Rakuin no Monshou Volume 01 — O Dragão Ruge para a Estrela do Crepúsculo
— Capítulo 4
[No Vale Seirin]
No que dizia respeito a Simon Rodloom, Fedom, o Senhor de Birac, não demonstrava nenhum sinal de mudança de ideia.
Apesar do conselho ter se tornado uma existência meramente nominal devido ao fortalecimento da autoridade da casa imperial, Simon ainda era um aristocrata influente. Ele acompanhava os movimentos dos outros nobres até certo ponto, seus princípios e reivindicações, e também pretendia compreender sua situação.
De acordo com as observações de Simon, Fedom era claramente um membro da facção anti-imperial.
Ele havia persuadido o imperador, que na verdade desejava continuar a guerra com Garbera, e como líder do grupo que promovia as negociações de paz, tinha conquistado apoio para si mesmo na Corte Imperial. Embora suas habilidades como líder, assim como sua sabedoria, fossem um tanto limitadas, ele era muito melhor em comparação ao outro grupo de nobres corruptos.
No entanto, Fedom estava definitivamente agindo de maneira estranha. Desde a festa da noite anterior – não, desde que partiram para o Vale de Seirin – ele estava, por algum motivo, grudado no príncipe Gil, como uma babá intrometida.
Será que seu repentino interesse em educar o príncipe foi apenas para transformá-lo em um fantoche a seu serviço? – Essa ideia passou pela mente de Simon, mas não seria um pouco tarde demais para tomar tal atitude agora?
A propósito, também estava relacionado ao próprio príncipe. Até onde ele sabia, o príncipe Gil e Fedom mal haviam trocado palavras. Quando o príncipe andava com seus jovens camaradas, Simon sempre o ouvira chamar o homem de "aquele porco manipulador" pelas costas.
Como ele parecia aceitar tão prontamente os conselhos de Fedom – ou, pior ainda – parecia depender dele?
Além de confirmar isso em um encontro privado com o príncipe, Simon ainda tinha muito trabalho a fazer. Uma delegação do Principado de Ende também havia chegado às pressas para os parabéns, embora fosse incomum que tivessem decidido vir apenas uma semana antes. No início, também houve conversas sobre Ende e Garbera formarem um laço através do noivado de parceiros reais, mas provavelmente não passava das muitas possibilidades que Ende e Garbera tinham em mente. Simon estava pressionado a recebê-los.
Mas em outro lugar,
— Aquele bastardo ingrato do Orba!
Era Tarkas, bufando rudemente e andando de um lado para outro no quarto.
Quando pensou na visita repentina do nobre Mephiano Fedom, mesmo que tão abrupta, ele se perguntou por que o homem havia comprado Orba sem pedir consentimento.
— Quem o criou fui eu! Merda, ele estava prestes a ganhar seu salário como espadachim, quando, de todas as coisas, teve que ser levado por algum nobre...!
— Nós também não entendemos, embora.
Ele havia convocado Shique, Gowen e Gilliam, seus principais espadachins, em uma sala privada nos penhascos, reservada para o uso de Tarkas. Eles estavam lá porque teve de mudar os pares da competição devido à partida repentina de Orba.
— Então, por que decidiram tirar o Orba tão de repente? Embora aquele garoto seja um bom espadachim, ele seria ponta de lança dos jogos em celebração ao casamento. Se ele simplesmente quisesse comprar Orba por suas habilidades, acho que deveria tê-lo feito participar das lutas.
— Eu também gostaria de saber! Aquele filho da puta! — disse Tarkas. — Mesmo que tenha sido comprado por um nobre, poderia pelo menos ter se oferecido para a última batalha como um favor. Desgraçado ingrato!
— Talvez fosse porque teríamos que nos matar em combate. Vou celebrar sua nova vida, mas não consigo me acostumar com esse sentimento, e me incomoda que ele tenha partido sem dizer uma palavra.
— Oh, Gilliam. Até um homem como você fica solitário quando um conhecido vai embora?
— Cale a boca, Shique! Eu só me arrependo de não ter acertado as contas com aquele cara!
— Bem, não há nada que possamos fazer agora que ele não está aqui. Vamos pensar em alguns confrontos emocionantes — disse Gowen, tentando acalmar todos.
Naturalmente, ele também se sentia um pouco estranho ultimamente.
Ele não tinha tempo para descobrir o que havia acontecido. Tinha que verificar a condição dos novatos que Tarkas comprou e, como isso era diferente do procedimento usual, também precisava revisar cada espadachim.
No entanto, algo pesava levemente na cabeça de Gowen era se Orba, que ansiava por um futuro mesmo quando seu corpo e mente eram castigados, estava agora vivendo aquele mesmo futuro.
Enquanto as pessoas se movimentavam freneticamente ao seu redor,
O ex-gladiador Orba parecia ter tempo de sobra, sendo praticamente deixado sozinho. Ser designado como dublê estava bom, mas ele não podia falar a menos que Fedom sussurrasse as palavras para ele, como um ventríloquo.
É estranho...
Aqueles nobres haviam arrancado seu irmão para ser soldado. Não apenas abandonaram sua vila, mas, de todas as coisas, a nobreza brandiu suas lâminas para contra os próprios cidadãos, levaram Alice embora, fizeram com que ele caísse na escravidão e o obrigaram a usar aquela máscara.
Talvez por um capricho do destino, mas um daqueles nobres Mephianos arrancou Orba de sua vida de escravidão e ordenou que ele se tornasse o substituto para uma das figuras mais importantes da família imperial.
Roubo, extorsão e tráfico ilegal de armas – tendo vivido bebendo água dos esgotos, ele não podia deixar de pensar que era um motivo de riso para o príncipe herdeiro. Embora o fato de ainda não saber o que o dia seguinte lhe reservava fosse semelhante a ser um escravo.
No entanto – estando do outro lado daquelas ruas escuras – talvez agora ele pudesse esperar encontrar um ponto, sim, apenas um ponto de luz. Como dublê do príncipe, ele teria a oportunidade de entrar em contato com figuras importantes, além de Fedom, é claro. Não seria estranho encontrar entre eles aquele que queimou sua vila – o general Oubary.
Embora Orba tivesse levado uma pancada na cabeça naquela época e só o tivesse visto por um breve momento e com a vista embaçada, durante aqueles dois anos como gladiador, ele não esquecera seu rosto por um único dia. Até agora, ele voltava vividamente à sua mente.
— Gil-sama.
Se nos encontrarmos novamente...
O que eu deveria fazer então?
O jovem espadachim, que teve sua máscara removida, continuou afundado em pensamentos incessantes. Ele pensaria em uma maneira de dar ao cara a morte mais miserável e concebível neste mundo. Além disso, se conseguisse encontrar Oubary, poderia traçar as linhas de volta ao tempo em que foi separado de Alice e de sua mãe. Além disso, embora ele mesmo não esperasse muito disso – pois não podia desejar o inimaginável repetidamente e virtualmente esperar por um milagre – se encontrasse outras pessoas recrutadas como soldados por Oubary, elas poderiam saber algo sobre o paradeiro de seu irmão Roan.
