Nageki no Bourei wa Intai shitai |
Let This Grieving Soul Retire
Volume 02 – Capítulo 04
[Obsidian Cross e Primeiros Passos]
O som metálico de armas colidindo violentamente ecoou pelos corredores apertados da caverna subterrânea. Logo em seguida, ouviu-se o uivo de um lobo e um estrondo seco.
Havia mais caçadores reunidos na sempre impopular Toca do Lobo Branco do que nunca antes. E entre eles estava o grupo Obsidian Cross, um dos grupos fundadores dos Primeiros Passos.
Os Crosses eram compostos por seis membros, todos com média de Nível 5, apesar de estarem na faixa dos vinte anos. Naturalmente, eram considerados um dos grupos com melhor perspectiva na capital.
Em especial, seu líder, Sven Anger, o "Golpe da Tempestade", era um dos melhores Arqueiros da cidade. No entanto, como a magia era o método mais comum para ataques à distância entre os caçadores, arqueiros como Sven eram uma raridade. Cada flecha disparada por ele era devastadora, mas ele era limitado pela quantidade de flechas na aljava e pela falta de versatilidade que os Magos possuíam. No geral, arqueiros eram vistos como desfavorecidos em explorações de tesouros. Ainda assim, Sven escolheu o arco e, mesmo assim, conquistou um apelido com ele. Isso também indicava que o Obsidian Cross priorizava a caça de monstros em vez da exploração de cofres de tesouros, algo incomum entre os grupos de caçadores.
Agora, Sven liderava o restante de seu grupo, todos vestindo conjuntos completos de armadura metálica negra. Entre eles estavam dois Espadachins, que usavam espadas e escudos para lançar uma variedade de ataques. Ao lado deles, dois Magos — um especializado em magia defensiva e outro em ataques mágicos de grande área. Na retaguarda do grupo caminhava o mais novo membro, Henrik, o Clérigo, especialista em cura.
Apesar da escuridão dos corredores, eles não demonstravam hesitação. Cavernas escuras e úmidas, a tensão eletrizante dos campos de batalha e até mesmo a expectativa de invadir territórios inimigos poderosos não eram nada de novo para o Obsidian Cross.
Sven parou repentinamente e ergueu seu arco longo negro como a noite, uma arma sem adornos, crua e brutal. Seus companheiros imediatamente interromperam a marcha atrás dele.
Em um único movimento fluido, Sven puxou uma longa flecha de sua aljava e a encaixou no arco. A corda rangeu ao ser puxada, e o arco se curvou.
Assim que uma cabeça surgiu na curva à frente de Sven, ele disparou. A flecha rasgou o ar como um projétil e explodiu a cabeça do cavaleiro lobo carmesim antes de se cravar fundo na parede da caverna. O fantasma decapitado se contorceu levemente antes de se dissipar no ar; o disparo perfeito não permitiu nem um uivo, nem um gemido.
Sven recuperou a flecha da parede e retomou a caminhada pelo corredor.
O Obsidian Cross havia encontrado um número considerável de fantasmas na caverna. Mas, independentemente da cor de sua pelagem, qualquer cavaleiro lobo que cruzasse seu caminho tinha o crânio obliterado pelas flechas de Sven antes mesmo de emitir um som.
Embora o Obsidian Cross preferisse caçar monstros a explorar cofres de tesouros, eram perfeitamente capazes de lidar com esse tipo de desafio. Isso era especialmente verdadeiro quando o cofre em questão era a Toca do Lobo Branco, onde não havia armadilhas perigosas nem o risco de serem cercados por enxames de fantasmas. Por isso, os membros do grupo pareciam bastante relaxados — exceto Henrik.
No meio da caverna, Sven parou e comentou casualmente:
— Claro, o cofre ficou mais forte, mas nada fora do comum até agora.
E Marietta, a Maga, disse preguiçosamente:
— O primeiro grupo de caçadores também não encontrou nada.
A Toca do Lobo Branco havia passado por algumas mudanças, mas ninguém havia descoberto a causa; até então, nada no cofre parecia alarmante. O Obsidian Cross era especializado em combate, não em investigação, e seus membros já suspeitavam que a Associação esperava demais deles. Se a situação exigia uma investigação minuciosa, deveriam ter enviado grupos com o conjunto de habilidades adequado para isso.
Hesitante, Henrik interveio:
— Você acha que isso realmente precisava da gente, Sven?
— Bem… — Sven coçou a bochecha. — Quando alguém assim te pede...
Essa missão lhes fora designada quando os Crosses pararam na Associação para entregar a mensagem de Krai. Eles não tinham obrigação de aceitá-la, mas também não tinham motivo para recusar um favor do próprio gerente da filial.
Henrik não estava satisfeito por seu grupo ter sido praticamente enviado para uma tarefa de recado e acabado preso em uma missão.
— Há muito o que aprender ao explorar um cofre de tesouros — disse Sven, como se tentasse consolá-lo. — Além disso, eu disse que você podia ter ficado para trás.
Henrik endireitou a postura e declarou:
— Eu não poderia abandonar nosso grupo assim—
O Espadachim que marchava em silêncio atrás dele deu-lhe um tapa forte nas costas, fazendo o novato engasgar em meio a uma crise de tosse. Isso arrancou algumas risadas do grupo.
— M-Mas— — Henrik tentava falar entre tosses. — Parece que estamos só limpando a bagunça do CM.
— A bagunça dele? — Sven abriu um sorriso selvagem. — Bom, Henrik. Um dia você vai entender.
A exploração prosseguiu sem dificuldades. Afinal, mesmo com o recente aumento de nível, esses cavaleiros lobo ainda estavam dois níveis abaixo dos fantasmas com que o Obsidian Cross costumava lidar.
A única preocupação de Sven seria o chefe que havia derrotado um caçador de Nível 5, mas aparentemente ele ainda não havia renascido após ser eliminado pela Sombra Reprimida.
Seu grupo estava trabalhando de forma eficiente, e nem sequer precisaram recorrer à sua lutadora de maior dano em área, Marietta. Também não houve qualquer alerta vindo dos outros grupos que investigavam outras partes do cofre.
Está fácil demais, pensou Sven. A completa ausência de perigo parecia terrivelmente suspeita para ele.
Os Crosses seguiam pelo corredor, já na metade do caminho até a sala do chefe, quando a bolsa no cinto de Sven vibrou. Ele rapidamente retirou dela uma pedra negra.
A estrutura altamente organizada dos Primeiros Passos entre seus membros — tanto caçadores quanto funcionários não-caçadores — era algo único entre os grandes clãs da capital. Era raro ver uma organização de caçadores que seguisse tantas regras. A maioria dos outros clãs era apenas um agrupamento de alguns grupos sem uma estrutura orientadora.
A pedra negra que Sven segurava era uma Pedra Sonora. Esses Relíquias únicas eram encontradas em pares; qualquer palavra dita em uma delas seria reproduzida pela outra. Como qualquer Relíquia, era necessário treinamento para usá-las com eficiência. Embora fossem um pouco complicadas de operar, eram dispositivos de comunicação extremamente úteis. Por isso, Sven havia deixado uma das pedras na sede do clã, para que pudessem ser contatados imediatamente em caso de emergência.
— Pedras Sonoras custam uma pequena fortuna e, pior ainda, a demanda constante e alta fazia com que nenhuma ficasse muito tempo nas prateleiras das lojas. Com o consenso do grupo, Sven havia comprado um par, e só conseguiu colocar as mãos em um conjunto fazendo várias conexões com as pessoas certas.
Enquanto segurava a pedra no ouvido, Sven sentiu sua expressão escurecer a cada segundo.
Apenas algumas palavras chegaram até ele.
— Entendido — respondeu. — Valeu pelo aviso.
Ele guardou a pedra, agora desligada, e se virou para os companheiros de grupo, que observavam silenciosamente em busca de espectros.
— Vamos para a superfície — disse Sven. — A situação mudou: Krai está enviando mais caçadores dos Passos. E fiquem atentos aos slimes. Precisamos repassar a mensagem para os outros grupos também. Agora, soa o apito para a retirada.
— O quê...? O quê?!
Ignorando a confusão de Henrik, um dos espadachins soprou o apito, disparando um alerta por toda a caverna.
— Me dá um tempo, Crosses... — resmungou um caçador de cabelos castanhos, lançando um olhar irritado para Sven. Ele pertencia a outro grupo encarregado de investigar a Toca do Lobo Branco.
Sven se lembrou das apresentações trocadas antes de entrarem no cofre: ele se chamava Gein, um Espadachim de Nível 5 com uma boca suja e uma atitude desagradável. Ainda assim, o fato de ter sido recrutado para essa missão significava que ele, no mínimo, sabia se virar em um cofre.
Um clima tenso pairava sobre os caçadores do lado de fora da Toca do Lobo Branco, apesar de já terem eliminado os espectros de guarda. Todos os grupos dentro da caverna haviam fugido assim que ouviram o apito.
Caçadores de tesouros estavam sempre competindo entre si. Embora os cofres praticamente nunca ficassem sem recursos, a quantidade de saque disponível em um dado momento era limitada. Como resultado, era comum grupos de caçadores entrarem em conflito ao se encontrarem dentro dos cofres.
Fora dos limites da cidade, não havia aplicação da lei; alguns grupos até sobreviviam roubando outros caçadores de tesouros. Por isso, era natural que cada grupo tentasse esconder suas estratégias para evitar desvantagens em caso de conflito.
Normalmente, quando vários grupos participavam da mesma missão, operavam de forma independente. No entanto, em investigações oficiais do governo cheias de variáveis desconhecidas, era necessário pelo menos um nível básico de coordenação. Assim, o sinal do apito havia sido combinado previamente—cada grupo lidaria com seus próprios problemas sozinho, a menos que encontrassem algo fora do comum.
Cerca de vinte caçadores estavam reunidos na entrada da caverna, tendo vindo após ouvirem o apito de Sven. Gein era o único a apontar o dedo diretamente para ele, mas os outros pareciam compartilhar seu sentimento.
— Deixa eu ver se entendi — disse Gein. — Você nem viu nenhuma emergência, mas mesmo assim tocou o apito com base em... o quê? Uma ligação por Pedra Sonora?
— Isso mesmo — respondeu Sven sem hesitação.
Os olhares dos caçadores armados variavam entre hostilidade, curiosidade, desdém e aprovação, mas Sven permaneceu impassível.
Os caçadores começaram a murmurar entre si diante da confiança de Sven. Até Gein franziu a testa diante da reação dos outros.
A Obsidian Cross era famosa por suas estratégias cautelosas e por sua composição única, onde todos os membros tinham habilidades de cura. Às vezes, isso era confundido com covardia por outros caçadores, mas os resultados falavam por si. Além disso, o fato de os Crosses terem atingido um nível tão alto sem perder nenhum membro ao longo do caminho gerava respeito. Ainda assim, os outros caçadores não gostaram do alarde desnecessário em uma missão conjunta que envolvia grupos de diferentes níveis e afiliações.
Gein estalou a língua e falou em voz alta para o grupo:
— Alguém viu alguma coisa? E aquele chefe que falaram?
— Nada, não.
— Não vimos. Encontramos alguns espectros, mas lidamos com eles sem problemas.
— Ouvi dizer que a Sombra Partida matou o chefe. Duvido que ele apareça de novo tão cedo.
Cada líder de grupo respondeu brevemente.
A Toca do Lobo Branco era um cofre de tamanho médio. Embora seus corredores sinuosos criassem um layout complicado, não deveria levar muito tempo para caçadores experientes como aqueles vasculharem todo o local, mesmo se avançassem com cautela. Considerando que a única ameaça em potencial—o chefe—já havia sido eliminada, a missão não parecia ser tão difícil, exceto pelo fato de que as mudanças repentinas no cofre ainda não haviam sido explicadas. De qualquer forma, o objetivo da missão era investigar o estado atual da Toca do Lobo Branco, não descobrir a causa das mudanças.
Gein bufou e lançou um olhar feroz para Sven, que o encarou de volta.
— Você ouviu eles — disse Gein. — Então você dá mais valor às palavras de um cara que nem se deu ao trabalho de descer aqui do que ao nosso julgamento? Acertei?
Ele parecia pronto para sacar a espada, se não fosse a presença dos outros caçadores ali.
Por mais hostil que Gein fosse, sua lógica era difícil de refutar. Na verdade, Sven também ficaria irritado se os papéis estivessem invertidos. Ao lado dele, Henrik olhava nervosamente de Sven para Gein e vice-versa.
Sven percorreu o olhar pelo grupo de caçadores antes de dar de ombros.
— É mais ou menos isso.
Os olhos de Gein se arregalaram, seu rosto ficou vermelho e suas sobrancelhas se uniram em um franzido. Ele deu um passo à frente, como se estivesse prestes a socar Sven, quando este soltou um longo suspiro.
— Patético — cuspiu Sven.
— O que foi que você disse?! — rosnou Gein.
— Só pra deixar claro — disse Sven —, nós tocamos o apito por bondade.
Sven viu a cor sumir dos rostos ao seu redor.
Os lobos uivavam do fundo da caverna, como se tentassem intimidar os intrusos que haviam desaparecido de repente. Sven não pôde evitar a sensação de que aquilo era um mau presságio.
— Os Grieving Souls não teriam tocado esse apito: Krai teria dito que estava tudo bem; Liz e Luke simplesmente não teriam se importado; e a Sitri... bem, ela teria mandado vocês pra dentro e ficado assistindo. Mas nós somos curandeiros—não faz parte do nosso estilo ficar parados vendo as pessoas morrerem.
Caçadores sabiam que estavam por conta própria. Embora existisse um código não escrito para se ajudarem em situações extremas, Sven não devia aquele aviso a ninguém ali. Ainda assim, ele tocou o apito, já esperando esse tipo de reação. E foi exatamente por isso que ele manteve a calma o tempo todo.
Encostando-se ao tronco de uma árvore, Sven pressionou a grama sob o calcanhar e disse:
— Alguns dos nossos companheiros vão chegar logo. Podemos esperar para voltar ao cofre. Mas se vocês quiserem se matar, fiquem à vontade. Nós ficamos aqui.
Ele esperou por uma resposta de Gein, que permaneceu sem palavras.
— Um bom pagamento não serve pra nada pra um homem morto — disse Sven. — Mas essa dica é de graça. De nada.
Cada membro da investigação receberia um valor fixo como pagamento base, além de bônus por trazer informações particularmente valiosas. Essa prática de contratar vários grupos para uma única missão incentivava uma competição saudável entre os caçadores.
Gein mordeu o lábio. Ele sabia que a recompensa por uma boa pista era uma quantia significativa. Mas, apesar de seu grupo já estar investigando o cofre antes mesmo dos Crosses chegarem, eles não haviam encontrado nada que valesse um bônus. Embora fosse improvável que fizessem novas descobertas caso voltassem ao cofre agora, ele também sabia que as multidões da Primeiros Passos diminuiriam ainda mais suas chances.
