Seija Musou | The Great Cleric Vol 02
– Arco 2: O Labirinto e as Valquírias –
Capítulo 01 [O Preço de um Curandeiro]



Cinco dias de viagem de carroça pelo interior se passaram em nossa jornada até o centro da República de Saint Shurule. Finalmente, a Cidade Sagrada de Shurule apareceu no horizonte. Nanaella e o pessoal de Merratoni me disseram que a viagem normalmente levava dois, talvez três dias. A nossa levou o dobro, mas tivemos bons motivos para isso. Logo após nossa partida, Bazan me deu algumas opções.

— Podemos seguir direto cortando caminho por monstros e bandidos e dormir ao relento, ou podemos pegar o caminho mais longo, viajar só de dia e parar em cada vila pelo caminho.

Acho que dá para adivinhar qual foi a minha escolha.

Obviamente, não conseguimos evitar todos os monstros, mas a Equipe Bazan cuidou dos que apareceram antes mesmo que eu tivesse tempo de sentir medo.

Para falar a verdade, eu até esperava conseguir absorver um pouco de experiência ao longo da viagem, mas a boa e velha realidade nunca está do meu lado. E lá estava eu, ainda no nível um. Pelo visto, estar no mesmo lugar onde uma batalha acontece não era o suficiente para ganhar pontos de experiência. Pelo menos, a Linhagem do Lobo Branco me deu bons exemplos de combate ao longo do caminho. Eles se moviam como a água, um redemoinho de cooperação que arrastava cada inimigo para sua própria ruína. Os aventureiros eram incrivelmente coordenados. Fiz uma anotação mental para lembrá-los caso eu precisasse de segurança para minha futura clínica.

Bazan estava certo ao me empurrar para escolher o caminho mais longo. Ter uma cama quente e comida boa era um luxo. As vilas, no entanto, estavam longe de ser como Merratoni. Chamar aquilo de “organizado” seria um exagero. Não havia nenhum posto de cura, nenhuma clínica sequer, então bastava um pouco de magia de cura para garantirmos estadia e alimentação. Eu pegava um quarto na casa do prefeito local, começava a trabalhar, recebia uma enxurrada de gratidão e, de repente, pronto—uma festa começava em minha homenagem.

Essa cena se repetiu em todas as vilas por onde passamos. Se era certo ou não deixá-los nos paparicar, eu não sei dizer, mas pelo menos eu sabia que tinha o poder de ajudar os outros.

Minha política de zero álcool continuava em vigor, e Bazan e sua equipe estavam oficialmente em serviço, então nossos anfitriões compensavam nossa falta de interesse por bebidas com montanhas de comida deliciosa. Lembro do desconforto extremo que senti enquanto os moradores continuavam a se aproximar durante a festa para me agradecer. Alguns pareciam até me reverenciar, mas eu dizia a todos a mesma coisa, com meu melhor sorriso profissional:

— Vocês já me pagaram o suficiente com toda essa comida incrível e uma cama confortável. Considerem isso um pagamento justo.

Ao ouvir isso, eles abaixavam a cabeça e me agradeciam novamente. Bazan e os outros se divertiam me vendo tão sem jeito.

E assim, o ciclo se repetiu em cada vila ao longo do caminho. Eu curava aqueles que precisavam com Magia Sagrada, e em troca, nos davam comida e um lugar para dormir. Graças a isso, nossa viagem foi tranquila e chegamos ao destino sem nenhum problema.

— Essa é a Cidade Sagrada de Saint Shurule? E aquele castelo brilhante é a sede da Guilda dos Curandeiros?

O palácio chamativo e cristalino só piorou minha já péssima impressão da guilda. Eu podia sentir minha ansiedade aumentando conforme me aproximava do meu novo posto.

— Esse mesmo — respondeu Bazan com um olhar sombrio para o prédio. — A sede da Guilda. Administrada pela própria Igreja.

Talvez em algum momento todos tenham convivido pacificamente, mas pelo tom de voz dele, estava claro que, no presente, aventureiros e plebeus compartilhavam do meu receio quanto à organização dos curandeiros.

— Pela própria Igreja... — murmurei. — Sabe, “a República de Saint Shurule, Cidade Sagrada de Saint Shurule” é um baita trava-língua. Por que eles usam tanto “Shurule”?