— Gil-sama, príncipe. Príncipe Gil!
— Eh?
Sendo chamado em um tom tão firme, Orba olhou para o lado.
A princesa Vileena estava sentada a uma distância não muito longe dele. Ela estava em frente ao altar, no lugar onde o vale era mais profundo, olhando para a área. Apenas Vileena e Orba estavam sentados em cadeiras, com um grupo robusto de soldados ao redor, enquanto na frente do altar, sacerdotes entoavam hinos de oração e bênção.
— No que você está pensando?
— Em nada — respondeu Orba secamente.
Não era possível para Fedom estar por perto durante a cerimônia, então ele lhe dissera para "não dizer nada" por enquanto. Virando o rosto para frente, ele fingiu estar concentrado na cerimônia.
— Isso é mentira — decidiu Vileena, também em um tom seco.
O quê...? Mentira?
O timing foi tão perfeito que Orba não pôde ignorar, e ele novamente lançou um olhar para a princesa do Reino de Garbera.
Ela estava novamente trajando um vestido, mas diferente do da festa de ontem, e usava uma tiara informal na cabeça. De tão perto, era surpreendente. Embora parecesse apenas uma garotinha na primeira vez que se encontraram cara a cara, quando ela virava o rosto com uma expressão séria de vez em quando, parecia realmente madura.
Ele se perguntou se era por causa de seus traços bem definidos, embora Orba achasse que seu rosto parecia muito com o de uma boneca. No momento, exceto por serem de nascimentos diferentes, ela parecia quase igual a Orba. Apenas se movendo quando mandada, e apenas falando quando alguém dizia.
De fato, quando ele pensava nisso, era disso que se tratava este casamento. Embora ela tivesse apenas catorze anos, em contraste com seus verdadeiros desejos, ela tinha que se tornar a esposa de um homem que conhecera apenas no dia anterior, e ainda por cima de um país que antes era inimigo. Embora ele não conseguisse sentir simpatia por alguém como ela, que nascera em uma família real, ela parecia ter suas próprias dificuldades também.
Então, é a mesma coisa para todo mundo.
De repente, aquela voz lhe veio à memória.
Ninguém sabe que tipo de pessoa ele será. Todos anseiam por um mundo que não conhecem e buscam um sentido para a vida pela qual nasceram, mesmo que seja um sacerdote ou um membro da realeza.
Era exatamente como Roan dissera, pensou Orba profundamente em seu íntimo.
— Você está realmente perdido em pensamentos.
Quando ela novamente lhe dirigiu a palavra sem motivo aparente, Orba respondeu com rudeza:
— E daí?
Vileena soltou uma risadinha.
— Por um bom tempo, achei que você tinha um olhar assustador às vezes, mas agora parece sorrir, pensando em algo agradável. Por favor, diga-me, você que está prestes a se tornar meu marido. O que o incomoda em um dia tão belo, e o que estaria em suas lembranças que não consegue evitar?
A cerimônia prosseguiu. Haviam grelhado um dragão recém-abatido naquela manhã, e enquanto espalhavam os ossos pela base do vale, os sacerdotes entoavam suas preces. Invocavam as almas dos dragões que outrora governaram este planeta para proteger a prosperidade do país.
— Será que os Ryuujin, se voltarem, podem não necessariamente abençoar este lugar?
Quando a humanidade chegou a este planeta, os dragões apenas vagavam pelos campos e pensavam em nada além de encher seus estômagos – em suma, haviam se degenerado ao nível de bestas.
No entanto, escavações revelaram ruínas de cidades enormes e artefatos de propósito desconhecido em vários lugares do planeta, além de traços de uma civilização mágica que possivelmente utilizava alguma forma de Ether*. A humanidade só conseguiu dominar sua primeira "magia", Zodias, algum tempo depois, e essa bênção da sabedoria supostamente fora obtida das ruínas dracônicas. Acreditava-se que os dragões antigos formavam o corpo inteligente que governara este planeta, provavelmente milhares de anos antes da chegada da humanidade.
style="color: red;" Rudy: O Ether, segundo Aristóteles, era um quinto elemento (Fogo, Vento, Terra e Água) puro e incorruptível que preenchia o espaço celeste. Este estava presente também no ar e era a origem de todas as coisas no universo. Outros povos o chamavam de Maná, ou Mana, Ki, Chakra, é a essência da magia.
O costume de chamar esses dragões ancestrais de "Deuses Dragões" ou "Ryuujin" (Povo Dragão) era particularmente Mephiano, e houve um tempo em que constituía a fé religiosa de todo o país. Embora agora fosse uma mera sombra do que fora, para rituais importantes como este, o sacerdote que presidia a cerimônia era escolhido entre as tribos nômades que viviam perto da fronteira de Mephius, onde as raízes da Fé Ryuujin se encontravam.
— Como eu disse, não é nada.
Novamente, Orba encerrou o assunto abruptamente.
Ele recebera uma breve explicação do pajem Dinn sobre a história da Fé Ryuujin, mas naturalmente não se importava muito com isso. Assim, não conseguia dizer se Vileena estava brincando ou não.
Se as relações entre o príncipe de verdade e essa garota ficarem ruins depois disso, não serei eu quem vai assumir a responsabilidade, Fedom-sama.
Por outro lado, Vileena finalmente suspirou, perdendo-se em seus próprios pensamentos. Para Garbera, a ideia de dragões possuírem uma civilização igual ou superior à humana no passado não passava de uma lenda sobre "deuses dragões". Portanto, ela não conseguia enxergar essa cerimônia como algo sagrado. E embora estivesse completamente entediada, quando olhou para a pessoa ao seu lado – o príncipe Gil, que se tornaria seu marido quando a cerimônia terminasse – não pôde evitar se distrair. Então, para aliviar um pouco o tédio, decidiu provocá-lo levemente. Mas, talvez revelando seu "verdadeiro caráter", embora ela se esforçasse para parecer uma dama, o príncipe era genuinamente rude. Não só isso, seu modo breve de falar a irritava profundamente.
Será que é vergonha?, ela se perguntou. Durante o banquete da noite passada, não percebera nenhum comportamento ressentido dele em relação a mulheres. Mas quando pensou que ele poderia ser um pouco como Ryucown, Vileena sentiu-se ofendida consigo mesma. Não havia como o mais bravo general de Garbera se parecer com alguém que era chamado de "imbecil" aqui em Mephius.
De qualquer forma, isso é a mesmo que na guerra. Para enganar o inimigo, preciso manter o ritmo neste lugar.
Vileena manteve o sorriso, fingindo não estar ofendida. Seria ótimo se o príncipe se apaixonasse loucamente por ela. No entanto, não sabia se isso funcionaria caso ele já estivesse envolvido com outra moça. De qualquer forma, bastaria continuar sorrindo.
Meu avô também disse que amava meu sorriso acima de tudo. Então, nesse caso, não devo errar.
As preces tediosas dos sacerdotes logo terminariam, e então as batalhas dos espadachins-escravos finalmente começariam.
