Nageki no Bourei wa Intai shitai |
Let This Grieving Soul Retire
Volume 02 – Capítulo 07
[Abismo]
Sob as ruas da capital, na rede labiríntica de esgotos, Sophia Black caminhava firmemente sobre o pavimento escorregadio, enfrentando o fedor repulsivo e a escuridão opaca. Um fluxo de esgoto corria ao lado da passagem; ratos e baratas corriam pelos cantos de sua visão.
Uma fonte de luz fraca iluminava o túnel de vários metros de largura, projetando nenhuma outra silhueta além da dela. O capuz de seu robe cinza surrado e folgado havia caído sobre seus cabelos flamejantes; seus olhos, igualmente ardentes, permaneciam inexpressivos.
No fim das contas, Sophia havia investido fundos exorbitantes, tempo, além de seu próprio sangue e suor em sua pesquisa, apenas para vê-la ser interrompida, deixando muitas perguntas sem resposta. Ela duvidava que o trabalho revolucionário de seu mestre, agora que os documentos haviam sido apreendidos pelo império, chegasse a qualquer resultado tão cedo. Os materiais para criar o dispositivo que interrompia o fluxo de mana já eram raros por si só; agora, não havia chance de Noctus adquiri-los dentro das fronteiras do império.
Sophia começou a buscar se tornar aprendiz de Noctus Cochlear quando descobriu sua tese escondida nos recessos de uma biblioteca proibida. A teoria era brilhante, mas, acima de tudo, o que realmente a atraiu foi a obsessão dele pela verdade universal — a sede ardente por conhecimento que o levou a pesquisar temas proibidos pelo mundo, apesar do risco de perder seu título, sua posição e sua reputação. E, antes que percebesse, Sophia já estava à sua procura, sem nunca duvidar de que o autor de tal tese jamais deixaria um mero banimento ficar entre ele e sua pesquisa.
Sophia precisava de poder. Sua busca solitária por conhecimento havia estagnado, e ela ansiava por um mentor excepcional e colegas que compartilhassem sua ambição.
Encontrar Noctus foi desafiador, para dizer o mínimo, especialmente quando nenhum registro indicava se ele estava vivo ou morto. Quando finalmente o encontrou em Zebrudia — de todos os lugares, justamente de onde ele havia sido banido — Sophia tremeu de alegria.
Agora que tudo havia acabado, parecia que ela não tinha passado tempo suficiente com ele. Ela esperava que o império investigasse a pesquisa deles eventualmente, mas não tão cedo. Soro de transmutação, Devoradores de Malícia, Akasha, etc. Todas as descobertas no desenvolvimento de armas feitas sob a direção de Noctus haviam sido confiscadas, mas, para Sophia, nem tudo estava perdido ainda.
Sua mente agora estava focada em uma arma — criada a partir de uma sede ilimitada por conhecimento — tão perigosa quanto qualquer uma de Noctus. Era uma arma que havia sido selada devido ao seu extremo perigo — a ignóbil arma biológica capaz de reduzir a capital a ruínas: a Slime Sitri.
Ela estava caçando a criatura, que provavelmente estava solta no sistema de esgotos. Slimes, por mais letais que fossem, agiam por instinto, o que os tornava fáceis de rastrear para quem compreendesse sua natureza. Levando em conta os vermes e insetos dos quais a slime devia estar se alimentando, Sophia estava reduzindo suas possíveis localizações.
Ela estava determinada a ver isso até o fim, depois de recorrer a todos os meios nefastos que possuía para avançar em sua pesquisa. Por Noctus, por seus companheiros aprendizes e por si mesma, ela faria o que fosse necessário.
Sophia continuou sua caminhada pelos esgotos, completamente sozinha.
Alguns dias após a conclusão da investigação sobre o Covil do Lobo Branco, eu estava sentado de frente para Gark em uma sala de reuniões dentro da filial da Associação dos Exploradores na capital. Kaina estava atrás dele, e um dos agentes do Bureau de Investigação de Relíquias estava sentado ao seu lado, claramente mal-humorado. Ao meu lado, Eva estava sentada com uma postura impecável e um olhar resoluto. Palavras não eram suficientes para expressar o quanto eu apreciava sua companhia, já que ela tinha ainda menos responsabilidade sobre toda essa confusão do que eu.
Gark franziu as sobrancelhas em um vinco demoníaco, como sempre fazia, e rosnou:
— Você não sabe de nada?!
— Infelizmente, não — respondi.
— Krai, você realmente acha que eu vou acreditar nisso? — disse ele, agora mais exasperado do que irritado.
Tudo o que aconteceu no Covil do Lobo Branco e nos arredores tomou proporções muito maiores do que eu imaginava. Apesar da ordem de silêncio imposta pelo império, Eva estava me sussurrando alguns detalhes ao pé do ouvido. Cada vez mais cavaleiros da Terceira Ordem podiam ser vistos nas ruas nos últimos dias, aparentemente em alerta máximo para caçar remanescentes da Torre Akáshica (eu nunca tinha ouvido falar dela antes, mas me disseram que é uma infame organização mágica).
Por algum motivo, eu sempre era convocado para a Associação em situações como essa. Eles esperavam que o incrível Caçador de Nível 8 liberasse seu poder divino ou algo assim — essas eram apenas tentativas patéticas de espremer um oceano de sangue deste pobre nabo de Nível 8. Eu costumava temer esses chamados, mas agora mantinha a cabeça erguida — não havia como me culpassem de nada.
Enquanto eu me sentava ali, indignado, Gark coçou a cabeça e disse, num tom que quase soava compassivo:
— Eu não sei o que você está tramando, Krai, mas não há vergonha em pedir ajuda. Vamos fazer o que pudermos.
Não há vergonha em pedir ajuda?! Por que você está agindo como se eu devesse estar no comando aqui?! Você é quem deveria estar resolvendo tudo, não só fazendo o que pode! pensei, sem demonstrar um pingo de indignação no rosto. Quando é que vocês vão acreditar que eu não fiz nada? Que eu não sei de nada?!
— Postos de controle foram estabelecidos por toda a capital, e também há recompensas pelas cabeças deles. Estou enviando quantos caçadores posso, mas, até agora, nada. As chances são de que eles ainda estejam presos na cidade. Se aquele que Liz nocauteou acordar, poderemos começar os interrogatórios... mas, por enquanto, nada — disse Gark.
— Vamos parar de rodeios, Gerente de Filial — disse o agente do Bureau de Investigação de Relíquias, que não parava de me encarar.
O Bureau de Investigação de Relíquias, uma agência nacional encarregada de pesquisar Relíquias, cofres e espectros, tinha muito poder dentro do império e trabalhava mais de perto com caçadores do que qualquer outra agência. Mais importante ainda, minha extraordinária incompetência me colocou profundamente na lista negra deles.
— Mil Truques, estamos bem cientes de suas práticas secretas. Também admito que, seja qual for sua fonte de informações, sua capacidade de reconhecimento às vezes supera a nossa. É natural que um caçador de tesouros esconda suas estratégias, mas essa... bagunça foi longe demais para ser apenas mais um dos seus Mil Testes.
Eita. Eu já sabia que os membros do clã tinham começado a chamar minhas decisões mais impulsivas de “Mil Testes”, para meu grande constrangimento, mas não esperava que o termo tivesse se espalhado para além do clã. Eu queria me encolher no sofá, mas me forcei a manter a expressão neutra.
