Nageki no Bourei wa Intai shitai |
Let This Grieving Soul Retire
Volume 02 – Capítulo 03
[O Slime e a Equipe Reunida]



 A capital de Zebrudia era cercada por muralhas robustas, erguidas para manter os monstros fora da cidade. De cima, era possível ver o contorno retangular da cidade com o castelo do imperador bem no centro. As muralhas cresciam junto com a cidade, expandindo-se sempre que o território urbano se alargava. Por causa dessa estrutura, a cidade ficava cada vez mais antiga e vibrante quanto mais próximo se chegava do centro.

Os bairros perto das muralhas, exceto pelos quatro portões usados para entrar e sair da cidade, eram os piores da capital. O bairro oeste era o mais perigoso de todos, um verdadeiro labirinto de becos estreitos e mal planejados, onde mal cabiam três pessoas andando lado a lado. Essas vielas apertadas, que permaneciam escuras até mesmo durante o dia, eram ladeadas por um amontoado de construções improvisadas, como se o crescimento desordenado da cidade fosse contido à força pelas muralhas — um contraste gritante com a infraestrutura espaçosa e vibrante do centro da capital.

O distrito decadente do sudoeste de Zebrudia era um lugar evitado até mesmo durante o dia pela maioria dos moradores. Até os guardas da paz preferiam não se aventurar por ali, a menos que houvesse denúncias de crimes graves. Quem vivia naquela região eram pessoas marginalizadas ou que já tinham problemas com a lei: caçadores expulsos da Associação por cometerem crimes, comerciantes de mercadorias ilegais, vendedores que, misteriosamente, conseguiam oferecer produtos a preços absurdamente baixos, membros de sindicatos criminosos e até caçadores infames que precisavam se esconder por um motivo ou outro. Aquele bairro era um caldeirão caótico onde se misturavam o bem e o mal, o útil e o descartável.

Para encontrar tesouros valiosos nesse tipo de lugar, era preciso ter autoridade, fama, dinheiro e conexões — nada disso tinha a ver comigo, é claro.

Agora, estávamos caminhando pelo distrito decadente, observando a paisagem. Desde que cheguei a Zebrudia, mal havia pisado ali. Havia olhos nos observando. Uma criança nos espiava pelo espaço estreito entre duas casas; um olhar desconfiado vinha de uma janela no segundo andar de um prédio que parecia prestes a desabar. Não era a recepção mais calorosa do mundo, mas não estávamos ali para arrumar briga. Como eu não tinha uma presença intimidadora de caçador, presumi que visitas como a nossa não eram comuns por ali.

— Krai Baby, o que estamos fazendo aqui? — perguntou Liz, que era, sem dúvida, mais propensa à violência do que qualquer um nesse bairro.

Liz era exigente em muitas coisas, mas raramente recusava um pedido meu.

Hoje, ela realmente parecia uma caçadora, diferente do outro dia, quando saímos para o que parecia um encontro. Vestia shorts e um traje minimalista em preto e vermelho, que maximizava sua mobilidade. Também carregava uma bolsa cheia de poções e gazuas presas ao cinto para fácil acesso, além de ter adornado o antebraço direito com sua arma preferida: uma manopla especial. Combinado com as Apex Roots que sempre usava nos pés, Liz estava completamente equipada para a caça. Se eu estivesse no lugar dela, teria vestido uma armadura mais resistente, mas, bem... ser um Ladino significava exatamente isso.

— Não baixe a guarda — avisei.

Liz envolveu meu braço com o dela, e um leve perfume adocicado flutuou no ar.

— Eu nem saberia como. Nunca baixo a guarda quando estou protegendo você, Krai Baby — disse ela.

Para mim, parecia que ela estava relaxando até demais, mas talvez uma caçadora excepcional como ela tivesse um conceito diferente do que significava “baixar a guarda.”

— Além disso, esse lugar é praticamente o meu quintal — acrescentou ela. — Vamos encarar isso como a segunda parte do nosso encontro.

— Você vem muito por aqui? — perguntei.

— Quando vim com o T ou a Siddy, encontramos vários batedores de carteira e sofremos alguns ataques. Mas faz um tempo que não passo por aqui — respondeu.

Não era bem a resposta que eu esperava. Mas, agora que pensava nisso, era estranho que ninguém tivesse tentado nos atacar — ou sequer se aproximado — nesse distrito conhecido pelo alto índice de crimes, especialmente quando eu estava coberto de Relíquias que pareciam joias valiosas. Olhando com mais atenção, percebi que os brutamontes e ex-caçadores desesperados sempre saíam do caminho assim que avistavam Liz.

Enquanto isso, ela cantarolava tranquilamente. Decidi não me preocupar muito com isso.

— Me avise se vir alguma coisa — pedi.

— Hmm? E como é esse "alguma coisa"?

Liz sempre esteve do meu lado, e eu confiava nela mais do que em mim mesmo. Então, depois de hesitar por alguns segundos, respondi:

— Algo pegajoso. Só por precaução, caso apareça.

— Muitas crianças desapareceram recentemente no distrito decadente — Eva me contou na noite anterior. Pelo visto, ela foi pesquisar estranhos acontecimentos na capital, mesmo depois de eu dizer para não se incomodar. O que era bem gentil da parte dela, considerando que, ao contrário de mim, ela tinha trabalho de verdade a fazer.

Bem, o distrito decadente era uma terra sem lei. Era um dos lugares mais perigosos da capital, onde nem mesmo os guardas da paz se arriscavam sem necessidade. Alguns boatos diziam que certas máfias e sindicatos do mal tinham suas bases ali. Se dependesse de mim, eu nunca pisaria nesse lugar. Na verdade, era a primeira vez que eu via esse distrito pessoalmente.

Mesmo que eu tivesse derrubado o Sitri Slime em algum lugar, eu só havia tocado no recipiente dele durante minha breve fuga da casa do clã até a Toca do Lobo Branco. O distrito decadente não estava nessa rota, então era extremamente improvável que o slime tivesse algo a ver com as crianças desaparecidas.

Ainda assim, Liz e eu estávamos ali porque eu queria explorar qualquer possibilidade, por mais remota que fosse, de encontrar o slime... e, em parte, porque Eva mencionou uma sorveteria bem conhecida na região. Pelo visto, ela levou a sério minha piada sobre procurar novas sorveterias — e eu adorava isso nela. Esse estabelecimento específico era famoso por vender sorvete a preços acessíveis para os moradores mais pobres do distrito. Não dava para ignorar uma informação importante como essa.

Expliquei para Liz nosso motivo para estar ali (omitindo a parte do sorvete), e ela pareceu quase entediada.

— Crianças, é? Você tem tempo demais nas mãos, Krai Baby. Tem tantas delas por aqui... Duvido que alguém sequer sinta falta.

Como diziam os rumores, o distrito era realmente um lugar miserável. De tempos em tempos, gritos e berros ecoavam à distância, becos formavam um labirinto repleto de pilhas de lixo em cada esquina, e o ar carregava um fedor horrível que eu suspeitava vir do canal próximo. Não era de se admirar que os pacificadores evitassem patrulhar ali—nenhuma pessoa sã escolheria visitar esse lugar.

Mas nem mesmo os resistentes habitantes do distrito decadente ousavam fazer contato visual com Liz.

— Você não matou ninguém por aqui, matou? — perguntei.

— Assim como você me disse, eu nunca dou o primeiro soco.

Essa não era exatamente uma resposta para minha pergunta.

Mesmo durante nossa breve caminhada, pude perceber que Liz tinha razão: o distrito decadente era muito mais populoso do que eu imaginava. Adultos, junto com crianças vestindo trapos, lançavam olhares curiosos em nossa direção. Diferente de Liz, cuja magreza se devia a músculos perfeitamente tonificados, muitos pareciam à beira da desnutrição. A capital era considerada uma cidade próspera no geral, mas a pobreza sempre se escondia nas sombras da prosperidade.

— Então, Krai Baby — disse Liz, lançando um olhar intimidador aos curiosos —, qual é o plano? Acho que fazer perguntas a eles não vai adiantar.

— Tudo bem — respondi. — Vai ser óbvio.

— Claro que vai ser, Krai Baby! — comemorou Liz.

Eu não estava ali para resolver o problema da pobreza ou procurar pelas crianças desaparecidas. O único motivo para estar no distrito decadente era encontrar o Sitri Slime, que talvez eu tivesse deixado cair em algum lugar. Se o slime estivesse por perto, já teria causado um estrago tremendo, mas, felizmente para mim, ainda não vi sinais de desastre. E se nossa ladra, Liz, não estava captando nada, as chances eram de que o slime não estava ali.

Sentindo-me aliviado, mas um pouco surpreso, murmurei:

— Talvez isso acabe sendo um encontro normal, afinal.

— Por quê? — perguntou Liz. — Você acha que é intimidador demais?

— Se alguém aqui é intimidador, esse alguém é você. — Não que eu soubesse se slimes eram capazes de sentir medo.

Por alguma razão, Liz sorriu e enlaçou o braço no meu. De qualquer forma, decidi seguir até a sorveteria e ficar de olho no caminho.

O sujeito magricela de jaqueta preta e a garota de ombros e barriga à mostra chamavam atenção no distrito decadente. Apesar de a dupla ser claramente rica, ninguém ousava assaltá-los.

