Rakuin no Monshou Volume 01 — O Dragão Ruge para a Estrela do Crepúsculo — Capítulo 08 [Epílogo]
Havia muita incerteza.
As fortes emoções que surgiam não pertenciam ao Orba de agora.
Esse não era o caminho que ele imaginara seguir, mas, se havia algo a ser conquistado após tanto vagar, para alguém que fora manipulado dessa forma, não seria o meio de buscar vingança com as próprias mãos?
Eu...
— Você não pode empunhar a espada para seus próprios propósitos sem odiar alguém?
Com esses sentimentos em seu coração, vestido com uma armadura de latão, ajoelhou-se sobre o tapete vermelho vivo.
A capital imperial, Solon, no salão de audiências.
— Você enfeitou sua primeira campanha com uma vitória brilhante. Ninguém está mais satisfeito do que nós, Gil.
Cortesãos sentavam-se enfileirados à sua esquerda e direita. O homem sentado no trono à sua frente era o imperador da Dinastia Imperial de Mephius, Guhl Mephius. Seus cabelos e barba brancos eram longos e ondulados. Embora tivesse rugas profundas no rosto e órbitas tão fundas que pareciam esculpidas, ainda resplandecia vitalidade.
— Com muito prazer.
— Parece que utilizou diversos estratagemas. Mas estou verdadeiramente satisfeito que a cabeça de Ryucown tenha sido cortada por mãos mephianas. Isso é uma vitória maior do que esperávamos.
— Tudo isso foi graças à sabedoria de Lorde Fedom. O general Oubary também prestou grande assistência nesta minha primeira campanha. E foi graças aos soldados e aos vassalos guiados por sua orientação, pai. Eu apenas tomei emprestada sua força.
— Oh?
A expressão de Guhl estava incomumente calma enquanto assentia. Parecia que Sua Majestade estava genuinamente satisfeito, e os estadistas seniores trocaram olhares de aprovação. Embora antes parecesse demonstrar uma atitude mais severa para com seu filho legítimo, tudo o que desejava era o crescimento da criança. Não havia pai que não amasse seu filho.
— Como resultado de nossa conferência com Garbera, ficou decidido que retomaremos os preparativos para seu casamento com a princesa Vileena. Até lá, ela será nossa hóspede de honra. Mas entendemos que sentimentos apaixonados são difíceis de conter, então tente manter seu romance discreto para evitar problemas.
Seu sorriso deixava claro que fazia uma piada.
Envergonhado, Gil abaixou a cabeça e respondeu:
— Farei isso.
A resposta arrancou risos dos presentes no salão.
A princesa Vileena fora acomodada em um aposento privativo no palácio interior. Junto de sua acompanhante Theresia, poderia desfrutar de uma vida bem estruturada por enquanto. Além disso, quando uma nova data para o casamento fosse estabelecida, Garbera sem dúvida devolveria o território capturado de Apta como um "presente". O Reino de Garbera não poderia mais encarar Mephius de igual para igual se não fizesse isso.
Por muitas razões, os feitos do príncipe Gil eram grandiosos.
A atmosfera no salão manteve-se tranquila do início ao fim, mas, no momento final, Guhl pronunciou estas palavras:
— Mesmo Ende não poderá agir tão facilmente. Entretanto, se isso aconteceu em Garbera, poderia ter ocorrido em qualquer lugar. A partir de agora, para manter a autoridade e a força dentro da Família Imperial de Mephius, teremos que proteger a paz em nosso país. Gil, essa também é sua responsabilidade.
Ele não se esqueceu de enviar um aviso às facções anti-imperialistas.
— Onii-sama!
Assim que saiu do salão de audiências, Ineli aproximou-se e ofereceu-lhe seus parabéns. Levantando a bainha do vestido, fez uma breve reverência, mas Gil deu apenas uma resposta apática antes de virar-lhe as costas novamente. A bela jovem franziu as sobrancelhas.
— Que frieza da sua parte. E isso depois de eu passar tanto tempo contando os dias e aguardando ansiosamente seu retorno. Fiquei tão preocupada nestes últimos dias, irmão, que mal consegui jantar. E agora você nem ao menos me conta uma única história sobre sua viagem?
— Ahh… — Gil forçou um sorriso e fez contato visual. — Tenho muito a contar, mas podemos deixar para outra hora? Estou um pouco cansado.
— Tudo bem…
Com essas palavras, Ineli deixou o assunto de lado, mas não porque estivesse preocupada com o príncipe, e sim porque Gil já havia desviado o olhar e se afastado. Ela não conseguiu chamá-lo de volta, seu rosto delicado se retorcendo em desdém. Mas então, de repente, congelou por outro motivo.
Aquele olhar que o príncipe lhe lançara...
Era o mesmo do guerreiro mascarado na arena.
◇◇◇
Depois disso, o príncipe Gil retornou aos seus aposentos no palácio interior. Não tinha compromissos até o banquete da vitória daquela noite. Assim como Ineli, alguns nobres e militares buscaram uma audiência para felicitá-lo pessoalmente, mas ele recusou a todos.
— Aaaahhh…
Assim que chegou ao quarto, jogou-se sobre a cama, braços e pernas estendidos.
— Isso não condiz com a postura de Vossa Alteza — repreendeu seu pajem, Dinn.