Como se estivesse me sentenciando à morte, o agente continuou:
— Experimentar com material de mana constitui um dos dez crimes capitais. Em
uma emergência nacional como esta, todo cidadão do império tem o dever cívico
de cooperar com as autoridades. Acredite, a Agência preferiria não ir contra
um Ladino de Nível 8, mas esteja avisado: ocultar qualquer informação pode
resultar em acusações criminais, Krai Andrey. Estamos preparados para usar as
Lágrimas da Verdade, se necessário.
O tom dele deixava claro que estava falando sério, reforçado pelo olhar carrancudo de Gark ao lado dele.
As Lágrimas da Verdade eram uma das Relíquias mais famosas sob posse do império. Tinham o poder de detectar mentiras, mas, por serem únicas e por violarem de certa forma os direitos humanos, seu uso envolvia uma burocracia imensa. Mesmo contra criminosos, a Agência raramente autorizava sua utilização. O fato de o agente já tê-las à disposição significava que o império estava levando essa investigação muito a sério. O mais bizarro era que, apesar do meu histórico impecável, já tinham me submetido a essa Relíquia mais de uma vez.
Mesmo com o agente me encarando como se eu fosse um gênio do crime, me dando calafrios, proclamei bem alto:
— Pode mandar ver!
E gritei ainda mais alto e mais longo:
— Pooooode mandar veeeeeer!
O agente, que antes me julgava friamente, agora coçava a cabeça em frustração.
O que você esperava de mim? Quase soltei essa.
Além disso, como um verdadeiro entusiasta de Relíquias, eu jamais perderia a oportunidade de ver as Lágrimas da Verdade em ação—aquilo era uma obra de arte, um tesouro nacional.
Não era problema meu. Eu não estava mentindo; realmente não sabia de nada.
— Chega! — berrou o agente. — Como você sempre consegue burlar a detecção das Lágrimas da Verdade?! Toda vez que as usamos em você, a confiabilidade da Relíquia é colocada em xeque! Além disso, ninguém na história do império jamais ficou feliz por ter sido submetido a elas!
O que eu podia dizer? Eu era um homem honesto de ponta a ponta. Era tão enigmático para mim quanto para eles o fato de estarem sempre tão certos de que eu escondia alguma informação valiosa. Já tinha dito incontáveis vezes que eu era um inútil—e de nada adiantava. Se queriam culpar alguém, culpassem a Associação por me dar Nível 8.
Nos olhos de Eva, que antes estavam fixos em mim com desprezo, brilhou um relance de escárnio antes de se voltarem ao agente.
— Agente Adrian — disse ela —, como bem sabe, a lei do império regulamenta
estritamente o uso adequado das Lágrimas da Verdade. Krai não foi acusado de
crime nem admitiu ocultar qualquer informação. Se pretende usá-las contra um
cidadão cumpridor da lei com base apenas em um palpite infundado, estamos
preparados para protestar por vias oficiais.
E foi assim que descobri o nome do agente.
A expressão carrancuda de Adrian não teve efeito algum sobre Eva, que se manteve sentada de forma ereta e resoluta como sempre.
Ela daria uma ótima líder de clã.
O clima na sala de reuniões estava tenso, mas eu sou do tipo que faz amizade até com policiais. Então, bati palmas e intervim:
— Já chega. Eu realmente não sei nada sobre eles, mas a Sitri disse que tinha
um histórico com o grupo, então vocês deviam perguntar a ela. Ela disse que ia
resolver isso de qualquer jeito.
A sombra que cruzou o rosto de Adrian foi acompanhada por um murmúrio:
— Sitri Smart...
Gark parecia carregar toneladas de pesos invisíveis nos ombros, e Kaina me lançou olhares apologéticos. O nome de Sitri não surgia em nossas conversas todos os dias, porque ela e a Associação tinham uma história complicada. Sitri já tinha superado tudo há tempos, mas aparentemente o incidente ainda pesava no coração de Gark.
— Permita-me pedir desculpas pessoalmente por aquele caso como agente imperial, ainda que minha agência não tenha tido envolvimento no ocorrido. Também gostaria de agradecê-la—afinal, ela é uma valiosa caçadora de tesouros — disse Adrian.
— Digo... A Sitri não liga muito — respondi, omitindo o fato de que a visão dela sobre justiça criminal havia mudado naquele dia.
— O caso já foi encerrado, o que torna revogar a penalidade muito difícil. Já tentaram reabrir algumas vezes no passado, mas as evidências circunstanciais eram convincentes demais... Seu apelido pode mudar quando ninguém mais a chamar por ele, mas ser membro dos Grieving Souls dificulta as coisas para ela.
Mais de três anos atrás, Sitri foi envolvida em um certo incidente e listada como a principal suspeita. Apesar de as acusações criminais terem sido retiradas por falta de provas concretas, a Associação cedeu à pressão e aplicou a pior punição possível: revogar seus níveis e marcá-la com um título desonroso. Esse resultado provavelmente foi um compromisso entre a Associação, que tentava proteger seus caçadores, e a Terceira Ordem, que, após investigações exaustivas, não encontrou nenhum outro suspeito à altura. O escândalo foi enorme, com a ordem dos cavaleiros colocando todos os seus recursos na solução do caso. Se alguém tivesse falsificado provas contra ela, Sitri poderia ter sido condenada injustamente; dadas as circunstâncias, eu diria que Gark fez bem em manter uma ponta de dúvida sobre a culpa dela.
Mas eu jamais esqueceria a Sitri que—apesar do sorriso estampado no rosto com toda a ousadia que conseguia reunir—estava arrasada por dentro. Nem esqueceria a impotência que senti ao não poder protegê-la daquele veredicto difamatório. Ela já tinha voltado ao seu jeito de sempre desde então. Ainda assim, aquele incidente me fez perceber o quão sensível Sitri era por trás de sua fachada, enquanto eu tentava de tudo para consolá-la, só para ver minhas palavras de apoio escorregarem por sua superfície como espaguete em uma frigideira antiaderente.
— Resolver este caso certamente ajudaria o dela. Sua contribuição para este país como Alquimista tem sido altamente valorizada. Não deve demorar muito para que seu nome seja restaurado — disse Adrian. Pelo visto, ele estava do lado de Sitri, provavelmente porque ela havia se destacado na investigação do Covil do Lobo Branco.
Com o ânimo um pouco mais elevado, Gark disse:
— Houve muitos feridos, mas tivemos sorte de não haver nenhuma vítima fatal.
Isso foi um milagre, considerando o calibre das forças contra as quais
lutamos. Vamos ficar muito ocupados nesta cidade... De qualquer forma, o que a
Sitri está fazendo?
Cobrindo meu rastro, procurando pelo Slime da Sitri. Mas eu preferia engolir uma cápsula do Slime da Sitri a admitir isso.
— Não sei — respondi. — Bem, falo com ela se encontrá-la.
Depois de finalmente sair daquela reunião intensa na Associação, segui para o salão do clã, à procura de Sitri.
Embora já tivessem se passado três dias, o salão ainda estava repleto de caçadores exaustos até os ossos. A missão deve ter sido um inferno, pois eles estavam com expressões pacíficas, mas sem vida nos olhos… como se já tivessem um pé no além. Os funcionários do clã que cuidavam do salão corriam de um lado para o outro, desviando-se das garrafas e barris de bebida espalhados pelo local. Mas eu não me lembrava de terem servido álcool na sede do clã.