Como muitos caçadores, Gein era movido pela ganância—pelo menos mais do que os normais. Ele não sentiu grande risco na situação atual, e os outros caçadores, que trocavam olhares confusos, também não. Aparentemente, todos estavam passando pelo mesmo raciocínio que Gein.
Esse apito não teria sido levado a sério se não tivesse sido soprado por um grupo famoso.
Finalmente, um dos caçadores explodiu:
— Esses fantasmas aqui são lobos—não tem como um slime aparecer! E mesmo que
apareça, qual o problema? Temos um Magus no nosso grupo!
Todos os caçadores, exceto os Crosses, consideravam altamente improvável, senão impossível, que um slime aparecesse na Toca do Lobo Branco—isso nem deveria estar sendo cogitado.
Soltando um suspiro cansado, Sven disse:
— Nunca vou esquecer aquele dia, quando a Passos ainda estava engatinhando:
nosso CM, Krai, nos convidou para ver as flores em um lugar fora da cidade.
A seriedade em sua voz silenciou todo o grupo—até mesmo Gein, que estava rangendo os dentes furiosamente, prestou atenção. Os outros Crosses ouviram com expressões amargas; apenas Henrik, entre eles, observava seu líder com curiosidade.
— "Se formos em grupo, não precisaremos de guarda-costas", ele disse — continuou Sven. — "Mas como vamos sair da cidade, não esqueçam suas armas, só por precaução."
— Do que você tá falando? — murmurou Gein.
— E o lugar para onde fomos… virou um cofre do tesouro.
O grupo todo prendeu a respiração em choque.
— Alguns de vocês podem lembrar quando isso aconteceu — continuou Sven. — As linhas ley mudaram um pouco depois de um terremoto, e isso fez com que elas se cruzassem bem no lugar onde fomos ver as flores. Alguém aqui já viu um cofre do tesouro se materializar bem na sua frente? Aquilo foi algo—parecia o próprio inferno se abrindo e derramando seu conteúdo na superfície. Não é algo que você encontraria por aí com facilidade.
Ninguém disse uma palavra. Eles simplesmente não conseguiam.
Caçadores eram naturalmente sensíveis a notícias sobre cofres do tesouro. Na verdade, o surgimento desse cofre em particular havia sido uma grande história na época. Cada caçador presente parecia se lembrar desse cofre, tão perigoso que a maioria dos caçadores se recusava a entrar, apesar da proximidade com a capital.
Em total descrença, Gein gaguejou:
— Você não quer dizer... o Jardim, quer?
Nos meros três anos desde seu surgimento, esse cofre do tesouro alcançou a impressionante classificação de Nível 7 e a reputação de ser o pior cofre nos arredores da capital. Ele voltou a ser notícia recentemente, quando Ark Rodin o conquistou, mas, de fato, havia apenas um punhado de caçadores que ousaria sequer sonhar em enfrentá-lo.
Desde o "incidente do Jardim", um rumor circulava discretamente dentro da Primeiros Passos. No começo parecia absurdo, mas, com o tempo, se tornou cada vez mais crível conforme as evidências se acumulavam.
— O Mil Truques... consegue ver o futuro — disse Sven, repetindo o rumor.
— Isso é — Gein estremeceu ao falar — impossível.
Os membros da Primeiros Passos reverenciavam a misteriosa, porém precisa, clarividência de seu mestre de clã, mas também temiam os Mil Desafios que ele lançava sem aviso como parte de suas previsões.
— Ele tem uma Relíquia que permite isso — acrescentou Sven. — É só um boato, e ele vai negar até a morte. Eu só acredito no que vejo. E é por isso que gastei uma fortuna num par de Pedras Sonoras: para receber as informações dele o mais rápido possível—há muito dinheiro em jogo.
Além disso, Sven sabia que os Grievers—livres, indomáveis e, ousaria dizer, ferozes—seguiriam apenas as ordens de Krai. Isso, por si só, já era motivo suficiente para Sven ficar em alerta—um caçador não sobrevive se for imprudente.
O silêncio entre os caçadores era total. Com um sorriso feroz, Sven desafiou o
grupo:
— Pronto. Me expliquei. E aqui vai um último aviso: o Mil Truques não me chama
à toa. Se ainda quiserem continuar, a escolha é de vocês.
— Droga — rosnou Gein, sentando-se no chão. — Esses seus companheiros de clã que se apressem. Ninguém vai me acusar de estar enrolando.
O escritório do mestre do clã estava em completa paz. Agora que a maioria dos membros tinha partido para o cofre, a casa do clã, normalmente animada, estava em silêncio.
Quebrando essa tranquilidade estava Liz, zanzando inquieta ao meu redor: escondia-se atrás da mesa, tomava goles do café que Eva servira e, por fim, me abraçou por trás, esfregando-se em mim.
— Ei, Krai Baby, quando a gente vai sair? O que você quer que eu faça? Já tô pronta!
Definitivamente nada Zen da parte dela.
Tino estava sentada educadamente no sofá, tremendo de vergonha alheia pelo comportamento da mentora.
Talvez Liz tenha notado meu olhar pouco entusiasmado, pois me lançou um sorriso nada arrependido.
— Foi mal, mas já faz tanto tempo desde a última vez que saímos juntos.
— Você não está me incomodando — respondi.
Eu odiava estragar o entusiasmo dela, mas não ia dar chance para que ela causasse o caos.
Não era como se Liz ficasse acumulando energia destrutiva ou algo assim, mas as carnificinas que ela causava superavam até as dos caçadores mais brutais. O nível de destruição era tão absurdo que até outros caçadores do nível dela evitavam cruzar seu caminho.
Os outros caçadores envolvidos na missão não ficariam nada felizes com o comportamento dela. Não que Liz ligasse para sua reputação, mas também não havia necessidade de deixá-la pior do que já estava.
Alheia às minhas preocupações, Liz estremeceu e cantarolou:
— Aaah. Da última vez, não pude te mostrar todo o meu poder. Mal posso esperar
pra você me ver lutar, Krai Baby! Promete que vai me assistir?
Seus olhos estavam quase lacrimejando.
— Aham — respondi.
Eu já tinha visto ela lutar. E aquilo tinha sido mais do que suficiente!
Desde que meus amigos e eu começamos a treinar para nos tornarmos caçadores, Liz sempre vinha me mostrar seus progressos sempre que sentia que tinha melhorado. Eu a enchi de elogios pelo tempo que pude, até que, um dia, ela começou a se mover tão rápido que meus olhos não conseguiam mais acompanhar. Mas esse era um segredo que eu guardei para mim mesmo. Ela não vinha me mostrar novos truques há um tempo, então achei que tinha perdido o interesse, mas aparentemente não.
— M-Mas, Lizzy, eu acho que nenhum fantasma lá vai estar à altura do seu— Me desculpa! Me desculpa! Me desculpa! Me desculpa por interromper! Por favor, me perdoe! Mestra! — O comentário de Tino foi sufocado pelo olhar assassino de Liz.
Que mentora instável. Eu não me ofenderia se Tino me interrompesse. Na verdade, ela nem tinha interrompido nada, pensei enquanto acariciava o dorso da mão de Liz, que me envolvia por trás com seu braço.
Liz soltou um suspiro rápido e disse:
— Não seja idiota, T. O que o Krai Baby tem em mente para mim não é trivial. O nível daquele cofre já não importa mais. Lembre-se do seu lugar, T: como ousa presumir as intenções do Krai Baby?
Droga. Ela está elevando a barra cada vez mais. Ela já devia saber que sou um pacifista...
Preocupado, decidi tentar desviar seu entusiasmo.
— Eu gosto de fazer coisas idiotas. Quer sair comigo?
— Sim! — Liz quase gritou de empolgação, apesar de já ter saído comigo duas vezes recentemente. — Isso não é idiota! — disse ela, com as bochechas coradas e os olhos brilhando de expectativa.
Eu quase me senti mal por ter sugerido isso.
Tino, a quem Liz estava tratando com menos respeito do que um pedaço de chão sujo, estava olhando para o chão tremendo no sofá.
O humor de Liz afetava diretamente a forma como tratava Tino; com sorte, isso ajudaria a aliviar um pouco a situação dela. Era o mínimo que eu podia fazer depois que Liz trouxe tormento e fogo do inferno para ela.
— U-Um... Eu achei... — disse Tino, hesitante. — Eu achei que a Mestra tinha uma tarefa para— Eek! — Ela se encolheu.
— Para de ameaçá-la toda vez que ela fala, Liz. Pobre Tino.
— Eu não ameacei ela — disse Liz. — T tá se encolhendo sozinha. Além disso, T é uma boa garota; ela nunca me faria ficar com raiva, não é, T?
Tino agora estava praticamente perdendo a sanidade de medo. Se ao menos Liz pudesse ser calma como a Sitri!
Enquanto acariciava o braço de Liz para acalmá-la, considerei minhas opções.
Tino tinha um ponto sólido. Mesmo que eu realmente não estivesse a fim, eu tinha prometido encontrar os caçadores no Covil do Lobo Branco. Mas o timing seria complicado.
Olhei para o relógio. Hmm, ainda muito cedo. E eu tenho que encontrar um slime.
Havia trabalhos demais na minha lista para os quais eu não era qualificado, e só de pensar nisso me dava vontade de vomitar. Mas, claro, eu só tinha a mim mesmo para culpar por todos eles. Talvez eu devesse contar a Eva a verdade sobre o Slime Sitri e deixar que ela encontrasse uma solução brilhante?
Meus pensamentos giravam na minha cabeça. Recostei-me na cadeira como se quisesse esconder minha ansiedade ardente. Havia uma vontade inexplicável de me ajoelhar e pedir desculpas.
As coisas seriam um pouco mais fáceis se os outros Grievers estivessem aqui: meus amigos eram tanto os melhores caçadores do clã quanto meu sistema de apoio emocional.
— O que foi, Krai Baby? Você parece preocupado — disse Liz.
— Pareço? — falei hesitante. — Não é nada.
— Quer conversar sobre isso comigo? — ela perguntou.
Isso não é bom.
Aparentemente, eu parecia tão preocupado que até Liz ficou preocupada comigo. Eu era o líder deles; o mínimo que eu podia fazer era proporcionar estabilidade para o meu grupo.
— Só me perguntando o que todo mundo está fazendo — disse eu —, especialmente Sitri. Ela está bem atrasada, não está?
O slime era uma coisa, mas eu também precisava que Lucia recarregasse meus Artefatos. De certa forma, agora parecia uma bênção disfarçada que Liz tivesse largado o cofre do tesouro para voltar para casa: só ter um Griever por perto já fazia maravilhas para a minha sanidade.
— Você é tão fofo, Krai Baby. Mas eu não me importo se ela demorar um pouco mais para voltar — disse Liz, com um tom travesso.
Ela pressionou a parte de trás da minha cabeça contra seus seios e deslizou uma mão por dentro da minha camisa. Senti seu dedo fino deslizando sobre minha pele.
— Faz tanto tempo que não passamos um tempo assim, e eu quero você só para mim um pouco mais... — sussurrou Liz. — E a Siddy sempre atrapalha a gente, sabe?
Eu não lembrava de Sitri fazendo isso, e achava que tinha passado mais tempo com Liz do que com qualquer outro dos meus amigos.
Tudo que eu podia fazer pelos meus amigos era ser um suporte emocional para eles. Então, geralmente, eu não me importava quando Liz vinha até mim, mas, se quer saber, ela tinha ido um pouco longe demais com o contato físico—Tino também estava na sala! Eu via que ela ficava nos olhando, curiosa.
Quando estava prestes a redirecionar sua energia gentilmente, o dedo de Liz parou de fazer cócegas no meu peito.
— Hmm...? Espera. Por quê? — ela perguntou, hesitante.
— O que foi? — perguntei.
Ela soltou minha cabeça de seu abraço macio e olhou para a porta.
— Já acabou? É isso que você estava esperando? Eu estava me perguntando por que você ficava olhando para o relógio... — murmurou.
O quê? "Já acabou"? Ela sentiu alguma coisa?
Como Ladina, Liz era especialista em farejar coisas à distância.
Ela estava falando da investigação?
Duvidava que até mesmo ela pudesse saber o que estava acontecendo no Covil do Lobo Branco a essa distância—e eu tinha acabado de enviar caçadores adicionais—mas não tinha outro palpite. Se fosse o caso, seria uma ótima notícia para mim: menos uma coisa para me dar vontade de vomitar.
Que amigos talentosos eu tenho! Ainda bem que eles equilibram minha inutilidade.
Eu estava sorrindo com esse pensamento bobo quando a porta se abriu silenciosamente.
— Estou em casa — anunciou uma voz inesperada—uma voz tranquila e suave.
Liz franziu a testa e soltou um suspiro irritado.
— Por que voltou tão cedo e sozinha? Poderia ter demorado mais... Não era seu trabalho preparar e limpar tudo?
— Pff! Você também largou a gente e voltou sozinha, Liz. Não está em posição de reclamar disso.
Pela porta entrou uma pessoa vestindo um casaco largo e sóbrio, escondendo sua silhueta. Em suas costas, carregava uma grande mochila cinza, resistente a manchas.
Seus cabelos, da mesma cor dos de Liz, estavam cortados em um bob bem aparado na altura dos ombros. Seus olhos ligeiramente caídos davam um olhar gentil sob a franja que ia um pouco abaixo das sobrancelhas.

— Ela era Sitri Smart, Alquimista de Nível 2, a mente brilhante dos Grieving Souls. Normalmente, era encarregada de reconhecimento, preparação e tarefas de limpeza.
Eu aguardava seu retorno há muito tempo.
Se Liz era o sol, Sitri era a lua. Sitri não irradiava luz intensa, mas havia uma beleza serena nela.
Sitri abaixou sua mochila, sorriu para mim e disse:
— Desculpe a demora, Krai.
— Bem-vinda de volta, Sitri.
Meu cérebro voltou a funcionar. Meu sorriso cresceu em resposta ao dela, e deixei de lado todas as minhas perguntas por enquanto.
— O que te trouxe de volta? — perguntei.
— Tive... um mau pressentimento — respondeu a mente mais brilhante do nosso grupo, em um tom baixo.
Sitri era genial. Sempre agia de forma lógica, o que tornava difícil acreditar que era irmã de Liz, cujos punhos se moviam mais rápido do que os impulsos em seu cérebro. Na verdade, Sitri era geralmente a responsável por manter sob controle a tendência dos Grievers de agir no improviso.
Ela era a mais fraca do grupo em combate (depois de mim, é claro), mas isso era normal para Alquimistas. Sua sabedoria compensava amplamente sua falta de poder.
Liz, sem muita paciência, observava a irmã, enquanto Tino se escondia atrás do sofá.
