Nageki no Bourei wa Intai shitai |
Let This Grieving Soul Retire
Volume 02 – Capítulo 06
[Ignóbil]
Talia Widman encontrou Sitri Smart pela primeira vez logo após entrar para a Primeiros Passos.
Alquimistas eram raros entre os caçadores de tesouros porque precisavam dedicar uma quantidade enorme de tempo e recursos aos seus estudos e, no fim, seu poder ofensivo direto mal aumentava. Havia uma piada recorrente entre os caçadores que dizia que os Alquimistas eram Magos de segunda categoria. A piada persistia porque a maioria dos Alquimistas talentosos o suficiente para serem exceções não escolhia se tornar caçador de tesouros.
Em todos os seus anos de caça ao tesouro, Talia nunca havia encontrado outro Alquimista-caçador antes de conhecer Sitri. Um dos motivos pelos quais o grupo de Talia decidiu entrar para a Primeiros Passos foi para ter acesso aos documentos e instalações necessários para que ela pudesse praticar alquimia. Ela ouvira dizer que a Primeiros Passos oferecia um catálogo de recursos que rivalizava com os das instituições dedicadas à arte da alquimia. Esses recursos eram inacessíveis para a maioria das pessoas devido a seus preços exorbitantes ou à raridade.
Depois de entrar para o clã, Talia descobriu que a Primeiros Passos oferecia comodidades para Alquimistas comparáveis até mesmo às do Instituto Primus, a maior autoridade em pesquisa mágica na capital. O clã fornecia mais recursos do que ela jamais esperava: equipamentos caros, catalisadores raros e até laboratórios dedicados. Mas o que mais surpreendeu Talia foi que todos esses recursos tinham sido reunidos por causa da única Alquimista do clã—Sitri Smart.
Sitri havia sido a Alquimista mais promissora da capital até certo incidente, após o qual seu nome desapareceu de todas as manchetes e conversas. Apesar de fazer parte de um dos melhores grupos de caça da cidade, seus feitos sempre pareciam ser ofuscados pelos dos outros Grievers. Seus olhos suaves e sua túnica cinza sem graça faziam com que parecesse qualquer coisa, menos uma caçadora habilidosa.
Talia conhecia Sitri por conta do infame incidente, que havia ocorrido alguns anos antes do primeiro encontro entre as duas. Mas essa impressão desapareceu rapidamente depois que começaram a trabalhar juntas. Ao conhecê-la pessoalmente, Talia viu que Sitri era uma jovem gentil, humilde e incrivelmente brilhante.
De braços abertos, Sitri deu as boas-vindas à recém-chegada Alquimista aos laboratórios que apenas ela usava, apesar de suas portas estarem oficialmente abertas para todos os membros do clã. No início, Talia tremia sempre que a encontrava, mas, ao longo do tempo, Sitri a orientou e logo se tornaram grandes amigas, apesar de Sitri, sempre ocupada, não estar frequentemente na sede do clã.
Eventualmente, Sitri chamou Talia de amiga e disse que estava feliz por tê-la conhecido. Quando Talia perguntou sobre o cabelo rosa-vivo de Sitri, que ela mantinha na altura dos ombros, diferente da maioria das Magas e Alquimistas que preferiam deixá-lo crescer, Sitri sorriu com um ar melancólico e explicou que mantinha o cabelo curto porque sua irmã gostava de deixar o dela comprido. Em troca, Sitri elogiou o cabelo e os olhos vermelho-ardentes de Talia, que ela sempre achara chamativos demais.
Era evidente o quanto Sitri era dedicada à sua arte. Ela estudava cada ramo da alquimia existente e, às vezes, realizava—sem hesitação—experimentos difíceis e perigosos demais até mesmo para Alquimistas mais experientes. No entanto, jamais se envolveu com experimentos ilegais. Até Talia, que insistiu em seguir a alquimia apesar da resistência de amigos e familiares, ficou impressionada com a paixão ardente de Sitri pela alquimia.
Curiosamente, isso ajudou Talia a entender por que circulavam rumores tão cruéis sobre Sitri—ela era excêntrica demais, e os outros Alquimistas temiam sua obsessão e seu talento. Além disso, Sitri era a humildade em excesso. Ela ia onde o vento a levasse; se alguém a prejudicasse, ela simplesmente ria. Quando perguntavam sobre o motivo de sua infâmia, ela atribuía tudo à sua falta de experiência na época, aceitando a culpa por um crime pelo qual foi incriminada. Sitri chegou até mesmo a aceitar, sem resistência, a maior penalidade que um caçador poderia sofrer—o rebaixamento de nível, um castigo que nenhum caçador honesto jamais esperaria enfrentar. Ainda assim, mesmo com sua bondade ameaçando sua própria carreira, Talia não conseguia pensar em ninguém que fosse um Alquimista melhor do que ela.
De acordo com seus próprios padrões, Sitri se considerava inexperiente demais para orientar outro Alquimista, mas Talia se considerava sua aprendiz de qualquer forma. E, conforme colaboravam nos laboratórios, a admiração de Talia por Sitri logo se transformou em devoção. Um dia, prometeu a si mesma que se tornaria uma Alquimista tão espetacular quanto Sitri. Para alcançá-la, Talia se afundou nos livros, anotou cada palavra que Sitri dizia e realizou experimento após experimento, noite adentro.
Para Talia, ela tinha uma dívida com Sitri que jamais poderia ser paga. E, pensando que Sitri sempre esteve sozinha por causa do escândalo de anos atrás, decidiu que, se um dia Sitri precisasse de algo, ela estaria lá para ajudá-la.
Ainda assim, Talia sabia muito bem da imensa diferença entre suas habilidades.
Os caçadores marchavam em formação pela floresta. A noite já havia caído por completo, mas com os Magos iluminando o caminho, os caçadores conseguiam enxergar no escuro como se estivessem sob a luz do dia.
— Você está bem, Gark? — perguntou Sitri. — Esta é uma missão perigosa. Talvez seja melhor você voltar para casa—
Gark fez uma careta. — Sua irmã também achava que eu não conseguiria lidar com isso. Eu não sou tão velho assim!
— Fico feliz por termos tantos combatentes quanto possível, mas aconteceu alguma coisa? — perguntou Sitri.
Caminhando ao lado deles, Gein segurava sua segunda espada com a mão esquerda.
— Então... o Mil Truques não vai aparecer, afinal?
— Não — admitiu Sitri. — Me desculpe. Pedi para assumir essa missão porque tenho um histórico com os culpados.
— Não tenho do que reclamar de você — disse Gein. — Só queria ver o famoso Nível 8 em ação.
Apesar de todos os rumores ao seu redor, o Mil Truques raramente aparecia no campo de batalha. Ainda assim, continuava sendo o misterioso mestre do clã no Nível 8.
Um sorriso floresceu no rosto de Sitri enquanto ela segurava o próprio rosto entre as mãos.
— Krai nasceu para ser um caçador de tesouros. Todos no nosso grupo ganharam um apelido, mas Krai está muito acima de todos nós. Não tenho dúvidas de que um dia ele chegará ao Nível 10.
— Até você tem que admitir que isso é exagero — disse Gein. — Só existem três aventureiros de Nível 10 vivos! Eles são heróis inigualáveis! Seu líder é mesmo tão forte assim?
— Ele é. E a força é apenas uma pequena parte dos talentos extraordinários dele. Mesmo que Krai não conseguisse derrotar um coelho-de-areia em combate, minha afirmação ainda se manteria.
Coelhos-de-areia estavam na base da cadeia alimentar do ecossistema ao redor da capital.
— Um coelho-de-areia? — Gein ergueu uma sobrancelha, notando a seriedade de Sitri.
— Eles não estão mais nos atacando... — grunhiu Sven, analisando a floresta ao redor. Desde os falsos slimes, não haviam encontrado mais sinais dos inimigos.
— Não baixem a guarda — disse Sitri. — Magos sempre agem com cautela, e isso é ainda mais verdade para o Mestre dos Magos. Eles precisam ser meticulosamente cuidadosos para terem sobrevivido tanto tempo com todas as nações colocando uma recompensa sobre a Torre Akashic. Outro ataque vai acontecer.
Embora a floresta oferecesse boa cobertura para ataques furtivos, cem caçadores (mais dois agentes do Departamento de Investigação de Cofres, que insistiram em permanecer com o grupo) escaneavam todas as direções. Mesmo que outro falso slime atacasse, os caçadores não seriam pegos de surpresa.
Sven abriu seu mapa e estimou a localização do grupo, notando que estavam a poucos quilômetros do penhasco que Sitri definiu como destino. Assim que estivessem perto o suficiente, um grupo de Ladinos faria o reconhecimento da área. Mas, se não conseguissem encontrar o esconderijo da Torre Akashic, todo o batalhão teria que retornar à capital para se reagrupar.
Talia, que vinha seguindo Sitri a alguns passos de distância, olhou para o rosto dela e ofereceu um frasco de sua bolsa presa ao cinto.
— Você está bem, Sitri? Parece um pouco... cansada. Tenho uma poção para isso, se quiser.
— Oh, obrigada, mas estou bem. Pelo que estimo, estamos quase lá.
Desanimada, Talia guardou a poção.
— A propósito, Sitri, onde está aquela coisa que você sempre carrega com você? — perguntou Sven.
Sitri normalmente trazia consigo uma criatura mágica de aparência única — nada comum como um golem ou um slime — para compensar sua falta de capacidade de combate.
Virando-se para Sven, ela respondeu:
— Oh, Matadinho está em manutenção agora...
Flashes de luz cortaram a noite sem aviso prévio. O feitiço de alto nível Tempestade Calamitosa fez jus ao seu nome. Magia de raio era uma das categorias mais difíceis de conjurar, acessível apenas aos melhores Magos. Os caçadores experientes sequer tiveram tempo de pensar em evitar os ataques. Trovões rugiram, impactos explodiram, e incontáveis relâmpagos, como se desencadeados por um deus furioso, devastaram uma grande clareira na floresta, lançando um grupo inteiro de caçadores pelos ares. Após um instante de luz ofuscante e som ensurdecedor, a floresta ao redor dos caçadores começou a queimar, deixando muitos deles carbonizados no chão.
Vendo que nenhum caçador se levantava, uma figura desceu do céu. Sobre os caçadores, um Mago de cabelos castanhos, pele pálida e membros frouxos montava uma besta alada.
Rindo, o Mago declarou:
— Meros caçadores não são páreo para o meu poder! O sistema de defesa dela é obsoleto enquanto eu estiver de guarda. O Mestre com certeza vai me elogiar por isso!
Magos possuíam um poder destrutivo incomparável com seus feitiços poderosos. Mesmo as longas encantações e o gasto enorme de mana deixavam de ser desvantagens quando tinham o elemento surpresa. Além disso, Tempestade Calamitosa era o melhor feitiço de Flick — uma magia extremamente poderosa e difícil, alcançada apenas por aqueles nascidos com grande talento mágico e que dedicaram suas vidas ao estudo da feitiçaria.
Com passos vacilantes, Flick desmontou do Devorador de Malícia. Ao seu comando, a quimera — com uma cabeça de leão, escamas e asas de dragão, e três espadas na cauda — abaixou-se no chão. Flick sentiu os sintomas da deficiência de mana: tontura e náusea. Com o olhar turvo, avistou Sven Anger, que tentava se sustentar de joelhos.