Diziam que fazia parte da cerimônia que, quando os ossos dos dragões se transformassem em cinzas e fossem derramados no chão, o sangue dos homens seria oferecido. No entanto, o que faziam mal se diferenciava das batalhas de gladiadores comuns. A única diferença era que as palavras introdutórias eram um pouco mais formais que o habitual. A arena, um terreno nivelado no fundo do vale com apenas algumas estacas cravadas no chão, era ainda mais simples que o normal.
Lá, os gladiadores estavam alinhados nos lados leste e oeste. Orba reconheceu Tarkas, Gowen e muitos outros rostos conhecidos, e um sorriso incomumente jovial surgiu em seu rosto.
Duvido que esses caras imaginem que estou bem aqui.
Embora Tarkas provavelmente estivesse furioso por ele ter partido tão subitamente, justamente por ter sido tão rápido, não lhe ocorreria que ele estaria observando de uma posição tão elevada.
Vileena, por outro lado, apesar de ter sido informada anteriormente, observava com pensamentos sombrios sobre os escravos que em breve se matariam. Não havia escravidão em Garbera, o principal motivo pelo qual falavam mal de Mephius como um país de bárbaros.
Insatisfeitos com a guerra, fizeram questão de humilhar escravos e forçá-los a se matarem como espetáculo?
Quando a adivinhação terminou, o primeiro grupo avançou. Os movimentos dos gladiadores eram um pouco desajeitados, mas talvez fosse devido ao ambiente desconhecido – pelo menos até o final do primeiro round, quando o perdedor se tornou um cadáver estirado no chão.
Em Garbera e Ende, com restrições às companhias de escravos no entretenimento, não havia oportunidade de ver uma luta de gladiadores. Assim, embora os enviados inicialmente tivessem preconceitos e parecessem indignados com o som do choque das espadas, logo se viram curvados sobre as arquibancadas, punhos cerrados, torcendo junto com o povo Mephiano e aplaudindo.
Vileena logo enjoou. Então, pensando em Sua Alteza, espiou novamente para o lado. Quando viu um enorme sorriso estampado em seu rosto, sentiu renovada decepção. Por mais que olhasse, era óbvio que ele se deleitava vendo-os se matarem, do fundo do coração. Ela imaginara que ele gostaria, mas não nessa medida.
De repente, não conseguiu mais conter seus sentimentos. O desdém que sentia por seu parceiro transformou-se em repulsa. Tudo aconteceu tão rápido que ela mesma ficou perplexa. Lembrou-se de como, até então, precisara reprimir constantemente suas emoções. Mesmo sendo a princesa de um país que dissera colocar sua nação à frente de si mesma, ela tinha apenas catorze anos.
Não posso, não posso!
Vileena cerrou os punhos com força no colo.
Isso também é uma batalha. Isso também é uma provação, Vileena. Meu corpo foi empurrado para frente. Não posso deixar meu espírito fraquejar assim.
Shique avançou na arena. Os aplausos se concentraram naquele gladiador singular, com o rosto pintado de branco de forma decadente. Porém, ao olhar para seu oponente... Orba arqueou as sobrancelhas.
É o...
Por algum motivo, era um dos novatos que Tarkas contratara em seu bom humor. Considerando as habilidades de Shique, era óbvio que o oponente não estava à altura. Mesmo que conseguisse animar a luta, Tarkas fizera um mau negócio. Isso acabaria em um instante.
Shique empunhou suas espadas gêmeas características – ambas de lâmina única e comprimento médio. O novato posicionou-se nervosamente do outro lado. Tudo acabaria num piscar de olhos, ou assim Orba pensou naquele momento.
Mas enquanto pensava nisso, ouviu um estrondo ensurdecedor pelo chão, que tremeu violentamente sob seus pés. Naquele lapso de tempo, uma nuvem densa de poeira ergueu-se do outro lado da arena.
Os soldados que olharam para a poeira, em direção ao que quer que fosse, foram os primeiros a cair. Embora estivessem armados com lanças e rifles ao redor da arena, não esperavam por algo tão repentino e foram esmagados sob as patas de um dragão. Assim que manchas de sangue pintaram o chão de vermelho vivo, um dragão escamoso, coberto de muco em algumas partes, emergiu da nuvem de poeira. A massa enorme avançava.
Era um dragão do tipo grande, Sozos. Correntes deveriam estar amarradas a suas patas, e naturalmente ele deveria estar trancado em uma gaiola, mas o dragão se libertara e mais deles apareceram de uma só vez.
— O-O QUÊEEEE!?
Um soldado, atordoado com a morte de seus colegas, disparou seu rifle. No momento em que abaixou a arma, uma garra afiada, três vezes mais alta que ele, abateu-se sobre seu corpo, transformando-o imediatamente em uma massa de carne ensanguentada. Então os outros soldados próximos gritaram como mulheres, largaram suas armas e saíram correndo. Seus gritos e berros logo se misturaram ao estrondo do chão.
— O-O quê? O que está acontecendo?
— Por que os dragões estão enfurecidos?
Uma multidão começou a vociferar sob as tendas. Os dragões que seriam usados pelos gladiadores quebraram suas gaiolas e estavam em fúria. Alguns pegaram espadas e rifles e correram para os guardas, outros fugiram o mais rápido possível, e alguns gritavam ordens para seus subordinados — tudo em meio ao caos.
Orba levantou-se de sua cadeira. Por um momento, não conseguiu ver Shique sob a nuvem de poeira. Então um dos gladiadores – o próximo a lutar – foi chutado violentamente por um Baian. E outro, alguém do Grupo Tarkas que tentou atacar impetuosamente suas barrigas, foi esmagado por um Sozos.
Então, avistou uma pequena silhueta entre os dragões. Era Hou Ran. Ela provavelmente corria em lágrimas, tentando impedir os dragões. Várias vezes quase foi atingida por suas patas.
Dê-me um rifle!
Orba quase gritou essas palavras, prestes a arrancar um rifle de um dos guardas. No entanto, interrompeu-se ao sentir uma dor aguda em sua testa.
— Ah!
Guiado pelo instinto e não pela razão, Orba rapidamente escondeu-se sob a mesa. Algo voava alto no céu, em grande velocidade. Alguém com intenção de matar. Quando tomou forma, teve a sensação de que mirava no chão.
Um sniper!
Misturado ao som das patas dos dragões, aos gritos das pessoas e às vozes iradas, vinha nitidamente o disparo de um rifle que lhe vibrou os tímpanos.
Num piscar de olhos, a arena abaixo foi coberta por uma nuvem de poeira. Ao ver o tumulto à sua frente, que mais parecia um campo de batalha, Vileena pulou do assento.
Conseguindo avistar os dragões em fúria e as várias vítimas que caíam sob seus ataques, seus olhos buscaram reflexivamente uma aeronave. Se conseguisse intervir pelos ares, talvez pudesse atrair a atenção dos dragões. Certamente haveria algum modelo antigo de nave de reconhecimento entre as embarcações da força de defesa Mephiana.
— Ei, você, não se aproxime mais!
— Que grosseria! De toda a gente presente, quem diabos— uaaah!
Um distúrbio irrompeu entre os guardas que antes formavam uma linha organizada. E não era por causa dos dragões. Um homem corria em direção a eles, e embora dois soldados tentassem detê-lo, foram abatidos em instantes.