Enquanto as brasas do caos ainda ardiam pela cidade, pelo menos a Primeiros Passos começava a voltar ao normal.
Vão beber num bar, pensei. Coloquem esses bônus em bom uso.
— Outra provação insana... Achei que nunca mais veria a luz do sol.
— Nem me fale… Estávamos em tantos: Sven, Gark, e até a Liz… Achei que seria moleza.
— Se só metade de nós tivesse ido, nenhum teria voltado vivo.
— Slimes... Eles estão debaixo da minha cama... Quimeras... Do lado de fora da minha janela... O golem... Nos meus pesadelos...
— Eu vou sair... Vou largar esse clã tóxico de vez...
— É isso! Assim que essa confusão acabar, eu vou me casar. Tá ouvindo?! Eu vou casar depois disso tudo!
— O Mestre é um deus... O Mestre é um deus...
Que vida dura os caçadores levavam… exceto por uma garota que claramente não tinha sofrido tanto quanto os outros.
Mesmo notando minha presença ao entrar, ninguém fez questão de se levantar ou sequer endireitar a postura. Como eu havia prometido apoio total ao Gark, me senti mal por vê-los nesse estado.
— Foi mal. Não achei que as coisas fossem ficar tão complicadas... Vocês sabem, nosso clã tem um nível bem alto, então...
— Claro que a vida é fácil pra você! — Lyle gritou, soluçando e batendo o punho na mesa onde se apoiava. — Você derrotou aquele golem com um golpe só! Mas nós não somos como você! Por tudo que é mais sagrado, tenha piedade de nós!
Não consegui segurar uma risada. Lyle, um brutamontes com cara de poucos amigos, estava desmoronado sobre a mesa, o rosto molhado de lágrimas.
Foi tão difícil assim?
— Me ensina! Me ensina esse golpe, Krai! — ele choramingou.
— Força de vontade. É só isso que precisa. — Falei, impassível.
— Força de vontade?! — Lyle berrou. — Você tá de sacanagem?!
Ainda bem que todos voltaram, pensei.
A morte era um risco constante nesse ramo, mas perder amigos nunca ficava mais fácil. Decidi deixar passar a situação lastimável do salão, só dessa vez.
Enquanto isso, os caçadores que ainda tinham forças para falar continuavam a conversa.
— Alguém viu a Talia? A gente combinou de se encontrar aqui...
— Não. Deve estar em casa ou no laboratório. Ela falou que a missão foi mais difícil do que esperava.
Como imaginei que meus caçadores feridos não conseguiriam descansar de verdade com minha presença, resolvi subir para o andar de cima depois de notar que Sitri também não estava no salão. E, com um último olhar para aquele cenário pacífico após um trabalho bem-feito, saí do salão.
Olhando para trás, Noctus conseguia lembrar de vários indícios de que Sophia estava operando como infiltrada. Para começar, ela tinha acesso às informações internas da Primeiros Passos. Embora tenha subestimado o envolvimento do Mil Truques, foi a primeira da equipe dele a saber do retorno de Sitri e também estava ciente da ausência dos outros Grievers na capital. Nunca ter aparecido no esconderijo desde a chegada dos caçadores também era estranho. Além disso, ela dava apenas direções mínimas através das Pedras Falantes e, muitas vezes, ficava em silêncio mesmo com a conexão ativa.
Sophia sempre dizia que era por estar ocupada com os preparativos, mas agora Noctus entendia que ela simplesmente não podia atender a Pedra na presença dos caçadores. Isso também explicava por que ela pareceu tão abalada ao telefone depois da derrota de Flick. Mesmo a gelada Sophia não poderia ser culpada por reagir daquela forma ao ser atacada por um aliado que tinha enlouquecido e lançado um feitiço potencialmente letal contra ela, mesmo que sem querer.
Noctus também se lembrou de como ela sumia regularmente enquanto trabalhava com os outros aprendizes e de como sabia demais sobre os Grievers, chegando ao ponto de designá-los como alvos teóricos ao criar Akasha. Tudo fazia sentido se ela estivesse se passando por membro da Primeiros Passos o tempo todo.
Se infiltrar era uma das formas mais eficazes de obter informações — e uma das mais arriscadas.
O preço que ela pagou, tendo que agir como caçadora enquanto continuava suas pesquisas, foi enorme. Se seu disfarce fosse descoberto, as consequências poderiam ter sido desastrosas. Os riscos eram tão grandes que, se tivesse tido escolha, Noctus teria proibido Sophia de se infiltrar.
Mas ele também sabia que a garota era perfeitamente capaz de enganar até ele próprio.
Ele havia atribuído seu silêncio recente à cautela enquanto estava cercada por caçadores. Como as Pedras Falantes eram itens altamente valiosos e tinham uma função específica, se fosse pega no flagra, certamente seria questionada sobre com quem estava se comunicando.
Ela está tramando algo de novo?
Com os olhos semicerrados em contemplação, Noctus se recostou na cadeira. Conhecia Sophia bem demais para acreditar que ela desistiria da luta, mesmo depois de testemunhar o poder inexplicável do Mil Truques.
Chega, pensou. Cancele tudo. Não há mais nada que possamos fazer.
Agora só restava o próprio Noctus, e ele não era tolo o bastante para enfrentar o império sozinho. Retirar-se, às vezes, era a melhor estratégia. Talvez essa fosse a única falha de Sophia: sua incapacidade de enxergar isso.
— Professor Noctus, conseguimos resgatar Sophia. Ninguém nos seguiu. — anunciou o Ladino ao entrar pela porta do esconderijo, trazendo uma garota consigo.
A garota tinha cabelos e olhos na cor de chamas ardentes; sua figura era frágil, mas com traços femininos. Seu rosto inocente não traía seu passado como uma Alquimista rejeitada — mas, naquele momento, exibia algo incomum: medo.
Nem Noctus, nem o Ladino jamais haviam visto Sophia com aquela expressão.
Além disso, ela usava um par de óculos de aro grosso, algo que Sophia nunca usava. Com o cabelo trançado e um traje diferente de seu estilo habitual, parecia outra pessoa, bem distinta da Sophia que o sindicato conhecia.
Flick poderia ter zombado de sua aparência em outras circunstâncias, mas agora Noctus e sua equipe olhavam para ela apenas com respeito e silêncio.
Por mais que seu trabalho infiltrado não tenha garantido a vitória contra o Mil Truques, ninguém ali podia negar o quanto Sophia havia sacrificado pela causa.
Ali parada, ela parecia confusa.
— Sua perseverança não ficará sem recompensa — disse Noctus.
Sophia olhou ao redor e deu um passo para trás.
— O quê? O-onde... estou? Quem é você...?
Sua voz tremia com uma incerteza que ninguém da equipe de Noctus jamais havia ouvido antes. O terror brilhou em seus olhos de um jeito que quase fez os outros aprendizes acreditarem que aquela não era Sophia. Eles a observavam, atônitos com a postura completamente oposta a tudo o que conheciam sobre Sophia Black.
— Chega dessa encenação — disse Noctus. — Estamos deixando a capital, um recuo temporário, Sophia. Os resultados dos meus experimentos continuam vivos dentro do meu crânio. Felizmente, ainda temos um Devorador de Malicia. Deve ser o suficiente como guarda caso encontremos problemas no caminho.