Embora os pacificadores não patrulhassem o distrito, ele tinha suas próprias regras. Uma delas era bem conhecida: nunca mexa com certas pessoas. No topo dessa lista estava Liz Smart, a Sombra Partida. Ela era considerada uma ameaça mortal porque partia para a violência mais rápido que um bandido e era impiedosa o suficiente para eliminar qualquer um—independentemente de idade ou gênero—que ousasse desafiá-la.

Um ancião levou rapidamente essa informação a um homem em uma das estruturas entre as fileiras de casas descascadas. Ele estava ali não apenas porque era pago para vigiar a entrada do distrito, mas porque o rosto de Liz era amplamente reconhecido por todos no lugar.

— Impossível. Isso não pode estar acontecendo — murmurou o homem para si mesmo, incrédulo. — Eu não fui seguido. Não há como eles saberem.

A Torre Akáshica era o maior sindicato mágico que existia, e seus membros buscavam a verdade absoluta a qualquer custo, o que os tornava procurados em todo o mundo. Ainda assim, a organização possuía muitos apoiadores por contar com Magos poderosos e tecnologia avançada. O sindicato cresceu recrutando uma grande quantidade de Magos que recorreram a experimentos ilegais em sua incansável busca por conhecimento e poder. E, embora várias forças estivessem à espreita nas sombras do distrito decadente, a Torre reinava acima de todas, graças à sua riqueza e ao poder de seus membros, capazes de derrotar caçadores de elite.

O homem que murmurava era um agente de campo da Torre Akáshica. Ele confiava em suas habilidades de combate e já tinha uma boa experiência em lutas—contra não-caçadores, é claro. Sua principal função no sindicato eram missões de reconhecimento; ele não teria a menor chance de atrasar um caçador de alto nível.

— Droga! O que eu faço?! O que eu faço?! — Ele olhava desesperado ao redor da sala.

O distrito decadente era uma base vital para a Torre por causa da ausência de leis. Mesmo que o experimento atual da organização estivesse acontecendo nos cofres do tesouro, ele tinha muitas coisas naquele cômodo que, se caíssem nas mãos erradas, poderiam causar sérios danos à Torre: relatórios de experimentos, catalisadores raros e perigosos proibidos pelo império e as criaturas no porão. Se qualquer uma dessas coisas fosse descoberta, prejudicaria enormemente os experimentos na capital.

Se isso acontecesse, como o Mestre dos Magos reagiria? Noctus Cochlear era um homem racional, mas não era tolerante o suficiente para conceder segundas chances. Ao imaginar os olhos sombrios de Noctus, que pareciam brilhar com uma força incompatível com sua idade, o agente estremeceu.

Ele conseguiria remover os documentos e materiais antes da chegada dos caçadores? Não, não haveria tempo se estivessem vindo diretamente para cá. Por outro lado, o quanto eles realmente sabiam? O agente não tinha como descobrir.

Ele sempre cobriu seus rastros com o máximo de cuidado. Com a Torre sendo procurada mundialmente, um único erro não era uma opção. Até agora, nenhum havia sido cometido, mas mesmo os patronos da organização, que ocupavam posições poderosas no império, não arriscariam sua influência para proteger o sindicato caso um caçador de alto nível surgisse com provas concretas contra eles.

Enquanto o agente permanecia em seu turbilhão de pensamentos, outra informação chegou à sua porta: o Mil Truques estava indo para a sorveteria.

Toda esperança se esvaiu.

Obviamente, o mestre do clã Primeiros Passos sabia de todos os seus segredos. Não havia como negar que ele, no mínimo, tinha fortes suspeitas sobre as operações da Torre.

Havia apenas uma sorveteria no distrito que representava o lado sombrio do império. Uma das vantagens de operar em um lugar tão degradado como o distrito decadente era a abundância de cobaias para experimentos—pessoas que ninguém sentiria falta. Crianças, por sua vulnerabilidade e falta de discernimento, eram as melhores cobaias, especialmente quando era tão fácil atraí-las. Com algo tão simples quanto um doce, agentes da Torre conseguiam fazê-las desaparecer nos momentos mais convenientes.

Quando Liz e eu voltamos para a casa do clã, o sol já havia se posto há muito tempo. Como esperado, não encontramos nenhum vestígio do Slime Sitri; cheguei a entrevistar algumas pessoas, mas sem sucesso. Pessoas desapareciam o tempo todo no distrito decadente, então fui forçado a concluir que a dica da Eva não tinha nada a ver com o slime desaparecido. Mas, só por precaução, pedi para Liz ficar de olho. Se nem os sentidos mais aguçados dos Grievers conseguiram encontrá-lo, então ele definitivamente não estava no distrito.

Liz inclinou o pescoço com uma fraqueza incomum e disse:

— Hmm, acho que preciso de um ajuste.

— Não se preocupa com isso — falei. — Você não fez nada de errado. Fui eu que pensei demais.

Liz sempre foi cheia de energia e rápida para sair no soco. Ainda assim, ela colocava peso demais nas minhas expectativas para ela, o que, eu tinha certeza, influenciava a forma como ela treinava a Tino. Sua confiança em mim era provavelmente muito maior do que a que um líder de grupo normalmente receberia de seus membros.

Era exatamente por isso que eu não podia tomar decisões precipitadas. Ou melhor, eu precisava reconhecer quando tomava decisões precipitadas. E isso significava admitir que eu precisava da ajuda da Sitri, afinal.

Sitri, nossa talentosa Alquimista, era irmã da Liz, mas, apesar da aparência semelhante, suas personalidades não podiam ser mais diferentes. Sitri era uma pessoa calma, estudiosa e habilidosa, capaz de encarar qualquer desafio com perfeição. Seu nível era tecnicamente o mais baixo entre os Grievers por causa de uma tragédia, mas suas habilidades estavam longe de ser inferiores às dos outros membros. Enquanto Liz levava vantagem no quesito habilidades físicas, o vasto conhecimento de Sitri colocava todos nós no chinelo.

De qualquer forma, o Slime Sitri era uma criação dela. Com seu conhecimento e experiência, ela certamente saberia como o slime escapou da cápsula metálica e onde poderia estar agora. Mesmo que Sitri tivesse esquecido de colocar o slime na cápsula antes de me entregar, eu ainda teria que perguntar a ela onde o slime estava.

A única questão era: “Quando ela voltaria do Palácio Noturno?” Já fazia uma semana desde que Liz voltou sozinha para a capital. E, aparentemente, Liz saiu depois que o grupo chegou a uma sala de chefe, então eu esperava que o resto dos Grievers voltasse em breve.

— Você sabe quando a Sitri volta? — perguntei.

— O que foi, Krai Baby? — disse Liz, piscando para mim. — O que você quer com a Siddy?

A capital estava segura por enquanto, mas eu queria alguma garantia de que isso duraria um pouco mais. Se a capital fosse atingida por um grande desastre e reduzida a ruínas, eu já teria dado o fora dali antes mesmo de considerar qualquer outra opção. Mas, sabendo que eu era o motivo, eu repensaria isso.

— Não faço ideia — respondeu Liz. — Mas se for algo que eu puder te ajudar, farei qualquer coisa por você.

— Ainda não sei dos detalhes, então não vou te contar, mas preciso saber algo sobre uma criatura mágica — eu disse.

Cruzando os braços sobre seu peito modesto, Liz franziu a testa. — Ah, é. Talvez você precise da Siddy para isso.

Por mais cabeça-dura que Liz fosse, ela tinha plena consciência disso.

Como eu estava buscando respostas sobre a criação da própria Sitri — e ela não tinha me contado nada a respeito —, perguntar a qualquer outro especialista em criaturas mágicas seria inútil. Para ser sincero, eu estava com medo demais para perguntar mais sobre o slime. Sabia que qualquer coisa que ela dissesse sobre ele só me deixaria ainda mais receoso de mantê-lo por perto. Mas, para ser justo, eu não esperava perder aquela coisa. Só não conseguia tirá-la da cabeça, mas também sabia que demonstrar preocupação 24 horas por dia só criaria um clima de ansiedade dentro do clã.

Afundei na cadeira de mestre do clã, tentando ao máximo manter minha fachada calma e descolada. Já tinha se passado uma semana, e se a cidade ainda não tinha sido destruída, as chances de que isso acontecesse agora eram bem pequenas.

— Sitri vai voltar em breve — eu disse.

— Bem — disse Liz —, ela estava animada para explorar um cofre de Nível 8 e todas as coisas novas que ele oferece. Talvez ela demore um pouco; afinal, levou um monte de equipamentos estranhos com ela. Mas duvido que fiquem muito tempo sem mim.

Sitri podia ser obsessiva: várias das nossas missões anteriores foram prolongadas por causa da curiosidade dela. E, sempre que isso acontecia, os outros membros ficavam felizes em estender as viagens também. Que equipe disciplinada a minha.

Começando a ficar um pouco nervoso, limpei a garganta. Eu teria pegado um dos meus Artefatos para polir e me acalmar, mas todos já estavam perfeitamente polidos.

— Está tudo bem — murmurei para mim mesmo. — Ela vai voltar logo... Logo...

Então, a porta do escritório se abriu de repente.