— Caçadores são duros na queda... — murmurou Flick, ofegante.
— Que feitiço foi esse...? — Sven conseguiu dizer. — Então você é um dos serviçais de Cochlear.
— Não achei que algum de vocês ainda estaria de pé...
Magia de raio era tão poderosa em parte porque seu som, impacto e eletricidade atordoavam a maioria dos alvos, mesmo os que sobreviviam às descargas. No entanto, Flick não esperava que seu feitiço fosse letal contra caçadores com corpos sobre-humanamente resistentes. Por isso, trouxera o Devorador de Malícia ao solo: para acabar com os invasores inconscientes. Não importava quão alto fosse o nível dos caçadores, não teriam chance contra a quimera se não pudessem reagir.
— Você pode falar, mas não consegue se levantar — observou Flick.
— Maldição...!
Sven rangeu os dentes, tentando se erguer, mas seus músculos eletrificados falharam. Ele tombou no chão novamente. Lentamente, o Devorador de Malícia avançou, cravando suas garras afiadas no solo.
Flick soltou uma gargalhada, embriagado pelo poder.
— Vocês já causaram problemas demais... Mas agora, tudo acabou! Mestre, fui eu, Flick, quem...
— Impressionante — interrompeu uma voz.
A impossibilidade daquilo fez o cérebro de Flick entrar em curto-circuito. Seu alvo principal, aquele que ele precisava matar a todo custo, estava de pé diante dele. Poeira cobria seu manto e cabelo, mas sua postura era muito mais firme do que a de Flick. Batendo as mãos no manto, ela claramente não tinha sofrido nenhum dano.
A confusão assolava a mente de Flick. Impossível! Eu me certifiquei de que meu feitiço a atingiria, se não mais ninguém.
Sitri exibia um sorriso cansado.
Não era que Sven tivesse baixado a guarda, mas ele simplesmente não esperava um ataque vindo do céu daquele jeito. Sven estava estirado no chão; o raio, depois de atravessar sua armadura, havia afetado severamente seu cérebro e coração.
Seguindo seu olhar, Sven viu Marietta, uma das Magas da Cruz Obsidiana, também estirada no chão. Os olhos de Marietta estavam ligeiramente abertos e ela estava consciente; mas, pelo que Sven podia perceber, ela não parecia gravemente ferida. Isso só poderia significar que ela estava deitada ali esperando a oportunidade de pegar Flick de surpresa. Como as próprias reservas de mana dos Magos agiam como armadura contra feitiços inimigos, Sven esperava que a maioria deles recobrasse a consciência em breve. A maioria dos outros caçadores também provavelmente sobreviveria se fosse reanimada corretamente—isso estava longe de ser um massacre.
— Eu nunca esperei um ataque em área, especialmente quando temos prisioneiros. — Sitri riu. — Eu sabia que não poderia substituir Krai.
Flick ainda não conseguia entender por que Sitri estava ilesa, nem por que ela parecia tão calma enquanto o resto de seu batalhão estava no chão.
— C-Como... você ainda está de pé?
Sitri inclinou a cabeça e disse:
— Por que você pensaria o contrário?
Com o rosto contorcido de terror, Flick deu um passo para trás. Ele até se esqueceu de mandar a quimera atacar seus inimigos.
Como se para afastá-lo ainda mais, Sitri se aproximou dele. E, enquanto fazia isso, Sven a viu alcançando algo dentro da bolsa presa ao seu cinto, atrás das costas.
— Eu pertenço a um grupo de Nível 8 — disse Sitri. — Feitiços assim são comuns nas masmorras que frequentamos.
Os olhos de Flick se arregalaram de incredulidade, sem notar a mão de Sitri escondida atrás dela.
— N-Não...! Um feitiço de raio de alto nível... comum?! Esse era meu ás na manga...!
Ainda mantida fora de vista, a mão de Sitri emergiu segurando uma pistola cor-de-rosa que cabia na palma da sua mão. Sem nem mesmo olhar, ela apontou o cano diretamente para Sven.
Sven se lembrou de como Krai uma vez descreveu Sitri como meticulosamente esperta. De fato, ele pensou.
Sven inclinou a cabeça sem despertar a suspeita de Flick, expondo o pescoço para a pistola. O que quer que Sitri estivesse tramando, Sven confiava nela. Mantendo sua posição, Sven escaneou os arredores em busca da arma que tinha deixado cair.
— Em outras palavras — disse Sitri, — você não tem imaginação.
Puxando o gatilho, ela disparou algo silenciosamente no pescoço de Sven.
Num instante, Sven se sentiu revigorado. Imediatamente, ele saltou de pé e agarrou uma espada no chão próximo a ele.
Flick assistiu, estupefato.
— Valeu! — disse Sven.
Sitri disparou.
— Vou pegar os outros!
Deixando Sitri passar por ele, Sven brandiu a espada—não contra a Maga à beira do colapso, mas contra a muito mais intimidante quimera. Mas antes que a espada a alcançasse, a quimera chicoteou sua cauda tríplice em direção a Sven, que mal conseguiu aparar a série de golpes.
— Isso tem força! — disse Sven, sendo forçado a recuar pelo impacto inesperado. Isso não vai ser um abate fácil. Quantas dessas coisas a Torre Akáshica tem?
A quimera soltou um rugido de leão.
Então, uma figura enorme passou voando por Sven.
— Desculpe a demora! — gritou o Demônio da Guerra, brandindo sua alabarda que fazia a espada de Sven parecer pequena em comparação. A Relíquia de Gark, Presa de Granizo, brilhava com uma aura gélida enquanto ele cravava a lâmina nas costas escamosas da quimera.
— Flecha de Fogo! — O feitiço de Marietta atingiu o rosto da quimera.
A maré virou. Sitri se movia entre os caídos, atirando neles com sua estranha pistola e chutando suas cabeças para despertá-los.
— Curandeiros, cuidem dos feridos! — ela ordenou. — Se o coração deles não estiver batendo, chutem! Ainda podemos trazê-los de volta! Depressa!
Olhando mais de perto, Sven viu um líquido sendo disparado da arma de Sitri. E assim que o líquido atingia um caído, ele se levantava.
— Isso é... uma pistola de água? — notou Sven. — Disparando doses de poção? Quão pressurizada ela está para perfurar minha pele? Que engenhoca.
— Chega de papo, Sven — disse Marietta.
— Foi mal.
Sven voltou sua atenção para a quimera. Ela acabara de cair, tendo sido partida ao meio pelo golpe letal de Gark. A cabeça de leão ainda se contraía, mas era questão de tempo até parar.
— Isso... não pode estar acontecendo! — exclamou Flick.
— Agora é sua chance de se render — disse Sven, apontando a espada para o Mago e exibindo um sorriso perigoso. — Não que você consiga disparar outro feitiço, de qualquer forma.
— Queremos que ele fale? — perguntou Marietta.
Sitri lançou um olhar para Flick, que agora estava amarrado.
— Agora não; não quero perder mais tempo. Se ele era a última linha de defesa deles, podem estar fugindo neste exato momento. Vamos acabar com isso antes que possam se reagrupar.
Flick, por sua vez, permaneceu em silêncio—pasmo, até. Seus olhos estavam fixos em Talia, que puxou o capuz para frente e tentou se esconder atrás de Sitri, sem muito sucesso, já que tinham praticamente o mesmo tamanho.
Com as sobrancelhas erguidas, Sitri perguntou:
— Você está bem popular hoje. O que está acontecendo?
— Não sei — murmurou Talia, em um tom baixo o suficiente para que apenas Sitri pudesse ouvir.
O batalhão rapidamente se reorganizou e seguiu adiante, levando os três prisioneiros. O ar estava carregado de tensão. Um brilho tênue envolvia cada caçador: era o sinal de um feitiço defensivo que aumentava sua resistência contra magia. Depois de enfrentarem uma criatura mágica que nem mesmo um caçador renomado conseguiu derrotar sozinho e um Magus capaz de lançar um feitiço poderoso o suficiente para atingir quase cem deles ao mesmo tempo, estavam plenamente cientes da imensidão do arsenal do sindicato.
Eles marcharam pela floresta densa até chegarem a uma clareira, onde se dispersaram em todas as direções sem nem precisar de um comando. Não havia necessidade de enviar batedores—diante deles erguia-se um penhasco imponente, com uma caverna nitidamente escavada pelo homem.
Sven mal podia acreditar no que via.
— Você acertou, Sitri.
— Tenho uma boa intuição—não tão boa quanto a do Krai, é claro...
A luz da lua, filtrada pelas nuvens, revelava três silhuetas no céu. Somente quando focaram seus olhos nelas os caçadores puderam identificá-las: eram iguais às quimeras que Flick havia invocado.
— Três? — perguntou um dos caçadores.
— Não, cinco. Duas no chão, uma de cada lado da caverna.
Coletivamente, os caçadores se prepararam para encarar a sede assassina das criaturas—inimigos muito mais mortais do que os cavaleiros lobo. Embora fossem capazes de se defender na maioria das situações, as quimeras os sobrepujavam.
— São muitos deles — disse Gark, franzindo a testa ao erguer Presa de Granizo. — Cada uma dessas criaturas deve ser equivalente a um Fantasma de Nível 6 ou 7: são rápidas e resistentes. Seja lá quais criaturas serviram de base para elas, investiram bastante esforço nessas quimeras. E são cinco, hein... Essa recepção tá calorosa demais pro meu gosto. — Virando-se para Sven, ele continuou: — Vamos trabalhar juntos e derrubar uma por vez?
Sven sentiu os músculos do rosto enrijecerem.
— Não podemos deixá-las no ar. Se não as trouxermos para o chão, vão nos atacar sem que possamos revidar.
Sven inspirou fundo e armou uma flecha no arco. A essa distância, ele tinha cinquenta por cento de chance de acertar.
— Tem um Magus montado em uma das quimeras — apontou Sitri. — Deve ser o mestre delas.
— Derrubar o mestre confundiria as quimeras? — perguntou Sven.
— Se forem tão burras quanto os outros Magus, talvez seja melhor nem mexer com eles — respondeu Sitri, arrancando uma risada abafada de Sven. Com a expressão séria, ela fez um gesto em direção à caverna e continuou: — Brincadeiras à parte, dependendo do quão larga for a caverna, pode ser melhor atrair algumas delas para dentro. Lutar contra essas quimeras rápidas e voadoras aqui fora não é uma boa ideia.
— Você quer que a gente passe correndo por elas... e entre direto no esconderijo deles?! — questionou Sven.
— Melhor do que enfrentá-las nessa clareira — disse Sitri.
Sven considerou a ideia, sentindo o coração bater forte com a tensão. Se essa for nossa única opção, não teremos a mesma sorte de manter todos vivos uma segunda vez. No pior cenário, seremos exterminados.
Agora, precisavam de qualidade, não quantidade, e estavam em grande desvantagem.
Aparentemente compartilhando da mesma avaliação, Sitri franziu o cenho e disse:
— Vai ser difícil. Podemos perder alguns—não, melhor nem entrar nesse assunto.
— Você consegue lidar com uma, Sitri? — perguntou Sven.