— O quê...?!
O espanto tomou o rosto de Sophia ao notar Flick, e ela recuou mais alguns passos.
— O que te preocupa? — perguntou Noctus. — Não a culpo por esse resultado. Se quisesse puni-la de alguma forma, primeiro precisaria responsabilizar meus outros aprendizes por suas falhas.
— M-Meu nome... é Talia...
— Você está levando essa piada longe demais, Sophia — interrompeu Flick. — Trançar o cabelo e colocar um par de óculos mal te torna uma mestra do disfarce. Ou o quê? Está sofrendo de amnésia? — ele zombou, fazendo os olhos de Sophia se arregalarem.
Noctus concordava com Flick: o disfarce de Sophia parecia completamente inconvincente. Qualquer um que tivesse interagido com ela por mais de algumas palavras a reconheceria facilmente. Certamente, ela não acreditava que estava enganando Noctus e seus colegas agora.
Tremendo, Sophia observou o cômodo e levou a mão à cintura, o rosto completamente pálido.
Ou isso ainda faz parte do plano dela? Noctus se perguntou.
— Não retornaremos à capital por vários anos, no mínimo. A menos que queira me dizer que prefere viver como uma caçadora.
— P-Por que estou aqui...? Sophia? A Sophia que Sitri mencionou...? — murmurou Sophia.
Noctus franziu o cenho. Algo estava errado. O que aconteceu com Sophia?
Ele não via motivo algum para ela continuar fingindo. Sair da capital era urgente demais para perder tempo com uma pegadinha, e Sophia sabia disso. Mesmo se estivesse sendo forçada a manter o disfarce, Noctus esperava que ela tentasse, ao menos, transmitir suas intenções por meio de sutis pistas na conversa.
A investida inexplicável de Mil Truques confundiu sua memória? Ou será que ela manipulou suas próprias lembranças caso fosse capturada?
A ideia de Sophia mexer com a própria mente era arrepiante, mas verossímil o suficiente para que sua zelosa primeira aprendiz fizesse algo do tipo.
— Traga o Devorador de Malícia — ordenou Noctus.
— S-Sim, Professor Noctus... — respondeu um aprendiz.
devoradores de Malícia eram uma espécie de quimera sem igual. Não apenas eram as mais mortais que Noctus já havia encontrado, como também tinham uma capacidade de reprodução notável. Embora levassem mais tempo para atingir a maturidade total em comparação com outras quimeras, a vantagem de poder produzir em massa criaturas poderosas compensava essa desvantagem. Por acaso, um Devorador de malícia havia sido criado dentro da cidade, mas não tinha participado da última batalha na clareira.
O aprendiz trouxe um Devorador de Malicia visivelmente menor do que aqueles usados na batalha. Assim que viu a criatura, Sophia gritou e se encolheu no chão de medo, apesar de ter sido a principal responsável por cuidar da quimera.
Guiado pelo aprendiz, o Devorador de Malícia rosnou e farejou Sophia. Essas criaturas reconheciam seus aliados pelo cheiro, então, por mais dedicada que Sophia estivesse ao seu disfarce, não havia como enganar a fera, que conseguia identificar um odor a quilômetros de distância. O monstro continuou a cheirá-la, enquanto Sophia permanecia encolhida no chão, à beira das lágrimas. Pouco depois, a quimera soltou um grito.
— Impossível! — exclamou Noctus. — Verifique novamente.
— S-Sim, senhor — disse o aprendiz.
Ele guiou o Devorador de Malícia para cheirar Sophia mais uma vez, e a jovem soltou um grito agudo ao ser farejada intensamente.
— C-Como isso é possível?! — exclamou Noctus, observando a cena.
O Devorador de Malícia, que confiava em Sophia mais do que em qualquer outro aprendiz, agora a encarava com apreensão e hostilidade. Quem quer que fosse aquela garota, ela não era Sophia.
Os aprendizes assistiam a tudo boquiabertos, e o Ladino se aproximou da garota, descrente, para encará-la de perto. Até ele foi forçado a admitir que aquela jovem não poderia ser Sophia, mesmo sendo idêntica à primeira aprendiz.
— Uma gêmea...? — murmurou Noctus. — Mas mesmo assim...
Sophia nunca mencionou ter uma irmã, muito menos uma gêmea. Mesmo que a garota encolhida no chão fosse sua irmã, por que ela teria se infiltrado na Primeira Jornada? Ela compartilhava da determinação de Sophia em enfrentar o clã?
Mil perguntas passaram pela mente de Noctus, mas a mais importante era: onde estava a verdadeira Sophia Black?
— Por que você estava se passando por Sophia?! — exigiu Flick, à beira da fúria.
Mas Talia apenas se encolheu e balançou a cabeça.
— E-Eu não sei do que está falando...!
Seu medo e confusão pareciam genuínos.
De repente, Noctus estremeceu. Ele teve a sensação de que havia vislumbrado um horror que jamais deveria ter conhecido. Um desejo avassalador de sair do esconderijo quase o fez agir quando seu Ladino arqueou a sobrancelha.
— Alguém infiltrou-se no prédio, Professor Noctus — ele disse.
Passos discretos se aproximavam.
Flick se afastou de Talia e apontou seu cajado para a porta. Ele e os outros aprendizes se perguntavam quem poderia ser o intruso. Um caçador não faria barulho ao andar, e os cavaleiros da ordem teriam invadido o local de armas em punho. Mais intrigante ainda era o fato de que o intruso havia conseguido passar pelas diversas fechaduras que protegiam a entrada do esconderijo.
Os passos pararam bem diante da porta, que então se abriu lentamente.
— Perdão pelo atraso, Mestre.
O silêncio tomou o recinto com a chegada da primeira aprendiz. Noctus e os outros haviam esperado ansiosamente por seu retorno, mas agora a observavam atônitos.
Os cabelos escarlates de Sophia brilhavam sob o capuz, e seus olhos cintilavam como rubis sombrios, cheios de inteligência. Seu manto cinza cobria seu corpo de forma solta, ocultando suas curvas. Nas costas, carregava uma grande mochila.
— Chocada além da conta, Talia a encarou. Se não fosse pelas diferenças em suas vestimentas, ela teria acreditado estar olhando para um espelho — nem mesmo gêmeas idênticas seriam tão parecidas assim.
Sophia lançou um olhar para Talia, agora encolhida no chão com as costas contra a parede, e nem um traço de surpresa perturbou seu sorriso calmo.
— Sinto muito de verdade — disse Sophia. — Havia algo que eu precisava resolver. Embora eu esperasse terminar um pouco mais cedo...
Flick deu um passo para trás e exclamou:
— Sophia... você não tem nada a dizer sobre... ela?!
— Ah, olá, Flick... Fico feliz em ver que você — e os outros dois cativos — estão bem. Eu estava preocupada que nem todos estivessem aqui... O que houve? Por que estão todos apontando seus cajados para mim? — perguntou Sophia, com a voz carregada de compaixão.
Os aprendizes mantiveram suas posições; o Ladino a observava com tanta apreensão quanto os outros. Até mesmo Noctus, que achava compreender perfeitamente o quão pouco convencional Sophia podia ser, nunca havia sentido uma sensação tão estranha em relação à sua primeira aprendiz.