Eva entrou apressada, lançou um olhar para Liz, que estava esparramada no sofá, e virou-se para mim sem dizer uma palavra. Apesar da natureza combativa de Liz, ela nunca mexia com Eva porque eu tinha repetido incontáveis vezes para não irritar minha brilhante vice-mestra do clã. Se ela assustasse Eva, o clã inteiro pararia de funcionar.

Liz fez um aceno preguiçoso e disse: — Aloha, Eva.

— Aloha! — respondeu Eva, antes de se voltar rapidamente para mim. — Krai, selecionei membros do clã para auxiliar na investigação do Covil do Lobo Branco. Se quiser fazer alguma alteração na seleção...

— Oh, obrigado! Vou deixar isso com você. Ark nem está aqui de qualquer forma — eu disse.

— Gark veio esta tarde, e negociei em seu lugar. Ele parecia bem preocupado com sua ausência — disse Eva.

De qualquer forma, não havia muito que eu poderia ter feito na reunião, além de soltar alguns “uh-huhs” bem cronometrados. Eu confiava mais no julgamento de Eva do que no meu. Diferente de outros clãs, onde os mestres ocupavam o cargo porque eram bons no que faziam, nosso clã tinha Eva, que era melhor do que eu em todos os aspectos da administração. Mas o fato de eu ao menos ter consciência da minha inutilidade já não valia alguma coisa?

— Como sempre, deixo o básico com você. Se precisar de algo, pode falar comigo, e eu verifico se for necessário — disse, com o coração um pouco apertado. — Agradeço muito sua ajuda.

— Não. Eu sei que não posso ajudar no que realmente importa — disse Eva, sem nem piscar.

O que ela quis dizer com isso? Ela não parecia estar brincando, mas a frase também não fazia sentido. Talvez estivesse me mandando fazer meu trabalho de forma sarcástica. Se era isso, seu humor estava sendo desperdiçado comigo.

— Esse clã não funciona sem você. — E acrescentei: — Sério.

Era inegável que Eva já tinha feito muito por mim.

— Minhas informações foram úteis? Você não costuma sair da sede do clã durante o dia — disse ela.

Eu sabia que coletar informações sobre o distrito decadente exigia um certo nível de sutileza. Mas, infelizmente, eu nem sequer consegui verificar os rumores sobre o aumento no desaparecimento de crianças. Então, as informações dela foram úteis? Infelizmente, não muito. Mas eu não ia desmerecer Eva depois de todo o esforço que ela fez para atender ao meu capricho. Ao mesmo tempo, não podia mentir; Eva veria através de mim, e Liz estava bem ali na sala.

Então, com (o que eu esperava que parecesse) gravidade, fechei os olhos e respondi:

— Não encontrei o que procurava, mas isso não significa que não tenha ganhado nada.

Só saber que o distrito decadente não tinha nada fora do comum já era informação suficiente para mim. Mas Eva me lançou um olhar confuso. Talvez eu estivesse sendo óbvio demais ao evitar uma resposta direta.

Então, apressadamente, acrescentei de forma brincalhona:

— Ah, é. Fui até a sorveteria que você me indicou, mas estava fechada.

— I-Isso mesmo? — disse Eva. — Achei que eles abriam todos os dias da semana.

— Estavam com as portas abaixadas. Uma pena. Talvez tenham tido uma emergência — eu disse.

Era um pouco desanimador pensar que eu teria que voltar lá outro dia. Talvez eu levasse Tino comigo da próxima vez.

Com o queixo apoiado no braço do sofá, Liz balançava os pés para cima e para baixo.

— Eu senti o cheiro quando chegamos lá, e ouvi pessoas dentro. Devem ter fechado bem antes de chegarmos. Krai Baby tirou um tempinho do seu dia ocupado para ir lá. Muito rude da parte deles.

Foi um sufoco impedir Liz de esmurrar as portas e tentar invadir o lugar. Ela nem gostava de sorvete, então tudo aquilo foi só para o meu bem. Mas o que realmente me ajudaria seria se ela parasse de fazer esse tipo de coisa.

Eva pigarreou e disse:

— Como você já deve saber, a investigação do Covil do Lobo Branco começará nos próximos dias. Os especialistas recrutados farão uma varredura completa no cofre, pelo que me informaram.

Parecia que a Associação estava tratando o assunto com bastante seriedade. Eu me perguntava quantos membros Eva tinha listado para a missão. Mas isso não me afetava em nada; não era eu quem ia entrar lá de novo. Aliás, eu merecia me dar um tapinha nas costas por ter saído daquele lugar vivo depois de me jogar lá sozinho.

Franzindo as sobrancelhas para mim, Eva perguntou:

— Algo errado?

— O quê? Não, nada. Nossos membros sabem se virar. Seja lá o que estiver rolando lá dentro, tenho certeza de que está tudo bem. Afinal, era só um cofre de Nível 3.

Além disso, as coisas estavam diferentes de quando mandei a equipe da Tino sem pensar. Agora todo mundo sabia que havia algo errado no Covil do Lobo Branco. Com a preparação certa, a maioria dos espectros não seria problema.

E, mesmo assim, Eva me olhava com dúvida. O que será que estava preocupando tanto ela?

***

Em uma base da Torre Akáshica, a uma distância segura do distrito decadente, Noctus havia reunido quase toda a sua equipe de pesquisa: seus aprendizes, informantes encarregados de coletar informações pela capital e se comunicar com a sede, além de seus guarda-costas. Devido à natureza sigilosa da organização, essa era a primeira vez que tantos membros de sua equipe se reuniam em um único local. A expressão de cada um carregava a gravidade da situação, e todos os olhares estavam voltados para a Maga, Sophia Black, que acabara de retornar à base.

Flick Petosin, o segundo aprendiz de Noctus, lançou-lhe um olhar carregado.

— Já era hora — rosnou. — Onde você estava enquanto lidávamos com essa crise sem você?

Sophia disse timidamente:

— Desculpe... Precisei viajar para bem longe para coletar ingredientes para um experimento.

Sua desculpa não fez nem cócegas no desprezo de Flick. Seus olhos ainda brilhavam com desprezo e inveja pela Maga inferior que seu mestre favorecia em vez dele. Na verdade, Sophia era visivelmente menos habilidosa na arte da magia do que os outros aprendizes; se desafiasse qualquer um deles para um duelo mágico, não teria a menor chance. Todos os Magos se orgulhavam de suas proezas mágicas, e Flick não suportava que Sophia tivesse sido nomeada como primeira aprendiz apesar de sua inferioridade nesse quesito.

Se ao menos Sophia tivesse mais prática em magia, teria conquistado mais respeito entre os aprendizes. No entanto, havia um bom motivo para Noctus tê-la escolhido como sua primeira aprendiz em vez dos outros.

Noctus e sua equipe estavam encurralados. Ele convocara essa reunião com todos precisamente porque a decisão que tomariam afetaria diretamente seus planos. Não apenas seu experimento havia sido exposto, como tanto a Associação quanto o império haviam iniciado investigações.

E, para piorar, o Mil Truques havia localizado pelo menos uma de suas bases. Além do imenso tempo e dinheiro investidos, o projeto de Noctus exigia um local que atendesse a parâmetros específicos. Seu experimento mal havia começado, e mesmo que abandonassem o laboratório sob a Toca do Lobo Branco e tentassem transferir os resultados obtidos até então, a pesquisa sofreria um atraso significativo até que encontrassem um novo local em outro país.

Mas, por outro lado, se o império os capturasse e confiscasse os resultados do experimento, o dano seria irreparável. Qualquer um preso por esses crimes certamente seria enforcado, e o império reforçaria sua segurança para impedir Noctus e qualquer sobrevivente de conduzir experimentos em seu território novamente. Um golpe como esse provavelmente afetaria a organização como um todo. Noctus, movido apenas por sua busca incessante pela verdade, não sentia qualquer lealdade à organização que lhe dera abrigo após sua expulsão do mundo acadêmico por lidar com um assunto tabu. Mas ainda assim, ele sabia que suas chances contra uma potência como o império eram mínimas. Agora, encontrava-se diante de uma encruzilhada: recuar ou lutar até o fim.

O maior obstáculo em seu caminho era, sem dúvida, o Mil Truques. Noctus poderia lidar tanto com a Associação quanto com o império, desde que a única pista deles fossem as mudanças na Toca do Lobo Branco; só isso não os levaria até Noctus nem sua equipe. Se esse fosse o caso, bastaria abandonar ou simplesmente pausar o experimento sob o cofre até que tudo se acalmasse. As mudanças que haviam causado ali eram temporárias, então a Toca do Lobo Branco eventualmente voltaria ao normal. Com isso, nem a Associação nem o império suspeitariam de nada além de um fenômeno aleatório—desde que ninguém fosse esperto o suficiente para suspeitar do contrário. Mas, com o Mil Truques cientes de sua existência, Noctus sabia que o Caçador de Nível 8 representaria um grande problema para seus planos.

Quanto ele sabe? Como descobriu sobre nós? Além disso, por que ainda não veio atrás de nós?

Essas dúvidas impediram Noctus de tomar uma decisão.

Nos dias em que sua fama ainda não havia se tornado infâmia, Noctus desprezava os caçadores de tesouros. Para ele, não passavam de bandidos barulhentos que achavam que governavam o mundo, embriagados pelo poder do mana material. Eram apenas parasitas vivendo para satisfazer seus próprios desejos, sem ao menos se preocupar em entender os princípios por trás da energia que lhes concedia força.