Ele, Gark e Sitri eram, sem dúvida, os três melhores lutadores ali. Sven e Gark estavam acostumados ao combate corpo a corpo, então sentiam que podiam segurar uma quimera, talvez até duas por um curto período. Por outro lado, Sitri era uma Alquimista, uma das classes mais fracas no combate direto. Embora a Griever tivesse demonstrado uma astúcia arrepiante, ela não havia causado nenhum dano direto até agora.
Enquanto Sven franzia o cenho diante da situação terrível, Sitri ponderou por um instante antes de dizer:
— Vou segurar uma—não, duas delas, custe o que custar. Mas preciso que vocês derrotem as outras enquanto eu faço isso.
— Duas?! Você quer se matar?! — exclamou Sven.
Não importava quantos cofres de tesouros de alto nível ela tivesse saqueado, havia um limite para a força física que Sitri poderia ter acumulado como Alquimista. Parecia impossível que conseguisse segurar duas ameaças de Nível 7 ao mesmo tempo.
— Não vou morrer. Ainda tenho muitas coisas que quero fazer — disse Sitri, exibindo seu sorriso habitual. — Dê o seu melhor, Sven. Se eu trouxer alguém de volta num caixão, nunca mais conseguiria olhar para o Krai sabendo que ele confiou essa missão a mim.
Os caçadores finalmente haviam chegado ao esconderijo.
Agora, apenas Noctus e o agente de reconhecimento permaneciam na tensa sala de guerra, já que o último aprendiz havia partido para fazer um último esforço contra o ataque dos caçadores.
Noctus rangeu os dentes. Já teríamos esmagado esses vermes, pensou, se Flick não fosse um imbecil monumental! Usar um feitiço de área já era arriscado, mas ele estava confiante demais no próprio poder e desesperado para superar Sophia.
— Maldição! Por que ele não levou mais de um Devorador de Malícia? Sophia mandou ele levar todos! Aquele desgraçado patético e inútil! — Eu o superestimei? Ambicioso como era, achei que tivesse visão para enxergar o quadro completo. Ou será que o talento de Sophia brilha tanto a ponto de ofuscar até mesmo um homem capaz de conjurar um dos feitiços de raio mais difíceis que existem?
Convencido da própria derrota, o agente de reconhecimento sugeriu com o rosto pálido:
— Professor Noctus, devemos fugir pelos fundos. Não quero sugerir que já perdemos, mas essa é nossa última linha de defesa. Agora ainda podemos escapar sem sermos pegos. Nada saiu como esperado: a queda dos Fantasmas Transmogrificados, a derrota de Flick e os caçadores descobrindo nosso esconderijo. Tudo aconteceu rápido demais.
Noctus possuía forças mais do que suficientes para esmagar os caçadores—se não fosse pela sucessão de eventos inesperados. E no centro de cada reviravolta estava ninguém menos que Sitri Smart, a mesma caçadora que Sophia havia o advertido sobre.
A maré da batalha mudou no momento em que ela chegou ao acampamento dos caçadores. Noctus tinha visto tudo através de seu sistema de vigilância mágica: Sitri foi quem derrotou o primeiro fantasma transfigurado, forçando Flick a liberar o resto e permitindo que os caçadores se recuperassem rapidamente do ataque surpresa. Se não fosse por ela, Flick teria exterminado os caçadores ali mesmo.
Noctus já sabia que valia a pena ficar de olho em Sitri desde que Sophia a mencionara pela primeira vez, mas não esperava isso. Embora Sitri não parecesse fisicamente poderosa, ela se mostrou uma peça essencial nas batalhas até agora. Engraçado como ela lembrava muito Sophia. Talvez fosse por isso que Sophia lhe deu tanta atenção.
Coçando os cabelos brancos, Noctus resmungou:
— Ainda não. Ainda temos Akasha. Vamos confirmar que estamos definitivamente derrotados antes de fugir. Um mestre deve acompanhar as batalhas de seus aprendizes até o fim.
Sophia, sua primeira aprendiz, tinha talento suficiente para trazer uma fortuna imensa ao sindicato algum dia. Mesmo que Noctus fosse forçado a admitir o quão poderosa Sitri poderia ser, ele ainda apostava tudo em Sophia. Como a própria Sophia havia destacado, sua vantagem vinha da diferença de recursos disponíveis: Sophia não era limitada por leis e tinha todas as conexões, conhecimento e tecnologia da Torre Akashic ao seu alcance.
Na visão de Noctus, Sophia não tinha chance de perder. Todas as derrotas daquele dia eram culpa de um aprendiz que deixou sua inveja por Sophia falar mais alto. Sophia ainda não tinha entrado na luta. Noctus não desviaria o olhar até ver sua querida aprendiz levar a batalha contra sua rival até o fim.
— Vença, Sophia Black — ordenou —, e finalmente terá tudo.
A Pedra Sonora permaneceu em silêncio sobre a mesa.
— Usem magia! Mantenham-nos longe!
— N-Nós não conseguimos... Eles são rápidos demais!
Essas criaturas não tinham habilidades tão bizarras quanto os falsos slimes, mas as quimeras voadoras se provaram uma ameaça ainda maior do que o esperado. De acordo com a estimativa dos caçadores, elas voavam a mais de cem quilômetros por hora. Pior ainda, eram ágeis o suficiente para desviar das flechas de Sven. Mesmo impactos diretos de magia não as desaceleravam; suas escamas claramente resistiam tanto a ataques físicos quanto mágicos.
Mas o que mais dificultava a vida dos caçadores eram os ataques de mergulho das quimeras. Embora não atacassem de longe, investiam com força suficiente para derrubar caçadores protegidos por escudos, e suas presas e lâminas caudais rasgavam armaduras como manteiga. O tempo que levavam para voltar aos céus e se reposicionar era o suficiente para que os caçadores curassem os feridos, mas se um golpe fosse fatal, seria o fim da linha.
— Droga! Eles não chegam perto de nós! — gritou Sven.
Para o terror dos caçadores, as quimeras eram espertas o suficiente para se manter longe de Gark e Sven. As criaturas sempre mantinham distância de Gark e dos Crosses, esquivando-se das flechas negras de Sven mesmo através do véu da noite. Mas havia muitos caçadores para que eles conseguissem proteger a todos.
Ainda assim, havia um pequeno alívio: Sitri estava segurando duas quimeras no chão. Sem espadas ou escudos, ela evitava suas garras, presas e caudas com pura destreza. No entanto, Sitri não conseguiria manter aquele ritmo para sempre.
Mesmo com a vantagem esmagadora, o mestre das quimeras e suas feras não davam sinal de baixar a guarda.
Sitri tropeçou.
Garras a perseguiram, mas ela conseguiu desviar e se levantar no último segundo.
O tempo escorria, e os caçadores ainda não haviam conseguido acertar um único golpe nas quimeras. Eles estavam sem tempo e sem opções.
— Todo mundo, ânimo! Temos que virar esse jogo! Para a caverna! — gritou Sven.
Jogando Sitri sobre o ombro, ele disparou em direção a uma cratera recém-formada e mergulhou dentro dela.
Vai ser difícil, pensou Sven.
As quimeras certamente os perseguiriam, e Gark e Sven não poderiam proteger o restante do batalhão sozinhos. Se alguém se ferisse no caminho, eles não poderiam parar para ajudar. Alguns iriam morrer ali e agora. Sven sabia que seus companheiros de grupo podiam estar entre os que cairiam. Mas, mesmo assim, essa era a rota que traria menos baixas. Em uma desvantagem esmagadora, com os inimigos dominando os céus, eles não tinham chance de vencer. Sua única esperança estava na caverna, onde as quimeras não poderiam voar livremente.
Entendendo o que Sven quis dizer, os caçadores rugiram de determinação; um rugido de coragem para dissipar o medo.
Enquanto o batalhão corria para a caverna, duas das quimeras mergulharam sobre eles, como esperado. Correndo junto à multidão, Sven disparou flecha atrás de flecha, sem sucesso. Mesmo diante da investida, as quimeras não o perdiam de vista.
Uma delas se chocou contra parte do grupo, derrubando vários caçadores que gritaram ao cair. Mas eles não podiam parar.
Os rugidos das quimeras se misturavam desordenadamente aos dos caçadores.
Quando Gark, liderando a investida, estava prestes a alcançar a entrada da caverna, ele reduziu a velocidade.
— Droga! Tem outra coisa ali!
Uma silhueta bípede e imponente bloqueava a entrada. Seu corpo negro e dourado pairava sobre os caçadores e até sobre Gark, que já tinha mais de dois metros de altura. De seu torso maciço brotavam membros desproporcionalmente grandes, segurando uma espada gigantesca e um escudo reluzindo com veios de luz carmesim. E em sua testa brilhava o símbolo invertido da Torre Akashic.
O cavaleiro gigante moveu braços e pernas como se quisesse provar que não era uma mera marionete.
— Um golem?! Droga! Quando isso vai acabar?! — exclamou Sven, sentindo seu coração martelar como um alarme disparado.
Ele puxou a corda do arco com toda a força e disparou uma flecha. Naquela situação crítica, seus anos de treinamento lhe deram seu melhor disparo até então. Como uma estrela cadente, a flecha de ébano riscou o ar em direção ao centro do escudo do golem.
Um estrondo trovejante reverberou pelo campo de batalha, e o gigante cambaleou alguns passos para trás—então, a flecha estilhaçada caiu no chão.
Sven encarou o resultado, incrédulo: o golem não apenas bloqueou a flecha. Ele a pegou.
Seus poderes iam muito além da aparência.
Gark rugiu e golpeou o escudo do golem com toda a sua força usando a Presa de Hail, enquanto uma tempestade de feitiços mágicos atingia o gigante. Ao mesmo tempo, as quimeras giraram no ar e avançaram contra os caçadores feridos. Não havia como passar pelo golem, que permanecia firme como sempre, imune à explosão mágica.
Não tem saída. É o fim? pensou Sven, parado e encurralado pelo golem à sua frente e pelas quimeras voando atrás dele. Eu não vou desistir! Ainda não.
Sven puxou todas as flechas restantes de sua aljava e as encaixou de uma vez; ele estava se preparando para o ataque Golpe da Tempestade — o ataque que deu origem ao seu apelido. Assim que disparasse, não teria tempo de recuperar nenhuma flecha. Mas, se tivesse sorte, poderia derrubar uma quimera; com um milagre, talvez até duas de uma vez. Era sua última cartada.
Cada gota de sangue, suor e lágrimas o prepararam para este momento. Sven lançou todas as treze flechas na noite, cada uma com a força de um único disparo seu.
Uma das quimeras guinchou e tentou se torcer no ar para sair da trajetória das flechas.
Sangue escorreu dos lábios de Sven. — Droga...!
Algumas flechas atingiram a quimera, mas nenhuma foi fatal, muito menos acertou suas asas: elas mal arranharam suas escamas. A quimera não havia desviado dos ataques; apenas teve sorte.
A besta alada girou no ar e rugiu como se estivesse comemorando sua vitória — antes de cair ao chão, como se estivesse sendo puxada por uma mão invisível. Um estalo anunciou sua queda, paralisando outra quimera voadora de surpresa.
Nenhuma das flechas de Sven havia sido fatal, nem envenenada. Ele só podia observar sem entender. Sitri, que continuava esquivando e desviando dos ataques das duas quimeras no chão, arregalou os olhos.