— Sinto que... algo grande está prestes a acontecer — continuou Sitri — algo muito ruim... Achei que você precisaria da minha ajuda, então pedi dispensa da expedição. Diferente da minha irmã aqui, eu não voltei só para te ver — claro que senti sua falta. Hm... Estou errada, Krai?
Seu pensamento fora do comum e, mais do que tudo, sua rapidez de raciocínio faziam de Sitri uma gênia de um tipo completamente diferente de sua irmã. Ela provavelmente enxergava o mundo de uma maneira muito diferente da minha. Na verdade, sua compreensão transcendia tanto que seu vasto conhecimento era reconhecido até por diversas instituições acadêmicas.
Sitri tinha um instinto absurdo. Nunca conheci ninguém cujos pressentimentos fossem mais certeiros que os dela. Baseando-me na minha experiência pessoal, suas intuições estavam quase sempre certas—especialmente quando eram ruins.
Sitri apertou as mangas do traje e olhou para a irmã e Tino antes de dizer:
— Um inimigo poderoso—meu inimigo—surgiu. Precisamos eliminá-lo antes que fique ainda mais forte, Krai.
Ela sabe sobre o slime? Mas, de qualquer forma, isso é bom.
Sitri sempre aparecia quando era mais necessária.
Eu precisava aproveitar aquela mente brilhante mais uma vez.
— Liz, Tino, podem nos dar licença? — pedi. — Preciso ter uma conversa séria com a Sitri.
— O quê?! Que injusto! Eu quero ouvir também! — reclamou Liz.
— L-Lizzy, vamos... O Mestre já disse... Você não pode simplesmente desobedecer... — A pequena e corajosa Tino pegou Liz pela mão e a arrastou para fora.
Preciso pagar um sorvete para ela depois.
Quando ficamos sozinhos no quarto, comecei a explicar a situação complicada em que me encontrava ultimamente. Sentia-me mais seguro com Sitri, que sorria com confiança, mesmo já tendo deduzido o que eu estava contando.
Ela fechou os olhos e se aprofundou em seus pensamentos.
Quando éramos crianças, ela era uma garota quieta, sempre com um livro nas mãos. Seus olhos e cabelo eram da mesma cor dos de Liz, mas havia algumas diferenças entre elas. Sitri era um pouco mais alta e... mais bem-dotada. Também não era bronzeada e tinha uma aparência mais gentil que a irmã. Ainda assim, havia muitos momentos em que ficava óbvio que eram irmãs.
Após alguns minutos de silêncio, Sitri sorriu para mim—ela devia ter terminado de organizar seus pensamentos. Seus olhos brilhavam, assim como os de Liz em momentos de excitação.
— Me desculpe, eu não esperava por isso — disse. — Não achei que o slime cresceria tanto. A cápsula foi feita de um metal completamente oposto à sua composição—
— Espera, crescer? — perguntei.
— A velocidade evolutiva dos slimes—ou seja, sua capacidade de se adaptar ao ambiente—está entre as mais altas de todos os organismos. Como você sabe, o slime que te dei foi projetado para ter um aprimoramento em sua velocidade evolutiva. Bem, acabou sendo um fracasso.
Ela falou como se eu já devesse saber disso, mas... na verdade, eu não sabia.
Alquimistas eram realmente estudiosos. A curiosidade de Sitri pelo desconhecido superava até a obsessão de sua irmã por desafios.
Ela manteve a calma mesmo depois que expliquei meu erro desastroso. Talvez já esperasse que eu deixaria o slime escapar.
— Então... ele pode ter “se adaptado” para escapar da cápsula metálica? — perguntei.
— Sim, essa possibilidade existe. Mas ele superou todas as minhas expectativas.
Por que você me deu algo assim?! Vigia você mesma! Pensei comigo mesmo, mas não falei em voz alta. Ainda era mais provável que eu tivesse cometido um erro do que um slime escapar de uma cápsula metálica selada.
Sitri e eu descemos até meu quarto. Ela lançou seu olhar para minha cama arrumada e as fileiras organizadas de Relíquias, em vez de focar diretamente no cofre onde o slime estava guardado.
Eu já vasculhei esse quarto de cima a baixo, não tem sentido ela investigar de novo...
— Mesmo que tenha saído da cápsula, não deveria ter escapado do seu cofre de Relíquias — murmurou, concentrada. — O espaço dentro da Fortaleza Impecável está em uma fase diferente do espaço ao redor. O slime deveria levar muito tempo para superar isso com evolução física, e não deveria haver materiais suficientes para que ele evoluísse intelectualmente e conseguisse abrir o cofre sozinho. Também deveria levar muito tempo para aprender a atravessar objetos, e sua adaptabilidade só permitiria que passasse pelo metalium da cápsula—
— Resumindo? — pedi.
— Provavelmente, o slime estava escondido no cofre, fora da cápsula, e escapou quando você o abriu — disse Sitri, sorrindo e juntando as mãos. — Acertei?
Como... eu deveria saber? Espera. Isso significa que o slime estava ali, bem ao meu lado, quando estendi a mão para pegar a cápsula?
O interior do cofre estava escuro, e eu estava com pressa. Então, era uma possibilidade real.
Um calafrio percorreu minha espinha.
Um slime capaz de aniquilar toda a capital, cuja mera presença assustava fantasmas. Aquela coisa esteve ao meu lado, no meu quarto?!
— Como eu... ainda estou vivo? — soltei sem pensar.
— Eu o ajustei para não te atacar — disse Sitri, como se fosse óbvio.
A única coisa que ela me disse foi que era perigoso e que eu deveria segurá-lo. Isso era algo que deveria ter sido melhor explicado!
— E-Espere, então ele é seguro para tocar...? — perguntei.
— Bem, pelo menos para nós. Não importa o quanto eu tenha ajustado, só consegui marcar dois alvos para serem excluídos como presas — disse ela. — Mas, para ser franca, Krai, essa coisa é perigosa demais para ser usada como um dos seus Testes. Fico muito lisonjeada por você estar usando a minha criação, mas será um desastre e tanto se isso for registrado pelo mundo como um fantasma.
Do que diabos ela estava falando? Então, Sitri e eu estávamos seguros, mas isso atacaria qualquer outra pessoa indiscriminadamente? De jeito nenhum, pensei comigo mesmo. Não tinha como a brilhante Alquimista me entregar um monstro defeituoso assim!
Mas, por outro lado, Sitri tinha um histórico de perder a noção das coisas quando se tratava de seus experimentos...
Sitri olhou ao redor, observando as paredes e o chão, depois seguiu até a porta do meu banheiro, no final do quarto.
— Não há dutos nem ralos neste cômodo — disse ela. — Mas ainda é um slime, então instintivamente preferiria umidade. Acredito que tenha ido para o banheiro. Provavelmente escapou pelo ralo... estou certa?
— Eu mantenho a porta fechada quando não estou aqui — respondi.
— Ganhar massa dentro da Fortaleza Impecável não foi fácil para ele, estando completamente isolado do mundo exterior. Mas ele poderia rastejar facilmente por debaixo de uma porta normal. Não é verdade, Krai?
— Aham...?
Eu ia vomitar.
Ela continuava pedindo minha confirmação, mas a única coisa que eu podia confirmar com certeza era que eu não sabia nada sobre esse slime.
Será que a Sitri realmente acha que sou o tipo de pessoa que consegue prever tudo isso facilmente? E pera aí, isso é um desastre. O ralo do banheiro leva ao sistema de esgoto que conecta toda a cidade.
Sitri sacudiu a frente do seu manto, depois inclinou adoravelmente a cabeça para o lado e disse:
— Ao contrário dos slimes normais, esse consegue sobreviver facilmente nos esgotos: haverá muitos insetos e pequenos animais para ele se alimentar. Se ele já se acostumou com os interiores escuros do cofre, também deve preferir lugares escuros. Não é provável que tenhamos tido vítimas humanas... ainda. Entendo, você pensou em cada detalhe, não foi?
Sei lá do que ela estava falando. O que captei foi que essa coisa provavelmente ainda não havia matado ninguém.
Suspirei discretamente aliviado; o pior cenário havia sido evitado.
Mas, dito isso, mesmo com a minha mente nada genial, eu conseguia imaginar que vasculhar os esgotos atrás dele seria um trabalhão — quem sabia se aquela coisa ainda estava viva? E se tivesse se escondido no esgoto, duvidava que conseguíssemos encontrá-la. Mas não podíamos desistir de procurá-la.
Sitri voltou a refletir, de olhos fechados. Fiquei em silêncio para não atrapalhá-la, e logo ela abriu os olhos.
— Entendi. Deixe isso comigo — disse ela e, rapidamente, mudou de assunto. — Sobre outra questão...
— Se você diz que cuida disso, então tudo bem, mas tem mais alguma coisa? — perguntei.
Eu deixaria que ela lidasse com isso, já que se ofereceu, mas me perguntei o que mais precisava ser resolvido com tanta urgência.
Sitri encostou o corpo no meu. Embora fosse mais alta que Liz, ainda era menor que a média e, portanto, mais baixa do que eu. De perto, senti um leve cheiro de erva doce vindo dela.
Com toda a seriedade, ela disse:
— Acho que descobri a causa das mudanças na Toca do Lobo Branco. Muito perigoso — toda a equipe de investigação pode acabar morta.
O chão tremeu com a chegada da caravana. Rolando pelo caminho vinham várias carroças, cada uma adornada com o brasão dos Primeiros Passos. Esses veículos eram puxados por cavalos robustos e blindados, treinados para permanecerem calmos mesmo sob a aura sinistra dos cofres de tesouro.
Dos vagões, os passageiros — caçadores dos Passos — desembarcaram. Não havia uniformidade entre eles, exceto pelo brasão do clã, que cada um exibia de alguma forma. Esses caçadores não pareciam tão despreocupados ou felizes quanto de costume; suas expressões sérias e seus movimentos eficientes se assemelhavam mais a um batalhão militar prestes a embarcar em uma missão suicida.
Os caçadores que já estavam explorando a Toca do Lobo Branco, exceto os membros da Cruz de Obsidiana, observaram a chegada dos reforços com expressões de espanto. Esperavam uma marcha sombria de caçadores, mas certamente não reforços nessa quantidade. Nunca antes um grupo tão grande de caçadores havia pisado na Toca do Lobo Branco ao mesmo tempo.
Gein, que vinha xingando e reclamando enquanto esperava pela chegada deles, ficou surpreso.
— Quantos caçadores vocês chamaram? O quê? Eles estão tentando derrubar todo o cofre?
Um cofre de tesouro abrangia toda a área sobre a qual se erguia. Portanto, destruir suas estruturas — subterrâneas ou não — não o apagaria do mapa de forma alguma. Alterar as linhas de energia abaixo de um cofre de tesouro poderia, em teoria, destruí-lo para sempre, mas isso não era realista. Apesar disso, a determinação emanada por esses caçadores era tão intensa que a ideia de verem o cofre inteiro obliterado passou pela mente de Gein.
Lyle, um jovem de feições marcantes, saltou da carroça líder e correu até Sven. Ele era um ano mais novo e tinha um nível inferior ao de Sven, mas os membros dos Primeiros Passos possuíam todos o mesmo posto dentro do clã.
— E aí, Sven, como tá a situação? — perguntou Lyle.
— Nada aconteceu ainda — respondeu Sven, examinando rapidamente os caçadores recém-chegados. — Alguém está no comando? Podemos agir por conta própria, mas em momentos críticos...
Enquanto isso, os outros caçadores desciam rapidamente dos vagões e se espalhavam em formação para defender a área.
Um grupo de caça, por definição, deveria ser completo e equilibrado por conta própria. Caçadores de diferentes grupos nunca seguiriam um líder comum sob circunstâncias normais. Mas, em uma operação dessa magnitude, agir sem pelo menos uma direção em comum poderia levar a baixas desnecessárias.
Lyle franziu os lábios e disse:
— Os Cruzados são os líderes. O seu grupo é o de nível mais alto aqui. Krai nos disse para seguir o seu comando.
— Sei que o Krai nunca aparece nessas coisas. Mas onde está a Liz? Sei que ela daria tudo para estar aqui — perguntou Sven.
— Krai levou ela e a Tino para outro lugar. Ele tem outro serviço para elas — disse Lyle com uma expressão amarga.
Sven decidiu não perguntar como isso havia acontecido e apenas comentou:
— Isso... é uma sorte.
Ele ficou curioso sobre qual seria o trabalho que Krai havia reservado para Liz, mas decidiu deixar esse pensamento de lado. De qualquer forma, considerou uma vitória o fato de que Liz — e sua completa falta de consideração destrutiva pelos colegas de clã — não colocaria aquela missão em risco.
Sven via Liz como a Ladina insana que procurava ativamente o perigo mortal, uma caçadora egoísta e imprudente que podia acabar com qualquer um, mas que não seguia ordens nem as dava — apenas outro Grieving conseguiria fazê-la ouvir a razão. Em outras palavras, ela seria uma inimiga aterrorizante ou uma aliada catastrófica.
E então, ele chamou o grupo em voz alta:
— Juntem-se! Vamos traçar um plano.
À primeira vista, um slime poderia facilmente ser confundido com uma poça d’água. Eram monstros altamente viscosos que viviam em ambientes úmidos; não tinham músculos, ossos ou sangue. Apesar de sua aparência, pareciam ser de alguma forma sencientes: deslizavam lentamente pelo chão, capturando e digerindo pequenos insetos com seus corpos.
Slimes eram criaturas mágicas que podiam surgir naturalmente, mas também eram conhecidas por serem criadas por Alquimistas. Ainda assim, apesar de serem seres mágicos, Sven nunca os considerou dignos de atenção—mal podiam ser chamados de monstros. Slimes eram incrivelmente fracos tanto contra ataques físicos quanto mágicos. Na verdade, suas estruturas líquidas eram tão frágeis que podiam ser facilmente divididas ao menor toque de um humano. E uma vez divididos, apenas a metade contendo seu núcleo continuaria ativa, deixando a outra metade como uma simples poça d’água.
Embora fossem ácidos o suficiente para digerir pequenos insetos e coisas do tipo, não representavam nenhuma ameaça para um humano, mesmo que o engolissem inteiro. Na verdade, os slimes eram tão fracos que até mesmo pessoas comuns os consideravam inofensivos. Francamente, caçadores de tesouros, que possuíam força quase sobre-humana, achariam um desafio perder para um slime, mesmo que tentassem. E por isso, alguns caçadores nem sequer os consideravam monstros.
Sven observou seus companheiros caçadores, que estavam armados e sentados em círculo.
— Alguém aqui já lutou contra um slime antes?
— Não.
— Nunca.
— Você realmente luta contra eles...?
— Já pisei em um sem querer...
Sven franziu a testa ao ver o desânimo dos caçadores.