— Fica quieto, Luciel. Isso é tabu. O governante que fundou o país, o papa, tinha seus motivos. As pessoas não gostam de ignorância por aqui — alertou Sekiros.

Ele devia estar se referindo a Lord Reinstar. Melhor tomar cuidado, ou um simples deslize de linguagem poderia me colocar em apuros. Melhor eu levar esse aviso a sério. Não saber algo que era considerado conhecimento básico em um mundo onde a maioria das pessoas era praticamente analfabeta não era uma boa ideia...

Nos aproximamos do portão, onde um sentinela pediu nossos documentos de entrada. Entreguei a carta que recebi do papa.

— Minhas desculpas pela demora. Se me permitir, eu o acompanharei até a Sede da Igreja no lugar dessas feras, senhor Luciel.

— Não será necessário. Sabemos o caminho — respondi com um sorriso firme. Engole essa, supremacista humano.

Seguimos em frente pela cidade.

— Tem certeza, Luciel? — Bazan perguntou, preocupado.

— Certeza do quê?

— Deixa pra lá.

Eu não tinha sentido tanto essa discriminação racial em Merratoni, mas agora estava frustrado com o quão pouco podia fazer contra isso.

No caminho até a sede, avistei uma visão familiar: uma Guilda dos Aventureiros.

— Ah, estou quase sem Substacia X.

— Ué, você não tinha um barril cheio pra dez dias? Quer reabastecer? — Basura perguntou.

— Acho uma boa ideia. E vocês podem relatar sobre o trabalho. Todo mundo sai ganhando.

— Aham, agora diz o verdadeiro motivo.

— Quero que vocês venham comigo para ninguém mexer comigo.

Ele caiu na risada.

— Você é um cara engraçado, sabia? Vai lá, Bazan, ajuda o pobre coitado.

— Vamos esperar aqui — acrescentou Sekiros.

— Certo — Bazan resmungou.

Seguimos juntos para o prédio da guilda.

— Já esteve nessa filial antes?

— Uma ou duas vezes. O mestre da guilda daqui é meio maluco do jeito dele, então acho que você vai esquecer rapidinho que está na Cidade Sagrada.

— Se a Igreja permitir, vou fazer disso o meu esconderijo.

— Não seria má ideia — ele riu, empurrando as portas.

Independentemente da filial, parecia ser uma regra que todo mundo no salão da Guilda dos Aventureiros parasse o que estava fazendo para encarar qualquer pessoa que entrasse. Bazan não hesitou. Foi direto até a recepcionista—ou melhor, até o refeitório?

Fui atrás dele.

— Parece exatamente igual.

O interior, o layout, praticamente tudo era uma cópia perfeita da guilda de Merratoni.

— O mestre da guilda está por aqui? — Bazan chamou.

— Bem-vindo. Posso anotar seu pedido?

Como se quisesse me contrariar de propósito, uma jovem garçonete nos recebeu de forma agradável, diferentemente de Merratoni. Já passava do meio-dia, mas ainda havia vários aventureiros sentados, comendo.

— Não é o guildmaster que geralmente fica na cozinha?

— Sim, é ele. Posso saber quem são vocês? — perguntou, estreitando os olhos de forma suspeita.

— Bazan, da equipe de rank A, Linhagem do Lobo Branco. Vim apresentar o Luciel ao chefe.

A expressão da mulher suavizou.

— Entendido. Vou chamá-lo, se puderem aguardar um momento.

Depois que ela desapareceu nos fundos, Bazan se virou para mim.

— Não julgue um livro pela capa, Luciel. Essa garçonete aí? Provavelmente daria um pau em mim numa luta.

— Hã? — fiquei boquiaberto. Em um mundo com níveis e atributos, claro, julgar apenas pela aparência não era sensato, mas mais forte que o Bazan? Um rank A? — Vou me esforçar para ficar do lado bom dela.

— Boa ideia.

Bazan deu um sorriso de canto enquanto a garçonete voltava, acompanhada por um homem baixo, idoso e musculoso — a própria imagem de um anão de fantasia.

— Tava me perguntando quem era o idiota. Bom te ver de novo, Bazan.

— Igualmente. Tenho alguém que você deveria conhecer.

— Você? Apresentando um humano? Como é que te chamam, moleque?

— Ah, hum, Luciel — respondi. — Sou um curandeiro.

— Curandeiro? Com esses músculos? — o homem baixote retrucou, desconfiado.

— Sim, senhor.

