Seija Musou | The Great Cleric Vol 02
– Arco 3: Uma Pedra Melhor Deixada Intacta –
Capítulo 4 [Outra Audiência com a Papisa]



Ao sair do labirinto, Cattleya me chamou:

— Bem-vindo de volta. Por que você está com essa cara acabada? Não, deixa pra lá, estou grata por ver que voltou vivo.

— Por favor, para com isso. Você não devia estar se curvando para mim depois de toda a ajuda que me deu. Isso me dá um nó no estômago de tão errado que parece.

A posição de Cattleya ainda era um completo mistério para mim, e não saber com quem exatamente eu estava falando era surpreendentemente intimidador. No entanto, o fato de que ela podia me levar para audiências com a Papa significava que definitivamente não era uma cidadã comum.

— Oh, é mesmo? — ela sorriu de forma travessa.

— Por que está me olhando assim? Não vai adiantar, então pode converter logo isso em pontos, por favor?

— Puxa, você não tem graça. — Ela pegou meu cartão e transferiu minhas pedras para sua bolsa—uma bolsa mágica de qualidade ainda superior à minha. Era o que ela sempre usava para calcular meus pontos. — Esse foi um grande saque. São 426.549 pontos.

Mais cinco viagens e eu poderia comprar um segundo manto mágico, se quisesse.

— Uau, é verdade. Fico feliz, porque dessa vez eu quase fui pro beleléu. Se não fosse pelo Área Cura Suprema, eu teria ido mesmo.

— Você é tão jovem e já consegue usar Área Cura Suprema? Luciel, tem certeza de que não mentiu para mim sobre sua idade?

Meu coração disparou.

— Er, quero dizer, eu nem conseguia usar Cura quando me registrei aos quinze anos — gaguejei.

— Você anda tomando algum remédio estranho? Ou usando drogas?

Felizmente, ela não estava falando sério. A questão da minha idade era um assunto delicado.

— Por que eu faria isso... Espera! — Não era uma droga, mas a Substância X parecia um suspeito bem provável.

— Acho que temos uma confissão a fazer. — Ela entrelaçou seu braço no meu e se agarrou a mim como um grilhão. — Diante de Sua Santidade, é claro.

Não fiquei abalado, já sabia que Cattleya adorava me provocar desse jeito.

— Por mim, tudo bem — respondi. — Há algumas coisas que quero descobrir por mim mesmo, então ficaria feliz em ver a Papa, se não for incômodo.

— Oh, que ousado hoje. Sentindo-se confiante depois de derrotar o "chefe" do trigésimo andar?

— Nem tanto. Estou querendo saber mais sobre essa Substância X que venho bebendo há dois anos e meio.

Ela parou.

— Isso não foi tão empolgante quanto eu esperava.

— Ei, talvez eu finalmente descubra o mistério.

— Tem algo em você que parece mais determinado que o normal. Você quase morreu hoje, foi? Isso subiu à sua cabeça?

— Finalmente voltamos ao assunto — ri. — Para ser justo, saí totalmente ileso, ainda que por pura sorte. Também tive uma noção real de quão eficaz é a magia sagrada contra os mortos-vivos.

— E se não fosse? — perguntou Cattleya, incisiva.

— Então eu provavelmente teria morrido, ou chegado muito perto disso.

— Luciel, não quero ouvir você falar sobre perder a vida tão casualmente.

— Tem razão. Desculpe, foi apenas uma hipótese.

— Tudo bem. Vamos indo, então? — Enquanto caminhávamos, ela perguntou: — Então, o que você enfrentou dessa vez?

— Três wights e cinco cavaleiros da morte. Quase entrei em pânico quando vi todos eles.

Sem o Reforço Físico, eu teria sido um morto ambulante. Ok, talvez seja um exagero, mas não teria sido bonito.

— Você é tão forte que às vezes esqueço que é um curandeiro — disse ela. — Talvez se todos treinassem como você, veríamos mais curandeiros usando espadas por aí.

— Acho que depende da pessoa. Só sobrevivi dessa vez porque podia usar Área Cura Suprema, e precisei de magia sagrada nível oito para isso. Se eu começar a encontrar dragões mortos-vivos ou dullahans ou outros monstros mortos-vivos do tipo fera lá embaixo, o progresso pode se tornar um problema.

— Acha mesmo? A propósito, dullahans são tecnicamente classificados como espíritos, não mortos-vivos. A magia sagrada não teria o mesmo efeito neles.

— Espíritos?! Tipo fadas? Espero que você não tenha acabado de ativar uma bandeira.