Os membros da Obsidian Cross já haviam enfrentado monstros e fantasmas de todos os tipos, mais do que a maioria das outras equipes reunidas ali, e mesmo assim nunca tinham "lutado" contra um slime.
Mas nem todos os slimes eram iguais. Sven tinha ouvido rumores sobre um cofre do tesouro bizarro no extremo leste que só gerava slimes—slimes tão poderosos que podiam matar caçadores. Até aquele dia, esses slimes só existiam no reino dos boatos.
Coçando a cabeça, Sven soltou um longo suspiro e disse:
— Slimes, de todas as coisas... Preferia encarar um dragão.
— Também não exagera... — brincou um dos caçadores.
Sven não estava rindo. Com preparação meticulosa e disposição para arriscar a vida, os Crosses já haviam lutado e conquistado uma amarga vitória contra um dragão, mas nunca contra um slime. Simplesmente, Sven não tinha ideia do que esperar; não sabia como esse slime bizarro atacaria, quais eram suas fraquezas ou como poderia tirar vantagem na batalha.
Fechou os olhos por alguns segundos antes de perguntar:
— Alguém tem alguma sugestão de como lidar com esse slime?
Ao redor do círculo, os caçadores responderam com total seriedade.
— Minha espada de sempre. Cortes funcionam bem contra eles.
— Trouxe meu martelo. Ouvi dizer que impactos contundentes também são eficazes. Vou esmagar o núcleo dele.
— A magia de fogo do nosso Mago vai fritá-lo.
— Ele não terá chance contra minha magia de vento.
— Comprei um spray repelente de slimes, 700 gild, vendido sem prescrição. Não sei se funciona, mas...
— Vou esmagá-lo com meu escudo.
É claro que essas respostas não ajudaram em nada a aliviar as preocupações de Sven. Tirando o repelente, tudo funcionava contra slimes. Da mesma forma, arco e flecha nem sempre eram a melhor solução contra slimes, mas acertar o núcleo resolvia o problema. Com suas habilidades excepcionais, Sven poderia acertar cem slimes em seus núcleos sem falhar, não importava o quão pequenos fossem.
— O Krai disse mais alguma coisa? — perguntou Sven. Não havia informações suficientes para ele trabalhar, e Krai tinha um longo histórico de deixar de fora detalhes cruciais.
Sentado três lugares à esquerda de Sven, Lyle respondeu com um tom derrotado:
— Só disse que não é um slime normal...
— Droga, isso eu já sabia! — resmungou Sven. — Por que ele sempre tem que nos dar informações aos poucos?! Toda! Maldita! Vez!
— Perguntamos a ele, mas ele só disse que não sabe...
Essa era a tática padrão de Krai. E o pior era que ele realmente parecia não saber. Sven tinha que admitir: o mestre do seu clã tinha um poker face inabalável.
Os caçadores ficaram em silêncio.
Então, Gein falou no canto do círculo com um tom debochado:
— Isso é ridículo! A gente não vai matar esse slime pensando nele até a morte. Não me importa se o líder de vocês "vê o futuro" ou qualquer coisa assim—temos pessoal suficiente agora e um trabalho a fazer. Se vocês estão com medo de agir, nós resolvemos o problema—se esse slime aparecer, claro.
Os caçadores da Primeiros Passos permaneceram em silêncio e apenas lançaram olhares de pena para Gein.
Ele esperava alguma resistência, especialmente de caçadores que deviam ter orgulho do próprio trabalho. Diante daquela reação inesperada, Gein sentiu um leve tique na bochecha.
— P-por que estão me olhando assim?!
— Não entendeu? Todos achamos que você vai ser a primeira vítima. — Sven suspirou. — Só saiba que eu tentei te impedir, tentei mesmo. Não volte para me assombrar, tá legal? E... não morra em vão. Pelo menos passe algumas informações sobre a coisa. Vamos vingar sua morte.
— Vocês são loucos! — disse Gein. — E se no fim das contas nada acontecer?!
Sven ignorou a pergunta e voltou sua atenção aos caçadores da Passos. No fim do dia, cada caçador era responsável por suas próprias ações e sua vida. Sven sempre se esforçava para minimizar baixas em qualquer missão, mas estava pronto para aceitar que um sacrifício poderia ser necessário dessa vez para obter informações sobre o alvo.
— Nenhuma ideia concreta então — disse Sven. — Então vamos—
Quando estava prestes a continuar, Sven notou uma pequena mão levantada na borda externa do círculo. Um caçador grande estava bloqueando a visão de quem levantou a mão, mas ao perceber que Sven olhava em sua direção, se moveu, revelando uma garota tímida atrás dele.
A garota parecia bastante reservada. Seus olhos estavam escondidos sob o capuz, mas ainda assim, reflexos de carmesim brilhavam através das mechas de seu cabelo e do brilho de seu olhar. Curiosamente, ela usava um par de óculos—um acessório incomum para caçadores—com armação grossa.
Sven não reconhecia a garota, que supostamente era de seu clã.
— O que foi? — perguntou.
A garota tremeu como se a pergunta a tivesse atingido antes de responder em voz baixa:
— Sou Talia... Talia Widman, uma Alquimista.
— Alquimista?! — Sven repetiu. — Não sabia que tínhamos outra Alquimista no clã além da Sitri.
A reação de Sven fez Talia se encolher ainda mais dentro de seu capuz.

Alquimistas eram especialistas em manipular matéria através de uma combinação de ciência e magia. Eles costumavam ser um trunfo poderoso para qualquer grupo ou clã. Mas um bom alquimista precisava de um vasto conhecimento e bolsos fundos, tornando-os ainda mais raros entre caçadores do que arqueiros. A maioria deles era contratada por instituições acadêmicas nacionais ou por companhias comerciais que lidavam com produtos químicos, e Sitri, a infame Alquimista das Almas em Luto, era definitivamente a exceção.
— Ainda sou nível 3... — disse Talia, sem um pingo de confiança para uma caçadora. — Sitri e eu somos os únicos alquimistas do clã. Geralmente, ficamos juntas no laboratório...
Ela parecia mais alguém que pertencia a uma biblioteca do que a um cofre do tesouro. Mas, então, Sven não conseguia pensar em ninguém que pudesse ajudá-los melhor nessa missão. Slimes eram uma das especialidades dos alquimistas, e foi por isso que Talia se pronunciou.
Uma garota de idade semelhante à de Talia—provavelmente uma companheira de equipe—batia no ombro dela como se tentasse incentivá-la. Ela não parecia tão imponente, mas seu nível indicava que pelo menos sabia se virar no campo.
Sven começou a se perguntar se todos os alquimistas eram esquisitos. Ele estava começando a ver um padrão entre Sitri e Talia. Mas isso não importava—Sven estava desesperado.
— Alquimia é... uma mistura de ciência e magia... — continuou Talia. — É... um campo de estudo vasto. Slimes e outras criaturas mágicas fazem parte disso.
Ainda muito nervosa, ela prosseguiu:
— Hum... Slimes não são o assunto mais popular de estudo, mas Sitri e eu estávamos pesquisando sobre eles até bem recentemente—
— Estudando slimes, é? Alguma fraqueza? — perguntou Sven, forçando um tom otimista. A situação tinha dado uma virada para melhor. Mas será que Krai planejou tudo isso? pensou por um breve momento.
De qualquer forma, era um golpe de sorte muito bem-vindo.
De uma bolsa de poções que era duas vezes maior que as comuns entre caçadores, Talia cuidadosamente tirou um cilindro de vidro. Dentro dele, um líquido escuro se agitava levemente.
Os olhos de Talia se arregalaram por trás dos óculos, e sua respiração se acelerou.
— Esse composto químico mata slimes — disse ela. — Não funciona em nenhum outro monstro, mas mata noventa e nove por cento de qualquer coisa classificada como slime.
Pequenos murmúrios animados surgiram entre o batalhão. Era exatamente o que eles esperavam.
Sven ficou impressionado com o composto à primeira vista, mas logo franziu a testa ao observar o cilindro novamente.
— Isso é impressionante... — disse ele. Mas é seguro?
Ele nunca tinha ouvido falar de um composto químico que matava apenas slimes. E, para começo de conversa, por que ela teria algo assim, especialmente quando slimes podiam ser mortos com praticamente qualquer coisa? Além disso, Krai só tinha anunciado que o alvo era um slime algumas horas atrás—não parecia plausível que Talia tivesse criado esse composto em tão pouco tempo. Sem contar que o alvo não era um slime comum, pelo que Sven tinha ouvido. Tudo parecia conveniente demais, especialmente considerando que Talia era nível 3; ela ainda era muito inexperiente comparada a ele. Se fosse Sitri, Sven poderia ter pensado diferente. Sitri era perfeccionista. Na verdade, ela era perfeita em sua arte. Apesar do nível baixo, sua habilidade era bem conhecida no clã graças às poções ocasionais que distribuía.
Mas, no fim das contas, Sven não confiava o suficiente nas habilidades de Talia para tornar sua poção a carta na manga dele. E, pelo olhar dos outros caçadores, eles compartilhavam do mesmo sentimento.
Talia riu baixinho e, desta vez, falou com confiança:
— Não se preocupe, Sven. Eu não fiz isso—Sitri fez. Eu só pedi um frasco para estudar mais a fundo. Ela disse que pagaria um bilhão de gild por qualquer slime que isso não matasse.
Ao longo de suas carreiras caçando monstros e fantasmas, os membros da Obsidian Cross eram frequentemente elogiados por sua coragem. Apesar disso, Sven Anger sempre acreditou que o verdadeiro segredo do sucesso de seu grupo estava na cautela. Os Crosses eram fortes, mas nem de longe tão fortes quanto as outras equipes insanamente poderosas da sua geração: os Grievers e a Ark Brave. Enquanto esses grupos superavam cada obstáculo com pura força e talento, a Obsidian Cross conseguia acompanhá-los com muito esforço e decisões bem pensadas. Se a força dos Grieving Souls estava na sua destemida indiferença à morte, a força da Obsidian Cross estava no completo oposto.
Os Crosses derrotaram muitos inimigos poderosos através de uma preparação meticulosa como a que estavam demonstrando naquele momento: decifrando a visão enigmática de Krai, gastando uma fortuna em Pedras Sônicas para se manterem atualizados sobre a inteligência do inimigo e elaborando planos detalhados ao trabalhar com outros grupos. Embora seu método fosse o oposto do que os normais imaginavam que caçadores faziam, ele era inegavelmente profissionais.
Diante da entrada da Toca do Lobo Branco, os caçadores estavam finalizando os preparativos para o avanço. No centro da formação estavam os membros da Obsidian Cross, encarregados de comandar todo o batalhão.
Os Crosses vestiam a armadura de seu nome—armaduras de obsidiana, criadas com tecnologia de ponta. Resistentes tanto a impactos quanto à magia, dizia-se que a obsidiana era o material mais próximo dos Artefatos.
Os músculos altamente treinados de Sven tremiam sob a armadura—não de medo, mas da antecipação pelo desafio à frente. Sven nunca teve ilusões de grandeza sobre suas habilidades. Sim, ele era um caçador altamente qualificado, com um título, mas não possuía habilidades como a precognição de Krai nem a força bruta para dizimar sozinho um exército inteiro como Ark. Mesmo assim, ele era um caçador até o último fio de cabelo.
No total, doze grupos estavam reunidos do lado de fora da Toca do Lobo Branco. Com uma média de seis membros por equipe, havia menos de cem pessoas ali. Não era um número impressionante para um batalhão militar, mas cada um deles era um caçador treinado pelos cofres do tesouro. Sua experiência falava mais alto que os números, especialmente porque vários deles empunhavam Artefatos como armas. Ainda assim, ninguém baixou a guarda—caçadores da Primeira Etapa conheciam bem os perigos dos Mil Desafios, e o resto estava sendo contaminado pela intensidade dos veteranos.
Sendo um cofre cavernoso, a Toca do Lobo Branco não era um ambiente adequado para batalhões grandes invadirem de forma direta, espalhando golpes para todos os lados. Na verdade, isso valia para muitos outros cofres do tesouro, e essa característica havia moldado muitos dos procedimentos padrão da indústria de caçadores de tesouros.
O plano de Sven era simples—na verdade, ele não tinha muita escolha.
Os grupos se dispersariam e vasculhariam o cofre com extrema cautela. Cada grupo seria designado para investigar uma área específica.
— Enquanto isso, os grupos se comunicavam através de assobios. Ao soprar seus apitos um determinado número de vezes em sequência, os caçadores conseguiam enviar diferentes mensagens pela caverna. Um alarme seria acionado caso ocorresse algum evento inesperado, e o batalhão evacuaria o cofre para se reagrupar.
Se alguém encontrasse o slime, deveria tentar atraí-lo para fora, se possível, onde o batalhão inteiro poderia enfrentá-lo junto. Mesmo quando não houvesse descobertas, os grupos se reuniriam do lado de fora do cofre nos horários programados. Se algum caçador não retornasse a tempo, seria presumido como morto, eliminado antes mesmo de ter a chance de assoprar seu apito. Embora cada grupo ainda corresse o risco de ser abatido dentro do cofre, Sven esperava evitar o pior cenário possível, no qual o misterioso slime exterminasse o batalhão inteiro de uma só vez.
Os grupos que não entrassem no cofre permaneceriam do lado de fora como suporte, protegendo a entrada o tempo todo, é claro.
Esse plano elaborado poderia parecer disciplina exagerada para um grupo tão diverso, mas foi estruturado assumindo que estariam ali por um longo período.
Eles não podiam arriscar, especialmente quando não tinham nenhuma informação concreta sobre o alvo.
— Acho que temos sorte de ao menos saber sobre o slime — pensou Sven. — Pelo menos podemos nos preparar.
Sven estalou a língua e lançou um olhar carrancudo para o cofre do tesouro.
— Teste isso, Teste aquilo... Droga, Krai, por nos deixar encarregados disso. Vou chutar a bunda dele quando voltarmos.
— Nah. Você tem medo demais da Sombra Partida pra isso — disse um de seus companheiros de equipe.
— Cala a boca. Como eu deveria acertá-la com uma flecha normal? Estou ferrado nesse confronto — resmungou Sven.
Com o frasco de exterminador de slimes em mãos, Talia aguardava com seu grupo a uma certa distância da entrada do cofre. Ela tentava controlar a respiração; estava nervosa, mesmo sendo apenas o plano de contingência. Se o alvo realmente fosse um slime, qualquer um daqueles caçadores deveria ser capaz de eliminá-lo sem dificuldades. O frasco seria quebrado apenas se todas as outras opções se esgotassem.
O que os Alquimistas não tinham em força de combate, compensavam com sua capacidade de resolver problemas por meio de preparações minuciosas. E, conhecendo bem Sitri, Sven confiava que o produto dela daria conta do recado.