Mas agora, Noctus tinha uma nova perspectiva sobre eles. Depois de absorver uma quantidade substancial de mana material durante seu experimento sob um cofre, ele percebeu o quão poderosa essa força podia ser—a ponto de justificar o comportamento arrogante dos caçadores que se fortaleciam com ela. Sentindo em sua pele o quanto havia se fortalecido apenas com o fluxo relativamente fraco de mana material na Toca do Lobo Branco, Noctus mal conseguia imaginar o poder que os Pranteadores haviam adquirido ao conquistar cofres de tesouros muito mais perigosos.

Noctus tinha plena confiança em suas habilidades mágicas, mas não era imprudente; não podia ter certeza de que venceria um confronto justo contra os Mil Truques. Seus aprendizes pareciam compartilhar desse pensamento, pois nenhum deles sugeriu que enfrentassem o caçador. Na verdade, a maioria inclinava-se para a opção de fugir.

Após ouvir o relato dos eventos ocorridos em sua ausência, Sophia, completamente impassível, fechou os olhos e refletiu por alguns instantes. Mas, antes que os outros aprendizes quebrassem o silêncio, ela abriu seus olhos vermelho-sangue.

— Vamos lutar. Assim deve ser — declarou com uma confiança tranquila.

Flick bateu a mão na mesa à sua frente.

— S-Sophia! Estamos falando de um Nível 8! Me diga que você tem um plano!

A equipe já havia conduzido uma investigação extensa sobre o Mil Truques, mas não encontrara nenhuma informação sobre seu “modus operandi”. Claro, outros agentes do império e da Associação também seriam um grande problema, mas o “desconhecido” era algo tanto temido quanto cobiçado pelos Magos.

Sophia curvou os lábios em um sorriso quase tímido e disse:

— Qual o problema, Flick? Somos buscadores da verdade que operam além dos limites das leis humanas. Não há razão para recuar.

Ao ouvir suas palavras, Flick, um homem uma década mais velho que ela, recuou um passo, como se estivesse intimidado por seu olhar. E nenhum dos outros aprendizes protestou—não porque concordavam com Sophia, mas porque foram silenciados pela aura imponente que a envolvia.

Let This Grieving Soul Retire! Woe Is the Weakling Who Leads the Strongest Party | Nageki no Bōrei wa Intai Shitai: Saijaku Hunter ni Yoru Saikyō Party Ikusei-jutsu Volume 02 Ilustrações

 — Sua determinação inabalável foi justamente o que garantiu a Sophia seu lugar como a primeira aprendiz de Noctus. Ela era uma fanática pelo deus astral — a manifestação da verdade universal —, o que significava que moralidade, leis e opiniões alheias (incluindo as de seu mestre) não tinham qualquer influência sobre suas ações.

Para Noctus, ela era a aprendiz mais problemática, mas também a mais promissora; uma verdadeira integrante digna da Torre Akáshica.

Juntando as mãos, Sophia se virou para Noctus e propôs sua brilhante ideia:

— Eu sei. Mas o grupo de investigação que está vindo é formado por caçadores de alto nível — os sujeitos perfeitos para testarmos nosso sistema de defesa. Se eliminarmos todos eles, ainda podemos impedir que a informação se espalhe. O que acha, Mestre?

Noctus estreitou os olhos em escrutínio.

Sophia estava tratando os caçadores que a Torre tanto temia como meros ratos de laboratório. Em seu olhar, não havia um traço de hesitação; a possibilidade de derrota sequer passava por sua mente. Na verdade, ela parecia estar se divertindo com a ideia de enfrentá-los.

E foi justamente esse olhar que levou Noctus a tomar sua decisão.

— Muito bem. Sem restrições.

Agora que o Mil Truques estava farejando sua equipe, Noctus sabia que a Torre Akáshica não sairia dessa ilesa; a única saída era eliminar todo o grupo de investigação. Apenas derrotando os agentes do Império e da Associação o trabalho de uma vida do Mestre dos Magos se concretizaria.

— Você assume a liderança, Sophia — ordenou Noctus. — Use todos os recursos necessários e traga-me suas cabeças em estacas.

Com os olhos marejados, Sophia encarou seu mestre.

— Pode contar comigo, Mestre. Obrigada por essa oportunidade.

Os outros aprendizes assistiam em silêncio, remoendo medo e inveja.

Seu corpo inteiro parecia estar em chamas.

Assim que Tino despertou, cada fibra de seu ser começou a pulsar com uma dor surda. Ela gemeu baixinho ao se virar na cama macia, mas isso não aliviou em nada seu sofrimento. Enfiou a cabeça para fora do cobertor e se viu em seu quarto sem decoração, num prédio próximo à casa do clã.

— Se você não consegue fazer no treinamento, não conseguirá na vida real, não é?

Era o que seu mentor sempre dizia.

Tino passava por tortura literal toda vez que treinava com seu mentor, que afirmava estar acostumando-a ao poder ilimitado que só era liberado à beira da morte. A essa altura, ela já havia sobrevivido a algumas dessas sessões de “treinamento realista”, mas não havia sinal de que ficariam mais fáceis.

Seu corpo gritava de dor sob sua expressão inalterada enquanto ela conseguia, com esforço, se sentar na cama. No espelho de corpo inteiro à sua frente, uma garota de cabelo desgrenhado a encarava com uma expressão mal-humorada — sem roupa alguma.

Talvez Lizzy tenha carregado a mim inconsciente depois do meu quase-morte, me despido das roupas sujas de terra, me lavado e me jogado na cama.

Antes, sua mentora simplesmente a deixava largada no campo de treinamento após essas sessões. Mas desde que Mestre Krai teve uma conversa com ela sobre seu tratamento subumano com sua aprendiz, ao menos fazia questão de garantir que Tino voltasse ao seu quarto. Não era como se sua mentora estivesse a cobrindo com carinho, mas ela preferia muito mais isso a ficar exposta por horas diante de seus companheiros de clã.

Tino não via nenhuma cicatriz em sua pele alva, que parecia até impecável demais para alguém que enfrentava monstros para viver. Isso significava que ou seu corpo havia se curado sozinho enquanto estava inconsciente, ou ela havia sido mergulhada num tanque de poção, ou sua mentora — que definitivamente não sabia pegar leve — havia criado uma nova técnica para ferir o corpo humano sem deixar marcas.

De qualquer forma, Tino estava grata pela ausência de cicatrizes; sabia que a dor e a exaustão logo desapareceriam também — ela havia absorvido mana suficiente para isso.

Cambaleando até o banheiro, ligou o chuveiro frio para despertar os sentidos. Enquanto sentia a água gelada aliviar sua dor, avaliou seu estado físico. Um caçador de tesouros precisava cuidar bem do próprio corpo, especialmente quando tinha um mentor que o submetia a treinamentos sem a menor consideração por sua segurança.

Esfregando os ombros e braços enquanto a água escorria, Tino murmurou para si mesma:

— Lizzy sabe mesmo o que está fazendo. Nem um único hematoma.

Embora sua mentora não tivesse usado armas, não hesitou em atacar suas articulações. Força bruta não era o forte de uma Ladina, mas, ainda assim, cada golpe era pesado o suficiente para que Tino não conseguisse bloquear sem sofrer algum dano; um único bloqueio imperfeito poderia ter sido fatal.

Ela tinha certeza de que alguns de seus ossos haviam se quebrado na noite anterior, e era um verdadeiro milagre não haver sinais de hemorragia interna agora.

Sua memória do treinamento ainda era nebulosa, provavelmente porque entrou e saiu da inconsciência várias vezes ao longo da sessão. Mas devia ter se saído bem; de alguma forma, encarou a morte de frente e conseguiu aparar os golpes da mentora. Caso contrário, não teria despertado.

Havia muitos lugares na capital onde caçadores podiam treinar combate, muitos deles liderados por ex-caçadores renomados aposentados; também havia escolas formais. Na verdade, a maioria dos caçadores de nível 3 ou superior havia passado por algum tipo de treinamento formal.

Tino se perguntava quantos deles enfrentavam treinamentos tão brutais quanto o seu: cuspindo sangue e comendo terra, enquanto suportavam o que parecia ser uma intenção assassina genuína de seu mentor.

Foi uma escolha dela buscar o treinamento de Liz Smart. Liz havia recusado no início, dizendo que não tinha tempo para isso, mas Tino conseguiu a vaga de aprendiz por pura sorte. O Mestre estava presente quando ela implorou por uma chance, e ele foi quem convenceu Liz a aceitá-la. Sem o Mestre, Tino sequer seria uma caçadora de tesouros hoje.

Com frequência, diziam que ela era forte e que havia treinado duro para sua idade. Mas também já fora alvo da inveja de outros caçadores. Antes que percebesse, sempre esperava lutar à beira da morte. Mas, apesar dos métodos quase fatais e torturantes, Tino não tinha intenção de abandonar sua mentora.

Ela frequentemente sentia um impulso poderoso de desistir, mas não o fez. Ainda.

Estou atendendo às expectativas da minha mentora?

O pensamento a fez estremecer, e, trêmula, ela desligou o chuveiro.