Ao som de um pouso suave, todos os olhos dos caçadores se voltaram para uma armadura reveladora em tons de vermelho e preto, um par de botas metálicas robustas, uma proteção de pulso na mão direita — e o corpo envolvido por tudo isso, poderoso e esculpido como o de um predador.
Jogando a cabeça para trás, ela olhou para o céu, seu rabo de cavalo apontando para o chão.
E um gemido bêbado ecoou pela noite. — Ooh, isso caiu bem! Bravo, Krai, querido. Estou me apaixonando por você de novo.
Na clareira, estava a assassina genocida, encrenqueira, incontrolável e imprevisível, Sombra Partida. A corredora mais rápida do mundo havia surgido bem no meio da batalha.
Sven gaguejou: — L-Liz?! Por que você—
— Cala a boca, tá? Tô curtindo um barato muito bom agora.
O rosto de Liz se contorceu em um sorriso extasiado enquanto observava a cabeça da quimera caída finalmente rolar para longe.
Ela nos abandonou...
Atordoados, Tino e eu caminhávamos pela floresta escura.
Eu seria o primeiro a admitir que tinha medo do escuro. E medo de florestas. Multiplique um pelo outro e eu tinha um medo exponencial de florestas escuras. Enquanto a Visão da Coruja estivesse ativa, eu conseguia aguentar, mas quando ela se esgotasse...
Depois de andar por um tempo na floresta, Liz de repente gritou: — Achei eles! Até mais! — e disparou, abandonando seu trabalho como minha guarda-costas. Me perguntei se ela achava que estávamos num piquenique ou algo assim. Embora eu já a conhecesse bem o suficiente para não me surpreender, não pude deixar de sentir que minhas esperanças foram esmagadas.
— Desculpa por sempre te arrastar pra essas coisas — disse a Tino.
— Não, Mestre... Eu não me importo! — respondeu ela, cerrando o punho de forma encorajadora.
Aparentemente, ela estava aprendendo com sua mentora como não agir.
Nenhum monstro ou fantasma cruzou nosso caminho — provavelmente porque estavam aterrorizados com Liz. Logo, a luz iluminou a floresta à nossa frente.
A floresta estava queimando, parecendo o rastro de uma explosão; o cheiro de árvores quebradas e grama queimada invadiu meu nariz. Isso me surpreendeu por um momento, mas não vi nenhum cadáver.
Talvez tenha sido uma tempestade.
Tino parou e me encarou, sua expressão de boneca tingida de emoções sutis. — Mestre... — disse ela.
— É, sei... — Eu realmente queria que Tino começasse a explicar as coisas nesse momento. — Vamos logo. Melhor eu ir fazer o que vim fazer — tomar conta da Liz. Eu falhei até nessa tarefa minúscula que Sitri me confiou. Toda vez que acho que atingi o fundo do poço da inutilidade, descubro um alçapão se abrindo embaixo de mim.
Os olhos de Tino vacilaram antes de ela abaixar a cabeça e dizer: — M-Mestre... Me desculpe... por você ter que ficar comigo. Se estiver com pressa, pode ir... sem mim.
Atravessar essa floresta escura sozinho? Isso seria cruel. Comigo.
Séria, Tino observou a clareira e disse: — Marcas de um feitiço de raio muito poderoso... lançado do alto, provavelmente. Devemos tomar cuidado com os olhos acima.
— Entendi... — Assenti com um olhar sábio, secretamente lamentando por Tino. Ela havia sucumbido ao "cérebro de caçador", um perigo da profissão, um tipo de paranoia que faz os caçadores imaginarem os piores cenários o tempo todo.
Até eu sabia sobre magia de raio: era um ramo de feitiços superdifícil que só os melhores dos melhores Magos podiam sonhar em conjurar. Ark ganhou o apelido de "Tempestade de Prata" precisamente porque era um mestre desse ramo da magia, entre outras coisas. No entanto, a magia se tornava mais difícil e exigia mais mana quanto mais poderosa e abrangente fosse. Não havia chance de haver um mago aleatório capaz de lançar um feitiço tão destrutivo — muito menos um feitiço de raio — nas profundezas da floresta. Claramente, isso era obra de um desastre natural, e os nervos de Tino estavam à flor da pele desde que Liz deixou a missão de me proteger para ela.
Uma nova olhada confirmou que não havia corpos. Também não havia sinal de chuva, mas dizem que o clima nas florestas é imprevisível.
Se houver um Mago capaz de causar tal destruição por perto, eu quero ficar o mais longe possível dele.
— Não se preocupe com ninguém acima. Vamos seguir em frente — eu disse.
— Tem certeza, Mestre...?
— Sim, sim. Sem problema.
Tino sorriu diante da minha "confiança" e disse: — O-Obrigada! Então deixarei o céu com você, Mestre.
— O quê—? Uh-huh, claro. — Responsável pelo céu? Isso era ótimo, pois significava que eu podia deixar Tino encarregada de qualquer ameaça no chão — incluindo Liz.
Tino começou a guiar o caminho, seu ânimo renovado. Enquanto a seguia, percebi que nem estávamos seguindo uma trilha, e Tino nem parecia ter uma bússola.
***
Os estilos individuais de combate, além da força bruta, desempenhavam um grande papel na determinação dos rumos das batalhas para os caçadores. Por exemplo, a alabarda de Gark era poderosa o suficiente para cortar o corpo de uma quimera ao meio, a flecha de Sven podia voar longe e perfurar quase qualquer coisa, e o que Sitri não tinha em poder de combate, compensava com sua capacidade de resolver problemas e criar estratégias.
As quimeras eram inimigos formidáveis; suas táticas cuidadosas de ataque e recuo tornaram Gark inútil devido ao seu estilo de ataque de curto alcance, e sua destreza no voo significava que as flechas de Sven raramente as atingiam.
Liz, por outro lado, era uma caçadora especializada em velocidade. O mana material reforçava as habilidades físicas de todos os caçadores expostos a ele, mas o aspecto específico do corpo que era aprimorado dependia em grande parte da intenção do caçador. Liz havia dedicado a maior parte do mana material que absorveu durante suas explorações em cofres de tesouro de alto nível à sua velocidade, a ponto de conseguir ultrapassar a flecha de Sven e apanhar cada chumbinho de um disparo de espingarda no ar.
— Tá com dificuldade, Siddy? Bem feito!
— L-Liz?!
Sven e Liz, se fossem lutar um contra o outro, seriam quase equivalentes, mas o estilo de combate de Liz era mais adequado para enfrentar as quimeras do que qualquer outro membro do batalhão.
Confundindo a confiança de Liz com uma brecha, uma quimera desceu sobre ela, pronta para derrubá-la com uma força suficiente para nocautear caçadores muito mais resistentes que ela. No entanto, um segundo antes de a besta alada atingi-la, Liz desapareceu. Até mesmo Sven mal conseguiu acompanhar seus movimentos com os olhos. Para Liz, uma fanática por velocidade que podia agarrar flechas em pleno voo, a quimera poderia muito bem estar parada. Sem sequer olhar para a fera, Liz desviou do ataque e, para a surpresa de todos, montou na criatura alada. Com Liz em suas costas, a quimera se debateu e disparou para o alto, mas não conseguiu se livrar da pequena humana.
Liz era a personificação do lutador de alto nível que os caçadores tanto esperavam. Enquanto isso, os caçadores feridos agora tinham a chance de se recuperar.
— Para de brincar, Liz! Acaba logo com isso! A Sitri não vai aguentar! — gritou Sven.
— Cala a boca, caramba! Tá me mandando o que fazer depois de ter me cortado desse espetáculo?!
Liz saltou da quimera e aterrissou perfeitamente no chão, a dezenas de metros de altura. Momentos depois, a quimera que Liz havia montado despencou, sua cabeça decepada com sangue jorrando do corte. Liz fez parecer incrivelmente fácil depois de todo o terror que o batalhão havia enfrentado.
— Por que você tá aqui?! — gritou Sitri.
— Não aguentei mais esperar, então fiquei pedindo até o Krai Baby deixar.
Krai, seu desgraçado... Ele finalmente nos enviou reforços! — percebeu Sven.
Liz não poderia ter chegado em momento mais crucial, justo quando o medo de um massacre total se tornava cada vez mais real entre os caçadores. A miraculosa previsão de Krai mais uma vez havia se mostrado certeira.
Neste ponto, Gark e vários outros haviam cercado o golem. Por mais poderoso que o gigante fosse, seus golpes eram lentos. Agora era a vez dos caçadores usarem ataques de investida e recuo.
— O Mil Truques nos mandou reforços! Podemos vencer essa! — gritou Sven, sem se importar que estava entregando informações ao inimigo.
Sophia Black estava no meio do campo de batalha, mordendo o lábio. Nada tinha saído como esperado. Ela havia aprendido a esperar o inesperado até certo ponto, mas aquilo já era ridículo.
O principal entre os acontecimentos inesperados era Flick ter se rebelado. Apesar de suas diferenças, Sophia nunca imaginou que ele desconsideraria tanto suas ordens. Desperdiçar o soro de transmutação já era ruim, mas Sophia ficou aterrorizada quando ele atacou os caçadores com magia de raio do alto. Ela nunca imaginou que seu colega poderia lançar um feitiço desse calibre, muito menos que usaria magia como seu principal modo de ataque depois de ter recebido ordens para usar os Devoradores de Malícia. Sua maior lição disso tudo foi perceber que havia subestimado as habilidades e o orgulho de Flick. Ela não cometeria esse erro de novo.
Com o surgimento repentino da Sombra Partida, o plano de Sophia foi completamente por água abaixo. Os Devoradores de Malícia, quimeras de elite que podiam enfrentar dezenas de caçadores comuns de uma vez, estavam sendo rasgados como brinquedos dos quais Liz tinha se cansado. Suas garras e lâminas da cauda eram completamente inúteis se nunca conseguiam acertar o alvo—como poderiam acertar Liz?
Ainda assim, embora os Devoradores de Malícia fossem perigosos sozinhos, sua maior força estava em suas habilidades reprodutivas. Diferente das outras quimeras, que eram estéreis, os Devoradores de Malícia podiam se reproduzir sexualmente como a maioria dos animais.
Embora Sophia tivesse considerado a experiência reprodutiva interessante, sabia que as quimeras não tinham nenhuma habilidade especial para compensar sua terrível falta de velocidade contra Liz. Além disso, Sophia não esperava que o Magus que comandava as quimeras as liderasse de maneira tão tímida.
Agora, não apenas Sophia não tinha mais esperanças de eliminar os caçadores, como o ataque também havia falhado como experimento de campo.
Que desperdício. Essa era uma oportunidade rara de testar as quimeras contra um grupo inteiro de caçadores de diferentes classes.
A Sombra Partida disparou para o alto com um único impulso no chão, seus olhos fixos no Magus que comandava as quimeras lá no alto. Quando Liz chegou à metade do caminho até o Magus, sua aceleração diminuiu até ela ficar suspensa no ar no ponto mais alto do salto. Então, ela chutou o ar e subiu rapidamente novamente, pegando o comandante Magus de surpresa.
Sophia conhecia bem a Relíquia de Liz: Raízes do Apex permitia ao usuário chutar o ar uma única vez no meio de um salto. Era uma Relíquia simples, mas produzia um efeito impressionante quando nos pés da Sombra Partida, que possuía velocidade sobre-humana.