Ele recebera a incumbência de continuar cuidando do príncipe. Fedom havia substituído os antigos serviçais que o atendiam por outros, comprados com o brilho do ouro. Naturalmente, não queria que a verdadeira identidade do príncipe fosse descoberta.
Seu corpo inteiro parecia afundar no esplendor do leito, mas, por outro lado, não conseguia se acalmar. Além disso, aquele aposento era muito maior do que o que compartilhara com dezenas de escravos-espadachins. Estar sozinho em um lugar como aquele, sem saber quem poderia estar à espreita, não lhe dava paz.
Orba saltou da cama de repente, embora não por causa das palavras de Dinn, e dirigiu-se à grande janela do quarto.
Diante do exuberante jardim, vislumbrou a paisagem ordenada de Solon.
Começa aqui.
Que tipo de pessoa ele poderia se tornar, e o que poderia alcançar? Até aquele momento, ainda não encontrara resposta para a pergunta que seu irmão Roan lhe fizera naquela noite estrelada.
Empunharia a espada para perseguir o sonho de uma vida próspera que tivera na infância? Erguê-la-ia para vingar-se daqueles que lhe haviam tirado tudo? Ou encontraria um meio de recuperar as pessoas que perdeu?
Tudo isso.
De fato. Justamente por não saber o que fazer, só lhe restava fazer tudo. Esses eram os únicos meios que Orba possuía. Ele não poderia desejar uma posição melhor do que a de príncipe imperial.
Agora, encontrava-se entre aqueles que, em sua infância, acreditava não enxergar o mesmo mundo que o povo comum. Se abraçasse com ambas as mãos todas as coisas que antes não podia alcançar, talvez pudesse descobrir algo novo.
Além disso, queria saber até onde sua própria existência e o poder que ela carregava poderiam levá-lo.
É claro que havia muitos obstáculos. Fedom, a questão sobre o verdadeiro príncipe, o trato com a princesa de Garbera, a facção anti-imperial e—
— Como pode ser tão sangue frio!? Mantendo essa postura tão indiferente!
Foi a primeira coisa que Gowen disse ao ser convidado para o quarto do príncipe. Shique assentiu e acrescentou:
— E durante sua audiência… Por um lado, você é um ex-escravo disfarçado como filho do imperador. Mas, por outro lado…
Orba interveio e completou a frase:
— É como um grande vilão tentando manipular o príncipe, certo?
Dinn lançou um olhar assustado.
Embora o responsável pela tentativa de assassinato contra o príncipe Gil e Vileena provavelmente não fosse nem Garbera nem Mephius, Orba suspeitava que o verdadeiro mandante pudesse ser o próprio Guhl Mephius.
Ende era o principal suspeito de querer matar os dois. No entanto, sua delegação havia sido especialmente convidada e nunca expressara nada que pudesse incriminá-los. Não havia como interrogá-los de forma que se pudesse forjar uma ‘verdade’.
Além disso, se os membros das duas famílias reais tivessem sido mortos, o resultado teria sido um ataque conjunto de Garbera e Mephius contra Ende. Dois países que haviam sido inimigos até ontem se tornariam aliados firmes no dia seguinte. Teria sido um desfecho ainda mais vantajoso do que o casamento do príncipe com a princesa.
Para Guhl, comparado ao lucro de dividir as terras de Ende com Garbera, a vida do príncipe Gil — o herdeiro do trono — não valia tanto assim.
Ele era o imperador.
E depois de tudo isso, Orba tinha de encarar esse homem como seu “pai”. Alguém que, para ele, ainda era o misterioso símbolo vivo desse “reino”.
— Dessa vez, a tentativa de assassinato falhou porque o ataque de Ryucown interferiu — disse Shique, com um tom sombrio. — Na verdade, para o imperador, a derrota de Ryucown parece ser ainda mais conveniente para o futuro com Garbera.
— Mas, de certo modo, acabei parando em um lugar ainda pior do que a arena de gladiadores — falou Gowen, como um ancião que dita palavras de peso. — Pelo menos, lá nunca houve algo como um ataque surpresa. Ainda assim, um pai e um filho de mesmo sangue se matando é simplesmente triste.
Orba não respondeu e continuou olhando pela janela.
Nesse mundo, tudo era uma batalha. Se não pudesse viver sem alcançar a vitória, então as coisas não eram tão diferentes do que antes.
Orba sempre escolheu o caminho da vitória — ou não teria sobrevivido até agora.
Havia muitos heróis nesse mundo. Entre aqueles que percorriam os campos de guerra, Gil Mephius nunca fora alguém que trouxesse problemas ou divertisse os historiadores.
Mas, apesar de ser menosprezado por seus vassalos como o “príncipe tolo”, agora, com o casamento com Vileena do Reino de Garbera, ele havia despertado para a sabedoria num piscar de olhos e, de repente, passou a ser chamado de “O Dragão de Mephius”. Era o tipo de história que os historiadores podiam tecer para alimentar a imaginação do povo.
Mas ninguém sabia.
A verdadeira identidade de Gil Mephius.
O homem conhecido como o gladiador mascarado, pouco depois de se livrar da máscara de um tigre de ferro, havia adquirido uma nova — uma máscara de carne.
Ninguém sabia.
Tradução: Rudeus Greyrat
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