eu não teria conseguido passar pelo treinamento do Mestre Brod nem continuado a beber a Substância X.
— Espera, ele acabou de dizer "Brod"? O Furacão?
— Tá de sacanagem! O mestre dele é um matador de dragões?!
— Então elas são o motivo de ele conseguir beber aquele lixo, hein? É, não temos a menor chance.
— Nem me pagando eu beberia esse troço. Vocês encontraram um bom homem, moças.
Todos começaram a sorrir para as duas. Por quê? Eu não fazia ideia (nunca fazia), mas estavam se divertindo, então qual era o problema?
Mais tarde, o mestre da guilda me ofereceu um jantar como pedido de desculpas pelo incidente com as cartas, que acabou virando um verdadeiro banquete. Quando a animação atingiu seu auge, a Substância X começou a circular, derrubando um por um e deixando o ambiente tranquilo o suficiente para que as garotas e eu pudéssemos conversar sozinhos.
— Desculpem, pessoal. Isso está meio agitado para umas férias, né?
— Por favor, nem diga isso. Ouvimos tudo sobre o quanto você tem trabalhado com o mestre da guilda e os aventureiros — disse Nanaella.
— Nana tem razão. Fique orgulhoso por ter conquistado o respeito de tanta gente. Isso não é fácil para um curandeiro, como você bem sabe — completou Monica.
Fui tomado por uma alegria nostálgica. Elas sempre me animavam assim em Merratoni. Foi o que me sustentou durante o treinamento do Brod.
— Estou muito feliz por vocês terem vindo.
— E nós estamos felizes por ver que você está bem.
— Só tente não fazer muitos inimigos na Igreja. Os boatos que ouvi quando trabalhava na Guilda dos Curandeiros nunca foram bons.
Provavelmente já era tarde demais para isso, mas me sentia revigorado agora. Como se pudesse encarar todo o labirinto.
— Estou fazendo tudo o que posso para poder voltar para Merratoni um dia. Eu prometo.
Conversamos mais um pouco antes de eu escoltá-las até a pousada e voltar para a sede.
***
Na manhã seguinte, fui me despedir das garotas.
— Obrigado por terem vindo. Foi ótimo ver vocês de novo. Da próxima vez, serei eu quem vai visitar.
Os poucos dias que passaram aqui já deviam ter sido bem difíceis para a guilda de Merratoni. Não imaginava que teriam tempo para outra visita tão cedo. Quanto a mim, tinha a sensação de que minha descida ao labirinto estava prestes a ficar muito mais intensa. Precisaria de muito treinamento, tanto físico quanto mágico, se quisesse sobreviver.
— Não se sobrecarregue demais — insistiu Nanaella.
— Escute ela. E não se preocupe, vamos garantir que suas cartas cheguem até você de agora em diante.
— Vou pressionar o mestre da guilda daqui. Ah, mas só para avisar, o trabalho pode ficar bem agitado em breve, então talvez eu não consiga escrever com tanta frequência. Vou guardar as histórias para quando nos vermos.
— Estaremos esperando — responderam juntas.
Senti meus lábios se curvarem em um sorriso. Eu não podia agradecê-las o suficiente.
— Avisem ao Mestre que continuo firme no treinamento e que ainda pretendo acertá-lo pelo menos uma vez.
— Sou só eu ou você parece mais maduro ultimamente? — comentou Nanaella.
— Você acha? Vou tomar isso como um elogio.
— Mas isso não é desculpa para assumir mais do que pode aguentar, entendeu?
— Claro. Não se preocupem, já me cansei de ser esfaqueado.
Observei a carruagem se afastar da cidade, rumo a Merratoni. Milty organizou um grupo de aventureiras de rank B para escoltá-las, e agradeci por isso.
Depois que a carruagem desapareceu de vista, fui reunir suprimentos para minha próxima estadia no labirinto. Os dias daquele lugar estavam contados.
É claro que, sem precisar dizer, fiz questão de estocar um pouco mais da Substância X.
***
Após uma refeição no refeitório da sede, segui para o labirinto. Cattleya já estava no balcão quando cheguei.
— Oh, só está descendo agora?
— Sim. E tenho me sentido como se estivesse sempre pisando em ovos por aqui, então estava pensando em morar lá por, digamos, meio ano ou algo assim.
— Você deve ser um idiota se acha que vou deixar você fazer isso — retrucou ela.
— Já imaginava. Mas desde que ajudei a limpar os cortiços, comecei a chamar mais atenção do que gostaria. Onde quer que eu vá, tenho essa sensação de ansiedade. Preciso ficar mais forte, ou vou acabar sendo atacado na melhor das hipóteses, assassinado na pior.
— Posso conversar com Sua Santidade, se quiser.
— Por favor, faça isso. Que mundo triste esse em que basta ser gentil para ser odiado.
— Um mundo triste, de fato.
— Bom, de qualquer forma, estou indo. Vou tomar cuidado.
— Volte em segurança.
Abri as portas e entrei no meu campo de treinamento.
***
Dois meses se passaram desde a visita de Nanaella e Monica, e eu havia feito um progresso significativo nos preparativos contra o quarto chefe. Mas ainda assim, não conseguia evitar o arrepio ao pensar em realmente enfrentá-lo.