Enquanto isso, Henrik se aproximou dele e perguntou:
— Hã... quem é Sitri? Parece que todo mundo a conhece.
— Oh, você ainda não a conheceu... — disse Sven.
Quando Henrik entrou para a Cruz Obsidiana seis meses atrás, os Grievings Souls já eram os melhores. Caçadores renomados frequentemente desempenhavam múltiplos papéis, mas nenhum mais do que a brilhante Alquimista, Sitri. Ela estava tão ocupada que raramente aparecia no salão da guilda, e aos poucos as pessoas pararam de falar sobre ela.
— Ela mal aparece hoje em dia — relembrou Marietta, a Maga. Mas, no fundo de seu olhar, um vislumbre de medo surgiu.
Adoração e medo caminhavam lado a lado para aqueles com habilidades extraordinárias. Sven recebia olhares de ambos diariamente e assumia que seus companheiros de equipe também experimentavam o mesmo. Sitri Smart não era exceção: ela possuía um talento que até os Alquimistas mais talentosos da capital não podiam evitar invejar.
Sven encarou o olhar tímido de Henrik. O olhar reservado em seus olhos lembrava um pouco o de Sitri em sua memória. Ele prendeu a respiração por um instante antes de franzir a testa.
— Em resumo, Sitri é... uma fraca forte.
— Uma fraca forte...? — repetiu Henrik.
Sitri era forte. Brilhante. Talentosa. E acima de tudo, era tão peculiar que ninguém realmente a compreendia. Para todos os efeitos, era uma garota simpática, mas qualquer um que interagia com ela não conseguia suprimir uma sensação incômoda.
Mas agora que Sitri havia caído em desgraça, os membros da Primeiros Passos pararam de mencioná-la em conversas, como se quisessem esquecê-la por completo. Como resultado, alguns membros da guilda, como Henrik, sequer haviam ouvido falar dela.
Sven lançou um olhar na direção de Talia e disse:
— Vários grupos, incluindo o nosso, foram persuadidos por Sitri a ajudar a fundar a Primeiros Passos. Sabe, ela já foi a segunda mais forte entre os Grieving, ficando atrás apenas de Krai.
— Sven, estamos prontos — chamou Lyle.
— Entendido — respondeu Sven, dando um passo à frente. — Continuamos essa conversa depois.
Ele observou seus companheiros caçadores da Primeiros Passos e notou que nenhum deles demonstrava medo do que estava à sua espera dentro da caverna. Cada um desses caçadores altamente habilidosos estava pronto para lutar.
Havia um motivo para a Primeiros Passos ter um alto nível médio entre seus membros: os fracos já haviam sido eliminados há muito tempo; os covardes fugiram antes que pudessem se estabelecer. Todos que permaneceram eram uma elite forjada por uma série de provações.
Sobreviver a essas batalhas os tornou camaradas, e essa camaradagem era o que lhes dava força agora. Os grupos mais bem classificados, as instalações de última geração, a estrutura organizada da guilda... tudo isso era apenas um detalhe secundário. O que realmente tornava a Primeiros Passos uma força a ser temida eram os laços forjados ao sobreviverem juntos aos desafios. E essa história era simbolizada no nome da guilda — esses passos dados juntos eram seu orgulho, algo pelo qual valia a pena arriscar a vida. Esse senso de orgulho se estendia também aos outros caçadores externos envolvidos naquela missão.
Sven respirou fundo.
— Foco total! — bradou. — Vamos marcar esse lugar com nossas pegadas! Todo mundo vai sair daqui vivo e contar pro nosso idiota de Capitão que isso foi moleza!
Rugidos explosivos dos caçadores estremeceram a floresta ao redor. Passos firmes ecoaram enquanto todos gritavam até ficarem roucos, avançando para dentro do cofre do tesouro e iniciando sua investida.
— Chegou a hora, e nós conseguimos — disse Noctus.
Todos os membros de sua equipe de pesquisa, exceto Sophia, estavam presentes. Eles haviam deixado o laboratório sob a Toca do Lobo Branco para se estabelecer ali. Diante deles estava o fruto de sua pesquisa — um sistema de defesa programado para proteger a equipe de Noctus.
O novo local era fácil de defender e oferecia uma rota de fuga caso as coisas dessem errado. Combinado ao feitiço de Noctus, que projetava imagens de um local distante, uma perda catastrófica, como haviam inicialmente temido, não era mais provável.
Cheia de confiança, a voz de Sophia ecoou pela Pedra Sonora sobre a mesa:
— Seus experimentos são poderosos, Mestre. Agora que tivemos tempo para nos preparar, não há nem uma chance em um milhão de que possamos perder.
Projetados por Noctus e Sophia, os sistemas de defesa eram uma inovação revolucionária, um invento de primeira linha mesmo dentro do vasto catálogo da Torre Akáshica.
Noctus demonstrava confiança ao apoiar a decisão de Sophia de atacar. Os outros pesquisadores não protestaram, pois também conheciam muito bem as capacidades dos sistemas de defesa.
— Quase uma centena de caçadores, alguns até com epítetos — continuou Sophia com calma. — Estamos em menor número, mas isso não deve ser um problema. Enfrentar tantos caçadores de uma vez ajudará a validar nossa pesquisa—essa é uma oportunidade de ouro.
Os outros aprendizes apenas encararam a Pedra Sonora com desdém.
— Qual será seu primeiro movimento? — perguntou Noctus.
Com todos atentos à Pedra Sonora, Sophia continuou a descrever seu plano com tranquilidade.
Um bom tempo se passou sem que nenhum apito fosse soprado para indicar uma emergência.
Sven tinha um mapa do cofre aberto no chão enquanto recebia os relatórios dos grupos de investigação. Sendo um cofre de tesouros relativamente fácil, era simples conseguir um mapa detalhado da Toca do Lobo Branco. Ele ia marcando as áreas já verificadas conforme avançavam.
A abordagem cautelosa havia retardado o progresso, mas setenta por cento do labirinto já estava marcado.
— Nada de novo, hein? — perguntou Sven.
— Os fantasmas ainda são de alto nível, mas só isso — respondeu um colega caçador.
Após temerem o pior, a Cruz de Obsidiana retornou à superfície sem nenhuma baixa. Havia alguns feridos no batalhão inteiro, mas ninguém morreu; e mesmo os feridos já deveriam ter sido curados a essa altura.
Agora, até a sala do chefe, onde haviam sido alertados de que o limo provavelmente apareceria, já tinha sido riscada do mapa. Sven havia lembrado o grupo responsável por investigar essa área de prestar atenção redobrada, mas aparentemente não havia nada lá para registrar.
Os trinta por cento restantes do cofre eram becos sem saída. Em poucas horas, teriam percorrido todo o local.
O senso inicial de perigo já havia praticamente desaparecido. Mas Sven, é claro, conhecia bem o modus operandi do Mil Truques: as coisas só desandavam nas suas Provas quando menos se esperava. Por isso, ele manteve a guarda alta, mas não havia como o grupo permanecer tão atento por muito tempo.
— Talvez a precognição do Krai tenha falhado dessa vez — brincou Sven.
— E se nada acontecer? — perguntou um de seus companheiros.
— Aí vamos contar como sorte nossa — respondeu Sven.
Conforme a investigação continuava, alguns grupos começaram a lançar olhares atravessados para os membros da Cruz de Obsidiana. Sven sabia que seriam ridicularizados se ele tivesse deixado todos em alerta máximo por nada, mas Henrik sempre retribuía os olhares na mesma moeda. Claro, não havia muito que pudessem fazer em relação a alguns caçadores apenas se divertindo às custas deles. Eles pareciam estar esperando o resto do cofre ser limpo para então acusar Sven abertamente.
O grupo de Talia, que sequer havia entrado no cofre, estava recebendo parte da hostilidade junto com a Cruz de Obsidiana. Sven sentia um pouco de culpa por isso, mas continuava confiante em sua decisão.
— Ainda não terminamos — disse ele.
— Teríamos terminado se não fosse por você — rebateu Gein, que criticava cada uma das decisões de Sven.
Com seus piercings na orelha e cabelo com mechas descoloridas, Gein quase parecia um marginal comum. Mesmo assim, ele havia seguido as ordens de Sven, ainda que resmungando. Seu grupo inteiro parecia compartilhar do mesmo sentimento, encarando Sven com animosidade.
— Pode reclamar o quanto quiser depois — disse Sven. — Vocês acabaram de sair de lá. Relaxa um pouco.
Gein estalou a língua, reprimindo sua irritação.
— Então reza pro seu todo-poderoso CM que nem se deu ao trabalho de aparecer — cuspiu ele, indo embora com o restante de seu grupo.
Sven entendia o que ele sentia. Se o batalhão não tivesse seguido sua abordagem cautelosa, já teriam limpado o restante do cofre a essa altura e poderiam estar terminando o dia em um bar, caso nada tivesse dado errado durante a investigação.
Vendo que Gein se afastava do grupo e ia para os arbustos perto do cofre, Sven o chamou:
— Ei! Fica no seu posto!
— O quê, não posso mijar?! Já volto! — disse Gein, batendo a mão na espada presa ao cinto. — E tô levando uma arma comigo. — E desapareceu rapidamente na floresta.
Sven soltou um longo suspiro.
Bom, o resto do grupo ainda estava ali, e não era como se Gein estivesse voltando para o cofre. Além disso, ele também deveria estar ciente de que a área ao redor era perigosa, então, contanto que não demorasse, não deveria ter problema.
— E... nunca mais o vimos — brincou Henrik.
Um sorriso surgiu no rosto de Sven.
— Cuidado com o que deseja.
Mesmo que o novato tivesse sido cético quanto à previsão do Mil Truques no começo, Henrik estranhamente ficou mais confortável com ela conforme a posição da Cruz piorava.
Henrik riu sem jeito.
— Não conheço bem o Krai, mas confio minha vida a você — disse ele a Sven.
— Então deixa eu rezar pro nosso bravo CM pra não te decepcionar.
Gein seguia pela floresta, pisoteando a vegetação densa.
Ele não esperava que a Cruz, cujo líder até tinha um epíteto, fosse um bando de covardes. Gein tinha uma longa carreira como caçador de tesouros. E embora não tivesse conquistado um epíteto, ganhava a vida como caçador na capital. Ele respeitava a Cruz por ter subido degrau por degrau no caminho da grandeza, sem talentos chamativos. Mas era justamente esse respeito que alimentava sua fúria contra eles—tanto que nem conseguia sentir pena pela obediência cega deles. Ele não conseguia entender a fé que tinham nas palavras de um homem com uma carreira que não chegava à metade da sua e que nem sequer havia se dado ao trabalho de aparecer na linha de frente. Se esse suposto profeta fosse descendente do lendário Rodin, até seria uma coisa. Mas Krai era um forasteiro que mal entrava em cofres de tesouro. Nenhuma justificativa de Sven conseguia acalmar a indignação de Gein.
Ele previu a aparição de um cofre de tesouros? pensou Gein. Nem em um milhão de anos.
Ele estava mais inclinado a acreditar que tudo não passava de uma coincidência infeliz que acabou levando Sven e os outros ao lugar errado na hora errada.
Gein já tinha ouvido inúmeros elogios sobre aos Grieving Souls. Mas, mesmo assim, ele não conseguia entender como aquele Krai patético era o líder deles e ainda era considerado um igual ao Ark Rodin. Para ele, era só questão de tempo até que Krai revelasse sua verdadeira face—um mero mortal como qualquer outro, incapaz de prever eventos distantes em cofres de tesouro enquanto descansava confortavelmente na capital.
Noctus demonstrava confiança ao apoiar a decisão de Sophia de atacar. Os outros pesquisadores não protestaram, pois também conheciam muito bem as capacidades dos sistemas de defesa.
A Toca do Lobo Branco era cercada por uma floresta densa. A vegetação rasteira chegava até a cintura, dificultando a movimentação dos caçadores, e os galhos grossos bloqueavam boa parte da luz do dia. Monstros apareciam ocasionalmente na região, mas não poderiam existir em grande número tão perto de um cofre de tesouros. De qualquer forma, monstros poderosos não surgiam próximo à capital.
— Ele acha que há slimes nessa floresta? — pensou Gein. A ideia era tão absurda que nem servia como piada.
Gein avançou pela floresta silenciosa, afastando-se do cofre do tesouro. Mantendo um olho no ambiente ao redor, ele aproveitou para responder ao chamado da natureza.
Ele começava a se perguntar se as recentes atividades na Toca do Lobo Branco realmente indicavam alguma anomalia. Ainda assim, mesmo que a falta de provas não diminuísse seu pagamento, Gein esperava encontrar pelo menos alguma coisa. Era raro sair de uma investigação tão minuciosa sem qualquer pista sobre a causa do problema.
— Se nada aparecer — pensou Gein —, até aquele teimoso do Stormstrike vai ter que admitir seu erro.
Então, um rosnado fraco veio das profundezas da floresta, tão baixo que quase se misturou com o som das folhas ao vento. Somente caçadores com a audição aprimorada por mana material poderiam captar aquilo.
— Cavaleiro lobo — concluiu Gein. — Parece que um escapou do cofre. Melhor me livrar dele para garantir.
Tecnicamente, a Toca do Lobo Branco englobava tanto a caverna quanto a área ao redor. Antes de entrar no cofre, Gein e os outros caçadores eliminaram a maioria dos fantasmas da região para montar acampamento. Ainda assim, era possível que novos fantasmas tivessem surgido. Ele conferiu se seu apito estava pronto para uso e, com a espada em mãos, avançou com cautela na direção do som.
— Que som foi esse?
Gein franziu a testa. Já tinha ouvido muitos uivos e rosnados de cavaleiros lobo durante a investigação, mas esse era diferente. Naquele som, ele percebeu raiva, medo, tristeza e angústia — fosse o que fosse, não estava nada bem.
Então, ele chegou a uma clareira repentina na floresta. O que viu o deixou tão surpreso que ele imediatamente se escondeu atrás de uma árvore, espiando com cautela.
Lá estava um cavaleiro lobo de pelos prateados, uma variante mais poderosa do que os de pelos vermelhos. Gein e seu grupo encontraram um desses no cofre e o apelidaram de Cavaleiro Lunar. Mas aquele ali estava acorrentado pelo pescoço e pelos membros, com um focinheira impedindo-o de abrir a boca. Correntes envolviam seu torso e se estendiam até o solo. O cavaleiro lobo se debatia inutilmente, tentando se libertar.
Ao lado do fantasma, estavam dois homens vestidos com mantos negros, cada um segurando um cajado — Magos.
— Tem certeza de que essa é a melhor jogada para nós? — perguntou um para o outro. — Estamos lidando com quase cem caçadores.
— Aquela maníaca por experimentos... Ela mal consegue usar magia e não tem coragem de sujar as próprias mãos. Só porque é a queridinha do professor, acha que pode mandar na gente. "O fracasso não é uma opção". Como se precisássemos que ela nos lembrasse disso!