Senti aqueles familiares e invisíveis punhais cravando-se em mim de todos os cantos do salão.

— Bazan, esse cara é...

— Ele tem alguns apelidos — Bazan explicou. — Se eu te dissesse que ele veio de Merratoni, ajudaria a esclarecer as coisas?

— Eu sabia. Ele é aprendiz do Brod, não é?

Assenti, e os olhos do guildmaster relaxaram, para meu alívio.

— Espero que vocês não tenham me arrastado aqui só pra jogar conversa fora.

— Não foi isso. Luciel, vou até a recepção resolver umas coisas. Faça o que precisa.

— Ah, claro. Valeu pela ajuda.

Bazan saiu ainda com um sorrisinho no rosto.

O guildmaster me olhou com expectativa.

— Então?

— Certo. Deixe-me me apresentar direito. Meu nome é Luciel, aventureiro e curandeiro. Vim estocar um barril de Substância X pura.

O salão inteiro mergulhou em um silêncio mortal. Os olhos que me perfuravam se arregalaram em choque antes de se desviar.

— Hã... você poderia repetir o pedido, por favor? — perguntou a garçonete, se adiantando no lugar do chefe.

— Claro. Quero um barril grande de Substância X pura.

O guildmaster rapidamente foi para os fundos e voltou com uma caneca, batendo-a na mesa.

— Beba.

— Isso é um teste?

— Com certeza. Não vendo essa substância pra quem não aguenta segurar no estômago.

Dava pra ver que alguém poderia fazer mau uso daquilo, então, por mais que quisesse protestar, não discuti. Brod e Gulgar me treinaram bem.

Pra dentro de uma vez...

No meio dos goles, ouvi sussurros ao redor.

— Ele é um maluco.

— A língua dele deve estar quebrada.

— Esse é o Curandeiro Masoquista que todo mundo anda comentando?

— Isso é só uma lenda urbana. E ele deveria estar em Merratoni.

Não estavam sendo nada sutis.

Terminei a caneca e soltei um suspiro satisfeito.

— Pronto. Isso basta?

— Er... sim.

O guildmaster estava tremendo por algum motivo.

— Vou pegar o barril pra você.

— Ah, sempre quis saber... A Substância X é um líquido, então sabe por que chamam de “substância”?

— N-Não faço ideia — gaguejou. — De qualquer forma, tem algo pra encher?

— Tenho um barril pequeno, mas ainda tem um pouco dentro. Você pode fornecer um novo?

— Claro, mas vai te custar tempo e dinheiro. Cerca de uma prata por barril.

— Nesse caso, só peça para reabastecer o que eu tenho por enquanto. E aqui estão três pratas adiantadas por mais alguns.

Peguei um barril de Substância X da minha bolsa mágica.

— Certo... Certo...

O homem musculoso pegou o barril e levou para os fundos.

— Você viu isso? Ele comprou três barris daquela porcaria!

— Ele é um doente.

— Mais pra um demônio.

— Nem demônios chegam perto dessa coisa. O fedor é insuportável!

— Dizem que é o melhor repelente de monstros que existe, mas se desperdiçar muito, acorda com a boca cheia disso.

O que é isso, fogueira de histórias de terror?

— Que tipo de vida alguém tem que levar pra conseguir engolir essa coisa?

— Provavelmente uma bem triste.

Os aventureiros, que à primeira vista pareciam absurdamente fortes e mais bem equipados que os de Merratoni, não se preocupavam nem um pouco em manter a voz baixa. Um olhar errado e eles estariam todos em cima de mim. Eu sabia disso.

Me ajude, Bazan. Estou com medo...

— Aqui está sua... coisa.

O guildmaster voltou com uma expressão azeda.

— Obrigado. Quando acabar, voltarei para pegar mais, se puder deixar os três barris prontos.

— Farei isso.

Guardei o barril recém-preenchido na bolsa e me dirigi à porta. Com cuidado.

— Espere, curandeiro — o guildmaster me chamou. — É verdade o que dizem? Você cura por uma única prata?

Virei-me.

— O pessoal da guilda de Merratoni foi bom comigo. Se me tratarem da mesma forma, posso pensar em retribuir o favor.

Deixei o salão, me reuni com Bazan e saí ileso.

— Este lugar definitivamente não é Merratoni. Parece que todo mundo quer me pegar.