— Depois de se vestir, Tino voltou para a sede do clã. Seu quarto alugado ficava a dez minutos de caminhada dali, e foi exatamente por isso que ela escolheu o local. Como a sede do Primeiro Passo era bem mais alta do que os prédios ao redor, Tino conseguia ver seu telhado da janela do seu quarto, se esticasse a cabeça para fora. Segundo sua mentora, era possível até enxergar o interior do escritório do mestre do clã, no andar mais alto do prédio, mas a visão de Tino não era tão boa a esse ponto.

Tino se considerava menos do que uma caçadora de verdade. Apesar de já ter alcançado o acima da média Nível 4 e visitado várias câmaras do tesouro, ainda não havia conquistado a aprovação de sua mentora. E era por isso que Tino permanecia na capital e se recusava a formar um grupo de caça adequado, apesar da recomendação da Associação—ela ainda se considerava em treinamento.

Toda a vida de Tino girava em torno do seu treinamento. Mas como Liz, além de mentora, era uma caçadora ativa, era raro ter tempo para treinar sua discípula de forma adequada. Sua imprevisível e livre-espírito "Lizzy" frequentemente desaparecia sem deixar recado, então Tino se esforçava para ficar o máximo possível ao lado dela sempre que sabia que sua mentora estaria na cidade.

Ao chegar à sede do clã, Tino viu uma cena incomum: várias grandes carruagens estavam estacionadas em frente ao prédio. Os vagões de aço pareciam tanques de guerra, sem qualquer decoração que indicasse pertencimento a uma casa nobre. Atrelados a eles estavam cavalos, pisoteando o chão com impaciência, criados especificamente para atravessar paisagens perigosas repletas de monstros e espectros.

Observando os cavalos sem pensar muito no assunto, Tino entrou no saguão e encontrou dezenas de caçadores reunidos ali. Eles variavam em classe, vestimentas e nível, mas tinham uma coisa em comum: todos pertenciam ao Primeiro Passo. Ela franziu a testa ao ver a multidão de caçadores armados, parecendo se preparar para uma guerra.

Por que tantos deles? Uma missão grande?

O Primeiro Passo era um dos clãs mais populosos da capital, mas era raro ver um grande número de membros reunidos assim.

Como membro original do clã, Tino conhecia praticamente todos ali.

— O que está acontecendo? — perguntou a um Espadachim próximo.

— Ah, Tino, não ouviu? Fomos convocados. É uma operação conjunta com a Associação, um trabalho do governo. Vamos para a Toca do Lobo Branco — ele respondeu.

Ao ouvir o nome daquele cofre familiar, ela olhou novamente ao redor do saguão.

— Todos vocês?

Uma convocação dessa escala era sem precedentes. A formação reunida ali era impressionante, representando quase metade dos membros registrados do clã. Considerando que alguns estavam fora da capital, Tino se perguntou se praticamente todos os presentes na cidade haviam sido chamados. Ela tinha ouvido falar de uma investigação em andamento, mas aquilo não parecia uma simples investigação—parecia um plano para exterminar todos os monstros do cofre.

Os inimigos da Toca do Lobo Branco eram formidáveis, mas os caçadores do Primeiro Passo eram de elite, muitos deles Nível 4 ou superior. Então, Tino não conseguia imaginar que tipo de problema havia surgido no cofre para justificar essa escala de resposta, especialmente considerando que o chefe já havia sido derrotado. Embora ele pudesse reaparecer quando mana material suficiente se acumulasse, demoraria bastante tempo para um espectro tão poderoso voltar.

Vendo a expressão incrédula de Tino, o Espadachim sussurrou dramaticamente:

— Entre nós, ouvi dizer que o MC queria mandar o Ark.

— O quê? — Tino olhou para ele, sem piscar. O que ele está dizendo?

Mas a piada nunca veio.

O homem torceu os lábios em um sorriso e riu.

— Que piada, né? Enviar um dos nossos melhores caçadores para investigar um cofre de Nível 3. Mas como o Ark não está aqui, nós vamos no lugar dele.

Agora fazia sentido por que os caçadores pareciam tensos.

Ark Rodin era um dos caçadores mais renomados da capital. Parecia abençoado por todos os deuses e destinado a se tornar um herói. Ele era um mestre de várias magias e técnicas, e dizia-se que sua espada rasgava o mundo como mil relâmpagos. Por isso, recebia forte apoio tanto da alta nobreza do império quanto dos membros do Primeiro Passo; além disso, era uma espécie de rival para a mentora de Tino e seus companheiros Grievers.

Investigar um cofre de Nível 3 definitivamente estava abaixo de Ark. Enviá-lo parecia uma reação desproporcional e ia contra a recomendação da Associação de que caçadores deveriam focar em cofres compatíveis com seu nível. Se caçadores de alto nível saqueassem todos os cofres de baixo nível e eliminassem seus espectros e relíquias, os caçadores mais fracos ficariam sem oportunidades para crescer. Além disso, os caçadores mais fortes poderiam estar indisponíveis quando realmente fossem necessários.

Mas, naturalmente, o calculista Mestre do Clã sabia disso. Isso significava que o problema na Toca do Lobo Branco era tão grave que justificava a necessidade de alguém do nível de Ark Rodin. Para Tino, uma mera mortal, era impossível imaginar o que poderia ser. Se ela estivesse entre os convocados para essa missão, já estaria escrevendo seu testamento e parecendo tão tensa quanto eles.

Espera. Se a Lizzy me vir agora, ela pode me jogar nessa encrenca.

— Isso é todo mundo? — perguntou, tentando suprimir o medo.

— Ei. "Dá um pouco de crédito pra gente" era o que eu ia dizer... — respondeu o Espadachim, coçando a cabeça.

Ark Rodin era, sem dúvida, um dos caçadores mais fortes que existiam; dominar a espada ou a magia ao nível dele já seria o suficiente para garantir a qualquer um um lugar entre os melhores. Mas Ark não apenas dominava os dois, como os usava perfeitamente em combate. Até mesmo a mestra de Tino, que se considerava uma das caçadoras mais fortes do mundo, não podia negar a força de Ark. Se os outros membros do Ark Brave tivessem pelo menos setenta por cento do talento dele, poderiam facilmente reivindicar o título de "o grupo mais forte de sua geração."

Será que todos esses caçadores realmente compensam a ausência de Ark? — Tino se perguntou.

O Espadachim sorriu com uma aura poderosa, mas também com um toque de medo.

— Com esse tanto de gente, vamos dar um jeito. Ouvi dizer que grupos de outros clãs também vão se juntar a nós...

O burburinho aumentou. Um jovem começou a descer as escadas, e todos os olhares se voltaram para ele. O clarividente Mil Truques estava descendo os degraus. Ao seu lado estava a vice-mestre de clã, observando friamente os caçadores reunidos. O saguão caiu em silêncio, enquanto os membros aguardavam as palavras de seu mestre.

— Mestre, destacando-se como um polegar dolorido com sua roupa casual entre os caçadores totalmente armados, disse distraidamente:
— Hã? O que vocês estão fazendo aqui? Qual é o grande evento?

— Pelo que discutimos ontem — disse Eva.

— Ah. Isso — ele disse. — Mas tem tantos deles.

— Eu sei que você pediu pelo Ark, mas ele está indisponível no momento. Então chamei esses aqui. Pelo meu cálculo, coletivamente, eles fazem uma substituição comparável.

O Mestre encarou a multidão, de olhos arregalados.

Muitos que não eram caçadores não compreendiam muito bem o quão poderosos os caçadores eram. E, por causa disso, todos os anos havia alguns não-caçadores que partiam em busca de cofres do tesouro e nunca mais voltavam. Eles achavam que, se os caçadores conseguiam lidar com os cofres, eles também conseguiriam, já que eram humanos como qualquer outro— tragédias evitáveis causadas pela ignorância. Embora Eva não fosse uma caçadora, todos no clã a respeitavam como uma gerente da organização que conhecia bem os membros da Primeiros Passos, ficando atrás apenas do Mestre em autoridade. O fato de ninguém na multidão ter contestado sua afirmação mostrava que o cálculo de Eva estava correto.

O Mestre, no entanto, não parecia convencido.
— O quê? Ah... Aham. Certo... Tantos assim?

— Se algo não lhe agrada, por favor, me avise — disse Eva.

O saguão ficou em completo silêncio. Todos no clã sabiam o quão excepcionalmente poderoso Ark era; os únicos que ousavam alegar serem superiores a ele eram os Grievers.

O Mestre, com o pescoço inclinado, observou a multidão por alguns momentos antes de arriscar um sorriso hesitante.
— Bem, nossos caçadores são bem habilidosos. Talvez só metade deles seja suficiente.

— O quê?! Metade?! Nem pensar! — exclamou um caçador no meio da multidão.

— Essa situação exigia o Ark, não é?! Eu não estou convencido de que nem a soma de todos nós pode substituí-lo! — disse outro.

Como isso aconteceu? Me perguntei.

Eu não consegui esconder minha decepção quando a multidão de caçadores explodiu em protestos. Eva me encarava como se eu fosse um idiota ou algo assim, mas eu não achava que meu comentário fosse injustificado, era? Sem querer me gabar, mas a Primeiros Passos era um dos clãs mais robustos da capital; nossos membros eram muito mais fortes do que a média.