— Do que eles estão falando? — Gein se perguntou. Mas, fosse o que fosse, com certeza era algo sinistro. Do contrário, por que estariam mantendo um fantasma prisioneiro? Eles eram a causa das anomalias no cofre? Só de pensar nisso, Gein sentiu um calafrio.
Magos costumavam ser extremamente poderosos. Um Mago bem treinado poderia superar caçadores de outras classes com seu poder destrutivo, por isso eram sempre bem-vindos em qualquer grupo. O próprio grupo de Gein tinha um, e ele sabia muito bem qual era a maior fraqueza deles: tempo de conjuração. Por isso, Magos em equipes precisavam ser protegidos por outros caçadores, que seguravam os inimigos até que os feitiços fossem lançados. Em outras palavras, um Mago desprotegido era um alvo fácil.
Gein só via aqueles dois. Poderia eliminá-los antes que conseguissem conjurar qualquer coisa. Nenhum deles parecia experiente — não haviam nem notado sua presença.
— Você tem que admitir que esse soro é poderoso. Ela pode ter sido a primeira a descobri-lo, mas nós seremos os primeiros a testá-lo — disse um dos Magos.
O outro rosnou e respondeu:
— Transmogrificação forçada com mana material... Droga, isso é para ser algum tipo de caridade dela?!
— Vamos logo começar. Quero ver qual é a grande descoberta dela.
— Terei que atacar rápido assim que surgir uma brecha — pensou Gein.
Eles eram maioria, mas o fato de estarem sozinhos com um cavaleiro lobo, mesmo acorrentado, indicava que confiavam em suas habilidades. Devem ter absorvido alguma mana material, mesmo parecendo inexperientes.
— Mas eu não posso matá-los — disse a si mesmo.
Mesmo com a cena sendo incriminadora, ele precisava entender toda a situação antes de tomar uma atitude drástica.
A tensão secou sua boca. Ele decidiu: atacaria no momento em que os Magos olhassem para outro lado. De qualquer forma, o cavaleiro lobo não deveria representar uma ameaça.
E logo, sua oportunidade surgiu.
Um dos Magos puxou uma seringa do tamanho do próprio antebraço, e os dois voltaram sua atenção para o fantasma.
Num instante, Gein saltou de trás da árvore, avançando contra os Magos. Ele estava a poucos passos deles.
O cavaleiro lobo se sacudiu.
Quando um dos Magos finalmente percebeu sua presença, a espada de Gein já estava no ar.
— Q-Quem é você?!
— Um caçador! — rosnou Gein.
O Mago ergueu o cajado para se defender, e a espada de Gein colidiu contra ele. Gein franziu a testa com o resultado inesperado, mas não hesitou: chutou o estômago do Mago, que não tinha preparo físico suficiente para resistir ao golpe. O impacto o lançou longe, rolando pelo chão.
Sem perder tempo, Gein se virou para o outro oponente.
Mesmo pego de surpresa, o segundo Mago já apontava seu cajado para Gein, com cinco flechas flamejantes flutuando ao redor dele.
— Eu mal dei um segundo, e ele já conjurou um feitiço?! — pensou Gein, sentindo um calafrio.
Embora fosse uma magia básica, demorava anos de treino para um Mago aprender a conjurar até mesmo um feitiço simples por reflexo. Seu inimigo era mais habilidoso do que ele esperava.
Então, Gein tomou uma decisão em um piscar de olhos: avançou contra as flechas ardentes, protegendo o rosto com o braço esquerdo.
Se ele tivesse mantido distância do feitiço, daria ao mago tempo para lançar magias mais poderosas. Isso teria desperdiçado a vantagem do elemento surpresa que Gein tinha.
Uma flecha, originalmente mirando sua cabeça, acertou seu braço. O bracelete de couro evitou que as flechas de fogo carbonizassem sua pele, mas a dor ardente atravessou seu membro. Ainda assim, a jogada de Gein tinha funcionado.
Gein se lançou contra o mago, derrubando-o para trás com um grito. Em seguida, virou-se para o primeiro mago, que ainda estava no chão, e lhe deu outro chute.
Lançar feitiços exigia uma concentração profunda, e Gein sabia disso. Enquanto conseguisse interromper essa concentração com dor, os magos só conseguiriam conjurar feitiços drasticamente mais fracos — isso se conseguissem lançar algum. Como espadachim, seu papel era aguentar ataques para proteger sua equipe, então ele podia suportar aquelas magias.
Com a respiração pesada, Gein rosnou para os magos:
— Isso doeu pra caramba! Vocês vão pagar por isso!
Ele inspecionou seu bracelete esquerdo, agora chamuscado. Gein escolhia cada peça de sua armadura com cuidado, e aquela peça específica oferecia resistência contra magia. Apenas um mago de primeira linha poderia ter causado tanto dano a ele com um feitiço básico.
— Suas magias até que são boas, mas como lutador você é de terceira categoria! — disse Gein.
Fisicamente, Gein estava em pior estado do que os dois magos, mas ele havia vencido.
Chutando os cajados para longe dos magos caídos, Gein avaliou seus oponentes. Talvez tivesse quebrado uma ou duas costelas deles, mas ambos ainda estavam conscientes e podiam responder perguntas.
Agora só preciso chamar reforços do Sven. Pelo o que ouvi na conversa, esses dois devem ter informações valiosas. Que achado!
— Falem! Quero saber tudo! — ordenou Gein.
— Você… faz parte da investigação… — disse um dos magos. — Como nos encontrou? Foi obra do Mil Truques de novo?!
— Isso não faz o menor sentido! — gritou Gein. — Ele não está aqui! Vocês estão no chão agora por minha causa! Mais ninguém!
Será que todo mundo pode parar de falar desse tal de Mil Truques?! O que tem de tão impressionante nele?
Gein deu mais um chute em cada um dos magos por via das dúvidas antes de amarrá-los com a corda que carregava consigo. Assim que terminou, seu rosto assumiu uma expressão feroz. Um dos magos no chão imitou sua expressão, curvando os lábios. Então, Gein ouviu um rosnado doloroso atrás dele e virou-se rapidamente para ver o que era.
— É exatamente como Sophia disse: ele não está aqui. — O mago riu entre respirações fracas.
Uma seringa gigante estava fincada na abertura do bracelete do cavaleiro lobo. Pelo menos metade do líquido já tinha sido injetado no fantasma.
Um arrepio percorreu a espinha de Gein ao ver aquilo.
Injetando um fantasma? Que tipo de soro é esse? Que tipo de "experimento" esses dois idiotas estão conduzindo?
Gein lançou um olhar furioso para os dois no chão, mas os magos apenas sorriram cruelmente.
— O que vocês fizeram?! — perguntou Gein.
Um estalo seco.
O som do metal atingindo o chão ecoou.
Gein se virou.
A corrente que prendia o cavaleiro lobo estava no chão, solta. Sua focinheira se desfez em pedaços, assim como suas algemas. Parecia que alguma força invisível as havia despedaçado.
Mas o que mais aterrorizou Gein não foram as correntes no chão. Foi a aparência do cavaleiro lobo. Sua cabeça, adornada com uma máscara de meio-crânio, estava derretendo — assim como todo o seu corpo, coberto por uma armadura negra. Seu pelo áspero havia se liquefeito por completo, assumindo a aparência oleosa de um anfíbio. De seu corpo disforme, pedaços de carne derretida pingavam no chão. Seus olhos brilhantes — a única coisa que ainda lembrava sua forma original — estavam fixos em Gein. Quando ergueu o que antes era um braço, o ar ao redor dele tremulou como uma onda de calor. Gein se perguntou se alguém ainda reconheceria aquela criatura como um cavaleiro lobo.
O que… é essa coisa?!
Gein já havia enfrentado inúmeros monstros horrendos em sua carreira, mas nunca tinha visto nada como aquilo.
— Fantasmas transmutados à força procuram material de mana em alta densidade — disse um dos magos, rindo. — Quem você acha que tem a maior quantidade de mana entre nós?
Gein parou de ouvir. Sua mente estava consumida por confusão e medo. Com o corpo e a armadura derretendo sem parar, o fantasma começava a se parecer com algo que não pertencia a esse mundo: um slime.
Seu instinto de sobrevivência tomou conta, e seu corpo se moveu sozinho. Sem tirar os olhos da monstruosidade que antes era um cavaleiro lobo, ele deu passos para trás. Sem perceber, já estava com o apito em mãos.
— Isso não pode estar acontecendo… Se eu tivesse atacado um segundo antes…
O som do apito cortou o silêncio da floresta.
Sven Anger ergueu a cabeça ao ouvir um som distante vindo da mata.
— Um apito!
Como um sniper de elite, os sentidos de Sven eram mais aguçados que os da maioria dos caçadores. Mas mesmo ele não teria escutado o alerta se não estivesse em estado de alerta, apreensivo com a situação atual.
— Sério? — perguntou Henrik, incrédulo.
Com seu arco em mãos, Sven se levantou. Seus movimentos chamaram a atenção dos outros grupos que descansavam.
— Todos em alerta! — ele ordenou em voz alta. — Chamem todos de volta para a base! Agora! Um apito curto! Isso significa emergência!
Os caçadores entraram em ação imediatamente, seguindo a deixa de Sven.
Após sobreviver a inúmeras situações de vida ou morte, Sven sabia que uma decisão em fração de segundo poderia ser a diferença entre viver e morrer.
Talia apertou firme sua arma mata-slimes, preparando-se para o que estava por vir.
— Ei, o Gein já voltou?! — perguntou Sven.
— A-ainda não! — respondeu um de seus companheiros, pálido. Gein era o único que ainda não havia retornado.
Sven mordeu os lábios. Eu não devia ter deixado ele ir sozinho. O que aconteceu com ele?
Então, ele ouviu um uivo peculiar — semelhante ao de um cavaleiro lobo, mas ao mesmo tempo diferente de qualquer coisa que já tinha escutado. Ninguém além de Sven havia ouvido o apito, mas o uivo foi alto o suficiente para que todos os caçadores ouvissem.
Finalmente, pensou Sven.
Agora que a busca no cofre do tesouro estava quase concluída, muitos caçadores estavam prontos na base. Com esse número, deveriam ser capazes de lidar com o que quer que estivesse na floresta.
Logo, o chão começou a tremer, e o som de árvores tombando ecoou pela mata.
— Vamos enviar uma equipe de reconhecimento — disse Sven. — Vamos resgatar o Gein!
Apesar dos conflitos pessoais, Gein ainda era um aliado na mesma missão.
Ao seu chamado, os batedores de cada grupo se aproximaram. Mas antes que Sven pudesse dar as direções, Gein emergiu da floresta. Seu rosto estava pálido de pavor, os olhos arregalados e vermelhos. O sangue escorria livremente da mão direita, que ele segurava com a esquerda.
O Ladino do grupo de Gein correu em sua direção.
Sven se perguntou o que poderia ter acontecido nos quinze minutos ou mais desde que Gein entrou na floresta.
— É uma aberração! — gritou Gein, rouco. — Um slime! O Mil Truques estava certo!
No mesmo instante, as árvores explodiram para trás. O chão tremeu novamente. Da abertura, emergiu uma criatura que só podia ser descrita como uma abominação.
— O que... é isso? — murmurou Marietta, atônita. — Isso é... um slime?
Mesmo os membros da Obsidian Cross nunca tinham enfrentado um inimigo como esse. A aberração era uma massa de carne, manchada de preto e branco. Era mais alta que Sven; seu exoesqueleto parecia derretido em uma lama viscosa. Embora sua silhueta ainda lembrasse algo com quatro membros, ela se arrastava desajeitadamente pelo chão. Seus olhos carmesim, brilhando através da gosma, eram o único sinal de que possuía alguma consciência. De qualquer forma, a coisa perseguia Gein como uma onda de carne pegajosa, sem se importar com as árvores e arbustos que estavam no caminho. Não era difícil para os caçadores imaginarem o que aconteceria se fossem pegos por aquela coisa.
Isso é um slime?! Sven não pôde deixar de olhar novamente para a criatura.
Se ele fosse descrevê-la, talvez até se parecesse com um slime, mas a aparência era horrenda demais para ser chamada assim. A frase “forma de vida falsa” veio à mente de Sven imediatamente, por algum motivo. Ele simplesmente não conseguia acreditar que o Mil Truques havia descrito essa aberração como um slime.
— Está... derretendo? — disse Talia, dando um passo para trás, horrorizada.
A monstruosidade inesperada fez os companheiros de Gein hesitarem no resgate e congelou os Magos no lugar, com os cajados prontos para atacar.
Sven puxou seu arco e gritou para seus aliados: — Não parem! Ele se move devagar! Magos, preparem-se para explodi-lo!
Imediatamente, ele mirou no monstro. Esse era um movimento que ele já havia praticado dezenas de milhares de vezes. Calcular distâncias e a velocidade do inimigo era algo natural para ele agora, e não havia motivo para errar um alvo a apenas trinta metros de distância.
Sven disparou sua flecha negra como breu, que rasgou o ar. A flecha passou pelo Ladino que corria até Gein, passou pelo próprio Gein, que tropeçava, e atingiu o pé do slime. Como se tivesse sido disparado de um canhão, o impacto fez os pés da criatura explodirem, derrubando-a.
Ao cair, a gosma pegajosa colidiu contra uma árvore próxima, quebrando o tronco como se um par de mãos gigantes tivesse o partido ao meio. Sven observou o estranho efeito—nem físico, nem mágico—com espanto.
Bolhas subiram à superfície da massa de carne e sangue, e o falso slime se ergueu novamente como se nada tivesse acontecido.
Então, os Magos lançaram seus feitiços em uníssono. Num instante, o falso slime foi bombardeado por projéteis d’água de alta velocidade, lâminas invisíveis de vento, flechas de luz comprimida e grandes bolas de fogo. A explosão levantou uma imensa nuvem de poeira após o impacto.
Sven voltou sua atenção para Gein, que agora era arrastado pelo Ladino do grupo em sua direção. A expressão de Gein estava sem cor, retorcida em puro horror; sua armadura suja de terra subia e descia com sua respiração ofegante. Mas o que realmente chamou a atenção de Sven foi o braço direito de Gein—despedaçado até o cotovelo.
— Henrik! Cura, agora! — ele gritou.
— Certo! — respondeu Henrik.
O braço de Gein não havia sido cortado. Parecia ter sido arrancado à força. Não era um ferimento fatal, mas a perda de sangue seria, a menos que contivessem logo. Henrik se aproximou rapidamente e começou a conjurar um feitiço de cura sobre a ferida.
— O que aconteceu?! — exigiu Sven.
Gein arfava. — Magos... Eles injetaram... no cavaleiro lobo... O slime... O Mil Truques... estava certo!