— Você deve isso ao Furacão, sabia? Ele garantiu que ninguém te enchesse o saco. Senão, eles é que iam levar porrada.

— Eu... não fazia ideia.

Parece que todo dia eu descobria algo novo que devia ao meu mestre. Precisava retribuir de alguma forma. Para isso, precisava trabalhar duro e sair dessa cidade o mais rápido possível.

Bazan e seus companheiros me levaram direto à porta da sede da Igreja.

— Pessoal, obrigado por tudo nesses últimos dias — agradeci, fazendo uma reverência.

— Só fizemos nosso trabalho. Como se não fôssemos proteger o cara a quem devemos nossas vidas, né?

Basura olhou para os outros.

— Verdade. Se você não estivesse lá por mim e Sekiros, estaríamos encrencados.

Bazan sorriu ferozmente.

— Basura não faz nada sozinho.

— Isso é verdade — Sekiros concordou. — Você realmente nos salvou.

— Por favor, não foi nada. Mas, honestamente, falar assim só reforça uma coisa pra mim. Vou estar cercado de estranhos aqui. Vai ser solitário.

Parecia o primeiro dia depois de ser transferido para um novo escritório.

— Vamos estar esperando você de volta em Merratoni. Concentre-se em se virar bem por aqui e trabalhe por todos aqueles livros de magia que conseguiu de graça.

— Vou fazer isso. Obrigado de novo.

— Da próxima vez que nos encontrarmos, tomaremos uma juntos.

Esperava sinceramente que sim.

— Ficarei ansioso por isso. É por minha conta.

— Parece ótimo.

— Não vá acabar como Bottaculli, ouviu?

— Pode acreditar, não vou.


Light Novel Seija Musou | The Great Cleric Ilustrações Volume 02

Nos despedimos, e eles partiram de volta para Merratoni.

— Vai ser difícil começar do zero em uma cidade nova.

Mas talvez ainda fosse cedo demais para ficar sentimental.

Certo... Esses grimórios. Como Basura disse, eu os consegui de graça, e provavelmente valiam uma pequena fortuna. Não seriam fáceis de substituir, então precisava tratá-los com cuidado.

Coloquei a mão na minha bolsa mágica e pensei na minha jornada recente. Recebi sete grimórios da Guilda dos Curandeiros de Merratoni. Já tinha folheado todos e memorizado os encantamentos de cada feitiço. Uma vez, enquanto praticava na estrada, Bazan perdeu a paciência e mandou eu parar com o murmúrio constante.

— Você parece um maluco. Se vai ficar falando sozinho, pelo menos fale alto — ele disse.

Na hora, me encolhi um pouco, mas agora conseguia lembrar daquilo com um sorriso. Mesmo assim, um cara parado na frente da sede da Igreja com uma cara estranha não ia causar uma boa impressão, então me recompus e segui em frente.

Será que vou ter a chance de testar esses feitiços novos em breve?

Encantamento de Magia Sagrada, Aura Coat: um véu protetor que isola o usuário da mácula, retarda doenças e protege contra debuffs de status. Nove de MP.

Magia Sagrada de Purificação, Purificação: usada para remover maldições e impurezas. Também é eficiente contra manchas. Dezesseis de MP.

Magia de Cura Avançada, Cura Superior: dez vezes mais eficaz que a Cura padrão, mas custa quinze de MP.

Magia de Cura em Área Intermediária, Cura Média em Área: uma versão aprimorada da Cura em Área padrão, com o mesmo alcance, mas três vezes mais potente. Trinta de MP.

Magia de Cura em Área Avançada, Cura Superior em Área: uma forma ainda mais avançada de Cura em Área, com um raio expandido de três metros, mas ao custo elevado de setenta e cinco de MP.

Magia de Cura de Status, Recuperação: alivia os efeitos de veneno, paralisia, charme, sono, silêncio e enfraquecimento mágico, mas não remove petrificação, ilusões ou doenças. Dezoito de MP.

Magia Sagrada Especial de Recuperação, Dissipar: anula os efeitos de petrificação, maldições e ilusões. Supostamente possui efeitos adicionais. Cinquenta de MP.

Nem a Cura Superior em Área nem o Dissipar eram bem documentados nos textos que li, e meu nível de Magia Sagrada ainda era muito baixo para testá-los. Isso não me impediu de memorizar os encantamentos, claro, então tudo que precisava era ganhar mais experiência com a habilidade. Mas não dava para usá-los de qualquer jeito. Comparados a uma simples Cura, esses feitiços exigiam uma quantidade absurda de magia, e eu esperava, do fundo do coração (seja lá qual deus me ouvisse), que não precisasse lançá-los.