— Vou perguntar novamente: você não tem nada a dizer diante desta mulher que é a sua cópia exata? — exigiu Noctus.
Havia outras perguntas a serem feitas, mas nenhuma lhe veio à mente naquele momento. Sua primeira aprendiz não havia feito nada para aliviar a inquietação que ele sentia desde que Sophia atravessara a porta.
Ela refletiu sobre a pergunta por alguns instantes antes de sorrir abertamente.
— Isso não é exatamente verdade, Mestre. Ela não é a minha cópia exata — eu é que sou a cópia exata dela.
Seus dizeres pairaram sobre a sala silenciosa.
— Além disso, você é gentil demais ao dizer isso. É verdade que temos estrutura corporal e traços faciais similares, mas há muitas diferenças que nos distinguem. Sou um pouco mais alta, e meu peito é um pouco maior, o que faz de Talia um pouco mais leve no geral — e é por isso que estou vestida assim. Mestre, a arte do disfarce se resume a quão bem você consegue identificar as características-chave do seu alvo e copiá-las. Geralmente, não somos tão observadores quanto pensamos ser — explicou Sophia, animada.
Respirando fundo, Noctus perguntou:
— O que você quer dizer com isso?
— Isto — disse Sophia, erguendo o capuz — é o que quero dizer.
Sob o capuz, seus cabelos escarlates reluziam. Noctus e os outros aprendizes observavam, perplexos, enquanto Sophia segurava sua longa cabeleira e puxava — um estalo, e a peruca escarlate deslizou de sua cabeça. Por um instante, Noctus pensou que ela havia arrancado os próprios cabelos, até perceber que se tratava de um disfarce.
Revelados sob a peruca, fios curtos de um rosa vibrante surgiram. Os olhos escarlates que antes pareciam combinar perfeitamente com os cabelos de Sophia agora emanavam uma aura completamente diferente.

Noctus, os aprendizes e até mesmo Talia contemplaram Sophia com um novo olhar.
— Vim agradecer a você, Noctus — disse Sitri Smart, a nêmesis de Sophia. Sem seu disfarce, até mesmo sua voz parecia irreconhecível.
— Sitri... Smart...! — exclamou Noctus. — C-Como você... Desde quando tomou o lugar de Sophia?! Como encontrou este lugar?!
Seus aprendizes haviam se afastado da intrusa tanto quanto os limites da sala permitiam, colocando o Devorador de Malícia entre eles e Sitri. Embora o espaço apertado desfavorecesse os Magos, era ainda pior para a Alquimista, fisicamente mais frágil.
— Tomar o lugar de Sophia? — ela repetiu antes de confirmar o pior medo de Noctus. — Não, Mestre. Sempre fui eu.
Impossível, pensou Noctus, sua mente se recusando a aceitar aquela explicação.
Quando soube que Sophia estava na Primeiros Passos, ele não teve dúvidas sobre onde estava sua lealdade; descartou imediatamente a ideia de que ela estivesse infiltrada enquanto estava com ele, devido à natureza estritamente proibida de seus experimentos. Infiltrada ou não, ela poderia enfrentar penalidades severas, especialmente por ter contribuído para a pesquisa quase tanto quanto Noctus, tornando-se igualmente culpada pelo crime.
— V-Você estava esperando para nos capturar por anos?! Sob ordens do Mil Truques?! — perguntou Noctus.
Pela primeira vez desde que entrou, a expressão de Sitri se anuviou. De forma quase nostálgica, ela explicou:
— Noctus, você é um Mago entre Magos; tem uma mente brilhante, a dedicação para buscar a verdade e poder suficiente para seguir sua obsessão até o fim. Não me decepcione agora — busquei seu ensinamento porque fui atraída por seu trabalho, assim como seus outros aprendizes.
— O-O que você está dizendo, Sitri...? — murmurou Talia.
Sitri a ignorou e continuou como se estivesse em um transe eufórico:
— Eu admiro tudo em você, Mestre: sua proeza mágica e conhecimento, que um dia lhe renderam o título de "Mestre dos Magos", sua sede insaciável por conhecimento, que o levou a pesquisar o proibido sem se importar com seu status, e sua dedicação e meticulosidade, que permitiram reconstruir sua pesquisa após o exílio. Pesquisar o místico requer um conjunto especial de talentos, e você, talentoso tanto na magia quanto na pesquisa, é inegavelmente um gênio. Seus aprendizes talentosos concordariam comigo nisso, tenho certeza. Você tinha tudo o que eu não tinha... Criar Akasha ou o Manipulador de Matéria Mágica teria sido muito demorado e custoso, sem mencionar o risco, para que eu tentasse sozinha. Como eu disse, você tinha tudo: equipamentos caros, catalisadores e ingredientes raros, pesquisadores talentosos... E você ainda estava disposto a considerar minhas opiniões, mesmo quando eu ainda não o servia há muito tempo, Mestre. Foi muito conveniente para mim que você tenha permanecido na capital mesmo após seu exílio.
Sitri falava de forma objetiva, sem fervor fanático, mas com certeza lógica.
Noctus entendeu seu significado, sentindo um senso de afinidade com sua paixão. Ainda assim, ela havia ido muito mais longe do que ele ousaria em seu lugar.
— Não tenho nada a ganhar me revelando — continuou Sitri —, exceto demonstrar minha apreciação. Depois de aprender tanto em meu aprendizado, não queria desrespeitá-lo desaparecendo justamente quando o navio começava a afundar.
Finalmente compreendendo a situação, cada um dos aprendizes de Noctus assumiu uma posição de combate com suas armas prontas para atacar; o Ladino também se manteve tenso, em alerta. Eles apenas hesitavam em atacar Sitri — embora ela lhes estivesse dando muitas oportunidades — porque ainda não tinham certeza de onde estava sua lealdade. Afinal, alguém como ela certamente não tinha lugar em uma sociedade respeitável.
— Infelizmente, nosso tempo juntos chegou ao fim — disse Sitri com pesar. — Eu gostaria... que pudéssemos continuar nossa pesquisa por mais um tempo.
Ela permaneceu impassível, mesmo quando um dos aprendizes apontou seu cajado para ela, apesar de saber o quão poderosos eles eram como Magos.
— Noctus, você disse que não entendia as intenções do Mil Truques, por que Krai se aproximou tanto do nosso esconderijo como se estivesse enviando um aviso. É simples — disse ela com um sorriso. — Ele estava enviando um aviso — para que eu terminasse as coisas e voltasse para ele antes que me metesse em perigo demais.
— I-Impossível — murmurou Noctus.
Ele não conseguia imaginar um Caçador de Nível 8 permitindo que um membro de seu grupo se envolvesse em pesquisas proibidas sob qualquer circunstância.
— Mas eu juro pela minha honra, Noctus — disse Sitri —, que não traí sua confiança. Não contei a alma alguma sobre minha participação em sua pesquisa... E, para ser justa, ninguém consegue esconder um segredo de Krai.
Toda a cor se esvaiu do rosto de Talia ao ouvir a confissão de sua colega.
— Eu apenas não esperava que esse momento chegasse enquanto eu estivesse fora — continuou Sitri. — Estava tudo pronto quando voltei. Noctus, espero que você perceba o quão... generoso Krai tem sido. — Ela corou como uma garota apaixonada ao falar sobre as virtudes de seu amado. — Ele nos deu — e a todos nós — uma oportunidade maravilhosa de testar os produtos de nossa pesquisa contra um batalhão inteiro de caçadores habilidosos. Você consegue imaginar o quão decepcionante teria sido ver nossa pesquisa ser extinguida sem nunca ter sido testada?