Quem seria—!?
A palavra travou em sua garganta, engasgada num nó de saliva. Ao avistar a espada ensanguentada, reconheceu o homem que deveria estar lutando na arena. A princesa de Garbera mal esquivou de um golpe lateral, mas tropeçou na barra do vestido comprido e caiu.
Os outros guardas, distraídos pelos dragões, moviam-se desordenadamente. Vileena rolou ágil no chão e arrancou a arma da cintura de um soldado caído. Faíscas saltaram diante dela – a lâmina de aço cravara-se no solo, mas em seguida foi erguida novamente.
Seu campo de visão fixou-se na ponta da espada, como se tivesse mergulhado na sombra da morte. Então, de repente, outra lâmina interceptou o golpe vindo de lado.
— Seu oponente sou eu.
A voz vinha de trás do homem – era o gladiador que lutara contra ele momentos antes. Seus lábios vermelhos curvaram-se num sorriso enigmático.
— Assim que os dragões apareceram, você veio direto para cá. Quem é você?
— Maldito!
O homem gritou com voz rouca e, sem soltar a empunhadura, girou o corpo e puxou uma adaga da cintura. Com um movimento rápido o bastante para cortar o vento, mirou o peito do gladiador. Porém, aquele gladiador, Shique, inclinou os ombros, desviou a adaga com a segunda espada e cravou a primeira no peito do adversário.
Quando o homem caiu a seus pés com olhos arregalados de surpresa, Vileena suspirou aliviada.
Um assassino...
Era como se mãos frias apertassem seu coração. Então, ao perceber a situação, voltou-se para o lado do príncipe Gil. Ele se aglomerava com outras pessoas sob uma mesa, apenas o rosto visível, observando silenciosamente o caos. Embora sua segurança fosse prioritária, não pôde evitar que a decepção crescesse. Enquanto sua noiva era atacada, ele tremia sozinho.
Foi então que Vileena sobressaltou-se quando Gil olhara diretamente para ela. Mas não havia traço de medo naqueles olhos, apenas...
— Princesa, venha aqui e deite-se — disse Gil ou melhor, Orba, é claro.
Puxou meio à força o braço da princesa e, após deitá-la de bruços como ele, o príncipe chamou:
— Shique!
O gladiator congelou, genuinamente surpreso. Vendo aquela expressão, Orba sentiu vontade de brincar, apesar da situação.
— Sou seu fã — declarou, antes de assumir um tom sério. — Os dragões são só distração. Há um atirador mirando em nós. Descubra onde ele está.
— Ha... hahah...
Ser abordado pessoalmente pelo príncipe deixou Shique perplexo, mas ele partiu em ação, ainda que olhando para trás a cada instante. Enquanto isso, Orba espreitava por baixo da mesa, expondo-se e recuando repetidamente, até que um disparo ecoou, alcançando também os ouvidos de Vileena.
Se usando como isca?
Ela compreendeu num relâmpago. Ele usara o próprio corpo como chamariz para revelar a posição do atirador. Afinal, que tipo de príncipe era aquele?
Um Sozos emergiu do caos no vale, aproximando-se.
— Alteza! Princesa! Por aqui!
Dois homens irromperam entre os guardas. Finalmente, alguém em sã consciência viera ajudá-los. Orba julgou ser hora de partir. Levantou-se e puxou a mão de Vileena, que o seguiu sem resistir.
Ele corria. Talvez esperasse algo assim ao assumir o papel de duplo, mas agora não havia tempo para reflexões. Embora preocupado com os gladiadores, a interrupção dos tiros sugeria que estavam a salvo.
De mãos dadas, Orba e Vileena olharam para trás repetidas vezes enquanto adentravam uma caverna sob os penhascos, guiados pelos soldados.
— Entrem nesta passagem secreta! Ela leva ao outro lado!
Ao golpear um dos pilares com o punho, o soldado fez a parede de rocha girar, revelando uma abertura estreita.
— Depressa! — instaram a princesa.
No instante em que Vileena foi empurrada para dentro, a parede selou-se atrás dela.
— O quê?
Ela voltou-se para a escuridão, procurando inutilmente um interruptor. Do outro lado, vozes discutiam. Seria uma emboscada?
— Princesa Vileena!
A voz veio do fundo do túnel. Dois soldados com armaduras não-mephianas aproximaram-se, lampiões em mãos.
— Venha conosco. Um navio vem buscá-la.
— Navio? O que querem dizer?
— Um navio para levá-la destas terras bárbaras, para um lugar digno de sua linhagem.
— Vocês...
Enquanto um pressentimento a assaltava, um disparo ecoou atrás da parede grossa.
Foi no exato momento em que Vileena adentrou a passagem secreta.
— Ei, o que está acontecendo!?
Vários soldados que pareciam guardar o interior do penhasco aproximaram-se. Um dos homens que guiara Orba golpeou novamente o pilar, deixando Vileena sozinha no túnel.
— Nós também não sabemos. Mas tudo está indo conforme o plano.
Enquanto falava, o homem sacou uma arma das costas e disparou.
Quase no mesmo instante em que o guarda à frente desabou com um jorro de sangue, outro soldado investiu contra os flancos com a espada desembainhada. Sem tempo para reagir, um após outro foram abatidos.
Orba permaneceu com as costas contra a parede, observando aquele desenvolvimento abrupto. Não parecia uma discórdia interna. Considerando que Vileena estava sozinha na passagem secreta, era provável que aqueles soldados estivessem envolvidos com o ataque dos dragões e o atirador furtivo.
Discretamente, Orba pegou uma espada de um soldado caído e a escondeu atrás das costas. A batalha diante dele terminara.
— Patéticos — cuspiu o soldado que disparara, voltando-se para Orba. — O que fazemos com o príncipe?
— Vamos usá-lo como refém. Venha cá, você!
O homem com a espada estendeu a mão, a mesma mão que, surpreendendo os guardas, matara seis homens em segundos. Sem capacete, seu rosto transbordava arrogância.
— Q-Quem... quem são vocês?
Tremendo, Orba escorregou pela parede. Os dois sorriam, o sangue das vítimas salpicando seus rostos.
— Hmph, não sabia que o príncipe da Grande Dinastia Imperial era tão patético. Sem seus bajuladores, não passa de um inútil.
— Um como você desposaria Vileena-sama? Ridículo. Mancharia o sangue nobre de Garbera. Venha, Príncipe Imbecil de Mephius!
Orba gritou e fugiu do braço estendido.
— Não tenho tempo para brincadeiras. Venha já!
Enquanto o soldado o perseguia rindo, Orba girou subitamente e desferiu um golpe com a espada oculta. Saltando sobre o homem caído, atingiu o ombro do outro, que ainda segurava a arma.
— M-MALDITO!
Com a empunhadura da espada, golpeou o rosto do adversário, que desmaiou ajoelhado.
Nesse momento, outros guardas mephianos surgiram do outro lado da caverna, atraídos pelo tumulto. Orba explicou rapidamente a situação, ordenou que capturassem os inimigos inconscientes e insistiu para abrirem a passagem secreta. O processo, porém, demorou devido à ausência do soldado responsável.