Falando em coisas que eu precisava fazer, no que exatamente consistia trabalhar na sede da Igreja?

— Será que essa é a ignorância que Sekiros me avisou? É normal não saber o que um curandeiro faz na sede? Bom, não adianta me preocupar com isso agora.

Respirei fundo e caminhei em direção ao imenso palácio de vidro branco.

O interior não era tão intimidador quanto a arquitetura sugeria, e todos ali eram humanos, o que, para ser sincero, me deixava menos nervoso do que estar cercado por homens-fera. Cada passo no chão de mármore ecoava pelo enorme salão.

Bem no centro estava meu destino: a recepção. Ambas as recepcionistas se levantaram ao me ver.

— Bem-vindo à sede da Guilda dos Curandeiros — disse uma delas quando me aproximei. — Como podemos ajudá-lo?

— Oi, meu nome é Luciel. Eu era um curandeiro da filial de Merratoni, mas fui transferido para cá por ordem do papa. Posso falar com seu superior?

— Um momento, por favor.

A recepcionista sentou-se novamente, pegou uma bola de cristal e fechou os olhos. Já tinha ouvido falar bastante desses itens mágicos, mas nunca tinha visto um em Merratoni. Enquanto minha curiosidade crescia, a recepcionista começou a falar com o objeto.

— Talvez seja algum tipo de item de suporte que permite comunicação telepática — murmurei para mim mesmo.

— Isso mesmo. Você é bem informado, senhor — disse a outra recepcionista, que me ouviu.

— Ah, não — respondi, me recuperando da surpresa. — Não sei nada sobre como funciona. Só vi algo parecido na Guilda dos Aventureiros.

— Uma... Guilda dos Aventureiros?

É, sem surpresa aí. Aventureiros e curandeiros não se misturam, né?

A recepcionista com a bola de cristal finalmente se virou para mim.

— Senhor Granhart está à sua espera.

Virei-me e vi um homem imponente, do tamanho de um aventureiro, vestindo um manto branco esvoaçante, vindo direto na minha direção. Parecia ter uns quarenta anos. Mas como ele apareceu atrás de mim? A única coisa naquela direção era a porta da frente. Será que estava lá fora?

— Você é o curandeiro chamado Luciel? — ele perguntou. — Sou Granhart, um sacerdote desta igreja e a pessoa que o convocou. Me siga.

Sem me dar tempo para responder, ele caminhou até a parede atrás da recepção e colocou a mão sobre ela. Por um instante, me perguntei o que ele poderia estar fazendo, então a pedra se abriu, revelando um mecanismo que parecia algum tipo de elevador.

— Entre.

Fiz o que ele mandou. Pela primeira vez em dois anos, senti aquele frio familiar no estômago enquanto subíamos.

— Como isso funciona? Nunca andei em um desses antes — perguntei animado. Melhor agir como uma criança curiosa do que um completo ignorante.

— Este é um elevador mágico. O usuário controla sua velocidade e direção com sua própria energia mágica.

— Uau! Um elevador mágico? Não vi nenhuma outra porta lá embaixo. Esse é o único caminho?

— Sim. O edifício foi construído assim especificamente para evitar que plebeus e intrusos entrem e saiam como bem entenderem.

— Nossa, interessante.

Algo me dizia que isso também servia para evitar que as pessoas saíssem... Pensei, sentindo crescer minha vontade de voltar para Merratoni.

O elevador parou. Granhart saiu primeiro e continuou andando pelo corredor sem me esperar. Não fiquei parado para ver se ele me deixaria para trás.

O corredor era largo o suficiente para acomodar cinco pessoas lado a lado, e embora a decoração não fosse excessivamente extravagante, as paredes e o chão brilhavam com um luxo que nem a Guilda dos Aventureiros nem a Guilda dos Curandeiros de Merratoni jamais poderiam igualar.

— Oh? Você é aquele a quem guiei até a Guilda dos Curandeiros de Merratoni, não é? Creio que seu nome era... Louise?

Ouvi uma voz feminina me chamar (erroneamente). Ao me virar, vi um rosto familiar.

— Faz tempo, Senhorita Lumina. Nunca tive a chance de agradecer por aquilo.