— Uma ‘bandeira’? O que quer dizer?

— Nada, deixa pra lá.

— Você mencionou essa tal de ‘Substância X’ antes. Não sabe o que é?

— Além de ser vendida nas Guildas dos Aventureiros e ser absolutamente nojenta, não. Ah, também dizem que um sábio a criou para aventureiros. Você já ouviu falar?

— Não posso dizer que sim. É famosa?

— Oh, sim. A ponto de beber um gole já ser suficiente para ganhar um apelido, aparentemente — resmunguei.

— Parece uma bebida interessante. Mas chegamos, então continuamos essa conversa depois.

— Certo.

— Sua Santidade — Cattleya chamou através da porta. — É Cattleya.

— Pode entrar — respondeu a voz.

Cattleya me conduziu para dentro, à minha terceira audiência com a Papa.

Nos ajoelhamos e curvamos diante de Sua Santidade.

— Este assunto diz respeito ao mestre do trigésimo andar?

— Sim, Sua Santidade — respondi. — Ele foi derrotado.

— Luciel, seus feitos continuam a me surpreender. Sozinho, você desceu trinta andares. Confesso que não esperava por isso.

— Sinto-me honrado, Sua Santidade. Mas isso só foi possível graças ao equipamento que tão gentilmente me concedeu.

— Oh — ela suspirou, divertida. — Mas não foi só isso, não. Sua energia mágica não é a mesma de quando nos conhecemos. Sinto um vigor aumentado em você.

Ela era vidente, ou tinha algum tipo de habilidade de avaliação? Certamente sabia que eu ainda era nível um, então por que diria isso? A menos que fizesse parte de toda essa farsa do labirinto.

— Sobre isso, Sua Santidade — Cattleya interveio. — Luciel me disse que vem bebendo um líquido criado por um sábio há mais de dois anos. Ele é conhecido como ‘Substância X’.

— Oh?

— Aqui está, Sua Santidade. — Eu invoquei um barril da bebida da minha bolsa.

Cattleya fez uma careta.

— Guarde isso imediatamente! — gritou.

— Er, o quê, é venenoso? Cheira tão mal assim? A tampa estava fechada e tudo mais.

Ah, droga, um pouco vazou. Isso explica tudo.

Eu não podia ver o rosto da Papa, mas não era preciso ser um detetive para saber que ela provavelmente estava com a mesma expressão de nojo e repulsa das suas criadas e de Cattleya. Talvez minha ideia de exibição não tivesse sido das melhores.

Guardei o barril e lancei Purificação. Depois que todos recuperaram o fôlego, continuei.

— Toda Guilda dos Aventureiros tem um aparelho especial, e quando você infunde magia nele, esse líquido sai. Pelo menos é o que dizem. Nunca vi isso pessoalmente.

— Um aparelho especial? — Sua Santidade fez uma pausa. — Seu nome. Como disse que se chama?

— Eles chamam de Substância X. Todo aventureiro novato bebe pelo menos uma vez.

— Eu me lembro desse nome... Uma mistura de várias ervas, coração de dragão, água espiritual, mandrágora recém-colhida, entre outros ingredientes. Era feita para despertar o potencial do consumidor, creio eu. Mas, se bem me lembro, era um comprimido.

Ah, como eu adoraria que fosse um comprimido. Seria muito mais fácil de engolir assim. Mas a Substância X era líquida, por mais que eu desejasse o contrário.

— O inventor, esse sábio, falou sobre uma criação—um aparato mágico capaz de produzir um suprimento perfeito e infinito — explicou ela. — No entanto, por mecanismos desconhecidos, a substância foi liquefeita no processo. E assim foi renomeada. Ou pelo menos deveria ter sido.

Espera aí, esse sábio viveu há mais de um século. A papa estava falando como se tivesse ouvido o cara dizer isso pessoalmente. Talvez sua raça, seja lá qual fosse, tivesse uma longevidade absurda.

Mas se "Substância X" era o nome antigo, qual era o novo?

— Em sua forma de cápsula, o item era conhecido como 'Substância X'. Em sua forma líquida, sua vileza absoluta fez com que até mesmo seu criador a rebatizasse de 'Lamento Divino'.

Sem dúvida, essa coisa era ridiculamente poderosa, mas talvez o motivo de eu ser um dos poucos capazes de engolir algo que até os deuses lamentavam a existência tivesse a ver com o fato de que eu não era desse mundo. De qualquer forma, fiquei aliviado ao saber que não estava bebendo algo ainda pior.