Havia duas coisas que eu queria alcançar quando fundei esse clã: primeiro, usar minha posição como mestre do clã como desculpa para ficar longe dos perigos dos cofres do tesouro; e segundo, fazer conexões com outros grupos para socializar os Grievers. Ter um talento excepcional podia ser solitário às vezes: isso mantinha a maioria dos sem talento à distância. Enquanto os outros Grievers não se sentiam tão sozinhos porque tinham uns aos outros, eu sentia que isso apenas acentuava nossa falta de interação com outros grupos. Foi por isso que escolhi os grupos que ajudaria com base na idade e habilidade quando fundei o clã; apostei que os Grievers os aceitariam se fossem próximos em idade e conseguissem acompanhá-los no campo. Eu queria dar aos Grievers (principalmente Luke e Liz) alguma interação social e, eventualmente, encontrar alguém para ocupar meu lugar nos Grieving Souls, para que eu não os atrasasse.

Com expectativas modestas, entrei em contato com todos os grupos famosos da capital na época: primeiro, houve a Obsidian Cross, cujos membros conquistaram muitos cofres de alto nível com o mínimo de baixas graças às suas habilidades de cura. Depois, houve a Starlight, cujos múltiplos Magos poderosos eram incomparáveis em devastação de grandes áreas com magia. Em seguida, houve os Knights of the Torch, cujos membros atingiram altos níveis de habilidade com sua grande disciplina e rigor nos treinos. E, acima de tudo, houve a Ark Brave, cujos membros rivalizavam os Grievers e cujo líder era o herói indiscutível Ark Rodin. Aliás, embora tenham sido os outros Grievers que lidaram com as negociações, o processo foi surpreendentemente tranquilo.

Até hoje, eu ainda não havia cumprido completamente meus objetivos iniciais, mas fiz um progresso decente: fiquei longe da linha de frente, e os Grievers estavam em uma situação melhor do que estariam se eu não tivesse fundado o clã— pelo menos era nisso que eu queria acreditar.

Com isso em mente, os membros de um clã como esse, naturalmente, eram muito talentosos, e parecia que isso gerava uma competição saudável entre eles. Mesmo depois que parei de ser tão exigente com os membros do clã com o passar do tempo, a Primeiros Passos manteve sua reputação como um clã de elite em ascensão— todos no saguão agora eram definitivamente acima da média.

Ark era de outro nível, claro, mas eu só gostava de atribuir tarefas a ele porque ele era a escolha mais segura, e eu me sentia menos nervoso ao pedir favores para ele; não era como se eu achasse que ninguém mais pudesse fazer esse trabalho. Se nossos caçadores aqui parassem para pensar por um segundo, perceberiam que uma situação em que eu tivesse que ter o Ark seria um verdadeiro desastre aterrorizante— eu nem conseguia imaginar em que tipo de enrascada estaríamos então.

Lancei um olhar para Eva. Ela não precisava ir tão longe... Quando disse ao Gark que faria qualquer coisa para ajudá-lo, eu estava sendo apenas educado. Como ela conseguiu reunir tantas pessoas em tão pouco tempo? Claro, eu já sabia o quão incrível Eva era, mas havia uma preocupação ardente na minha mente: Quanto custaria enviar todos esses caçadores? Afinal, caçadores precisam ser pagos. Eu prometi total apoio ao Gark, mas minha carteira estava quase vazia.

Eva assentiu gravemente e chamou no saguão:
— Silêncio, por favor. Krai tem algo a dizer.

Todos se calaram imediatamente e olharam para mim.

Eu pigarreei, tentando dissipar os olhares penetrantes e o silêncio absoluto. Uau. Quem é esse "Krai" que tem algo a dizer? Quero dizer, eu posso dizer algo...

Depois de escolher minhas palavras por alguns momentos, forcei um sorriso para mascarar meu pânico interno e disse:
— Acalmem-se, acalmem-se. Pensem um pouco. O cofre do tesouro para onde vocês vão costumava ser de Nível 3— não precisam se preocupar tanto assim.

— Mentira! — gritou um Mago de manto preto na frente da multidão.

Caçadores muito mais fortes do que eu me encaravam com puro horror nos olhos.

Eu não estou mentindo. Nunca menti na minha vida.

— O Gerente da Filial Gark está recrutando outros grupos também — assegurei. — Não será tudo sobre os nossos ombros. A Toca do Lobo Branco é de fato mais perigosa que o normal, então eu entendo de onde vem essa ansiedade, mas por favor...

Caçadores não deveriam atravessar cofres do tesouro com força esmagadora. Somos aventureiros.

Zero confiança.

Até a Tino estava me olhando como se eu fosse um mentiroso. Apesar da minha explicação perfeitamente lógica, a multidão não parecia nem um pouco convencida.

Bem, eu já a enviei para a Toca do Lobo Branco antes mesmo de saber de tudo isso. Mas ainda acho que estou certo.

Olhei ao redor da sala novamente, mas os caçadores estavam todos evitando meu olhar. Fazia um tempo que eu não estava na linha de frente; talvez eu estivesse sendo otimista demais. O jeito como eles estavam rejeitando minha sugestão com tanta veemência me fez pensar nisso. E, para ser sincero, eu nunca tive muita confiança em mim mesmo.

— O que você acha? — perguntei baixinho para Eva.

— Com uma situação tão crítica como essa, acho que deveríamos deixar uma margem de manobra.

— Hmm...

Pelo visto, Eva concordava com os outros membros.

Olhei mais uma vez para o grupo e percebi que, embora fossem numerosos, nossos melhores caçadores não estavam ali. Ark, obviamente, não estava presente, mas também não vi ninguém da Obsidian Cross ou da Starlight. Isso não era incomum, já que nossos talentos de ponta estavam sempre ocupados. Ainda assim, não pude evitar a sensação de que estávamos exagerando. Se todos eles descessem até a Toca do Lobo Branco com força total, o lugar seria simplesmente varrido do mapa.

— E se reduzirmos algumas equipes? — sugeri.

Mesmo que pudéssemos pagar todos, se deixássemos todos os caçadores da Primeira Etapa irem ao mesmo tempo, não sobraria ninguém na sede do clã para fazer as coisas por mim.

Não que eu pudesse admitir o quão patético isso soava...

Então, um dos caçadores latiu:

— CM! Não estamos pedindo mais caçadores! Qual o problema em mandar os que já estão aqui?

— Bem... — gaguejei.

— E, apesar de sermos do mesmo clã, não estamos no seu grupo. Não somos obrigados a seguir suas ordens. Se existe um motivo legítimo para não mandar todo mundo, diga logo!

— Bom, você tem um ponto...

Alguns caçadores atrás dele também assentiram em concordância.

Do que eles estavam com tanto medo a ponto de se recusarem tão obstinadamente a reduzir um pouco a equipe?

Pensei no assunto novamente: embora eu tivesse oferecido apoio a Gark por educação, nunca disse que faríamos isso de graça. Mas, como um clã que valorizava a liberdade individual, a decisão de aceitar ou recusar uma missão normalmente ficava a cargo de cada caçador e equipe. Como mestre do clã, eu deveria esclarecer isso.

— Eles vão cobrir o pagamento de todo mundo aqui, Eva? — perguntei. — Não têm um orçamento ilimitado, têm? Duvido que consigam bancar todos.

Essa missão veio do governo, e eles costumam definir os orçamentos com base na dificuldade esperada. Embora o que estivesse acontecendo na Toca do Lobo Branco fosse altamente incomum, não parecia algo que justificasse um orçamento capaz de pagar metade do nosso clã.

Eva respondeu com tranquilidade:

— Eles não têm problema em pagar. Gark conseguiu um orçamento extra. Eu confirmei duas vezes com ele, e o valor está adequado.

— Sério? Como ele conseguiu isso?

O império não era mesquinho, mas Gark teria que apresentar alguma evidência convincente para justificar um aumento no orçamento da missão. Será que o primeiro grupo de investigação trouxe algo de volta? Quando falei com ele pela última vez, Gark não parecia ter nenhuma informação nova, mas talvez ele tenha conseguido algo enquanto eu passeava pela cidade com Liz.

Se essa nova informação fosse preocupante, eu entenderia por que os membros de elite do clã estavam tão nervosos com a ideia de reduzir a equipe. Quanto mais pensava nisso, mais essa hipótese parecia plausível. Era como se eu tivesse acabado de encaixar a última peça do quebra-cabeça.

No fundo, senti um alívio.

Ainda bem que meus companheiros de clã não levavam minha palavra como verdade absoluta; eu estava prestes a cometer o mesmo erro que fiz quando enviei o grupo da Tino. Não que eu pudesse fazer algo a respeito agora, mas teria sido bom ser informado sobre essa nova situação...

E, no fim das contas, eu deleguei tudo para Eva mesmo.

Olhei para ela, que me deu um aceno rápido.

— Ele usou a informação que você deu para ele.

— Hã?

Do que ela está falando? Perdido, devolvi um aceno que deve ter parecido de quem já sabia de tudo. Será que Eva estava falando com outra pessoa na sala? Alguém que tinha informações úteis assim?

Quando foi que eu mencionei algo do tipo?