Tudo agora fazia sentido. Noctus lembrou-se de como Sophia defendia com paixão que enfrentassem os caçadores de frente.
— V-Você é louca...
O entusiasmo de Sitri cresceu como se ela tivesse recebido o melhor elogio que poderia esperar.
— Os resultados falam por si. Houve muitas surpresas ao longo do caminho e, ah, como eu queria que tivéssemos continuado nosso teste de campo por muito, muito mais tempo... Os fantasmas transfigurados, os Devoradores de Malícia e Akasha, cada um deles sobrepujou um grupo de quase cem caçadores — com Obsidian Cross e Gark Welter entre eles! Foi um grande, grande sucesso! Tanto que tive dificuldade em contê-los para que não matassem ninguém!
Olhando para trás, era estranho que suas forças avassaladoras não tivessem matado um único caçador. Também não fazia sentido como Sitri havia descoberto tão facilmente seu esconderijo e identificado as fraquezas de cada ameaça ao longo do caminho. Isso porque todo o conflito havia sido encenado por Sitri, que estava jogando dos dois lados.
— Oh, não se preocupe, Noctus — disse ela. — Akasha funcionou maravilhosamente. A única coisa que eu queria era um ataque em área para lidar com caçadores ágeis como minha irmã. Mesmo sua durabilidade — que era minha maior preocupação desde o início — foi mais que suficiente. Só pareceu que Krai derrotou Akasha com um único golpe porque eu mesma o fiz saltar para longe. Eu gostaria de ter continuado testando, mas Sven poderia ter causado danos com seu Golpe Tempestuoso se a luta se arrastasse por mais tempo. Talvez tenha sido melhor assim, afinal!
— V-Você já terminou?! — gritou Noctus, miserável.
Ele havia sido feito de tolo porque depositou sua fé na paixão que testemunhara em Sophia. Com a raiva sobrepujando o medo, Noctus ergueu seu cajado contra sua antiga primeira aprendiz.
— Não se preocupe. Depois que seus resultados forem confiscados e você for preso como o pior criminoso da história do império, eu continuarei sua pesquisa. Sua aprendiz devotada passará o trabalho da sua vida para a próxima geração; o que mais você poderia esperar? — disse Sitri com a máxima sinceridade. Todos os sinais sutis que Sophia havia demonstrado, mostrando o quão desequilibrada estava sob sua máscara, inundaram a mente de Noctus, que finalmente conectou os pontos.
— Hã... Sitri? Mas por que você se fez... parecer comigo?
— Porque, Talia, eu aprendi com meu erro — respondeu Sitri como se explicasse um fenômeno natural — que, se você carrega seu nome como um distintivo, não há escapatória quando a situação aperta, porque há um limite para o que se pode fazer. Por isso, tomei emprestada sua aparência por um tempo enquanto trabalhava com Noctus: porque seu cabelo e seus olhos são tão lindos... e reconhecíveis. Perdão.
Uma lágrima escorreu pela bochecha de Talia, mas nem isso afetou a expressão de Sitri. Ela era uma buscadora da verdade, uma escrava das estrelas que havia virado as costas para a moralidade sem nem perceber. Sua filosofia extrema fez Noctus se lembrar do título que lhe fora arrancado.
O Prodígio fora uma Alquimista que produziu resultados notáveis em suas pesquisas no Instituto Primus, assim como Noctus. Sua fama e nível cresceram como uma chama atiçada, até serem abruptamente apagados por um certo incidente, deixando sua reputação reduzida a cinzas.
O incidente abalou todo o império: uma fuga em massa sem precedentes ocorrera na grande prisão de South Isteria, a maior e mais segura do império, que abrigava caçadores de alto nível e Magos extremamente poderosos. Havia claros indícios de ajuda externa na fuga, e a Alquimista, que havia frequentado a prisão pouco antes do ocorrido, tornou-se a principal suspeita com base em evidências circunstanciais. Embora não tenha sido condenada, Sitri foi rebaixada para um nível negativo e forçada a carregar um título incriminador.
— Ignóbil, seu rebaixamento te levou à loucura?! — perguntou Noctus.
A Ignóbil riu como se tivesse acabado de ouvir uma piada inteligente.
— Eu realmente odeio esse título. É horrível, não acha? Ninguém mais me chama assim... mas, ainda assim, sempre foi a marca do meu fracasso — até hoje. Mestre, a partir deste dia — disse Sitri, entrelaçando os dedos e adotando um tom de quem concede um título de cavalaria a alguém digno — você será conhecido como “Ignóbil”.
— Você não terá essa chance, Sophia! — gritou Flick, seu rosto tingido da cor do sangue fresco.
Num piscar de olhos, Flick lançou uma bola de fogo que poderia facilmente engolfar Sitri.
— Paciência, Flick — disse Sitri, quase exasperada. Ela não deu nem meio passo para se defender. — Esse sempre foi seu problema: você é muito emocional.
O Devorador de Malícia se lançou no caminho do feitiço, protegendo Sitri do fogo com seu próprio corpo. Sem demonstrar sinal de dor ou ferimento, a quimera arreganhou os dentes para Noctus e seus aprendizes, seus olhos cheios de animosidade — Devoradores de Malícia eram treinados para obedecer a todas as ordens de seu mestre.
Acariciando suavemente a juba da quimera, Sitri disse:
— É preciso dar amor a eles; seres vivos não se movem apenas pela lógica. Devoradores de Malícia são muito inteligentes, mas não são máquinas. É por isso que eles me protegem acima de qualquer outra pessoa. “Amor e paz”, aliás, é um dos lemas de Krai.
Outro aprendiz lançou um feitiço por trás dela, mas o Devorador de Malícia chicoteou sua cauda, desviando o ataque.
Mesmo sendo jovem, aquela quimera se movia muito mais rápido do que qualquer humano ali poderia esperar. A última linha de defesa de Noctus havia se tornado sua ameaça mais perigosa de repente. Conhecendo as capacidades da quimera, Noctus e seus aprendizes ficaram paralisados.
— Acalme-se, Noctus — disse Sitri. — Demorei tanto para chegar aqui porque... não vim apenas para me despedir.
— Chega do seu monólogo! — uivou Noctus.
A relação entre eles — os anos que passaram como mestre e aprendiz — havia se desintegrado, e a confissão de Sitri foi o prego no caixão. Se seu envolvimento viesse à tona, Sitri seria indiciada ainda mais severamente que Noctus. Sua honestidade significava que ela não tinha intenção de deixar Noctus ou os aprendizes saírem vivos. E, por essa mesma lógica, eles também não podiam permitir misericórdia para sua ex-colega.
Veio sozinha, pensou Noctus, seja por arrogância ou por não esperar que todos nós estivéssemos reunidos... Esse será seu erro fatal, traidora!
Noctus e cada um de seus aprendizes eram Magos poderosos e pesquisadores habilidosos. Um Mago conjurando um feitiço poderoso podia causar tanto estrago quanto um esquadrão inteiro de soldados. Havia cinco Magos desse calibre ali, e eles não seriam apenas cordeiros para o abate.