Uma luz verde-clara emanou da palma de Henrik e se infiltrou no ferimento grotesco. Com isso, o sangramento parou e o ferimento se fechou. Um pouco da vida voltou à expressão de Gein, indicando que sua dor havia diminuído consideravelmente.
Henrik mordeu os lábios e disse: — Sven...! Eu não posso regenerar o braço dele—
— Faça o que puder! Vamos encontrar o braço depois e colocá-lo de volta! — disse Sven.
Nenhum outro membro da Obsidian Cross tentou regenerar o membro de Gein. Henrik era o melhor Clérigo do grupo; se nem ele conseguia, não adiantaria os outros tentarem. Ainda assim, não era impossível—os melhores Clérigos do mundo da caça ao tesouro podiam regenerar membros. Mas agora não era hora de procurar um. De qualquer forma, Gein estava fora de combate—como um Espadachim poderia lutar sem seu braço dominante?
— Recuem! — gritou Sven, e Gein saltou para trás, segurando o coto do braço direito.
Sven tinha muitas perguntas em mente, mas precisavam sair dali vivos antes que ele pudesse perguntar qualquer coisa.
Quando a poeira assentou, um uivo ensurdecedor sacudiu a floresta.
Um dos Magos, que ainda estava conjurando feitiços contra a criatura, ficou de boca aberta. — Não pode ser...! Tudo isso e nem um arranhão?!
De fato, o falso slime não havia sequer se mexido. O bombardeio de feitiços não havia deixado um único dano visível, e sua superfície permanecia tão reluzente quanto antes.
Nenhum dos caçadores ousava se mover. Eles estavam como sapos hipnotizados pelo olhar de uma serpente.
O plano original do Mil Truques era enviar o melhor caçador do clã para lidar com isso. Esse pensamento surgiu na mente de Sven, mas ele rapidamente o afastou.
Puxando seu arco com força, Sven gritou: — Tem que haver uma maneira de feri-lo! Fiquem firmes! Mantenham distância e ataquem de longe! E, Krai, como diabos isso é um slime?!
Ao seu comando, uma tempestade de feitiços coloridos atingiu o falso slime. A adaptabilidade era uma das qualidades essenciais dos caçadores, e eles estavam rapidamente se ajustando à situação: o dobro de feitiços do primeiro ataque atingiu a criatura de cima a baixo. Um ataque desses teria dizimado qualquer outro fantasma dentro do cofre, incluindo o cavaleiro lobo branco. No entanto, sem sequer tentar desviar, o falso slime apenas gritou onde estava.
Slimes deveriam ser fracos a todos os ataques, especialmente magia. Essa investida deveria ter obliterado qualquer slime, falso ou não.
Outra nuvem de poeira se ergueu, escondendo a criatura colossal. E, sem esperar para ver o resultado, outra rajada de magia foi disparada contra a nuvem. Uma explosão de luz queimou o ar e lançou uma onda de choque que Sven, a dez metros de distância, teve que suportar.
Depois de um bombardeio mágico que parecia ser um exagero, o silêncio tomou conta da área.
— Ei, Gein, — chamou Sven, — você disse ‘cavaleiro lobo’ antes?
No chão, Gein respondeu, trêmulo, — I-Isso mesmo! Aquela coisa era um cavaleiro lobo! Aqueles malucos atiraram nele, e ele começou a... derreter... Droga!
Da nuvem de poeira que se dissipava, emergiu uma silhueta alta e irregular. O falso slime ainda estava intacto, mesmo após receber todo o impacto dos Magi, que tinham tanta certeza da vitória. Agora, seus rostos se contorciam em descrença.
Marietta não era exceção. E disse, incrédula:
— Não pode ser... Isso deveria ter eliminado qualquer... cavaleiro lobo com facilidade...
O que diabos é essa coisa...? Sven estremeceu.
Ao longo de seus anos na Primeira Jornada, Sven havia enfrentado mais de Mil Truques do que poderia contar, mas nunca tinha visto algo tão aberrante quanto aquilo. Os membros da Primeira Jornada ao menos tinham alguma experiência com "Provações" inesperadas como essa, mas os caçadores de outros clãs, menos experientes, recuaram aterrorizados.
Tem uma resistência alta contra magia... de alguma forma? Sven especulou. Isso é ruim. Já estamos perdendo a batalha antes mesmo dessa coisa agir.
Tremendo, Gein estendeu o que restava de seu braço em direção ao falso slime.
— Cuidado! Não toquem nessa coisa! Ela... é forte demais! Eu não faço ideia do que aconteceu! Eu cortei ele! Eu cortei! E então meu braço... a coisa nem encostou em mim!
Houve uma inspiração. Então, um corte de vento. Sven disparou uma flecha, rápido demais para qualquer um sequer acompanhar com os olhos. Como um raio, a flecha negra encontrou a cabeça do falso slime. Foi um disparo que apenas um verdadeiro mestre da arquearia poderia executar.
Henrik, que havia recuado alguns passos, agora tinha certeza da vitória. Ele já tinha visto Sven perfurar escamas de dragão com suas flechas. Aquele slime molenga — ou seja lá o que fosse — não tinha chance alguma.
Mas, no instante em que a flecha estava prestes a perfurar a cabeça da criatura... ela ricocheteou. Mantendo sua velocidade, a flecha reduziu uma árvore a poucos metros dali a um monte de gravetos.
Enquanto o restante dos caçadores encarava o resultado impossível, Sven rapidamente encaixou outra flecha.
Não existe algo como "impossível", ele lembrou a si mesmo.
Sven costumava ter absoluta confiança em suas flechas, mas aprendeu com a experiência que forças inimagináveis existiam nesse mundo. No mínimo, já havia encontrado uma Ladina que conseguia agarrar — com as próprias mãos — cem flechas disparadas ao mesmo tempo. E também um Paladino que nem piscava depois de ser atingido por outras cem. Comparado a isso, sua flecha ricochetear de um slime parecia até normal.
Seus músculos se retesaram. Flecha negra após flecha negra, ele disparou um total de dez tiros, cada um capaz de aniquilar um fantasma comum sozinho. E, fiel ao seu título, Tempestade de Flechas, o vendaval de projéteis colidiu contra o falso slime. Os caçadores observavam Sven disparar, mas logo ficaram sem palavras — cada uma das flechas foi desviada antes de atingir o alvo, ricocheteando ao redor da criatura e dilacerando a grama e as árvores próximas. Se houvesse um humano no trajeto, teria sido partido ao meio.
Ainda assim, o falso slime permanecia ileso.
Enquanto os caçadores o cercavam, o monstro ergueu seus braços derretidos como se estivesse os examinando.
— Isso não pode estar acontecendo — resmungou Sven. — Negação física? Mas magia também não funcionou. Será que colocou algum tipo de barreira? Não, aquelas flechas não pareceram atingir uma barreira.
Em vez de serem bloqueadas, era como se as flechas tivessem sido desviadas à força.
E quando o assunto era romper defesas, as flechas de Sven eram, de longe, a melhor opção no arsenal dos caçadores. Se nem elas, nem a magia dos Magi, conseguiam afetar a criatura, suas opções estavam se esgotando.
O falso slime saltou e se lançou na direção de um grupo de caçadores que o cercava. Gritando, aqueles em seu caminho saltaram para o lado. No instante seguinte, a criatura golpeou o chão com os dois braços, explodindo a terra ao impacto. Seu ataque era poderoso o suficiente para ferir até mesmo os caçadores ali presentes, todos já fortalecidos por sua exposição ao material de mana.
A situação estava cada vez pior para os caçadores de tesouros. Superar o falso slime em número não fazia diferença, se nem mesmo o caçador de Nível 6 mais renomado entre eles conseguia causar um arranhão na criatura.
— O que fazemos, Sven?! — perguntou Lyle.
— Não vamos correr até que seja absolutamente necessário — respondeu Sven sem hesitar. — Gein me disse que alguém foi responsável por criar essa coisa. Não podemos simplesmente deixar assim.
Era uma questão de orgulho de caçador.
Lyle coçou a cabeça e resmungou:
— Droga, Krai. "Podemos encontrar algo como um slime"?! Já tive o suficiente dessas meias-verdades dele! Eu vou dar um belo sermão quando voltarmos!
Sven franziu os lábios diante da reclamação. Definitivamente, não estavam sendo pagos o suficiente para aquilo.
Outro salto. O falso slime agora focava em outro grupo de caçadores. Mas, por enquanto, tudo que podiam fazer era ganhar tempo.
— Não deixem essa coisa chegar perto! Ela não se move tão rápido — comandou Sven. — Se vier pra cima de você, foque em sair do alcance. O resto, tentem atrasá-la! Toda criatura tem um ponto fraco, e vamos encontrar o dessa!
Agora, ele estava grato por Eva ter montado essa tropa com tanto cuidado. Sven nem queria imaginar o quão pior estariam se tivessem apenas metade dos números, como Krai sugeriu.
Sven se concentrou em dificultar os movimentos da criatura. Embora todos os ataques tivessem sido desviados até aquele momento, o falso slime caminhava sobre pernas, e atacá-las o fazia desacelerar por frações de segundo. Pelo visto, a criatura não tinha controle preciso sobre seus próprios movimentos, nem reagia rápido a ataques. Por mais invencível que parecesse, o falso slime não parecia ter um cérebro muito afiado.
Sven se virou para os outros e os incentivou:
— O padrão de ataque dele é simples! Ele ataca quem está mais perto. E só usa investidas e golpes. Essa coisa é tão lenta que dá até sono. Fiquem firmes!
Com isso, os caçadores voltaram a atacar. Uma enxurrada de feitiços foi disparada para tentar atrasar a criatura, e os golpes colidiram contra sua misteriosa barreira.
O falso slime poderia ser uma ameaça muito maior se tivesse inteligência suficiente para focar em um único alvo, em vez de apenas atacar quem estivesse por perto. Mas, mesmo assim, a situação dos caçadores não melhorava: os Magi não poderiam lançar feitiços para sempre, e ninguém conseguiria esquivar infinitamente. Se um caçador ficasse sem mana ou resistência, estaria fora do combate. Fantasmas, no entanto, eram simplesmente construídos de forma diferente dos humanos, então, quanto mais a luta se arrastava, pior para eles.
Como antes, todos os ataques ricocheteavam na superfície do monstro. Mas os caçadores ainda tinham uma carta na manga — o Matador de Slimes de Talia. Sven lançou um olhar para Talia, posicionada na borda da formação. Ela parecia prestes a desmaiar.
O ladino do grupo de Gein correu em sua direção.
O suor escorria pelo rosto de Sven. Uma chance. Era tudo o que tinham, pensou ele. Se a criatura desviasse da poção mata-limo, estariam condenados. Precisavam ser cuidadosos.
Enquanto isso, ele via o cansaço se espalhando pelas expressões de seus aliados. Embora ainda estivessem conseguindo desviar dos ataques do falso slime, era questão de tempo até que alguém se ferisse se a luta se prolongasse.
Sven tomou sua decisão. Ele havia estudado o padrão de ataque do falso slime. Seu plano era arriscado, mas viável.
Krai havia pedido Ark Rodin para esse trabalho inicialmente. Sven sabia que não era tão habilidoso quanto a Tempestade Prateada; ainda assim, tinha orgulho do seu trabalho e de seu título.
Fisicamente, ele ainda não estava exausto. Além disso, seus aliados arriscavam suas vidas a cada ataque do falso slime.
— Me dê a poção, Talia — disse ele. — Eu farei isso.
— O-Okaay!
Talia tropeçou ao se aproximar de Sven e entregou a ele o frasco contendo o líquido escuro. O vidro era tão frágil que um único impacto seria suficiente para quebrá-lo.
— Se você conseguir derramar a solução sobre ele, o slime deve se autodestruir a partir do ponto de contato... deve — explicou Talia.
— Todos, escutem! Atraiam aquele pedaço de bosta pra cá!
Sven disparou. Ele já havia visto o falso slime se mover o suficiente para saber como e com que velocidade ele se deslocava.
Assim que se aproximou, a criatura mudou seu alvo de um caçador que estava perseguindo para Sven.
Por um instante, seus olhos se encontraram. Naquele rosto derretido, sem nariz ou boca, um par de olhos ainda brilhava.
Como se se agachasse, a enorme massa se comprimiu contra o chão.
Sven sorriu de canto.
Por mais insano e assustador que fosse, o falso slime não reconhecia os caçadores como inimigos, apenas como presas—não tinha noção de perigo. Sven usaria isso a seu favor, explorando os movimentos monótonos e sem inteligência da criatura.
Quando o falso slime não pôde mais encolher, ele saltou para o alto como uma mola solta. Mas, dessa vez, saltou mais rápido do que em qualquer outro momento. Enquanto os outros caçadores observavam, prendendo a respiração, Sven zombou do slime voando em sua direção, obscurecendo sua visão do céu.
Sven já esperava por isso; ele sabia que não seria tão simples quanto apenas arremessar o frasco e acertar o limo. A coisa já havia desviado de flechas, feitiços e até mesmo de uma pedra que ele jogou com leveza. O mesmo aconteceria com um frasco de vidro lançado contra ele. Então, Sven tinha uma solução simples.
— Você acha que não conseguimos lidar com isso, Mil Truques?! — rosnou ele.
O falso slime se moveu mais rápido, mas ainda assim, era apenas um pouco mais rápido do que sua lentidão natural. Comparado aos fantasmas que a Cruz Obsidiana enfrentava normalmente, aquele slime ainda era um lesma.
Enquanto o falso slime despencava do céu, Sven se abaixou e deslizou pelo chão com precisão. Os membros derretidos falharam em capturá-lo, e a criatura aterrissou no chão—bem em cima da poção mata-slime que ele havia deixado para trás ao desviar.
Crack.
O escudo da criatura era poderoso, mas não infalível; ele não podia protegê-la de tudo. Até mesmo os Anéis de Segurança, famosos por suas barreiras poderosas, podiam ser contornados por um oponente habilidoso. Ao esmagar o frasco de poção mata-slime sob seu próprio peso, o falso slime congelou no lugar por um momento.
— Morre logo! — gritou Sven.
Todos os caçadores observavam a criatura com tensão enquanto ela estendia o braço na direção de Sven, que conseguiu desviar com facilidade. Então, a criatura começou a se mover novamente, como se nada tivesse acontecido. Ainda derretida, mas agora claramente mais fluida do que quando apareceu pela primeira vez.
Com os lábios trêmulos, Talia caiu de joelhos no chão, tomada pelo desespero.
Sven pisou no chão com força e gritou para o céu noturno:
— Droga! Droga! Droga! Eu sabia que essa porcaria não era um slime!
Ele quase esperava por isso, após anos de experiência lidando com Krai. Obviamente, aquela criatura era diferente de um slime comum, e o depoimento de Gein confirmava isso.