— Eu não fiz nada que merecesse agradecimento. Diga-me, Louise, como você tem passado?

— Ela tinha esquecido completamente meu nome. Não podia culpá-la, considerando que nos encontramos brevemente há muito tempo. Notei que ela estava em armadura completa.

— Acho que uma reintrodução está em ordem. Meu nome é Luciel. E devo dizer, estou impressionado que tenha me reconhecido. Todos dizem que eu cresci bastante.

— De fato, Luciel, mas eu jamais esqueceria um fluxo mágico tão vibrante.

Fluxo mágico? O que é isso agora? Alguma habilidade dela? Ou ela é tipo… eletromagnética?

— Bem, me sinto lisonjeado por você se lembrar de mim.

— Tenho algo que gostaria de discutir com você, mas sei que acabou de chegar. Passe nos meus aposentos quando puder.

— Desde que não se importe com a minha intromissão.

— De jeito nenhum. Perdoe-me pela interrupção, Granhart.

— Você tem esse direito como capitã das Valquírias. Não há nada a perdoar — Granhart respondeu com um leve hesitação.

— Muito bem. Por favor, peça para alguém escoltá-lo até mim quando terminarem.

A expressão do sacerdote endureceu.

— Como desejar.

— Estarei esperando, Luciel.

E com isso, ela se foi.

Granhart e eu caminhamos em silêncio absoluto até chegarmos a um cômodo que não tinha nada a ver com uma igreja. Era notavelmente mais escuro do que qualquer outro lugar onde estive até agora, com chicotes e serras de propósito desconhecido espalhados pelo ambiente. Não era difícil adivinhar que se tratava de uma sala de tortura. Também sabia que Lumina provavelmente tinha salvado minha pele—Granhart não poderia tentar nada se ela estava esperando por mim. O que eu não entendia era por que ele me trouxe aqui em primeiro lugar. As maquinações de Bottaculli me vieram à mente. Mas eu não chegaria a lugar nenhum sem respostas, então juntei a pouca coragem que tinha e forcei as palavras para fora.

— Este lugar parece uma câmara de tortura. Posso perguntar por que me trouxe aqui? — Não fiz questão de esconder meu desagrado.

— Isso é apenas um depósito — ele respondeu rapidamente, como se já esperasse a pergunta. — Estamos apenas pegando um atalho.

A sala seguinte parecia ter saído direto de um seriado... Daqueles onde investigadores interrogam suspeitos. Dado meu encontro com a senhorita Lumina, senti-me seguro o suficiente para segui-lo.

— Sente-se — ele ordenou. Sentou-se na cadeira oposta e puxou uma carta. — Recebi isso da Guilda dos Curandeiros da filial de Merratoni e seu conteúdo me surpreendeu. Aparentemente, você tem prejudicado os lucros de outras pessoas com sua cura, incluindo a própria guilda de Merratoni. Pelo menos, é o que está escrito aqui, mas o que eu quero saber é a verdade.

A verdade, hein? Agora entendi. Talvez eu consiga sair vivo dessa.

Fechei os olhos. Dois anos atrás, eu era um homem de negócios. Dois anos atrás, eu estava à beira de uma grande promoção. Sabia exatamente como virar uma negociação a meu favor e conhecia as últimas coisas que qualquer empresário queria ouvir. Tudo que eu precisava era encontrar as palavras certas.

Abri os olhos.

— Você já leu a verdade.

— Você admite seu crime? — ele perguntou, arregalando os olhos.

— Meu crime? Há dois anos, tornei-me curandeiro. Depois disso, entrei para a Guilda dos Aventureiros e usei minha cura como pagamento em troca de treinamento. Isso constitui um crime?

— Creio que não.

— Na época, eu só conseguia usar Cura, mas eles me deram comida, uma cama, até roupas e um salário. Isso constitui um crime?

— Não, não constitui.

— Durante todo o primeiro ano, foi assim. No segundo ano, fui oficialmente contratado pela guilda como curandeiro designado. Aprendi novos feitiços e minha habilidade em Magia Sagrada aumentou consideravelmente. Quebrei alguma regra até aqui?

— Não, você... agiu como um curandeiro deve agir.

Eu estava conseguindo.

— Eles me trataram bem no primeiro ano e ainda melhor no segundo. Sou imensamente grato à Guilda dos Aventureiros por isso.