O que a faz ter tanta confiança? perguntou-se Noctus.
A primeira regra ao lutar contra um Magus era não lhes dar tempo suficiente para preparar um feitiço poderoso. E ainda assim, Sitri não deu nem um passo enquanto os Magi gastavam cerca de dez segundos recitando suas invocações. Assim que Sitri abriu a boca para falar, Noctus lançou seu feitiço.
— Infernal Kaiser! — exclamou o antigo Mestre dos Magi.
Ao seu comando, as chamas do feitiço avançado devastaram uma área de tamanho médio. Ondas de fogo dourado, quente o bastante para derreter metal, engoliram o Devorador de Malícia e Sitri.
Uma dor latejante percorreu a cabeça de Noctus ao lançar o feitiço ofensivo, algo que ele não fazia há muito tempo. Mantendo o controle do inferno, ele conteve as chamas e o calor a uma distância segura de si mesmo. O fogo lambeu parte da parede e da porta, reduzindo-as a cinzas instantaneamente.
Talia gritou diante das chamas implacáveis, enquanto os aprendizes de Noctus vibravam em triunfo.
À medida que a maré de fogo recuava gradualmente, um Devorador de Malícia carbonizado foi revelado. Se até mesmo uma quimera com resistência à magia não conseguiu suportar as chamas, Noctus não tinha dúvidas de que a frágil Alquimista agora não passava de um monte de cinzas. No entanto, quando o fogo finalmente se dissipou, um calafrio percorreu os ossos de Noctus.
— Por favor, me escute, Noctus — disse Sitri.
Ela estava lá, sem sequer uma bolha na pele. As paredes, o chão, o Devorador de Malícia e até sua peruca caída no chão haviam sido incinerados.
— I-Impossível...! — murmurou Noctus. — Como você ainda está viva?!
Em termos de destruição, esse feitiço era ainda mais poderoso que a obra-prima de Flick.
Sitri suspirou, fez um bico e disse:
— Me ouça, porque nunca mais nos veremos!
Ela segurava um grande frasco em suas mãos, sua tampa aberta revelando um espaço vazio dentro.
— Você me deu tanto, Mestre — disse ela. — Como um símbolo da minha gratidão, quero lhe mostrar algo que desejo compartilhar há muito tempo. É um pouco perigoso, então o confiei aos cuidados de Krai. Mas ele deve ter percebido que eu queria mostrá-lo a você antes de nos separarmos para sempre, então me guiou até ele — demorei um pouco para encontrá-lo nos esgotos antes de finalmente chegar aqui.
O que ela está balbuciando? O que diabos ela poderia ter trazido? — pensou Noctus, enquanto observava o Devorador de Malícia carbonizado e meio morto tentando se afastar de Sitri.
Explicando com a mesma paixão que Sophia demonstrava ao falar de seus experimentos, Sitri disse:
— É quase o oposto de um fantasma transfigurado — é um slime revolucionário, extremamente adaptável. Um fantasma transfigurado converte o material de mana que compõe seu corpo em uma fonte de mana; este slime absorve mana e material de mana ao seu redor e cresce se alimentando disso. Eu realmente me orgulho dele.
— O quê...?!
Aos pés de Sitri, uma massa translúcida se contorcia. Noctus finalmente percebeu o slime dourado, que parecia ter o tamanho exato para caber no frasco que ela segurava. Noctus nunca havia ouvido falar sequer de uma teoria sobre uma criatura assim, mas seu sangue gelou ao considerar as implicações da descrição de Sitri.
O mundo estava repleto de material de mana. Todo ser vivo absorvia material de mana e dele derivava sua energia. Essa mesma força dava origem a cofres de tesouros, fantasmas e Relíquias, além de conceder aos caçadores suas habilidades sobre-humanas. Se a descrição de Sitri era precisa, um slime que se alimentava do material de mana dos outros poderia, por extensão, devorar o mundo inteiro — aquela massa dourada representava uma ameaça muito maior ao mundo do que toda a pesquisa de Noctus ao longo da vida.
— Você enlouqueceu de verdade? — perguntou Noctus a Sitri. — Uma abominação dessas seria perigosíssima!
— Mas há uma coisa que não consegui acertar — seu apetite continua insaciável, não importa o que eu tente. Consegui ensiná-lo que Krai e eu não somos comida, mas só isso. Um monstro incontrolável não é um recurso viável; mal serve como último recurso. Então eu esperava que você pudesse me aconselhar sobre isso antes de... bem, eu sabia que era um tiro no escuro.
Então, o slime se esticou sobre o trêmulo Devorador de Malícia. Assim que foi envolvido pela criatura, a quimera foi imediatamente dissolvida, juba e escamas incluídas. Rapidamente, a cor do slime mudou de dourado para o mesmo cinza-escuro que o Devorador de Malícia possuía. Só então Noctus percebeu que o slime só era dourado porque havia absorvido seu feitiço.
Sorrindo para ele, Sitri disse:
— Muito bem, Noctus, este é o outro motivo pelo qual vim. Eu o convido a me ajudar a testar o Slime Sitri. Que sorte a minha poder testá-lo contra um Magus do seu calibre.
— Corra, Mestre! — gritou Flick enquanto lançava um feitiço.
Os aprendizes de Noctus eram talentosos o suficiente para justificar seu orgulho. Ao verem que um feitiço ofensivo não surtiu efeito no slime, mudaram completamente de estratégia. O feitiço de Flick encheu a sala com uma fumaça densa e cegante, ocultando o Slime Sitri.
— Se a deixarmos viver... ela será uma ameaça grave para a Torre Akashic. Nós... vamos segurá-la!
— Flick... Eu, uma ameaça para a Torre Akashic? — chamou Sitri, desolada, do outro lado da fumaça. — Eu sou a personificação da filosofia deles.
Ignorando-a, Flick continuou com a voz fortalecida pela determinação:
— Sophia veio sozinha. Você pode escapar se conseguir sair daqui. Contate a sede. Ela estará acabada!
Noctus sentiu a força percorrendo seu corpo, fruto dos feitiços de fortalecimento que seus aprendizes haviam lançado nele.
O Slime Sitri era poderoso demais. Ao ver como ele absorvera facilmente o feitiço de Noctus, ficou claro que nem cinco Magi juntos poderiam enfrentá-lo.
— Você tem certeza, Flick? — disse Sitri, com um leve tom de surpresa na voz. — Noctus favoreceu Sophia em vez de você, mesmo depois de tanto tempo servindo a ele. Isso feriu seu orgulho; por que não foge em vez de morrer para protegê-lo?
— Não ouse me insultar! Eu não sou como você! — gritou Flick. — Eu respeito o Professor Noctus! Eu o reverencio! Mesmo que ele não veja grande utilidade em mim!
Rápido de raciocínio e um gênio à sua própria maneira, Flick era um aprendiz mais que capaz. Noctus nunca considerou seu orgulho um defeito e suspeitava que Flick poderia superá-lo na arte da magia um dia. Agora, Noctus se arrependia de ter valorizado um novo talento em detrimento de seu aprendiz mais antigo.
Tendo calculado inúmeras alternativas em um piscar de olhos, Noctus simplesmente disse:
— Estou contando com você, Flick.
— Sim, senhor! — respondeu Flick.