Lyle, que havia pedido conselhos a Krai antes da missão, se lembrou com horror:
— A-Acabei de lembrar... Krai disse que seria algo “como” um slime—
— Já chega desse desgraçado! — gritou Sven. — Ele não sabe a importância de passar informações corretas?! Não somos Grievers que podem esmagar qualquer ameaça com força bruta! Quantas vezes ele ainda vai quase nos matar?!
Mais ágil do que antes, o falso slime se lançou contra Sven, que conseguiu desviar no último segundo. Ele ouviu o impacto úmido da criatura atingindo o chão atrás de si. A tensão fazia o suor frio escorrer por seu rosto.
— O que diabos a gente faz com essa coisa?! Isso é culpa sua, Krai! Vai se foder! — continuou Sven.
— K-Krai disse que poderíamos lidar com isso com metade dos caçadores que temos agora... — acrescentou Lyle.
Evitando habilmente o falso slime, Sven continuou gritando:
— Já chega das merdas dele! Eu vou matar esse cara! Ele que desça aqui e resolva isso sozinho!
Os magos retomaram seus ataques apressadamente, segurando a criatura por um momento com o impacto de seus feitiços para que Sven pudesse se afastar. Alguns desses feitiços eram poderosos o suficiente para vaporizar vários fantasmas de uma vez, mas ainda assim, não tinham efeito sobre o falso slime. Na verdade, enquanto os caçadores ficavam mais exaustos, a criatura parecia ficar cada vez mais rápida.
Sven não via saída. Sua aljava também estava quase vazia.
Então, um dos caçadores do Primeiro Passo gritou para ele:
— Sven, não conseguimos segurar mais! Precisamos recuar!
Qual é a decisão certa? pensou Sven. Eles podiam facilmente fugir do falso slime, mas isso significaria falhar na missão. E se deixassem aquela aberração ali, não causaria estragos? Ele ponderava freneticamente suas opções enquanto a criatura acelerava ainda mais.
Foi então que uma voz surpreendentemente calma ecoou pelo campo de batalha:
— Isso é uma barreira de mana.
Imediatamente, os caçadores se acalmaram, saindo do estado de desespero ao ouvirem aquela voz. Ao contrário dos gritos de guerra de Sven, essa voz trouxe tranquilidade ao grupo. Parte dos caçadores se afastou, abrindo espaço para revelar a pessoa que caminhava tranquilamente pelo campo de batalha.
Ela usava um robe verde-amarelado, uma grande bolsa de poções presa à cintura e uma mochila volumosa. Seus vibrantes cabelos cor-de-rosa balançavam ao vento. O tempo parecia parar. Todos os caçadores—e até mesmo o falso slime—ficaram imóveis ao ver a intrusa.
Assim que seus brilhantes olhos cor-de-rosa encontraram Sven, ela sorriu para ele.
— Sitri...? O que você está fazendo aqui?! — perguntou Sven.
Era Sitri Smart, a Alquimista de Nível 2 dos Grieving Souls.
Inocentemente, Sitri colocou um dedo nos lábios, contemplativa, demonstrando uma incrível fortaleza sem nem piscar diante da abominação que se erguia a uma curta distância.
Talia, uma colega Alquimista, olhou para a garota, incrédula. Sitri não deveria estar na capital naquele momento.
— Krai decidiu que já era hora de eu assumir a operação no lugar dele. Eu não queria me intrometer, mas também não podia simplesmente ficar parada... Eu sou a mais adequada para esse trabalho. Acredito que sei com o que estamos lidando aqui.
O tom casual dela fez um arrepio percorrer a espinha de Sven.
Gênios costumavam estar em um nível diferente do resto do mundo. Mas mesmo entre a população excêntrica de caçadores de tesouros, era raro encontrar alguém tão perigosamente fora da curva quanto Sitri.
Sitri não deveria estar longe da capital? pensou Sven. Ele estava esperando pelo retorno dela?
Os outros membros dos Primeiros Passos estavam tão confusos quanto ele com a aparição repentina de Sitri.
— Barreira de mana...?! — perguntou Sven.
— Sim. Tenho certeza de que sabe o que é: uma barreira usada por Magos extremamente poderosos e bestas míticas. Geralmente, é considerada um sinal de força extraordinária — respondeu Sitri.
Sven conhecia esse conceito. Barreiras de mana eram utilizadas por criaturas com uma quantidade exorbitante de mana dentro delas. Ao expelir mana por todo o corpo, os usuários conseguiam desviar qualquer ataque contra si—simples, mas poderoso. Por outro lado, era mais uma demonstração de força bruta do que uma técnica refinada, já que desperdiçar mana sem canalizá-la em feitiços era extremamente ineficiente. Mesmo os melhores Magos conseguiam manter uma barreira de mana apenas por um curto período.
Ao ouvir isso, Marietta soltou um pequeno murmúrio de espanto.
Observando o falso slime trêmulo, Sitri continuou, impassível:
— Um excesso de mana circula ao redor dessa criatura, criando uma espécie de vórtice que desvia suas flechas e qualquer feitiço lançado contra ela. Você não encontraria um fantasma com essa quantidade de mana nem em um cofre de tesouros de Nível 8. Muito curioso, de fato. Não é de se espantar que nenhum de vocês tenha percebido o que era.
De repente, o falso slime avançou contra Sitri, como se tivesse saído de um transe. Dessa vez, estava focado nela, ignorando os caçadores ao redor.
— Um fantasma com essa quantidade de mana não poderia ter se materializado neste cofre — comentou Sitri. — E ele está... se dissolvendo? O material de mana que compõe fantasmas é considerado a fonte da mana. É uma teoria absurda, mas isso pode ser explicado se o material de mana do fantasma estiver sendo forçado a se converter em mana pura.
Nenhum outro caçador ali teria chegado a essa conclusão; dizia-se que o conhecimento era a verdadeira arma de um Alquimista.
Sven se lembrou de ouvir que Sitri cuidava de todas as análises dos cofres que o Mil Truques explorava. Mas, no fim das contas, de nada adiantava entender o mecanismo se não conseguissem superá-lo. Barreiras de mana eram notoriamente difíceis de romper justamente por sua simplicidade.
Sitri deu alguns passos para o lado, esquivando-se do falso slime no último segundo. Apesar do ataque de uma criatura muito maior do que ela, manteve a expressão calma e o olhar analítico. Observando a estrutura derretida da criatura, ela começou a andar em círculos ao redor dela, enquanto o monstro a seguia com os olhos.
— A maior parte dos seus órgãos já se dissolveu. O que restou foi o instinto... Está tentando recuperar sua estrutura absorvendo material de mana? Você está vindo atrás de mim porque sou quem tem mais material de mana aqui? Pobre criatura... Mesmo que me absorva, não vai se curar. Isso é um experimento fracassado.
— Afaste-se, Sitri! Você não está segura aí! — gritou Sven. A classe de Alquimista era fisicamente a mais fraca de todas.
— Precisamos de um ataque, físico ou mágico, poderoso o suficiente para atravessar a barreira de mana, ou simplesmente esperar até que tanta de sua estrutura seja convertida em mana que ela não consiga mais se manter... — Sitri virou a cabeça. — Obrigada pela preocupação, Sven. Ah, já sei! Por que não usamos isto?
Com isso, Sitri tirou uma haste de metal cinza com cerca de trinta centímetros de comprimento. O falso slime se contorceu, mudando sua trajetória para investir contra ela novamente. E, sem hesitar, Sitri lançou a haste contra a criatura.
— Isso é metal anti-mana — explicou ela, enquanto a haste girava no ar e então afundava no falso slime com uma facilidade impressionante. A criatura parou como se estivesse surpresa, e Sitri se afastou para dar espaço aos outros. — Agora é com você, Sven.
Sitri havia calculado exatamente onde imobilizar o falso slime. Sven podia ver claramente a criatura, com a haste de metal anti-mana cravada na cabeça. Com o cansaço já dissipado de seu corpo, ele puxou a corda do arco e disparou uma flecha em um único fôlego.

A flecha negra voou certeira até a haste—um alvo fácil demais para Sven—e a estilhaçou no impacto, obliterando a cabeça do falso slime junto com ela. E, com isso, o falso slime desapareceu no ar, como se nunca tivesse passado de uma ilusão.
Considerando todo o trabalho que os caçadores tiveram, aquilo parecia fácil demais; todos observavam em silêncio.
Pela primeira vez desde sua chegada, Sitri demonstrou emoção. Ela suspirou aliviada.
— Você está bem... Ainda bem que cheguei a tempo.
— O que... acabou de acontecer? — murmurou um dos caçadores, incrédulo.
Sitri identificou sozinha a fraqueza do inimigo com as poucas informações disponíveis e ainda resolveu o problema. Embora tecnicamente não tenha dado o golpe final, seus movimentos foram perfeitamente precisos do começo ao fim.
Então, uma carruagem emergiu da floresta. Era uma carruagem tão ornamentada quanto as usadas pela Primeiros Passos. De dentro dela, uma figura saiu.
— Terminou, Sitri?
Os olhos de Sven se arregalaram.
— Gerente da Filial Gark?! O que faz aqui? E vestido assim, ainda por cima?
— Ele me deu uma carona — disse Sitri. — Não sou tão rápida quanto minha irmã.
Sua aparição causou alvoroço entre os caçadores. Gark havia deixado de lado seu uniforme habitual da Associação e vestia uma armadura polida de um vermelho profundo. Em um braço, carregava um capacete com chifres combinando com o restante da armadura, e no outro, sua alabarda. Considerando o físico de Gark, sua suposta aposentadoria da linha de frente não parecia muito convincente.
Logo atrás dele, dois homens franzinos, vestidos com os uniformes do Escritório de Investigação de Cofres, saíram timidamente da carruagem.
— Já expliquei isso a Gark — disse Sitri, virando-se para Sven —, mas vou repetir para você. Tenho certeza de que entendi toda a situação aqui e posso identificar os responsáveis por isso.
Observando toda a troca de longe, de seu esconderijo, através de seu sistema de vigilância, Noctus estava abalado.
— Quem... é essa?! Ela tem a habilidade de destruir um fantasma transfigurado com tanta facilidade? Deve ser o inimigo do qual Sophia falou!
O soro de transfiguração foi criado por acidente durante um experimento. Ainda que acidental, uma solução que convertia material de mana à força tinha um potencial incrível para produzir resultados assustadoramente próximos ao objetivo principal de Noctus. Embora ele não tivesse testado o soro a fundo, havia observado que fantasmas injetados com ele se transformavam em monstruosidades autodegradantes, frenéticas na busca por mais material de mana. Como consequência, a mana produzida pela conversão contínua do material de mana formava uma barreira natural ao redor da criatura, protegendo-a de todos os ataques. E esse poder defensivo sozinho já tornava essas abominações peões viáveis no esquema de Noctus.
Mas Sitri lidou com isso tão facilmente que Noctus não pôde deixar de reconhecer seu talento extraordinário.
O metal antimana era um material único que anulava a maioria dos efeitos da mana bruta. Por ser relativamente frágil, não era adequado para armamento. E, como não negava a mana convertida em feitiços, também era frequentemente inútil como armadura. No entanto, quando se tratava de romper barreiras de mana, era o material perfeito—uma bala de prata contra fantasmas transfigurados.
Noctus ainda tinha um suprimento abundante do soro, então perder aquele fantasma não era um problema em si. No entanto, ele esperava que o fantasma ao menos causasse um grande estrago no batalhão de caçadores ou até os exterminasse completamente, o que o convenceu a autorizar o uso do soro não testado. Mas, no fim, tudo que a criatura destruiu foi apenas o braço direito de um dos caçadores. E, para piorar, seus dois aprendizes encarregados da operação foram derrotados.
— Como isso é possível...? Tal precisão ao lidar com essa coisa... Subestimei os caçadores.
As forças de Noctus podiam se dar ao luxo de perder um fantasma, mas o golpe emocional para os pesquisadores era palpável.
— Posso ser útil, Professor Noctus? — perguntou um aprendiz que Noctus havia colocado de prontidão por perto.
— Onde está Sophia? — perguntou Noctus.
Um amargor surgiu na expressão do aprendiz.
— Sophia disse que ia coletar informações e testar o sistema de defesa... Ainda não voltou.
— Ela realmente segue seu próprio ritmo...
— Mas deixou uma estratégia para nós — observou o aprendiz. — Vamos exterminar esses caçadores.
Enquanto isso, o restante dos aprendizes de Noctus se reunia na sala de guerra.
— Implantação contínua?! O que ela está pensando?! — exclamou Flick, segurando o memorando da estratégia com as mãos trêmulas.
Eles sempre estiveram abaixo de Sophia na hierarquia, mas agora eram forçados por seu mestre a seguir suas ordens.
— Ela claramente não tem um pingo de estratégia. Os caçadores já mostraram que conseguem derrotar um fantasma transfigurado com facilidade! Mandá-los um por um só vai garantir que todos sejam eliminados. E não temos tanto soro sobrando. Será que ela não entende?! Precisamos... lançar um ataque total.
— O que isso vai resolver...? — concordou outro aprendiz. — Ela não passa de uma pesquisadora de torre de marfim.
Sophia era uma excelente pesquisadora, e até Flick tinha que admitir que ela o superava nesse aspecto. Mas essa ordem que deixou para trás era atroz. Flick era um Magus treinado em combate também; estratégia não era seu maior talento, mas ele não precisava ser um mestre no assunto para entender que aquela ordem era absurda. Enquanto isso, mesmo que Sophia sempre tivesse sido um espinho em seu caminho, Flick não tinha intenção de desobedecer seu mestre... até ver o quão incompetente ela era nesse quesito.
— Conseguiram contatá-la? — perguntou Flick.
— Nada... Tentamos até a Pedra Sonora, mas não tivemos resposta.
— Droga! Ela não entende a gravidade da situação?! Está nos levando direto para a derrota!
Eles estavam enfrentando o Mil Truques e um Griever no campo de batalha.
Como podemos vencer se nossa comandante inútil nem está aqui para avaliar a situação? — pensou Flick. Mesmo os melhores guerreiros eram inúteis sob um comando inepto.
— Flick, a ordem foi dada antes do primeiro fantasma ser derrotado. Qual o problema em nos adaptarmos à situação? Só precisamos vencer. Mesmo que os fantasmas não consigam eliminar os caçadores, ainda temos outras armas em nosso arsenal para finalizar o trabalho.
Flick franziu a testa com a sugestão. Pesou suas opções, considerando a ordem de seu mestre, a situação atual e o comando absurdo de Sophia. Após alguns segundos, chegou a uma conclusão.
— Você tem razão. Se continuarmos seguindo essas ordens amadoras e perdermos a batalha, não terei coragem de encarar o Mestre. Pegue todas as poções que temos e reúna os fantasmas capturados. Vamos aniquilar esses caçadores de uma vez por todas!
Tradução: Carpeado
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