Tentei lembrar de tudo o que disse para Gark, que foi algo como: "Não sei de nada, mas vou ajudar." Também comentei com Eva que enviaria Ark se ele estivesse por perto, mas foi só isso. Não faço ideia de como ele poderia ter usado minhas palavras para negociar com o império, já que nem mencionei nada específico sobre o que estava acontecendo na câmara.

Eu não devia ter concordado em ajudar. Não precisava. Podia simplesmente ter dito que estava ocupado com outra coisa qualquer... Mas agora já era tarde.

Meu estômago revirou.

Se nada sair dessa confusão na Toca do Lobo Branco, vai ser culpa minha?

Levei a mão à testa, me afundando em autodepreciação.

Por que eu tenho que falar? Sempre?

Isso é o que acontece quando eu falo sem pensar.

Por outro lado, o oficial da Associação deveria levar a maior parte da culpa por interpretar minhas palavras errado. Mas, independente disso, eu precisava decidir o que fazer agora.

Agora que Gark conseguiu mais dinheiro do império, duvido que até mesmo minha única e grande habilidade—minha arte suprema de me esquivar de encrenca—me tire dessa.

Todos na recepção me encaravam com expressões sombrias, como se me perfurassem com olhares. Eu tinha esgotado todas as desculpas para reduzir a equipe. Além disso, agora que o financiamento estava garantido, Gark simplesmente contrataria equipes de outros clãs para compensar qualquer redução que eu fizesse do nosso lado.

Parece que fiquei sem opções.

Fiquei ali resmungando por um tempo até decidir desistir.

— Tanto faz — declarei.

— O quê?! — reagiu a multidão.

No fim das contas, eu não fiz nada para transformar isso em um grande problema. Eu só disse que ajudaria Gark. Foi ele quem foi lá e conseguiu o orçamento extra. Se alguém tivesse que lidar com as consequências disso com o império, que fosse ele.

E se as coisas chegassem até mim...

Eu só ia fingir que não sabia de nada.

Essa era minha outra única grande habilidade.

— O quê? Tem certeza de que podemos ir todos, CM?

— Se é isso que vocês querem fazer, quem sou eu para impedir?

Tanto faz. Se virem.

Mesmo assim, a multidão ainda me olhava de um jeito estranho agora que eu tinha parado de me importar com a situação.

Mas não venham reclamar para mim se a missão acabar sendo moleza. Eu tentei reduzir a equipe, mas vocês não deixaram!

— Que monte de baboseira. Se vocês querem tanto andar em bando assim... larguem essa vida de caçador.

Uma voz que eu realmente não queria ouvir nesse momento veio de trás de mim.

O grupo de caçadores ficou tenso. Não ouvi nenhum passo, mas logo senti um abraço suave nas minhas costas e um par de braços esguios envolvendo minha cintura.

— Liz, você não deveria falar assim, parece que está zombando deles.

Tendo acabado de sair de um encontro comigo, Liz parecia mais animada do que o normal. Não conseguia vê-la, mas tinha certeza de que ela estava com um sorriso no rosto.

Enquanto isso, Tino tentava se esconder discretamente atrás de um caçador alto ao lado dela.

— Eu estou zombando deles. Nem me sinto irritada. Como poderia? — ela continuou com um tom docemente enjoativo, como se estivesse falando com um grupo de crianças. Mas, mesmo assim, sua voz parecia inspirar tanto medo quanto se estivesse gritando. — Você realmente tem expectativas impossivelmente altas, Krai Baby, mas como pode se chamar de caçador se tem tanto medo da morte? Eu nunca diria não para você.

Espera aí. “Impossivelmente altas”? Sério? Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. Liz, apesar de ser uma cabeça-dura otimista, era uma caçadora de ponta. Se até ela achava que minhas expectativas eram altas, isso significava que eu estava julgando a situação completamente errado.

— Elas não são altas — murmurei em protesto silencioso.

E Liz me apertou um pouco mais forte.

— Isso porque... você é poderosa, Sombra Partida — disse um dos caçadores.

Liz zombou: — Não é à toa que o Krai Baby está desistindo de vocês. É por isso que nunca ficam mais fortes. Vocês querem tanto assim escolher o caminho mais fácil?

Quando foi que eu desisti deles, exatamente?

Eu estava bem satisfeito com como a Primeiros Passos estava. Estava me perguntando do que eles tinham tanto medo, mas agora que Liz disse que minhas expectativas eram altas, a reação deles fazia sentido. Ser cuidadoso era algo bom! Eu desisti da caça ao tesouro exatamente porque não queria morrer.

— Ah, tanto faz — disse Liz. — Não me importo com vocês. Na verdade, estou até feliz que não querem aceitar. — E, com todos os olhos voltados para ela, Liz cantarolou para mim: — T e eu vamos aceitar essa missão, Krai Baby. Você não se importa, né? Achei que os fantasmas na Toca do Lobo Branco e todas as armas deles seriam perfeitos para o treinamento dela. Não preciso de mais ninguém.

Os caçadores de elite no saguão, compreensivelmente, demonstraram confusão diante da afirmação de Liz.

Por outro lado, Tino soltou um choro patético. Ela vinha tendo um azar danado ultimamente.

— Mas... uma missão para a qual você precisava do Ark vai ser perigosa para a T, então eu quero um—

Liz andou até mim e passou o dedo no meu peito em círculos.

— Sabe, Anssy não está aqui, e não temos um curandeiro; não posso consertar a T se ela perder um membro ou um órgão. — Ela sussurrou no meu ouvido: — Você tem um com você, né, Krai Baby? Um elixir supremo? Por favorzinho?

Ela quer que a Tino continue lutando mesmo que perca um membro...

Tino estava tremendo como um cachorrinho assustado.

E, com um sorriso, eu disse para Liz:

— Não.

— O quê?! Por quê?!

Porque você não sabe jogar em equipe.

Nem pensar que eu deixaria ela ir quando já havia outros caçadores na Toca do Lobo Branco. Força bruta não era o único fator aqui—por mais que eu quisesse socializar Liz, ela estava num ponto em que quase matava qualquer caçador que entrasse em uma briga com ela—ela seria uma ameaça maior do que todos os fantasmas da câmara juntos. Além disso, eu estava começando a sentir pena da Tino.

Dei um tapinha no braço da Liz para acalmar seu bico emburrado e me virei para os caçadores na sala.

— Nossa situação mudou. Retiro o que disse sobre cortar pessoas desse grupo. Quero que todos aqui, assim como a Eva escolheu, vão para a Toca do Lobo Branco. Sei que a câmara não é de nível tão alto, mas não baixem a guarda até o trabalho estar feito.

Agora que eu tinha mudado de opinião, eles trocavam olhares entre si, como se estivessem tentando decifrar o que eu havia dito. E, por alguma razão, alguns deles estavam batendo os dentes.

Vou ter que pedir para a Liz me explicar depois qual parte dessa missão fez parecer que eu tenho expectativas “impossivelmente altas”.

Então, de repente, Eva deixou cair essa bomba de forma tímida:

— Krai... se não se importa, pode liderar essa missão?

— Hã?

O tempo pareceu parar por um momento antes de voltar ao normal, com os caçadores começando a murmurar outra vez.

Liz me encarava, perplexa.

— Não, não, não, não, não. Não precisa chegar a esse ponto — eu disse.

— Mas a única pessoa que pode se comparar ao Ark, especialmente em nível, é você. Também seria um gesto eficaz para a Associação — rebateu Eva.

Um suor frio escorreu pelo meu rosto diante das palavras de Eva. Eu não conseguia dizer se ela estava tentando me provocar ou não.

Eu sou fraco. Lembra?

E também não é como se eu tivesse habilidades de liderança para compensar isso. Só cheguei à minha posição sendo carregado nas costas pelos meus amigos e estava plenamente ciente de como era inútil. Não conseguia julgar as habilidades dos outros e ainda tinha dificuldade para associar nomes a alguns desses rostos na sala. Até Liz seria uma líder melhor do que eu, especialmente porque eu estava afastado das câmaras de tesouro havia muito tempo.

Além disso, quem iria querer seguir meu comando quando eu não produzi nenhum resultado tangível nos últimos cinco anos?

— Entendo. Boa ideia, VCM. Você conhece esse clã como a palma da sua mão — disse um dos caçadores.

— Se nosso CM de Nível 8 está nos apoiando, não há com o que se preocupar.

— Fantasmas são poeira diante de você, Mestre! Eu vou se você for!

De repente, todos pareciam confiantes com essa missão.

Como podiam ser tão imprudentes a ponto de confiar suas vidas a mim?

Eva me lançava novamente seu olhar frio; acho que era sua forma de me dizer para finalmente fazer meu trabalho. Isso era cruel e desumano.

Eu ia vomitar.

Não esperava que a missão em si fosse tão difícil, mas ser responsável pelas vidas desses caçadores era outra questão completamente diferente—outro motivo pelo qual me afastei das câmaras de tesouro era que eu não queria matar nenhum dos meus amigos por causa da minha incompetência.

Escondendo minha ansiedade crescente, fingi considerar a questão.

— Hm... Tenho certeza de que há alguém mais adequado para isso do que eu...

Eu não quero fazer isso. Eu não quero fazer isso. Eu não quero fazer isso—alguém leia minha mente!