Noctus não esperava que seus aprendizes sobrevivessem. Mas se ele perecesse no lugar deles, os que restassem não teriam como chegar à Torre Akáshica. Ele não deixaria o sacrifício de Flick ser em vão.
A pequena passagem havia sido ampliada quando o feitiço de Noctus queimou parte da parede. Ele disparou para dentro da densa fumaça. Logo atrás dele, uma sucessão de feitiços foi lançada.
Então, Sitri engasgou.
— Espera—mova-se! — ela gritou.
A aposta de Noctus valeu a pena. Ele conseguiu sair da sala sem esbarrar em Sitri ou no slime. Lançando um feitiço de vento para se impulsionar mais rápido, ele avançou pelo corredor em uma velocidade incomum para alguém de sua idade.
Nenhum sinal de perseguidores.
Correndo e arfando, Noctus se tranquilizou ao lembrar que o forte de Sitri era a pesquisa. Se ela fosse tão fisicamente capaz quanto os caçadores de um grupo de Nível 8, ele jamais teria passado por ela. Mas agora que conseguira, sabia que Sitri não conseguiria alcançá-lo. Ainda assim, ele se recusava a diminuir o ritmo.
Como todo esconderijo decente, aquele tinha duas saídas. Noctus correu para a que o levaria a um beco escuro. Assim que estivesse ao ar livre, poderia voar usando magia, e nem mesmo a presença reforçada dos cavaleiros patrulhando a cidade seria capaz de detê-lo.
Se conseguisse avisar a Torre Akáshica sobre a traição de Sitri, ela estaria condenada. E só teria a si mesma para culpar por querer inflar o próprio ego ao se revelar.
Noctus emergiu do subsolo em um beco sujo, de pavimento rachado. A alguns passos dali, um vagabundo vestindo um casaco pesado estava sentado.
Ainda sem sinal de perseguidores.
Sem perder um segundo, Noctus começou a conjurar um feitiço de voo. Seu corpo foi elevado no ar, e seu coração estava firme com a determinação de vingar seus aprendizes e fazer Sitri pagar por zombar da Torre Akáshica—um sentimento bem diferente da obsessão que o fez continuar sua pesquisa após o exílio.
Mas assim que sentiu a rajada de vento que o levaria aos céus, um impacto violento o atingiu de lado. Seu mundo girou enquanto ele despencava escada abaixo. Uma dor aguda percorreu suas costas e braços conforme rolava degrau por degrau. Quando finalmente alcançou o chão, Noctus—ainda com o cajado na mão—se obrigou a se levantar.
No topo da escada, estava o mesmo vagabundo do beco. Um casaco imundo escondia seu rosto e parte do corpo enquanto ele pairava ameaçadoramente sobre a entrada.
Quase por reflexo, Noctus lançou um feitiço com a velocidade de conjuração que apenas décadas de dedicação poderiam proporcionar. Uma tempestade de bolas de fogo envolveu o vagabundo, incendiando seu casaco, mas a figura sequer reagiu. Ainda envolto em chamas, o vagabundo desceu os degraus em disparada.
— O quê?!
Lutando contra a confusão, Noctus desferiu uma sequência de feitiços: lâminas de vento, lanças d'água, raios elétricos... Ele lançou tudo o que podia contra seu atacante misterioso. Mas o adversário não dava sinais de querer parar.
A mente de Noctus estava atordoada.
Eventualmente, seus feitiços rasgaram o casaco do agressor, revelando a figura por baixo—um humanoide enorme, quase nu, pelo que Noctus podia dizer. Seus músculos eram exageradamente volumosos, muito além dos limites do corpo humano, e sua pele acinzentada o distinguia de uma pessoa comum. Ele não vestia nada além de uma sunga vermelha berrante cobrindo suas partes íntimas e um saco de papel na cabeça. Noctus nunca havia visto nada parecido.

— Oh, que bom — chamou uma voz atrás dele. — Essa é outra das minhas peças que eu queria que você visse, Noctus. Para proteger a integridade do nosso experimento, eu não podia muito bem levá-la até a Toca do Lobo Branco, então não tive a chance de lhe mostrar. Agora não tenho mais arrependimentos.
Noctus não conseguia desviar o olhar. O olhar sem emoção o encarava através dos buracos cortados no saco de papel sobre sua cabeça. Apesar da aparência humanoide, a “peça” de Sitri exalava uma aura inumana, como se fosse a própria manifestação da violência pura.
— Noctus, eu acredito que a fraqueza do Akasha está no seu custo e na sua incompletude. Por mais poderoso que seja, não teríamos conseguido criá-lo sem os fundos ilimitados da Torre Akáshica e sua tecnologia avançada. Além disso, o Akasha acabaria sendo superado eventualmente, se o nível do cofre do tesouro ficasse alto o bastante. Essa foi a solução que eu encontrei — o que acha?
A criatura misteriosa começou a se aproximar lentamente de Noctus, cuja mente brilhante agora estava completamente confusa. Ele não conseguia explicar o ser que avançava em sua direção.
Sitri continuou:
— Isso é meio embaraçoso, mas eu precisava de poder — rápido. Foi por isso que desisti de pesquisar golens por conta própria e decidi me concentrar em quimeras.
— Quimeras...? — Noctus tremia. Impossível. Que criaturas ela combinou para criar essa aberração? Isso é loucura.
Sua mente sabia a resposta, mas sua humanidade se recusava a aceitá-la. A durabilidade para suportar uma enxurrada de feitiços sem um arranhão, a enorme energia pulsando a partir dela...
Isso só pode ser—
— Eu... realmente queria os ingredientes certos. Você sabia, Noctus, que eu sou a integrante mais fraca dos Grieving Souls? Se eu deixasse dilemas morais me segurarem, nunca conseguiria acompanhá-los.
De repente, todas as peças se encaixaram na mente de Noctus. Os prisioneiros que escaparam na fuga da grande prisão eram todos caçadores de alto nível que não podiam ser contidos em prisões comuns, e a maioria dos fugitivos ainda estava foragida, mesmo depois de vários anos.
Lentamente, quase como se fosse um fantoche movido por fios invisíveis, Noctus se virou. A visão de Sitri quase tirou seu fôlego.
— Então você... era culpada disso, afinal? — ele sussurrou.
— Cometi um erro. Mas aprendi muito com ele. Só havia partes utilizáveis para fazer um, mas você tem que admitir como ficou impressionante. Eu o chamei de... Matadinho — disse Sitri, movendo os olhos para além do ombro de Noctus. — Diga “oi”.
— Matar... — veio uma voz aguda e dissonante com o tamanho de Matadinho, vinda de dentro do saco de papel.
Noctus estremeceu diante da vileza da criatura e, ainda mais, pelo fato de que Sitri Smart continuava uma mulher livre, mal responsabilizada por seus crimes, enquanto ele próprio havia sido exilado por suas pesquisas.
— Ignóbil...!
— Não se preocupe; eu não vou te matar. Ainda sou uma caçadora — disse Sitri. — Mas suas memórias... essas eu vou ter que apagar.
Levantando seu cajado em desespero, Noctus começou uma invocação. Antes que tudo se apagasse, ele viu a máscara de caveira sorridente e ouviu o grito “Matar...” em seu ouvido.
Tradução: Carpeado
Para estas e outras obras, visite Canal no Discord do Carpeado – Clicando Aqui
Se gostou do capítulo, compartilhe e deixe seu comentário!