Tendo alcançado o último Devorador de Malícia no ar, Liz o derrubou, junto com o Magus.
Para Sophia, as duas quimeras restantes no chão não forneceriam nenhum dado útil. Dados sobre uma luta contra a Sombra Partida eram inúteis de qualquer forma.
O que restava do lado deles era Akasha—a arma que haviam projetado especificamente para enfrentar Grieving Souls. Sophia e Noctus trabalharam até os ossos para criar esse golem com uma armadura de liga proprietária que protegia cada centímetro de sua estrutura e um escudo capaz de resistir a qualquer corte imaginável. Equipado com uma espada e um canhão, o gigantesco cavaleiro artificial era capaz de lidar tanto com combates de curta quanto de longa distância. Sophia e Noctus consideraram todos os possíveis cenários ao projetá-lo e o carregaram com mana suficiente para resistir a batalhas prolongadas. A maior fraqueza de um golem sempre foi sua "inteligência" inferior, mas com um humano assumindo as decisões estratégicas, isso deixava de ser um problema. Esse golem era uma verdadeira arma de guerra, digna do nome "Akasha".
Noctus investiu tanto dinheiro no desenvolvimento desse golem que chegou a receber reclamações da sede da Torre Akáshica. Mas, com todo o tempo e recursos que haviam despejado no projeto, tinham plena confiança de que ele poderia enfrentar até mesmo um grupo de caçadores.
Sophia observava Akasha brandindo sua espada e escudo, mantendo os caçadores afastados como se fossem meros insetos zunindo ao redor de uma luz. Mesmo o ponto onde Gark havia golpeado diretamente sua armadura apresentava apenas uma pequena marca, sem nenhum dano real. Ela imaginava que o controlador do golem devia estar embriagado pelo próprio poder.
Inútil. Sophia mordeu o lábio novamente. Você nem sequer liberou uma fração do verdadeiro potencial de Akasha.
Aos olhos dela, seu companheiro no comando parecia uma criança balançando um pedaço de pau sem rumo. Seus colegas aprendizes, por mais talentosos e inteligentes que fossem no laboratório, não passavam de lutadores amadores. Sophia já conseguia sentir a decepção de Noctus com o desempenho do controlador, o que desonrava o sigilo gravado na cabeça do golem.
A Sombra Partida eliminou os dois últimos Devoradores de Malícia em um único golpe antes de avançar empolgada na direção de Akasha.
Diferente dos caçadores, nenhum reforço apareceria para ajudar o controlador do golem. Seu objetivo deveria ser reduzir rapidamente o número de caçadores, mas aparentemente o piloto de Akasha havia se esquecido até mesmo disso. Agora, o golem estava tão ocupado bloqueando a série de ataques dos outros caçadores que sequer dava atenção a Gark—mesmo ele sendo um dos alvos mais perigosos no campo de batalha.
Eu vou assumir o controle, como planejado.
Sophia concentrou sua mente e moveu os dedos sutilmente para não alertar os caçadores ao seu redor, ativando o feitiço para tomar o controle de Akasha. Usando seu acesso de administradora, ela assumiu o comando do golem do seu colega aprendiz. O golem parou por um instante antes de liberar seu verdadeiro poder.
Estamos indo bem. Podemos vencer isso. Sven estava convencido.
Agora que Liz havia eliminado as quimeras, os inimigos tinham apenas um único golem para impedir os caçadores de invadir sua base de operações. Ainda assim, o gigante negro dominava os caçadores a cada movimento: seus braços se moviam com força suficiente para lançá-los pelos ares; sua armadura sólida mal havia sofrido um arranhão com o ataque de Gark; e sua espada imensa ameaçava golpes letais. No entanto, Sven ainda preferia enfrentar um golem a várias quimeras, principalmente porque seu estilo de luta era amador.
Golems eram incapazes de seguir ordens complexas. Mesmo os criados com extremo cuidado possuíam um poder de processamento muito inferior ao de um humano, o que os relegava a funções mais simples.
Embora esse golem parecesse mais "esperto" que os comuns, ainda estava muito aquém da engenhosidade dos caçadores, que precisavam se adaptar constantemente a novas ameaças dentro dos cofres de tesouros. Eles não eram frágeis o bastante para cair diante de um pedaço de metal balançando uma espada cegamente, por mais forte que fosse. Além disso, os ataques de Gark estavam, de fato, afetando a armadura—desde que conseguissem ultrapassar o escudo. Embora o golem fosse incrivelmente durável, a lâmina da Presa do Granizo não havia sofrido nem um único dano ao se chocar repetidamente contra sua armadura. Na verdade, em certos pontos do golem onde a alabarda havia atingido, sua armadura começava a apresentar sinais sutis de congelamento.
— Vou dedurar você, Siddy. Vou contar pro Krai Baby que você está tendo dificuldades — disse Liz enquanto avançava contra o golem. — E você me deve uma.
— Nem pense nisso, Liz! E por que diabos você veio, afinal?!
Como sempre, enlouquecida, Liz saltou para dentro do alcance da espada do golem, que girava violentamente pelo campo de batalha. Ela se esquivou da tempestade de lâminas e chutou o escudo do golem em cheio, fazendo com que o colosso de quatro metros de altura vacilasse sobre os pés.
— Mmm! — Liz comemorou. — É tão resistente! Eu adorei!
Ela correu escudo acima, que estava quase em um ângulo reto, posicionando-se próxima demais para que o golem pudesse atacá-la com a espada. Então, ergueu a perna direita e acertou a cabeça do golem com um chute giratório. O impacto fez com que a máquina recuasse alguns passos, e Liz aterrissou a poucos metros de distância. O golem, aparentemente imperturbável pelo chute, contra-atacou com um golpe de escudo, mas Liz se esquivou sem qualquer dificuldade.
Com um dedo nos lábios, Liz assumiu uma expressão séria, sua excitação insana desaparecendo por um momento.
— Armadura de metal. Propulsores nos pés. Canhões nos braços. Escudo. Espada larga. Sem asas. Tudo metálico; até mesmo as juntas estão protegidas. Vai ser difícil quebrar de frente, hein… — murmurou para si mesma. — Bem, eu achei que seria fácil. Devia ter imaginado que o Krai nunca me deixaria sair só para lidar com quimeras meia-boca.
Enquanto isso, Henrik correu até Sven e entregou as flechas que havia recolhido. No geral, como não haviam atingido seus alvos, ainda estavam em perfeitas condições.
Ao pegá-las, Sven gritou para Liz:
— Eu vou te ajudar, Liz; essa coisa é lenta. Minhas flechas e a alabarda do Gark não conseguem fazer nem um arranhão no escudo, mas o resto dela é um pouco mais vulnerável.
Os pontos congelados na armadura pareciam especialmente enfraquecidos. Se conseguissem distrair o golem o suficiente para desferir ataques concentrados nesses locais, talvez pudessem finalmente rompê-lo. Liz era rápida, mas Sven, Gark e alguns outros ainda possuíam um poder de dano maior em ataques únicos.
— Você é uma Ladina! — Sven lembrou-a. — Deixa a gente se divertir de vez em quando!
O único obstáculo agora era a falta de comunicação de Liz. Muitas vezes, perguntar algo para ela resultava em uma negativa só porque sim, mesmo que antes ela nem tivesse uma opinião formada sobre o assunto.
— Eu faço o que quiser, e vocês fazem o mesmo — respondeu Liz, casualmente. — Suas flechas não vão me acertar de qualquer forma.
Sven contava com Liz para atrair a atenção do golem, criando uma abertura para o restante do grupo atacar. Eles ainda não tinham encontrado um ponto fraco evidente, então, enquanto Gark mirava no torso, Sven decidiu mirar na cabeça.
— Não temos muito tempo de qualquer forma — acrescentou Liz.
— O que quer dizer? — perguntou Sven.
Imediatamente, o golem, que vinha brandindo sua espada, parou de se mover de repente. Ele se curvou como se tivesse sido desligado e permaneceu completamente imóvel.
Ele quebrou? Ou isso faz parte de um plano? De qualquer forma, agora é a hora, pensou Sven.
Sven encaixou uma flecha; seu braço latejava de dor devido aos disparos repetidos. Num instante, a flecha foi solta e voou direto para a cabeça do golem.
Mas, no meio do ar, o golem se reativou e interceptou o projétil com seu escudo, exibindo um nível de propósito muito além do que havia demonstrado até então. Em vez de explodir a cabeça do gigante, a flecha atingiu o escudo com um impacto explosivo e caiu no chão.
O golem se movia de maneira diferente agora, e todos os caçadores podiam sentir isso: o pedaço de metal, que vinha se defendendo sem sair do lugar, de repente assumiu uma postura incrivelmente mais humana. Com um único avanço, balançou seu escudo contra o grupo de caçadores que até então evitava seus ataques com facilidade.
O golem havia se tornado consciente de repente; isso inspirou terror nos caçadores.
— Corram! — gritou Sven.
Guerreiros com escudos firmes foram lançados pelo ar como confetes e, um momento depois, caíram no chão com força.
Com precisão, o gigante de metal girou sua espada no próximo movimento.
— Recuem! Fiquem atentos! — chamou Sven.
Com um ajuste adequado no peso, o golem balançou a espada de forma letal. Por pouco não atingiu os caçadores, mas sua lâmina rasgou o solo, abrindo um sulco profundo.
Gark, que havia se movido para trás do golem, girou sua alabarda. Com um rugido que sacudiu o ar, ele golpeou a perna do monstro — e encontrou apenas o vazio.
Uma sombra obscureceu a luz da lua. O pedaço de metal de quatro metros de altura havia saltado no ar, apenas para sucumbir à força da gravidade. Ao aterrissar, fraturou o solo, levantando uma nuvem de poeira e lançando uma onda de choque contra os caçadores.
O que... acabou de acontecer?
Sven não podia acreditar no que via. O golem, que antes se movia como uma criança brincando de soldado, agora se movia como um guerreiro experiente.
A hulk de metal ergueu sua espada. Ao cortar o ar ao trazê-la para baixo, apontou diretamente para Sven — era um desafio.
— Para o tamanho dele, essa coisa é rápida demais! — notou um dos caçadores.
Curandeiros estavam cuidando daqueles que haviam sido arremessados, mas o golem não lhes deu a menor atenção. Ele também não se incomodava com a tempestade de magia atingindo seu corpo, como se soubesse que era imune. Apenas Gark, Sven e Liz captaram sua atenção.
Sob a enorme figura na noite, uma percepção atingiu Gark.
— Essa coisa... está agindo como Ansem!
Ansem Smart, apelidado de "Imutável", era o Paladino nível 7 dos Grieving Souls, famoso por sua invulnerabilidade.
Liz, irmã biológica de Ansem, olhou para o golem com curiosidade e disse:
— Ele tem praticamente a mesma altura que ele... Talvez tenham modelado ele com base no Ansem.
— Mas por quê?! — exclamou Sven.
E o golem voltou ao ataque. Toneladas de metal avançando naquela velocidade criavam uma força poderosa demais para ser bloqueada.
Sua lâmina colossal — de dois a três metros de comprimento — investiu contra Liz, que saltou graciosamente sobre ela. Por mais rápido que o golem fosse agora, ainda era lento demais para capturar a Sombra Partida.
Liz consegue desviar dele pelo menos, avaliou Sven, regulando sua respiração e procurando uma abertura.