— Você mostrou seu ponto. Agora entendo que o problema não está na sua conduta. No entanto, a questão dos seus preços—o quão pouco você cobra—ainda permanece.

— Granhart, senhor, o que acha do estado atual das coisas? Pessoalmente, não vejo problema em ser recompensado por usar magia para curar as pessoas. É justo que sejamos pagos pelo nosso trabalho.

— Naturalmente. Curar é uma profissão.

— Não vou perguntar quem enviou essa carta, mas ouvi rumores sobre uma certa clínica em Merratoni. Uma clínica que usa Cura Superior para ferimentos que precisariam apenas de uma Cura Média ou menos. Eles cobram taxas exorbitantes depois e, quando os pacientes não podem pagar, os jogam na escravidão por dívida. Você não acha isso deplorável? Esse não é o verdadeiro problema aqui? Não seria mais fácil para curandeiros e pacientes se os preços fossem mais transparentes? É uma solução tão óbvia que me pergunto o que a Guilda dos Curandeiros está realmente fazendo.

— Você tem coragem de falar assim com a Igreja!

— Por favor, não mude de assunto. Não quero ofender; estou realmente perguntando o que o senhor acha. Minha ignorância, minha falta de compreensão sobre como um curandeiro deve se comportar, não é culpa da falta de liderança da guilda?

— Você está questionando o papel da guilda?

— Exatamente. Li que, quando foi fundada, curandeiros e pacientes eram nobres e benevolentes, e os curandeiros não eram remunerados com dinheiro, mas sim com presentes dados em gratidão pelos seus serviços. Mas as coisas mudam com o tempo, e essa profissão não é exceção. Mais uma vez, não acho que o problema seja os curandeiros serem pagos em dinheiro.

Granhart cruzou os braços e fechou os olhos.

— Continue.

— Indo direto ao ponto, a questão é: quanto vale a magia? Um cobre? Uma prata? Ouro? Platina? As pessoas não atribuem o mesmo valor ao dinheiro. Isso varia de pessoa para pessoa. E sem a guilda estabelecendo diretrizes, cabe a indivíduos com diferentes visões sobre preços e diferentes habilidades comerciais decidir isso. Está me acompanhando até aqui? — Essencialmente, eu estava sugerindo que, sem um sistema, os preços poderiam ser qualquer coisa.

— Você está sugerindo que deveríamos aplicar uma faixa de preços para diferentes tipos de magia?

— Não exatamente. Uma única Cura feita por alguém que acabou de aprendê-la e uma Cura feita por um veterano não têm o mesmo valor. O veterano, compreensivelmente, cobraria mais por um resultado melhor.

— Não entendo exatamente o que você está querendo dizer. Seja conciso.

— Estou dizendo que a raiz do problema levantado nessa carta são as regras ambíguas da guilda sobre preços.

— Entendi.

— Um curandeiro precisa avaliar a gravidade do ferimento e informar o custo do tratamento de antemão. Exceto, é claro, em casos de emergência em que isso não seja possível.

— Naturalmente.

— Curandeiros trabalham sob a Igreja de Saint Shurule. Eles pagam suas contribuições, recebem permissão para praticar Magia Sagrada e então saem para exercer sua função. O sindicato facilita isso vendendo grimórios, mas eles fazem isso por lucro? Claro que não, certo?

— Obviamente. Os fundos são usados para beneficiar os jovens curandeiros e cobrir despesas.

— Então você entende aonde quero chegar? Se o sindicato estabelecesse diretrizes para a precificação, os pacientes saberiam exatamente com o que estariam lidando de antemão, e a cura voltaria a ser uma profissão honesta e respeitada.

Especialmente considerando que o conceito de seguro não existia neste mundo.

— Vejo seu ponto de vista, mas isso não passa de uma opinião.

Ok, senhor teimosia.

— Certo, deixe-me dar um exemplo. Digamos que você vá comer em um lugar que não lista os preços. Com base na quantidade que pediu, na qualidade e no custo dos ingredientes, você estima que valha cerca de dez cobres, mas quando a conta chega, cobram dez moedas de ouro. O que você faria?

— Eu apresentaria uma reclamação, naturalmente.

— E se eles lhe dissessem que usam apenas os ingredientes da mais alta qualidade e ameaçassem vendê-lo como escravo se você não pudesse pagar sua dívida imediatamente? Se lhe faltasse uma única moeda, você seria escravizado. Como isso te faria sentir?