Odeio inimigos que se escondem e coletam informações...
O tempo era precioso. Sem entender totalmente sua própria impaciência, Orba rosnou mentalmente.
Vários minutos após o desaparecimento de Vileena, a porta finalmente se abriu. O primeiro som que Orba ouviu foi o de homens arrastando uma mulher à força. Como previra, dois soldados tentavam levar Vileena pelo túnel estreito.
— Soltem-me, insolentes!
A voz da princesa ecoou nas paredes da caverna. Os guardas mephianos avançaram à frente de Orba.
— Quem está aí? Para onde levam a princesa?
— Selvagens estúpidos de Mephius! Não entendem!?
O soldado inimigo sacou uma pistola. O mephiano preparou-se para atacar, mas Orba interveio:
— Esperem! Vocês podem atingir a princesa!
Nesse instante, algo inacreditável aconteceu.
Libertando-se de um dos captores, Vileena saltou e ergueu o pé sob o vestido. Com um chute preciso, a arma caiu da mão do soldado. Orba, recuperando-se do choque, tomou uma decisão rápida.
— Agora! Sem armas de fogo! Investida!
Sob suas ordens, os soldados brandiram espadas e lanças.
Embora um dos inimigos tentou resistir, foi rapidamente dominado.
— RECUEM! RECUEM!
Os agressores fugiram, abandonando a princesa.
Os soldados mephianos os perseguiram, mas o túnel era estreito demais. Um soldado de Garbera parou e disparou repetidamente, forçando-os a buscar proteção. Quando as balas acabaram, o homem pegou uma faca, cravou-a no próprio pescoço e caiu morto.
Orba não viu o desfecho. Aquele era um problema entre Mephius e Garbera — algo que não lhe dizia respeito. Preocupado com seus companheiros, ele retornou pela caverna.
Ao chegar, o caos havia diminuído. Os dragões jaziam com os longos pescoços no chão ou encostados nas encostas, vomitando sangue. Foram derrotados pelos espadachins-escravos, incluindo Gowen, e pela artilharia mephiana. Gilliam e Shique, especialmente ativos, tinham espadas encharcadas de sangue e respiração ofegante.
Porém, a tensão não desaparecera de seus rostos. Seus olhos ainda carregavam a sombra da morte. E não era sem motivo: as armas dos soldados agora apontavam para os gladiadores.
— O que significa isso, Tarkas!? — Fedom, com o rosto vermelho de raiva, esbravejou.
Os dragões que atacaram pertenciam ao grupo de Tarkas, e testemunhas viram gladiadores apontando espadas para Gil e Vileena. Embora Tarkas, pálido, jurasse não saber de nada, Fedom não lhe dava ouvidos. Se tivesse uma arma, provavelmente atiraria.
A maioria dos gladiadores foi desarmada e obrigada a cruzar os braços sobre a cabeça. Até os guardas, porém, pareciam confusos, afinal foram aqueles escravos que primeiro enfrentaram os dragões.
O ar ainda pesava com poeira, pólvora e perplexidade.
— Esperem!
Orba interveio. Os soldados surpresos abriram caminho. Fedom olhou para ele e torceu os lábios.
— O quê? Quando você se mete assim—!
— Com quem você está falando? Não me reconhece, Fedom?
Fedom calou-se, irritado. Tarkas, vendo aquilo pela primeira vez, sorriu.
— Esse homem pode estar envolvido numa conspiração nacional. Talvez alguém o tenha usado, não? Acredito que os responsáveis que o contrataram também têm responsabilidade. Mas não podemos apontar culpados. Se alguém executar um desses gladiadores sem provas, eu mesmo cortarei sua cabeça, com minha… não, com a espada de Mephius!
— Concordo.
Orba virou-se, surpreso. Vileena aproximava-se. Ainda tremendo levemente, mantinha-se firme, algo impressionante, considerando o caos recente.
— Ah, princesa!
Sua criada Theresia correu para abraçá-la. Vileena sorriu fraco.
— Embora um gladiador tenha tentado matar-me, foi outro gladiador que me salvou. Não podemos concluir nada precipitadamente.
Seu vestido estava sujo, o rosto suado, os cabelos desalinhados, mas seus olhos brilhavam com clareza.
Logo após um ataque...
Em vez de entrar em pânico, ela analisava friamente a situação. Orba, que antes a via como uma marionete, sentiu um respeito involuntário. Aquela garota compartilhava de sua própria fibra.
— Além disso — a princesa estrangeira baixou os olhos e cerrou os dentes — provavelmente eram subordinados do general Ryucown... de Garbera.
Naquela noite, Orba estava num quarto escavado nos penhascos — o mesmo que ocupara na véspera, adaptado para a família imperial.
Sem entender completamente a situação, julgaram perigoso retornar a uma cidade de Mephius sem reforços. Enquanto as tropas montavam defesas no vale, aguardavam reforços.
Vileena e a delegação de Ende também estavam confinadas. O ambiente tornara-se tenso.
Quando os soldados perseguiram os inimigos pelo túnel, avistaram uma nave de pedra de dragão decolando do outro lado dos penhascos — um cruzador veloz, capaz de transportar dez pessoas. Provavelmente aguardava ali para raptar Vileena.
A princesa atribuíra o ataque ao General Ryucown.
Ryucown — um famoso guerreiro de Garbera. Até Orba conhecia seu nome. Seria fácil culpar Garbera por aquele caos.
Mas...
Orba refletiu. Havia aspectos estranhos demais nessa teoria.
— Gil-sama? Gil-sama!
Ele demorou a reagir ao chamado. O pajem Dinn colocara garrafas de vinho e três taças na mesa. Aqueles objetos diziam tudo.
— Você ainda demora para perceber, não?
— Nunca me chamaram assim antes — Orba encolheu os ombros. — E esse "sama" também soa falso. Não precisa exagerar quando estamos sozinhos.
— Não. Qualquer um pode estar espreitando. Além disso, não sou tão habilidoso. Se não praticar chamá-lo de Príncipe Gil sempre, posso escorregar quando for crucial. Você também. Se não agir como um príncipe o tempo todo... pode se revelar no momento decisivo.
O garoto de doze ou treze anos falava com o orgulho de um nobre.
— "Me acostumar", hein? — Orba olhou para a janela panorâmica.
As cortinas estavam fechadas, mas sabia que soldados vigiavam do lado de fora. A varanda, porém, era isolada o suficiente para evitar escutas.
Lembrou-se então de Tarkas — o homem se curvara em gratidão após Orba intervir contra Fedom. Nunca esqueceria aquela expressão desesperada.
— Pelas taças, quem são os convidados?
Antes que Dinn respondesse, um soldado anunciou a visita.
— Podem entrar.
Ladeados por guardas, dois homens adentraram — Gowen, o treinador de gladiadores, e Shique, o espadachim.
— Obrigado por terem vindo.