No ar, os olhos de Liz brilharam de surpresa.
Riscando o céu noturno, uma linha flamejante de laser disparou do canhão no braço superior do golem e roçou sua cintura.
Liz chutou o ar freneticamente para se impulsionar de volta ao solo. Mas, assim que pousou, o canhão já estava mirado nela.
Liz correu, sua compostura notavelmente abalada.
— Mas que droga?! — exclamou, enquanto outro feixe de laser queimava o chão. — Essa coisa também tem um ataque à distância?!
A nova função empurrou os caçadores ainda mais para o desespero.
Embora os lasers não fossem tão poderosos quanto outras armas, eram extremamente difíceis de evitar — nem mesmo Liz podia superar a velocidade da luz. Ela podia prever a trajetória observando a posição do canhão, mas não havia como desviar no meio do ar caso já tivesse usado seu impulso aéreo.
Incansavelmente, o golem golpeava Liz com sua espada, aparentemente reconhecendo-a como sua maior ameaça; cada balanço da lâmina representava um golpe fatal para o corpo pequeno e minimamente protegido da ladina. Sempre que Gark ergueu sua alabarda, o golem a afastou antes que ele pudesse atacar, e cada flecha que Sven disparou para o que achava ser um ponto cego foi desviada pelo escudo — o golem estava ciente do ambiente o tempo todo, como se tivesse uma visão aérea do campo de batalha.
— Por que ele está indo atrás da Liz?! — perguntou Sven.
Diferente de antes, o golem estava lutando com inteligência, priorizando alvos. Mas isso tornava ainda mais estranho o fato de estar perseguindo Liz: por mais ágil que fosse, seus ataques tinham um impacto relativamente menor em um golem completamente blindado.
— Me deixa em paz! — resmungou Liz, mantendo-se um passo à frente dos feixes de laser que antecipavam seus movimentos. Uma marca vermelha marcava seu lado, onde o primeiro disparo a atingira.
Não conseguimos derrubá-lo. É resistente demais, pensou Sven, calculando suas opções. Isso é um jogo completamente diferente das quimeras, que podíamos derrotar se os ataques da Liz acertassem... Talvez derrubá-lo? Mas será que conseguimos, agora que ele está quase tão ágil quanto a Liz?
Enquanto isso, ignorada pelo golem, Sitri observava a batalha da irmã, imersa em pensamentos profundos que ocultavam qualquer emoção. Submersa em concentração, murmurava para si mesma.
— Sitri! — chamou Sven. — Vê alguma saída?!
— Ah, sim... Que bom que ele não tem um ataque em área. Minha irmã não lida bem com esses — respondeu distraída.
— Do que está falando...?
Liz se movia cada vez mais rápido, desviando dos lasers e atacando as pernas do golem com chutes. Ainda assim, ele permanecia firme.
— Eu acredito que a fraqueza dele... seja a resistência — notou Sitri. — Golens feitos por alquimistas são alimentados por mana fornecida por uma bateria em sua estrutura. Quando a mana acaba, ele para de funcionar naturalmente, e quanto mais rápido se move, mais rápido consome sua energia.
— Então temos que prolongar essa luta — disse Sven.
— Ataques a laser consomem mais mana do que qualquer outra coisa... Acho. Não deve durar muito se continuar disparando lasers assim. Duvido que seu revestimento seja de aço comum, então derrubá-lo à força bruta não será fácil—essa é nossa melhor opção.
A batalha terminaria quando Liz ou o golem ficassem sem energia, pensou Sven.
Por algum motivo, o golem havia desistido de atacar os outros caçadores, que se protegiam do combate. Ou ele não tinha interesse em matar os fracos ou considerava Liz uma ameaça grande o suficiente para exigir toda a sua atenção.
Sua espada rasgou o chão, e seu escudo maciço varreu Gark como se estivesse espantando um inseto. Gark aparou o golpe com sua alabarda, mas foi jogado para trás, rolando algumas vezes antes de usar o impulso para se levantar de novo.
A clareira agora exibia marcas de espada e laser; o cheiro de poeira queimada impregnava o ar.
Podemos resistir, decidiu Sven.
Com sua vantagem numérica e a presença de vários curandeiros, ele confiava em suas chances. O maior desgaste seria para Liz, mas Sven sabia que ela preferiria morrer a desistir.
— Faça ele se cansar, Liz! Vá com calma e force ele a gastar esses lasers o máximo que puder, mas se controle! Nós lidamos com a espada e o escudo!
— Que se dane! Eu vou desmontar essa pilha de sucata, nem que isso me mate! Não temos tempo pra isso!
— Acorda! Pensa um pouco! — gritou Sven.
Chutar aquele monte de metal não devia ser nada fácil para as pernas dela. Ignorando-o, Liz disparou para atacar o golem por trás. O golem se virou para segui-la com sua espada e lasers. Não havia dúvida de quem ficaria de pé no final de um confronto direto entre carne e metal.
Sem tempo? Sem tempo para o quê? perguntou-se Sven.
Liz estava claramente inquieta com algum tipo de contagem regressiva em sua mente. Ela saltou por cima do golpe da espada, pousou na perna do golem e correu para cima. Com um pulo bem calculado, evitou o laser e acertou um chute devastador na têmpora do golem. O monstro de metal vacilou. Mas, ainda assim, o canhão em seu braço esquerdo se ajustou para mirar nela.
Instintivamente, Sven disparou uma flecha na perna do golem em vez de mirar na cabeça. A flecha cravou atrás do joelho direito, forçando-o a dobrar e fazendo o laser errar o alvo.
Gark, que já estava investindo contra o gigante metálico, golpeou com força o mesmo joelho com sua alabarda.
A enorme massa de metal finalmente inclinou; sua perna esquerda deslizou para baixo enquanto ele começava a tombar para trás.
— Isso aí! — gritou Sven em triunfo.
Com um pouco de sorte, tudo se encaixou: o golem perdeu o equilíbrio ao perseguir Liz de forma implacável, e os ataques consecutivos atingiram no momento exato. Ele demoraria para se reerguer; até mesmo humanos totalmente armadurados levam um tempo e fazem esforço para se levantar depois de caírem de costas no chão.
Essa é nossa chance, pensou Sven. Gark pode acertar a cabeça dele quando estiver no chão, e eu atiro se ele soltar o escudo. Talvez possamos acabar com isso agora mesmo—
Mas a centelha de esperança de Sven foi esmagada.
Ele e Gark assistiram, atônitos, enquanto o golem, que deveria estar caído, se sustentava com jatos de ar saindo de suas costas. O fluxo de ar gradualmente ergueu o golem até que ele voltou a ficar de pé, sua espada e escudo prontos como se nada tivesse acontecido.
— I-Isso não pode estar acontecendo... — murmurou Sven.
Cada ameaça que a Torre Akáshica havia lançado contra eles até agora tinha sido formidável: os aparentemente invulneráveis slimes falsos, o feitiço de raio de nível máximo que incapacitou quase cem caçadores, e a matilha de quimeras escorregadias. Qualquer um desses desafios seria raro e letal para a Obsidian Cross se encontrado em algum dos cofres do Nível 6 que frequentavam. Mas esse golem, com táticas de combate impecáveis, era diferente. Sven não sabia muito sobre sindicatos mágicos, mas se todas essas ameaças eram fruto dos experimentos da Torre Akáshica, ele não hesitaria em rotular o grupo como um terror para o mundo inteiro. Ele se perguntava se a resistência do golem superava até as expectativas de Sitri.
— Rraaaaagh!
Enquanto Sven observava, surpreso, Gark e Liz rugiram e avançaram contra o golem com espírito inabalável. Sven viu verdadeiros heróis nos dois. Inspirado, ele armou uma flecha. Sabia que até os outros caçadores, que nem sequer conseguiam se aproximar do golem, estavam correndo pelo campo de batalha para recolher suas flechas.
Ainda posso fazer mais, disse a si mesmo. Esse aqui ainda não viu a Tempestade Cortante.
Embora seu golpe especial não tivesse afetado os slimes falsos nem as quimeras, Sven já havia derrotado incontáveis inimigos mortais com ele no passado. A Tempestade Cortante exigia quase toda a força que ele ainda tinha—não deveria ser disparada mais de uma vez por missão—mas mesmo assim, Sven estava seguro de sua decisão. Ciente do peso do feixe de flechas que seus aliados reuniram para ele, ele preparou o disparo e derramou sua alma na corda do arco, concentrando sua mente apesar do cansaço. Ele sabia que acertaria seu alvo. Observou Gark e Liz circulando o golem, mas isso não era problema—seu alvo era claro.
Dessa vez, eu não vou errar, pensou.
E com máxima concentração, Sven puxou seu arco com toda sua força.
Então, de repente, Liz cessou seu ataque e recuou alguns metros do golem. Seu rosto estava vermelho, a respiração pesada; seus olhos estavam injetados de sangue, e o rosto coberto de suor escorrendo.
— Acabou o tempo! Já era! — disse ela.
Acabou o tempo? Sven se perguntou o que a berserker egoísta e imprudente poderia estar priorizando além de derrotar um inimigo formidável.
Então, como se o próprio tempo tivesse parado, o golem ficou imóvel onde estava.
— O que vocês estão fazendo...? — Uma voz tão incongruente com a situação sanguinária à sua frente rompeu o silêncio.
Sven sentiu o suor escorrer de cada poro ao perceber a verdade: a voz pertencia a um homem que parecia completamente deslocado ali, sem qualquer presença de poder físico ou uma arma consigo—como se nem fosse um caçador. Para completar sua aparência esquecível, ele tinha cabelo escuro e olhos escuros. Com um andar e uma aura absolutamente despretensiosos, ele era tão comum que ninguém o notaria em uma rua lotada. Mas ali, mesmo sem olhar para ninguém em específico, a maioria dos caçadores o reconheceu. E aqueles que não reconheceram, nunca esqueceriam esse dia.
— Krai...? Ah... Agora entendi — disse Sven. — Então foi você quem trouxe a Liz.
Na borda da floresta, parado ali sem esforço, estava o Mil Truques, um dos três caçadores de Nível 8 da capital, naturalmente superando todos ali.
Ele era infame por manter suas táticas em completo sigilo; um homem que raramente saía da capital.
Krai não demonstrou a menor reação ao campo de batalha devastado. Nem sequer olhou para Sven ao ouvir sua voz. Seu rosto exibia uma expressão serena, em contraste com a nervosa Tino ao seu lado. Krai quase parecia transcender a cena à sua frente, alheio ao clima tenso prestes a se romper. Até mesmo o golem cessara seu ataque diante do intruso, como se estivesse igualmente atordoado.
Liz foi a primeira a se mover.
— Me desculpa, Krai Baby. Eu não consegui terminar o serviço!
— É... Hã? — murmurou Krai, confuso.
Até agora, não consigo entender esse cara, pensou Sven, abaixando o arco.
Embora o golem estivesse apenas parado, ele não precisaria disparar mais flechas. Todos que enfrentavam Krai acabavam entendendo o significado por trás de seu título. Mesmo depois de anos trabalhando ao lado dele, Sven ainda não fazia ideia de como seus poderes funcionavam.
— Entendo... Então, acabou — murmurou Sitri.