— Nojo. O que lhes dá o...

— Exatamente — interrompi. — O que lhes dá esse direito? Toda essa situação poderia ser evitada se você apenas soubesse os preços de antemão. Isso vale para qualquer estabelecimento comercial.

Granhart permaneceu em silêncio, então continuei:

— Com todo respeito, acho que essa é a realidade das clínicas hoje. Consigo contar nos dedos os lugares que mostram seus preços antes de fornecer tratamento.

— Explique-me como essa ‘precificação transparente’ mudaria as coisas.

Desta vez, seu tom não foi acusatório, mas de genuína curiosidade. Senti uma abertura em sua postura, como se ele realmente considerasse minhas palavras.

— Se as pessoas soubessem exatamente quanto custaria o tratamento com antecedência, acho que mais delas começariam a procurar as clínicas.

— E qual é a sua base para essa afirmação?

— Da maneira como as coisas estão, ir a uma clínica é como apostar. Você nunca sabe o tamanho da dívida que pode acabar contraindo, ou o que acontecerá se não puder pagar, e simplesmente não querem correr esse risco. Mas se soubessem exatamente quanto seriam cobradas...

— Se sentiriam mais seguras e, portanto, mais inclinadas a ir?

— Exatamente. Além disso, alguns curandeiros usam magia de nível mais alto para casos que não precisam dela, apenas para inflacionar os preços. Por isso, acho que o tipo de feitiço a ser usado também deveria ser informado previamente.

— Você certamente pensou bem sobre isso.

— Estou apenas trabalhando com essa ideia de transparência com base no que vi. Ninguém se endivida porque quer. E acho que nem preciso dizer que ninguém quer ser escravizado.

— Pode haver algum mérito no seu ponto de vista.

Fiquei grato por vê-lo considerar minhas ideias. Agora, eu precisava selar o acordo com uma anedota.

— Quando eu estava curando no Sindicato dos Aventureiros antes de vir para cá, recebia cerca de cinquenta pacientes por dia, em média. Acho que a razão disso era que eles sabiam exatamente quanto iriam pagar: uma moeda de prata.

— Então você fala por experiência própria.

Ele se recostou na cadeira, ainda de braços cruzados.

— Admito, você é um curandeiro admirável.

— Há outra coisa que está na minha mente, se não se importar que eu pergunte.

— Não me importo.

— Tanto a Igreja quanto o Sindicato dos Curandeiros sobrevivem com as contribuições e a venda de grimórios, certo?

— Isso e doações, sim.

Isso me fez parar por um momento. A ideia cheirava a suborno e propina. Eu não queria tirar conclusões precipitadas ou duvidar de tudo, mas com uma organização tão corrupta, era difícil não ser cético. Seria menos problemático se as doações fossem feitas publicamente, embora isso ainda não impedisse acordos de bastidores.

Pensei um pouco antes de falar sério:

— Pelo que ouvi, em outros países é legal escravizar pessoas por suas dívidas. Agora, digamos, hipoteticamente, que houvesse uma clínica corrupta com conexões com escravistas desses países. Eles poderiam cobrar preços exorbitantes, vender seus pacientes e lucrar enormemente com isso. Esse tipo de negociação seria uma vergonha para a Igreja de Saint Shurule.

— Hm, você diz que há mais do que aparenta. Mas certamente isso não é apenas conjectura. Você tem provas?

— Infelizmente, não.

— Então não passa de especulação.

— É mais do que isso. Há coisas acontecendo que a sede não vê, mas as pessoas e os aventureiros sim. Os curandeiros são odiados por um motivo.

Ok, talvez eu tenha ido um pouco longe, mas não disse nenhuma mentira.

— Entendo. Vou discutir isso com meus colegas sacerdotes e com os arcebispos — Granhart cedeu, visivelmente exausto.

— Obrigado por me ouvir. E agora, o que devo fazer? Imagino que não possa voltar para Merratoni tão cedo.

Poucas chances.

— Você imagina corretamente. Por ora, chamarei alguém para levá-lo aos aposentos de Lumina.

Com Granhart parecendo esgotado, saímos da sala juntos e encontramos um atendente esperando no corredor. Após lançar um olhar breve de preocupação para o rosto abatido do sacerdote, o guia me acompanhou até o quarto de Lumina.


Tradução: Carpeado
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