Orba foi o primeiro a falar, cumprimentando os dois homens que entraram na sala. Embora exibisse um sorriso principesco, por dentro divertia-se com o comportamento incomumente tímido deles. Gowen, normalmente destemido, gaguejou saudações quase inaudíveis, enquanto Shique olhava em volta como se não acreditasse no que via.
Era óbvio que estavam assim desde que receberam o "convite do príncipe". Orba teve que fazer força para não explodir em risos.
Dinn também estava chocado. Esperava que Fedom ou outra figura importante de Mephius aparecesse.
— Espere... o que significa isso? Não pode convidar gladiadores sem autorização. Se Fedom-sama descobrir...
— Eu sou o príncipe, não sou? Não posso fazer o que quiser? Ou preciso da sua permissão para conversar com alguém?
Ao lembrar o garoto da conversa sobre "agir como príncipe o tempo todo", Dinn ficou sem resposta. Sob ordens de Orba, serviu vinho nos cálices com relutância.
— Esses homens serviram bem como gladiadores. Sem seus esforços, talvez eu não estivesse aqui para erguer esta taça. Devemos saudá-los como heróis nacionais!
Ergueu o copo para o brinde. Os dois homens juntaram-se nervosamente. Orba sorveu o vinho, divertindo-se com suas reações. A bebida era suave, afinal.
O "príncipe Gil" parecia evitar o assunto principal, deixando os convidados cada vez mais inquietos. Foi Shique quem finalmente quebrou o gelo — aparentemente, tinha mais coragem que Gowen em situações assim.
— Achei estranho quando sua alteza falou comigo antes... mas como conhece nossos nomes?
— O príncipe disse que é um fã — Gowen retrucou. — Mas... eu não venho lutando na arena já faz alguns anos. E mesmo na época, não fiz nada memorável. Então, como Sua Alteza sabe o nome de alguém como eu...
— Eu simplesmente sei — Orba franziu o rosto de propósito. — É tão inconveniente assim? Ou um príncipe que acompanha lutas de gladiadores fere sua sensibilidade?
— N-Não, jamais!
— Deixa pra lá. Darei as instruções mais tarde.
Sem saber que instruções seriam essas, Gowen ficou tenso. Shique deu um passo à frente.
— Perdoe-nos, Alteza. Somos apenas gladiadores insignificantes. Não estamos acostumados a lugares assim, muito menos a etiqueta para falar com a realeza. Mal sabemos falar de maneira culta... Se de alguma forma o ofendemos...
Orba encarou Shique com frieza, mas então...
— Kuh...
Finalmente não aguentou mais e soltou uma risada. Bebeu outro gole e começou a rir alto, segurando o estômago. Os dois homens olharam para ele, perplexos.
Dinn ficou pálido e protestou:
— Príncipe! Príncipe! — Mas Orba retrucou:
— Que príncipe? — Enxugou as lágrimas do rosto, rindo novamente.
— Ainda não perceberam, Gowen? Isso não é como você! Mais rápido com a espada do que com palavras, hein?
Pegou uma espada curta da parede e apontou para Gowen.
— Nunca a usei muito na arena, mas foi você quem me ensinou o básico. "Postura refinada, braços firmes, mas flexíveis a partir do cotovelo", não foi isso?
Executou alguns passos de luta ao redor de Gowen, brandindo a espada com graça. Shique então exclamou, surpreso. Orba piscou para ele com um sorriso malicioso.
— Será que... não, mas... a voz é bem parecida... m-mas...
Orba avançou em direção a Shique, que parecia incapaz de chegar a uma conclusão. Shique desviou do golpe com facilidade, recuando instintivamente.
— Posso marcar seu rosto? Seria um símbolo do nosso laço — Orba disse, sorrindo. Enquanto Shique engolia em seco, Gowen gritou:
— Orba! — A voz ecoou, descontrolada.
Os dois sentaram-se à mesa, ainda atordoados, e pareciam não ter esclarecido todas as dúvidas. Ouviram com espanto enquanto Orba explicava como as coisas haviam chegado àquele ponto. Ninguém o interrompeu, e Dinn continuou servindo os três com expressão amuada.
— Hmm — Gowen grunhiu. — Vivi muitos anos e nunca ouvi algo tão estranho. Mas, sem a máscara, seu rosto realmente parece com o do príncipe. Sabia que ele era jovem, mas não tanto.
— Pensei o mesmo — Shique disse, já completamente à vontade. — Na verdade, você não está mais bonito assim?
Gowen balançou a cabeça.
— Mas é prudente revelar isso para nós? Não é segredo de Estado?
— Não é prudente de forma alguma — Orba respondeu rápido. — Mas fingir ser príncipe sozinho é sufocante. Pensei que pelo menos vocês saberiam manter a boca fechada.
— Ohhh?
— O que foi esse olhar?
Shique estreitou os olhos, fazendo Orba virar o rosto, desconfortável.
— Enfim, deixa pra lá. Vocês se acostumarão com meu rosto.
— Não é isso, Orba. Não é sobre a máscara ter caído. Algo no seu "ar" mudou.
— Meu ar?
— O gladiador em você parece ter sido esmagado por algo invisível... mas seus
olhos agora brilham o tempo todo. Antes, você passava uma aura perigosa que
assustava os outros lutadores. Agora, parte de você parece... mais leve.

— No entanto, ao fingir ser o príncipe herdeiro, parece que carrego o peso deste país nas costas? Você está subestimando Mephius.
— Mesmo assim — Shique retrucou com um sorriso enigmático.
Estranhamente sentindo-se tratado como criança, Orba começou a ficar irritado.
— De qualquer forma — Gowen interveio. — Se você foi treinado como sósia antes do casamento, significa que já esperavam um ataque como o de hoje?
Shique também ficou sério e balançou a cabeça.
— Isso seria estranho demais, não? Todos os soldados de Mephius foram pegos de surpresa. Se não fossem suas ordens, Orba, estaríamos ainda confusos, e tanto o príncipe quanto a princesa poderiam ter sido mortos pelo atirador.
Como esperado de um espadachim experiente, sua análise era precisa. Orba serviu mais vinho para Gowen, que esvaziara o copo.
— Ah.
Gowen sorriu forçadamente, ainda desconfortável com a situação.
— Tarkas não demonstrou nenhum sinal de que sabia de algo?
— N-Não. Ele insiste que não sabia de nada... e não é do tipo que dissimula. Provavelmente está dizendo a verdade.
— Mas os que tentaram matar a princesa Vileena eram novatos trazidos por ele. Se ao menos tivéssemos capturado um vivo...
Shique mordeu os lábios vermelhos. Era impossível prender alguém no meio do caos. Apenas um homem fora capturado por Orba e agora estava sendo interrogado — ou torturado.
— E Hou Ran? Ela domina os dragões melhor que ninguém. Deveria saber algo sobre o ataque.
— Estão interrogando-a sobre drogas. Ela deixou que um novato cuidasse dos dragões, o que é suspeito. Mas minha opinião sobre Tarkas melhorou. Mesmo sendo da Fé Ryuujin, ele continua defendendo Hou Ran, embora o conselho provincial já a considere culpada.
— Então Tarkas pode ser um bom sujeito?