Foi então que o golem voltou a se mover. Seus passos explodiam o solo enquanto avançava em uma investida ainda mais rápida do que antes. Não demonstrou o menor interesse em Sven, Gark, Liz ou qualquer outro caçador—o golem avançava diretamente em direção a Krai, do outro lado da clareira.
Tino, que Krai provavelmente trouxera para observar e aprender com sua luta, soltou um grito sufocado.
— M-Mestre...!
— Aham, é. — Sem se importar com o pânico de Tino, Krai simplesmente deu um passo à frente, sem sequer tentar desviar da enorme espada que descia sobre ele.
Os que ainda não entendiam o significado das ações do Mil Truques gritaram, certos de que aquele era seu fim.
No instante em que a lâmina estava prestes a atingir o imóvel Krai—o golem foi arremessado para longe. Nenhum dos caçadores viu ou ouviu nada, mas o golem, que três dos seus melhores guerreiros não conseguiram sequer derrubar, foi lançado a dezenas de metros de distância, rolando várias vezes pelo chão. Sua espada, arrancada de sua mão, ficou cravada no solo, inclinada.
Gark permaneceu paralisado, incrédulo. Ele não viu qualquer sinal de ataque por parte de Krai—nenhum golpe físico, magia ou uso de Relíquia. Sven, por mais que já estivesse convencido da vitória assim que Krai apareceu, não esperava algo assim.
— Então é isso que um nível 8 pode fazer...?! Depois de tanto esforço para derrotá-lo... — murmurou um dos caçadores.
— Mas o Mil Truques não era um combatente! — exclamou outro.
— O que foi isso, Krai Baby?! Foi incrível! Eu nem consegui ver o que aconteceu! — comemorou Liz.
O golem jazia imóvel no chão. Apesar de ter resistido a uma batalha feroz momentos antes, o impacto com o solo não parecia tê-lo destruído. Isso só deixou os caçadores ainda mais confusos sobre o que exatamente Krai havia feito. A luz no triângulo invertido—um símbolo da verdade e o emblema da Torre Akáshica—se apagou, e o golem ficou completamente inerte.
Com todos os olhares voltados para ele, o Mil Truques apenas exibiu seu característico meio sorriso e disse:
— Desculpa, eu mal consigo enxergar nessa escuridão. Aconteceu alguma coisa?
Estava escuro demais para eu enxergar qualquer coisa. O Olho da Coruja ficou sem mana, me deixando mais cego que um morcego em vez de uma coruja. A floresta era tão escura que eu mal conseguia ver minha própria mão à frente do rosto. A luz difusa da lua deixava uma sombra fraca nas nuvens, mas aquilo não ajudava em nada meus olhos de morcego. Caminhar na escuridão me fazia valorizar todas as tecnologias de iluminação do fundo do coração.
— Tino, você consegue enxergar nessa escuridão?
— Mestre... — disse Tino num tom levemente emburrado. — Você me subestima demais. Eu sou uma caçadora, sabia? Pelo menos enxergar no escuro eu consigo.
Aparentemente, todos os caçadores tinham visão noturna. Foi nesse momento que percebi por que o Olho da Coruja era tão barato.
Meu coração implorava para eu voltar para casa e tomar um banho, mas eu jamais conseguiria encontrar o caminho sozinho. Além disso, não podíamos simplesmente deixar Liz no meio da floresta. Minha única esperança era Tino, que liderava o caminho enquanto continuava a explorar a área.
De repente, Tino falou:
— Mestre, há um combate sangrento adiante. Sinto que está bem perto.
— O quê? Claro que não... — comecei a dizer, mas imediatamente quis engolir essas palavras. Quem era eu para contradizer Tino—uma ladina observadora—ainda mais agora, completamente cego na escuridão e para os perigos à frente?
Após alguns segundos de silêncio, Tino murmurou:
— Entendi. Então isso nem é considerado uma batalha para você... Ainda tenho muito o que aprender.
A melhor pergunta seria: será que eu algum dia aprendo? Para constar, eu estava ainda mais inútil agora do que quando invadi a Toca do Lobo Branco na minha tentativa desesperada de salvar Tino—o que já era um novo nível de fracasso. Talvez o verdadeiro imprudente fosse eu, que continuava saindo da capital mesmo sendo pateticamente impotente.
Após alguns minutos em silêncio, repensando todas as minhas escolhas de vida enquanto seguia minha fiel subordinada, Tino parou de repente.
— Há vida por perto, Mestre.
— Aham?
— Várias presenças. E correram, ofegantes, quando nos notaram. Devo capturá-los?
Não fazia ideia do porquê dessa pergunta. Afinal, devia haver vários animais na floresta, certo? Se estavam fugindo, não fazia sentido ir atrás deles. Viver, amar e fazer as pazes, era o que eu diria.
— Não se preocupe com isso — respondi. — Apenas deixe-os ir. Vamos continuar.
— Sim, Mestre...
Tino deveria aprender a discordar de mim de vez em quando. Por exemplo, se ela sugerisse que deixássemos Liz para trás e voltássemos para a capital, eu concordaria na hora. Claro, quando Liz inevitavelmente exigisse uma explicação, eu colocaria a culpa na Tino.
Logo chegamos a uma clareira. Mesmo com a visão limitada, eu percebi que não havia mais árvores ao nosso redor.
O ar estava carregado, como sempre ficava durante uma batalha. Com dificuldade, consegui distinguir uma silhueta negra movendo-se na minha visão turva.
— Tempo esgotado! Já era! — disse uma voz familiar. Como eu suspeitava, Liz havia se juntado aos caçadores antes de nós.
Seja lá o que estivesse acontecendo, a luta aparentemente já tinha acabado.
Graças aos deuses. Senti um peso sair dos meus ombros enquanto tentava entender a situação.
— O que vocês estão fazendo...? — perguntei para os grupos de silhuetas indistinguíveis.
Algo me dizia que, apesar de Tino e eu termos seguido os rastros de Liz desde que ela correu, ainda não havíamos chegado à Toca do Lobo Branco.
— Krai...? — chamou Sven. — Então você trouxe a Liz com você.
Uma pequena vitória para mim. Pelo menos não parecia que estavam bravos comigo por ter soltado a Liz da coleira.
Enquanto eu permanecia ali, confuso, Liz disse:
— Desculpa, Krai Baby. Eu não consegui terminar o trabalho!
— É... Hã?
Não conseguiu terminar que trabalho? Um monstro? Um fantasma? Tirando a brisa leve, o mundo ao nosso redor estava silencioso. Eu estava usando um Anel de Segurança, então um ataque surpresa não me mataria.
Então, ouvi algo como uma pequena explosão. Tino chamou meu nome, parecendo muito assustada por algum motivo.
— Aham... — Assenti, acompanhando.
Minha visão não era boa o suficiente para enxergar no escuro, e meu cérebro não era bom o suficiente para deduzir a situação.
Dei um passo à frente, e um triângulo invertido veio voando na minha direção. A confusão me dominou, pregando meus pés no chão. Então, uma rajada forte soprou direto no meu rosto, me fazendo apertar os olhos. Quando percebi, o triângulo tinha desaparecido. Momentos depois, um som de impacto pesado ressoou ao longe. Meu Anel de Segurança não tinha sido ativado, e eu continuava sem a menor ideia do que estava acontecendo.
— O quê? O que você fez, Krai Baby? Isso foi incrível! Eu nem consegui ver o que aconteceu! — Liz exclamou animada.
Que coincidência—eu também não! Alguém, por favor, pode me explicar o que está acontecendo? E acender uma luz ou algo assim.
Sem ideia do que tinha ocorrido, tudo o que pude fazer foi dar meu sorriso
patético de sempre e dizer:
— Desculpa, eu não consegui enxergar direito no escuro. Aconteceu alguma
coisa?
Com uma expressão amarga no rosto, Sven emergiu da caverna na qual havia entrado cautelosamente algum tempo antes. Ele parou do outro lado da fogueira, enquanto eu me encolhia no calor.
— Conseguimos pegar alguns equipamentos e documentos, mas nem sinal do próprio culpado. Merda! — ele cuspiu.
— Havia uma saída nos fundos — comentou outro caçador. — Pelo nível de preparo deles, duvido que tenham deixado um rastro que possamos seguir.
Pelo pouco contexto que consegui entender, Sven e os outros haviam descoberto quem estava por trás das mudanças na Toca do Lobo Branco. Os caçadores os perseguiram até esse esconderijo, mas eles conseguiram escapar no último segundo. Pelo jeito, os inimigos que enfrentaram deviam ser formidáveis; todos pareciam exaustos e machucados.
Monstros que nem mesmo Sven, Liz e Sitri conseguiam derrotar com facilidade...? Esses, com certeza, entravam na minha lista de "evitar a todo custo".
Tino e eu, por sorte, chegamos bem quando a batalha havia terminado.
A maioria dos caçadores agora empurrava o próprio cansaço enquanto extraía documentos e materiais do esconderijo.
Um agente do Escritório de Investigação de Cofres, com quem eu já tinha falado
algumas vezes no passado, comentou de forma sombria:
— Faremos um relatório assim que voltarmos para a capital. Pelo menos
conseguimos confiscar tudo isso. Se Noctus Cochlear tivesse seguido com a
pesquisa teorizada em sua tese, o império estaria em perigo. A Ordem dos
Cavaleiros assumirá a partir daqui.
As coisas definitivamente tinham escalado desde que os enviei para essa missão. Tudo o que eu podia fazer agora era torcer para que, contra todas as probabilidades, não envolvessem ainda mais o nosso clã nessa bagunça.
— Ei, Krai — rosnou Gark —, o que foi que você fez lá atrás? Foi um Relicário?
O que ele estava fazendo em campo, equipado para batalha? Achei que tivesse se aposentado por um tempo. Pobre Kaina, deve ter ficado pasma, pensei.
— O quê...? Nada... Eu não usei nenhum Relicário.
Agora que eu conseguia enxergar graças à luz do fogo, não pude deixar de notar os olhares curiosos ao meu redor. Segundo eles, eu tinha derrotado um chefão final num piscar de olhos—coisa de que eu não me lembrava nem um pouco, é claro. A única coisa de que me recordava era de algo avançando na minha direção, mas não havia a menor chance de eu ter derrotado um golem contra o qual eles tinham lutado tanto. E já que meu Anel de Segurança não tinha sido ativado, era óbvio que eu nem sequer tinha sido atacado.
— Sério, acho que... ele simplesmente voou por conta própria.
— Como se isso fosse possível! — rebateu Gark.
Não, claro que não fazia sentido. Mas ainda era mais plausível do que eu ter feito alguma coisa.
De alguma forma, mesmo sem ter realizado nenhuma ação útil a noite toda, meu corpo parecia pesado. Agora que estava cercado por um grupo de caçadores (leia-se: guarda-costas), senti que finalmente poderia relaxar um pouco. Me espreguiçando e bocejando, já estava pronto para voltar para a capital, agora que tudo parecia resolvido por aqui.
— Ei, onde estão os Magos que capturamos? Alguém tem notícias deles? — perguntou um dos caçadores na multidão.
— A última vez que vi, estavam amarrados e amordaçados no chão, então não poderiam ter conjurado feitiços... Mas quando o golem apareceu, não tivemos tempo de prestar atenção neles...
— Eles devem estar por aqui em algum lugar—procurem por eles!