— Bom, acho que devo meus sucessos a esse ‘lamento líquido’, por assim dizer — falei. — E esse nome realmente descreve bem o quão nojento é.

Pelo amor de Deus, só beber essa coisa já era o suficiente para destruir seu paladar e olfato por meia hora. Eu não duvidava que houvesse algum tipo de veneno nos ingredientes, mesmo que não fosse em quantidade suficiente para causar danos.

— Estou bebendo uma caneca disso três vezes ao dia, depois de cada refeição, há dois anos e meio. Tenho que dar crédito a quem merece. Gostaria de experimentar, Vossa Santidade? — Dei um tapinha na minha bolsa mágica. Mesmo que ela não tivesse participado da criação daquilo, o fato de nunca ter provado parecia um pouco injusto.

— Você... realmente bebe isso? — Cattleya perguntou, incrédula.

— Sim. A vida é frágil, e eu queria fazer tudo ao meu alcance para preservá-la, sem deixar nada ao acaso. Eu beberia qualquer coisa num piscar de olhos se isso me tornasse mais forte sem riscos ou consequências... a não ser, claro, os apelidos maldosos e os olhares tristes. — Admitir isso em voz alta me deprimiu um pouco. Mas era a verdade, e nunca deixava de ser doloroso.

— Agora vejo que não foi nenhuma substância que impulsionou seu crescimento, Luciel, mas sim seu próprio esforço e sacrifício.

— Luciel... você realmente é algo — Cattleya comentou, voltando ao tom casual.

Eu notei que todos estavam se esforçando para ignorar minha oferta anterior.

— Hm. Muito bem — disse Vossa Santidade. — Tenho que admitir, acho inaceitável que um sábio seja tão negligente em considerar o sabor de sua criação. — Eu concordava plenamente. — Vamos prosseguir. E as bestas que você derrotou?

— Derrotei três wights e cinco cavaleiros da morte com Cura de Área Suprema, Vossa Santidade.

— De fato? Um grande feito para alguém tão jovem. Vejo um futuro promissor para você. Talvez um dia entre para os arcebispos.

— Obrigado, Vossa Santidade.

— Quero ver os itens que eles deixaram para trás — ordenou.

Entreguei os itens a seus assistentes, e ela os examinou com cuidado, como sempre fazia.

— Estes pertenciam a... aquelas três mulheres... — ouvi ela murmurar. Então sua voz ficou firme, severa, e ela ordenou: — Por hoje é só. Cattleya cuidará de sua recompensa. Desejo-lhe sorte em seus empreendimentos.

Ah, então desta vez ela estava fingindo conhecê-las. Sinistro.

Fui escoltado para fora e segui para o refeitório pela primeira vez em muito tempo.

— Há quanto tempo — cumprimentei a atendente. — Uma porção extra hoje, por favor.

— Ahm — ela hesitou —, com licença, senhor cavaleiro, mas quanto exatamente você gostaria?

Olhei ao redor e abaixei a voz. — Por que você está falando assim? — perguntei, confuso. — Sou eu. Luciel.

Ela congelou e me encarou por um bom tempo. Aos poucos, seu rosto suavizou e se transformou em um sorriso.

— Mas veja só, é mesmo você! Com o cabelo preso e essa armadura, mal te reconheci! Vou trazer seu prato rapidinho, tá bom?

Fiquei observando enquanto ela se movimentava na cozinha e voltava com minha refeição, com um extra de cortesia.

— Aqui está, querido. Coma bastante e descanse!

— Parece delicioso. Vocês fazem um ótimo trabalho.

— Você e seus elogios — ela riu. — Vou repassar para os outros.

— Por favor, faça isso. Obrigado de novo.

Enquanto me sentava, me perguntei: será que trabalhar servindo comida era tão estressante assim? Era um trabalho tão tenso?

Terminei minha refeição rapidamente. — Obrigado, estava ótimo — falei à atendente. — Voltarei amanhã de manhã. Posso pedir um almoço grande para viagem também?

— Claro. Deixarei algo preparado para você amanhã.

— Valeu, agradeço.

Despedi-me e segui para meus aposentos. Ninguém me incomodou enquanto eu andava por aí. Provavelmente assumiram que eu não estaria por perto, e duvidava que alguém fosse tão imprudente a ponto de tentar algo em uma área pública... Nem mesmo aqueles ousados o suficiente para tentar assassinar alguém na sede da Igreja. Especialmente agora que eu estava mais próximo da papa.

Passei um tempo folheando meus grimórios há muito negligenciados e segui minha rotina habitual de treinamento de magia antes de cair na cama.