— Segundo ele, um mercador ofereceu apoio financeiro para o grupo participar dos jogos. Aceitou sem pensar e teve que admitir os novatos como contrapartida.
— Esse mercador deve ser alguém importante em Mephius, não?
— Se fosse só isso... — Gowen, já recuperando a calma, franziu a testa. — O problema é que só temos a palavra de Tarkas. Não há provas. Seja quem for, não será um inimigo comum. Algo maior está por trás disso.
— O Reino de Garbera? — Shique sugeriu.
— Garbera está envolvido, sem dúvida.
Orba mediu as palavras. Os soldados que enfrentara no túnel claramente respeitavam a princesa Vileena, o que tornava tudo mais confuso. Segundo Shique, tanto ele quanto a princesa estavam na mira do atirador. Por que ajudariam-na a voltar para casa só para matá-la?
Gowen coçou o queixo.
— Ende também poderia estar por trás disso, buscando vingança contra Mephius e Garbera. Se os dois países se aliarem, Ende seria o primeiro a cair.
— Não está se precipitando? Isso daria a Mephius motivo para atacar Ende.
— Verdade — Orba concordou. — Principalmente se ambos os nobres fossem mortos. Mephius e Garbera, antes inimigos, se uniriam para retaliar.
— Ohhh. Que discurso principesco!
— Cale a boca.
De repente, vozes agitadas ecoaram na entrada, tensionando o ambiente. Os guardas barravam alguém. Gowen e os outros se prepararam para um possível ataque.
— Lamentamos. Retornem a seus aposentos — ouviu-se a voz polida dos guardas.
Sem pestanejar, Orba ordenou:
— Dinn, deixe-os entrar.
— Príncipe, outra vez por sua conta...
— Está tudo bem. Pode revelar meu status social se quiser.
— Se eu fizer, você será enforcado! — resmungou Dinn, mas obedeceu. Ao abrir a porta, porém, recuou surpreso.
Gowen e os outros puseram-se em pé de imediato. Orba, que também não esperava por aquilo, surpreendeu-se interiormente.
Com as mãos entrelaçadas à frente da cintura, caminhando com graça mas determinação, entrava a princesa Vileena de Garbera. Atrás dela, sua dama-de-companhia Theresia seguia com expressão igualmente resoluta.
— Embora seja impróprio para uma dama Garberana entrar nos aposentos do noivo antes do casamento, as circunstâncias nos forçam a esta rudeza. Perdoe-nos, príncipe Gil.
Theresia foi a primeira a falar, curvando-se. Como a cerimônia fora interrompida, Gil e Vileena ainda não eram oficialmente casados. Orba, usando novamente a máscara do príncipe, ofereceu-lhes assentos, mas Vileena permaneceu em pé.
— Peço que ouça, apesar de minha falta de educação.
Seu tom era o de um soldado prestes a entrar em batalha. Ela afirmou veementemente que Garbera não estava por trás do ataque e não desejava reacender o conflito com Mephius.
— Mas — Orba interrompeu. — Esse Ryucown não é de Garbera?
Ao ouvir o nome, Vileena baixou os olhos por um instante, mordendo o lábio antes de recompor-se.
— Sim. Quando meu país for informado, Ryucown será destituído de seu título e perderá a nacionalidade.
— Então foi um plano só dele?
— É o mais provável. Os soldados que tentaram me raptar usaram seu nome. E atualmente, só ele em Garbera teria força para atacar Mephius assim.
— Ryucown?
— Exatamente.
— Que tipo de homem é ele?
Seus olhos negros arregalaram-se ante a pergunta inesperada. O tom suave de Orba a pegou desprevenida.
— Bem... já o conheci.
Ryucown vinha de um clã poderoso em território recentemente anexado por Garbera. Seu avô servira à coroa, mas seu pai perdeu terras em conflitos e a família caiu na obscuridade. Aos dez anos, Ryucown já comandava uma unidade militar. Aos treze, obteve seu primeiro feito de armas. Aos vinte, acumulava tantas conquistas que se tornara impossível ignorá-lo, apesar da resistência dos duques "puritanos".
Aos dez anos, Ryucown já comandava uma unidade como cavaleiro aprendiz. Após seu primeiro feito militar aos treze e inúmeras conquistas até os vinte, diziam que ele simplesmente não conseguia ascender além desse posto.
O título de “Cavaleiro” não era familiar em Mephius, então Vileena explicou como sendo um nobre entre guerreiros. Em Garbera, todos que lideravam tropas sob o rei eram cavaleiros. Embora nem todos os nobres o fossem, um plebeu jamais poderia se tornar um. Ryucown, visto como um estrangeiro pelos duques mencionados anteriormente, enfrentava dificuldades para ser promovido.
A história retrocedeu cinco anos.
Naquela época, uma rebelião eclodiu contra a família real de Garbera.
Um homem chamado Bateaux, que aspirava liderar os duques, aliou-se a clãs locais assimilados por Garbera anos antes e tornou-se o líder da revolta. Embora suspeitassem de envolvimento de Mephius, Vileena evitou mencionar isso.
Com nove anos na época, Vileena estava visitando a propriedade de seu avô, Jeorg Owell, quando Bateaux atacou o palácio à meia-noite.
Jeorg, já aposentado, lutou bravamente com poucos homens, mas os reforços não chegaram. Vendo a futilidade de mais mortes, ele se rendeu. O palácio foi tomado, e Jeorg, Vileena e outros tornaram-se reféns.
Ferido durante a batalha, Jeorg sofreu graves ferimentos que o deixaram acamado. Sem médicos ou medicamentos suficientes, os sobreviventes definhavam a cada dia.
Foi então que a pequena Vileena assumiu o lugar do avô nas negociações. Com corpo de criança, mas coragem de leoa, ela argumentou com Bateaux:
— Mantenha-me como refém, mas liberte meu avô ferido, os soldados e as mulheres.
Impressionado, Bateaux libertou metade dos prisioneiros, mas manteve Jeorg entre os reféns.
A rebelião, inicialmente bem-sucedida, desintegrou-se em disputas internas pelo poder. Um mês depois, apenas Bateaux permanecia no palácio, cercado e sem provisões, disposto a morrer lutando.
A determinação de Bateaux, porém, minou o moral de suas tropas. Entre os reféns, surgiram colaboradores. Alguns vigiavam os canais subterrâneos do castelo e, certa noite, criaram uma brecha na segurança.
— Fuja com seu avô — sussurraram a Vileena.
Ela recusou.
— Se fugirmos, Bateaux descobrirá a rota de fuga e matará os que ficarem.
Jeorg, acamado mas lúcido, concordou com a neta. Vileena então desenhou um mapa detalhado do palácio e entregou-o a um jovem refém:
— Leve isto às tropas de Garbera lá fora.
Com essa informação, um grupo de elite infiltrou-se pelos canais. Vileena guiou-os até os reféns, que foram resgatados em silêncio.
Entre esses soldados estava Ryucown, então com 23 anos. Ao seu sinal, o exército atacou. Enquanto as defesas se distraíam, Ryucown avançou sozinho e decapitou Bateaux com suas próprias mãos.