Imediatamente, vários caçadores partiram em busca dos prisioneiros, cansados e desanimados com mais uma tarefa.
Puxando minha manga, Tino sussurrou para mim:
— Mestre... Será que eram aqueles que ignoramos na floresta?
— A-Aham...?
Eu fingiria que não tinha ouvido isso. Eu não tinha visto nada, não tinha ouvido nada ali na floresta.
Como eu deveria saber que, quando Tino disse "vida", estava falando de humanos?! Ela devia ter especificado que eram prisioneiros fugindo!
Depois de dar algumas instruções para a equipe de busca, Sitri se aproximou de mim. Seu rosto parecia completamente revigorado, com apenas algumas marcas de poeira em sua túnica indicando que havia sequer se movimentado desde que voltara de outro cofre do tesouro. Ela estava cheia de energia, especialmente para alguém que deveria estar na retaguarda do grupo.
Com seu sorriso habitual, Sitri disse:
— Obrigada pelo apoio. Não esperávamos que estivéssemos tão em desvantagem.
Poderíamos ter sofrido algumas baixas se não fosse pela sua ajuda.
Soltar as rédeas da Liz tinha sido completamente culpa minha, mas no fim das contas pareceu dar certo. Pelo menos, os olhos límpidos de Sitri não estavam franzidos em reprovação.
Com o peito apertado pela culpa, deixei escapar algumas palavras bem atípicas
para mim:
— Posso ajudar em alguma coisa?
O sorriso de Sitri se alargou enquanto ela segurava minhas mãos e dizia:
— Obrigada. Se precisar de algo, contarei com você. Mas farei o possível para
resolver isso por conta própria—essa é minha batalha.
Em um de seus esconderijos emergenciais na capital, Noctus coçava a cabeça pensativamente. Seus cabelos brancos, sempre bem aparados, estavam desgrenhados, e olheiras escuras se formavam sob seus olhos, que brilhavam com uma mistura de fúria fervente e um leve toque de medo.
O antigo Mestre dos Magos estava encurralado. Durante mais de dez anos, Noctus havia conduzido seus experimentos sem ser detectado. Agora, com a conclusão quase ao seu alcance, ele se via em uma situação precária. Com sua base de operações exposta e a maior parte de seu conteúdo confiscado pela Associação, o pesquisador sofrera nada menos que uma derrota devastadora.
A Torre Akáshica, o infame sindicato da magia ao qual ele pertencia, permitia que seus membros usassem qualquer meio necessário para buscar o verdadeiro conhecimento. Noctus estava plenamente ciente de quantos inimigos faria ao se juntar ao sindicato, e foi exatamente por isso que dedicou uma quantidade considerável de recursos para implementar medidas protetivas contra possíveis ataques aos seus laboratórios.
Seu sistema de segurança — composto por Sophia Black, uma Maga com talentos extremamente raros, e seus outros aprendizes, que eram suficientemente capazes, embora menos que Sophia — era poderoso o bastante para que Noctus aceitasse a derrota caso esse sistema fosse completamente derrotado.
Na verdade, a primeira linha de defesa — a falsa gosma — resistiu bravamente contra um grupo de cem caçadores. Se não fosse por Sitri, os caçadores jamais teriam chegado ao esconderijo. Akasha, em particular, enfrentou confortavelmente vários caçadores renomados e até mesmo um herói aposentado.
Noctus estava completamente confiante em sua vitória... até que o Mil Truques apareceu do nada. Apesar disso, Noctus conseguia fechar os olhos e reviver vividamente os últimos momentos da batalha, que ele observou por meio de vigilância mágica, mas ainda não conseguia entender o que aconteceu. Num piscar de olhos, quando Akasha se aproximou do Mil Truques para atacar, foi lançado para longe. Um único golpe, seja lá o que foi, superou completamente o golem. E isso apesar de Noctus ter desenvolvido o golem ao longo de anos de experimentos para torná-lo extremamente resistente tanto a ataques físicos quanto mágicos, graças à sua natureza sem alma.
Ainda mais assustador era o fato de que o Mil Truques sequer considerou a interação como uma batalha. Suas habilidades pareciam de outro mundo, mesmo se comparadas às do ex-caçador de Nível 7, o Demônio da Guerra.
Atordoado com os acontecimentos, Noctus conseguiu escapar pela saída secreta apenas porque o Ladino que trabalhava em reconhecimento o guiou.
Agora, o Ladino, Noctus e quatro de seus aprendizes estavam espremidos em um quarto no esconderijo da capital. Exceto pelo Ladino, todos pareciam tão pálidos como se tivessem encontrado a própria Morte.
O experimento falhou. Agora, a única saída era fugir o mais longe possível. Como as memórias de Noctus eram a única cópia restante dos registros do experimento, levaria anos para recuperar o progresso. No entanto, isso ainda era melhor do que ter que começar do zero.
Seus aprendizes estavam majoritariamente ilesos, exceto pelo que foi derrubado da quimera por Liz. Infelizmente, esse aprendiz agora estava detido com um ferimento grave. O ânimo dos aprendizes que estavam no esconderijo, entretanto, estava completamente destruído: seus olhos estavam vazios, como se toda a ambição tivesse sido arrancada deles. Ver sua confiável Akasha ser destruída em um piscar de olhos abalou até mesmo Noctus — que já havia testemunhado sua cota de eventos bizarros em sua longa vida. Seus aprendizes menos experientes estavam ainda piores do que ele. Flick e os dois aprendizes capturados eram os mais traumatizados de todos.
— O Mil Truques... nos deixou ir de propósito! Enquanto fugíamos desesperados, tremendo de medo, ele olhou diretamente para nós e disse para não nos preocuparmos — com um sorriso no rosto! — disse Flick.
Mesmo depois de tanto tempo, ele ainda tremia, abraçando os joelhos contra o peito. Sua visão de mundo sobre a “superioridade dos Magi” havia sido completamente destruída.
Sophia tinha marcado Sitri como o oponente mais perigoso, mas Noctus agora percebia que deveriam ter se preparado para o Mil Truques mais do que qualquer outro. Sempre cuidadosa e calculista, Sophia nunca havia avaliado uma situação incorretamente antes — mas se até isso foi manipulado pelo Mil Truques, Noctus se perguntava qual jogo o mestre do clã estava jogando.
— Por que o Mil Truques nos deixou ir de novo? — perguntou o Ladino. — Com todo esse poder e informação nas mãos, por que ele simplesmente não veio nos prender ele mesmo?
Noctus tinha que concordar: não havia dúvidas de que o Mil Truques era um inimigo contra o qual eles não poderiam lutar. Mas o mais enigmático sobre ele era a forma como os encurralou à beira do precipício apenas para deixá-los escapar depois. Se quisesse, poderia tê-los capturado com facilidade. Os Devoradores de Malícia não teriam a menor chance contra um caçador que derrotou o golem com um único golpe, e Noctus duvidava que o Mil Truques não tivesse sua própria maneira de contornar a barreira de mana dos fantasmas transfigurados.
Pensando bem, ele percebeu que o caçador de Nível 8 sempre esteve no centro dessa batalha, puxando as cordas o tempo todo. Ele também foi o catalisador: se não fosse por sua intervenção, as mudanças no Covil do Lobo Branco teriam passado despercebidas por muito mais tempo, muito provavelmente levando à conclusão bem-sucedida da pesquisa de Noctus. E depois, Noctus decidiu eliminar os caçadores em vez de recuar apenas porque o Mil Truques apareceu em sua base no distrito decadente, como se estivesse avisando que os encontraria onde quer que se escondessem. Falando nisso, Noctus ainda estava intrigado com o motivo de o Mil Truques ter dado esse aviso.
A pesquisa de Noctus era altamente ilegal; ele escapou apenas com o banimento do império por causa dos méritos legítimos que acumulou ao longo da carreira e pelo fato de que sua tese era puramente teórica na época. Se seus experimentos sobre a manipulação de material de mana — um dos dez crimes capitais segundo as leis do império — viessem à tona, Noctus teria sorte se fosse apenas condenado à prisão perpétua; mais provavelmente, seria executado.
Noctus não achava que um caçador de Nível 8 teria misericórdia de seus inimigos, muito menos temeria o sindicato. E isso deixava o motivo do aviso um completo mistério.
Saindo de seus pensamentos e queimando de sentimentos de incompetência e derrota, Noctus disse:
— Chega. Neste ponto, só temos uma escolha. Vamos deixar Zebrudia para trás.
Zebrudia, lar de vários cofres do tesouro necessários para sua pesquisa, tinha sido o ambiente perfeito para seus experimentos. O império próspero também fornecia fácil acesso a todos os materiais de que precisavam. E Noctus tinha que admitir que sentia satisfação pessoal em causar caos no país que o baniu.
Mas agora ele precisava abrir mão de tudo isso. Após seu banimento, ele reconstruiu sua pesquisa no subterrâneo. Então, enquanto vivesse, poderia recomeçar. Qualquer que fosse o motivo do Mil Truques para deixá-los ir, Noctus não sentia nenhum desejo de se vingar.
Soltando um longo suspiro, o pesquisador perguntou ao Ladino:
— Alguma notícia de Sophia?
O Ladino franziu a testa.
Sophia era a única entre eles cujo paradeiro ainda era desconhecido. Embora já estivesse participando remotamente da operação, ela não havia se mostrado nem respondido à sua Pedra Sonora desde a batalha na clareira do esconderijo. Como ela assumira o controle de Akasha no meio do combate, Noctus presumira que ela estava viva e bem naquele momento. Mas agora não havia como saber se fora capturada, morta ou forçada a se esconder.
Sophia sabia se virar sozinha e não era do tipo que sumiria sem avisar Noctus só por causa de um único fracasso. Ela havia ingressado na organização alguns anos antes, e Noctus suspeitava que sua pesquisa teria chegado à conclusão muito mais rápido se tivesse trabalhado com ela desde o início. Se estavam prestes a deixar o império para trás, ela era a pessoa que ele mais queria levar com eles.
Flick ergueu a cabeça.
— Professor, preciso falar com você sobre a Sophia...
Ele trocou um olhar grave com os outros dois aprendizes que haviam sido capturados pelos caçadores.
— É melhor você não começar com suas besteiras agora — advertiu Noctus.
Sempre orgulhoso, Flick já havia defendido a ideia de rebaixar Sophia várias vezes antes. Se ele deixasse o ciúme falar mais alto num momento tão crítico, Noctus o consideraria um inútil de verdade.
Flick tremeu por um momento, mas sustentou o olhar do mestre e disse:
— Não, professor... Eu não podia acreditar no que vi, mas... por alguma razão que desconheço, Sophia infiltrou-se na Primeiros Passos.
Seu rosto estava tenso e os olhos brilhavam de medo.
— O quê...? — murmurou Noctus.
A voz de Flick tremia enquanto ele continuava:
— Eu... a vi com meus próprios olhos. Estava vestida de forma bem discreta, com o capuz puxado e óculos. Mas não havia como me enganar.
Noctus fitou os olhos de Flick e percebeu que ele estava sendo sincero. Ao lado dele, os outros dois ex-cativos acenaram com a cabeça em concordância fervorosa.
Parece que preciso ter mais uma conversa antes de deixarmos a capital para sempre.
Inspirando profundamente, Noctus deu sua próxima ordem.
Tradução: Carpeado
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