No momento, eu estava cavalgando Forêt Noire, o único cavalo que me permitia montar nele, para tentar distrair minha mente.
— O que estou fazendo, com medo do desconhecido, como se estivesse à beira da morte ou algo assim?
— O desconhecido te assusta?
— Hã? Forêt? Você acabou de falar?
— Sempre tão lerdo, Luciel.
Reconheci a voz e me virei.
— Oh, senhorita Lumina. Voltou da missão?
— De fato, mas não por muito tempo. Logo partiremos para a fronteira de Illumasia. E acho que já lhe disse que o "senhorita" era desnecessário quando nos conhecemos.
O que trouxe essa mudança?
— Ah, certo. Hm... — hesitei. — Parece que vocês têm uma vida difícil.
— Assim é o meu dever. Mas e você, Luciel? O que te preocupa?
Lumina sabia sobre o labirinto, então talvez fosse seguro desabafar um pouco com ela.
— É a câmara principal do quadragésimo andar. Estou esperando um cavaleiro extremamente poderoso lá, e não sei se tenho a menor chance contra ele.
— Você é um sujeito cauteloso, Luciel, mas não acho que isso seja necessariamente um defeito. O labirinto merece respeito. Ele tira vidas. Mas se a incerteza é seu problema, o que acha de um duelo de treinamento?
— Você faria isso por mim? Mas está prestes a partir de novo.
— Me conceda esse momento. Estou curiosa para ver o que aprendeu durante seu ano na Igreja.
— Então vou aceitar a oferta.
Levei Forêt de volta aos estábulos, não esquecendo de agradecer ao meu parceiro, e retornei para enfrentar o desafio de Lumina.
— Não vou me segurar, Lumina. Quero ver o seu melhor.
— Grandes palavras. Mostre-me que pode sustentá-las!
— A lâmina de Lumina estava sobre mim num instante. Canalizei magia na minha espada e escudo, fortaleci meu corpo além dos limites normais e bloqueei o golpe com tudo o que tinha. O som do metal contra metal mal tinha chegado aos meus ouvidos quando vi o segundo ataque vindo. Lancei meu escudo contra ela e invoquei um segundo.
Ela era mais rápida do que eu em todos os aspectos. Um confronto direto nunca daria certo. Minha única esperança era ser esperto.
Joguei minha espada e, logo em seguida, uma adaga. Lumina gritou surpresa, hesitando o suficiente para me salvar. Ainda bem. Truques baratos eram tudo o que eu tinha à disposição, e se ela continuasse me pressionando, eu teria perdido na hora.
Eu estava impressionado com a habilidade dela, surpreso por ter me forçado a usar o Fortalecimento Físico de forma tão defensiva. Lumina era incrível.
— Estou impressionada, Luciel. Você é ainda mais forte do que eu esperava.
— Digo o mesmo. Achei que estava diminuindo a diferença entre nós, mas nem mesmo o Fortalecimento Físico foi suficiente para igualar sua velocidade. Eu estava ficando um pouco convencido demais. — Ainda assim, ela parecia mais lenta do que Brod.
— Então essa é a técnica que você estava usando — ela comentou. — Quero que tome a iniciativa desta vez. Venha, me ataque.
Eu tinha um mau pressentimento sobre isso, mas não tinha escolha.
— Se você insiste.
Avancei com uma sequência de ataques, usando o Fortalecimento Físico ao máximo, mas nenhum deles sequer chegou perto de acertá-la. Ela foi me corrigindo conforme lutávamos.
— Você entrega suas fintas com os olhos.
— Seus golpes são muito lineares e fáceis de aparar.
— Usar o Fortalecimento Físico é inteligente, mas você está perdendo flexibilidade.
Nosso treino logo virou uma verdadeira aula de combate.
— Seu progresso é impressionante — Lumina comentou depois —, especialmente considerando que faz menos de um ano, mas ainda acho que você deve evitar adversários fortes. Pelo menos até ter um controle melhor sobre seu corpo enquanto estiver fortalecido.
Peraí, ela está falando de um jeito mais casual agora? Desde quando isso começou?
— Agradeço o conselho. Tenho trabalhado para melhorar o controle do Fortalecimento Físico, mas agora tenho uma visão mais clara do que preciso aprimorar.
— Eu vejo força em você, Luciel. Continue trabalhando para alcançar seus objetivos.
— Vou continuar. Mas... por que seu jeito de falar mudou?
O rosto dela corou na hora, e ela desviou o olhar.
— Não estou acostumada a falar com autoridade — ela confessou. — Tento manter a postura, mas, bem... como viu, preciso me concentrar nisso.
— Acho que não tem problema relaxar um pouco de vez em quando. Combina com você.
— Vou... lembrar disso. Mas há uma mulher que admiro, uma cavaleira, e é assim que ela se comporta.
— Entendo. Mas se algum dia quiser relaxar e falar naturalmente, estou por aqui.
— Obrigada, eu... talvez faça isso.
— Sempre que quiser.
No dia seguinte, Lumina e suas Valquírias partiram novamente para a fronteira.
Tradução: Carpeado
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