Que impressionante..., pensou Orba, admirando secretamente não Ryucown, mas a pequena Vileena, negociando com rebeldes aos nove anos e arquitetando planos com o avô.
Após sua atuação heroica, Ryucown finalmente recebeu o título de cavaleiro por recomendação pessoal do rei Jeorg. Sua ascensão foi meteórica: em termos Mephianos, equivaleria a tornar-se oficial de dragões alados.
Ryucown destacou-se nas batalhas contra Mephius e, pouco depois, foi prometido em casamento a Vileena, numa tentativa de unificar o país.
— Se tivesse que descrever o caráter do general Ryucown em uma palavra — Vileena disse, os lábios curvando-se levemente — seria "honesto". Ele é incapaz de enganar. Aos outros... e a si mesmo.
— A si mesmo?
— Sim — ela confirmou. — Se acreditar que meu casamento com Mephius trará paz, ele se oporá ainda mais. Não por perder sua chance de se casar com a família real, detesto que suspeitem disso, mas porque odeia deixar a luta contra Mephius sem conclusão. Ele personifica o orgulho e a coragem de um cavaleiro como ninguém.
— Isso não reflete o sentimento de toda Garbera?
— Não — Vileena saiu de seu devaneio, erguendo as defesas. — Muitos admiram Ryucown, e generais se opuseram ao casamento. Mas isso é apenas teimosia masculina. Na corte e no país, a maioria deseja o fim da guerra.
— E a senhorita Vileena?
— Eu? Claro.
A mão sobre o peito, seus olhos escureceram com uma tristeza precoce.
— Meus soldados estão exaustos, meu povo sofre há muito tempo. Ninguém deseja mais que eu essa aliança com Mephius.
Ela encarou Orba sem hesitar, revelando pela primeira vez a pessoa por trás da princesa. Seu olhar não deixava espaço para dúvidas.
Exatamente o que irritou Orba.
— Seu povo, hein? — ele provocou. — A guerra começou por capricho da realeza, sem considerar o povo. Agora querem terminá-la pelo mesmo motivo. Nascer em posições diferentes nos torna estranhos uns aos outros. Melhor seria nunca ter começado essa guerra! Assim, uma princesa não precisaria se sacrificar num casamento indesejado.
— Então... o príncipe também não deseja este matrimônio?
— Não somos iguais? Ontem, esses “líderes” causaram banhos de sangue. Hoje nos damos as mãos e fazemos as pazes. Enquanto isso, os que não queriam lutar, ou os que encontraram algum significado na guerra, apodrecem em pilhas de cadáveres! Que tipo de paz é essa?
— Isso é...
Vileena engoliu as palavras no instante em que as pronunciou. Embora Orba pudesse ter razão em culpar a família real, suas bochechas pálidas logo se incendiaram de vermelho e ela ergueu a voz:
— Você pode falar dos assuntos alheios, mas foi sua família imperial que arrastou seu povo e soldados para a guerra contra nós! Sua falsa ignorância não é senão uma traição aos que morreram em seu nome! Nós dois nascemos em famílias reais. É nosso dever devotar-nos aos interesses da nação. Não podemos evitar suprimir alegrias ou vontades pessoais. É natural que as pessoas louvem nosso sangue superior e se ajoelhem perante nós. Sem essa consciência, não apenas usurpadores, mas o próprio povo se levantaria contra a realeza.
— SANGUE SUPERIOR ? NÓS SUPERIORES? — Orba gritou, a voz ecoando como um chicote.
Quando vivia na miséria, a ideia de "realeza" jamais cruzara sua mente. Ouvir a palavra "superior" da boca de Vileena foi como levar um soco de arrogância e escárnio.
— Entendo. Como alguém nascida "superior", você pode brincar com a vida de seus súditos. Decide quem vive e quem morre. O "orgulho" do seu reino não passa de retórica vazia quando você muda as regras para vencer. Suprimir suas vontades, hein? Que diversão há em ver centenas, milhares, dezenas de milhares de pessoas, cada uma com seus próprios sentimentos, matando-se entre si!?
— Você…!
Vileena avançou furiosa, mas Theresia interceptou-a, segurando seus braços:
— Princesa!
Do outro lado, Orba também dera um passo à frente quando Dinn tentou contê-lo. Gowen e Shique ajudaram a segurá-lo.
— Soltem-me, caramba!
— ( Chega, Orba ) — sussurrou Shique em seu ouvido. — ( Há gente chegando. Se descobrirem que você é um sósia agora, a paz com Garbera estará perdida. )
— Ach a que eu não s ei ? — Orba rosnou.
Gowen completou, pressionando-o:
— ( Se vazarem que a cerimônia foi feita por um impostor, nem Garbera nem a família imperial de Mephius pouparão sua vida. Então qual foi o sentido de sobreviver dois anos como gladiador? Era esse futuro que você queria? )
— Solte-me, Theresia! Imediatamente!
Vileena se debatia, os olhos ardendo de fúria.
— Princesa, acalme-se! — Theresia insistia. — Que comportamento é esse? Não pode enganar meus olhos, você estava prestes a esbofetear o príncipe!
— Aquele insolente! Pisoteia o orgulho da realeza de G arbera com a cara de uma criança que nada sabe! Por que não bateria nele? Seria uma lição merecida!
— Sua verdadeira face está aparecendo! Controle-se!
O tumulto lembrava crianças brigando em um estábulo de dragões. Foi então que um novo personagem adentrou a sala — os guardas tentaram anunciá-lo, mas os gritos abafaram sua voz.
— Príncipe! Princesa de Garbera! — bradou Fedom Aulin, os olhos arregalados diante da cena caótica.
— O que significa isso numa hora desses? Lady Vileena, mesmo numa situação como esta, contenha seus impulsos.
Os dois não responderam, limitando-se a trocar olhares assassinos. Fedom tossiu e prosseguiu:
— Bem, é conveniente que ambos estejam aqui. Naves de nosso país acabam de chegar com um comunicado urgente.
Ele exibiu o documento com uma expressão que denunciava seu próprio choque.
— Ontem ao amanhecer, a Fortaleza Zaim, na fronteira com Ende, foi ocupada por um exército autodenominado "Força Ryucown". Alegam representar Garbera legitimamente, com total apoio da família real.
— Impossível!
Vileena empalideceu como se atingida por um raio. Orba quase comentou que ela merecia, mas reprimiu o pensamento.
— O Imperador Guhl Mephius concluiu que o ataque durante a cerimônia também foi obra de Ryucown. Diante desse ato vil que fere a dignidade nacional e as esperanças do povo, nossa Dinastia exige retribuição. Tropas serão enviadas sob comando do príncipe herdeiro, Gil Mephius, para subjugar Ryucown.
— O quê!?
— Em acordo emergencial com Garbera, obtivemos permissão para cruzar suas fronteiras. Sem passar pela capital imperial, o príncipe deve partir imediatamente para a Cidade Fortaleza de Idoro, no leste.
Ao terminar, Fedom suspirou profundamente. O silêncio que se seguiu foi quebrado quando Orba percebeu, aquela primeira campanha seria sua.
Tradução: Rudeus Greyrat
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