Na manhã seguinte, depois de um café da manhã reforçado, peguei meu almoço e desci até o labirinto. Era raro ver Cattleya ali tão cedo, mas a encontrei no balcão quando cheguei.

— Bom dia, Luciel. Vossa Santidade pediu para lhe entregar isso — ela disse, um tanto hesitante, enquanto me passava dois pergaminhos.

— O que é isso?

— Tudo o que você precisa saber sobre os efeitos do Lamento Divino, a Substância X.

Notas e descrições preenchiam as páginas.

— Nossa, tem bastante informação aqui. Valeu, vou ler enquanto estiver lá embaixo.

— Trabalhe duro — ela disse. — E ouça, estou sempre por aqui se precisar conversar, tá?

— Ahm, ok? Obrigado.

Por um momento, achei ter visto um lampejo de simpatia em seu rosto, mas podia ter sido só imaginação minha.

Desci até o décimo andar, eliminando monstros no caminho, e aproveitei um momento de descanso para ler as anotações antes de dormir.

Nenhuma preparação teria sido suficiente para o que estava prestes a ler.

*


O que segue é um registro da minha criação: Lamento Divino, também conhecido como Substância X.

Ocupações ligadas à Igreja, incluindo cavaleiros, curandeiros e templários, tendem a resultar na diminuição dos três apetites básicos: sono, fome e desejo sexual. Substância X, ou Lamento Divino (como fui tão lamentavelmente compelido a renomeá-la), foi criada com o único propósito de combater isso, de oferecer a esses indivíduos da Igreja um pouco de equidade e as simples alegrias da vida.

Seus efeitos incluem aumento da fome, maior libido e estimulação do sistema nervoso autônomo. No entanto, existem efeitos colaterais. Um deles é o aumento da resistência a condições anormais. Outro é a intensificação da atividade celular durante o sono, o que facilita o crescimento dos valores de status.

Eu inicialmente pretendia oferecer isso dentro da própria igreja, onde foi inventado, mas seu fedor se tornou alvo de muitas críticas. Não demorou muito para que fosse considerado inadequado para os eclesiásticos, e fui ordenado a me livrar dele.

Mas eu não abandonaria meu trabalho, a própria razão pela qual fui feito um sábio. Então conversei com Cryos, o mestre da Guilda dos Aventureiros, e chegamos a um acordo. A substância seria armazenada nos salões da guilda dos aventureiros.

Rezo para que o Lamento Divino um dia seja o que salvará este mundo. Que um dia, um novato veja o potencial da dor de um deus e beba de sua fúria.

Acredito que meu trabalho será de grande utilidade para as Guildas dos Aventureiros, e agora dedicarei meus esforços à busca de um remédio que a Igreja finalmente aceite.

*


A segunda página era um relatório detalhado sobre as conclusões da pesquisa dos efeitos da Substância X. Ali, estava escrito que a Substância X realmente aumentava os três apetites mencionados anteriormente, mas a verdadeira natureza de seus efeitos estava em converter esses desejos na energia que causava suas propriedades de aprimoramento de habilidades.

No momento em que terminei de ler, tudo fez sentido, incluindo o significado por trás do olhar de pena de Cattleya.

E se... ela achou que eu era impotente?

Tudo se encaixou de uma vez. Meu Deus, será que meu pacote estava com defeito? A terrível verdade era que praticamente todas as mulheres do mundo eram incrivelmente lindas, mas nunca, nem uma única vez, eu tinha ficado nervoso perto delas. Nunca senti calor ou desconforto.

— Não, espera, eu já fiquei nervoso várias vezes! Já tive mulheres que me deixaram sem fôlego! Está tudo bem — me convenci. — É isso! Assim que terminar esse labirinto, vou encontrar o amor!

Lembrei-me de Nanaella e Monica, do fato de que nenhuma delas respondeu às minhas cartas, e caí em uma leve depressão.

No dia seguinte, meu corpo exausto estava transbordando de uma energia estranha. Cheguei direto até o trigésimo andar de uma só vez e finalmente saí da minha bad. No dia seguinte, treinei contra os cavaleiros da morte da sala do chefe entre as explorações do trigésimo primeiro andar.

— Pelo meu futuro!

Não me arrisquei e simplesmente exterminei todo o grupo com Purificação quando as coisas ficaram perigosas. O fato de minha magia ser forte o suficiente para fazer isso com um único golpe era reconfortante. Aos poucos, fui aumentando a intensidade, devagar e sempre.

Meu treinamento no labirinto havia começado.


Tradução: Carpeado
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