— Obsidian Cross já está lá, mas eles se especializam em caça — disse Eva com um suspiro. — Eles podem ser um grupo eficiente, mas sua liderança não se compara à sua.

Então Eva não consegue ler minha mente, afinal... Espera aí.

— Isso mesmo — eu disse. — Já sei!

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Eva.

Ela me lembrou de que eu tinha enviado a Obsidian Cross para Gark. E, como eu esperava, Gark deve ter incumbido eles da investigação inicial. Eles estavam certamente entre os cinco melhores grupos da Primeiros Passos: conseguiam se sustentar bem em combate. Seu líder, Sven, era como um irmão mais velho confiável e também era bem querido no clã; ele seria a escolha perfeita para liderar os caçadores reunidos aqui. Eva sugeriu que eu seria um líder melhor do que Sven, mas isso era um completo absurdo.

Essa boa notícia aliviou um pouco o peso nos meus ombros. Com a Obsidian Cross já no local, a missão estava praticamente encerrada.

Quanto dinheiro a Associação desembolsou, afinal?

Franzindo a testa dramaticamente, fingi que estava considerando a proposta.

— Certo, acho que vou junto.

— O quê? Krai Baby, você tá falando sério?! — gritou Liz. Ela me conhecia bem o suficiente para saber que eu me oferecer para entrar em perigo não era algo normal.

— Mas — eu disse, olhando para a sala cheia de companheiros de clã —, tem algo urgente que preciso resolver primeiro, então vou alcançar vocês depois. Enquanto isso, estou colocando a Obsidian Cross no comando.

E assim executei minha magnífica tática de desvio de responsabilidade! Vou dar uma olhada em vocês depois que a investigação terminar. Boa sorte, pessoal!

— Krai Baby, essa investigação é tão difícil assim? — perguntou Liz enquanto observávamos os outros caçadores da Primeiro Passos saindo do saguão do clã.

Normalmente, os caçadores partiam para missões com os olhos brilhando de empolgação e adrenalina, mas aqueles ali pareciam estar indo para a forca—não me lembro de ter dito que essa missão seria difícil. Claro, não seria um passeio no parque, mas mandamos esse tanto de caçadores justamente por precaução.

O que os fazia ter tanta certeza de que haveria desafios terríveis pela frente?

— Você não lidera um grupo faz anos — resmungou Liz, quase infantilmente. — Mesmo que vá se juntar a eles depois, você tá indo numa missão quando mal nos acompanha nas caçadas!

Eu não tinha parado de liderar grupos por vontade própria, mas pela segurança de todos. Mesmo na época em que os outros Grievers me arrastavam de tesouro em tesouro, eu raramente dava ordens—simplesmente porque eu tinha a infeliz tendência de desmoronar sob pressão. A maior influência que me permitia ter era responder perguntas de sim ou não, mas mesmo isso já tinha causado desastres mais de uma vez.

O Grieving Souls prosperou não por causa da minha liderança, mas apesar dela.

E depois de aprender da pior maneira sobre minha inutilidade, eu me aposentei de tomar decisões para o time.

Liz deveria saber disso melhor do que ninguém. Era ainda mais estranho, então, que ela estivesse me olhando desse jeito.

— Eu tenho meus motivos — falei, sem pensar muito, como de costume.

— Quais são? Por que eu não posso ir? — ela implorou. — Por quê? Você não chamaria o Ark se não fosse algo bom. Por favor, Krai Baby?

Os olhos rosados de Liz brilharam com expectativa por um desafio de vida ou morte.

Sua tendência à violência sem sentido não se estendia ao Ark por respeito às habilidades dele. Aparentemente, nem mesmo a Sombra Partida conseguia fazer de Ark Rodin, o Espadachim Mágico multitalentoso, uma presa fácil.

Ela não tem jeito; o cérebro dela tá frito.

Enquanto Liz me sacudia pelo braço como uma criança pedindo doce, soltei um suspiro e disse:

— É só que você não trabalha bem em equipe.

— O quê? — respondeu Liz, incrédula. — Relaxa! Todo mundo vai seguir o que eu fizer.

Exatamente o que eu acabei de dizer.

Enquanto isso, Tino observava sua mentora com apreensão.

Então, decidi beliscar as bochechas da Liz. Ela piscou e me encarou.

Continuei beliscando enquanto dizia:

— Você acabou de voltar da última caçada, Liz. Você devia descansar um pouco.

Ficar em casa vai deixar todo mundo feliz—vai me deixar feliz.

Liz abriu um sorriso radiante para mim, e eu não pude evitar desejar que ela sempre tivesse essa aparência não violenta.

— Você é um cavalheiro, Krai Baby! Mas a gente tá de boa, né, T?

Tino assentiu freneticamente, como se tivesse uma adaga na garganta.

— S-Sim! Estamos ótimas, Lizzy... Mestre.

— Tá vendo? — acrescentou Liz.

Liz e eu nos conhecíamos havia muito tempo, praticamente a vida toda, então eu geralmente sabia o que ela estava tramando só de olhar para ela. Aquele olhar travesso só podia significar que ela ia fugir para o tesouro, e eu não podia deixar isso acontecer. Não que eu achasse que o elixir supremo seria desperdiçado com ela, mas eu conseguia visualizar claramente ela marchando pelo cofre como se fosse dona do lugar, empurrando de lado todos os grupos que estavam explorando com cuidado.

Então, puxei Liz pelo ombro e sussurrei conspicuamente:

— Calma, Liz. Você... vai ter outro trabalho pra fazer.

Eu a levaria como minha guarda-costas quando decidisse me juntar aos grupos.

Liz piscou algumas vezes antes de responder, decepcionada:

— Ah, sério? Tá bom então.

Isso deve impedi-la de sair da capital sem que eu saiba.

Depois de anos convivendo com os Grievers, eu aprendi uma ou duas artimanhas. Suspeito que o fato de eu saber como domar os caçadores mais problemáticos do clã seja um dos motivos pelos quais ainda me mantêm como mestre do clã em vez de escolherem o universalmente respeitado Ark.

Liz sorriu de leve.

— Quer que eu mande só a T então? Aqueles fantasmas com vários tipos de armas seriam perfeitos pro treinamento que tô planejando pra ela.

Freia aí!

Os outros caçadores da Primeiros Passos deveriam impedir que Tino fosse espancada tão gravemente quanto da última vez, mas parecia que ela e a Toca do Lobo não combinavam bem; aquele encontro bizarro com o fantasma monstruoso era prova disso.

Como caçadora solo, Tino não era muito adequada para missões de busca em larga escala como essa. Ela não tinha conhecimento especializado para o trabalho, e os fantasmas naquele cofre pareciam um pouco acima do nível dela.

Liz, eu pensei, isso deve ser um conceito estranho pra você, mas se supõe que a gente deixe uma margem de segurança quando vai explorar cofres de tesouro.

Depois do que aconteceu da última vez, mandar Tino de volta para a Toca dos Lobos me faria um mestre terrível. E eu queria ser um mestre legal—especialmente para uma garota como Tino.

— Não — eu disse para Liz.

— Ahhh.

— Fim de papo.

— Ahhh...

Soltei o ombro dela e olhei para cima, encontrando Lyle, um jovem caçador corpulento, se aproximando. Ele não era um dos membros originais do clã, mas estava bem perto disso. Era um pouco mais alto que eu e vestia uma armadura de aço cheia de cicatrizes de batalha. Esse caçador de Nível 5 tinha uma idade próxima da minha, então eu me dava melhor com ele do que com a maioria dos membros.

Lyle olhou para Liz com certa hesitação antes de me perguntar:

— Krai, você... acha mesmo que a gente vai conseguir?

A uma certa distância, um grupo de caçadores nos observava de forma tímida.

Aparentemente, Lyle tirou a sorte curta. Mas por que ele estava me perguntando isso? Eu sabia tão pouco sobre essa missão quanto ele e os outros recrutados. Talvez até menos.

Dito isso, eu ainda era o mestre do clã, então tinha que agir como tal. Levantei um polegar bem grande e encorajei meus companheiros:

— Essa pode ser uma missão difícil, mas tenho certeza de que vocês vão completá-la, custe o que custar!

Eu achei que isso ia terminar com algum tipo de comemoração ou aplauso, mas fui recebido apenas com silêncio. Lyle e os outros caçadores pareciam não saber o que dizer.

Hã. Isso é estranho.

Então Lyle perguntou, meio hesitante:

— Bem, hum... você poderia, como mestre do clã e um caçador de Nível 8, nos dar... algumas dicas?

— Dicas? — repeti.

Isso era um baita dilema.

Dicas minhas? Quando eu nem faço ideia de como essa missão vai rolar? Não valeria a pena gastar meu fôlego dando conselhos sobre explorar cofres de tesouro: cuidado com os espectros; se deem bem uns com os outros; Ladinos devem ir na frente e encontrar armadilhas; tentem não explorar sozinhos. Que diferença isso faria? Fiquei grunhindo um tempo, franzindo a testa enquanto pensava. Melhor outra coisa. Já sei.

Suspirei e disse:

— Não sei se vocês vão encontrar, mas tomem cuidado se virem algo parecido com um slime.

Não posso dar dicas de verdade mesmo, pensei. Onde foi parar aquele Slime de Sitri?

Lyle me olhou como se eu tivesse perdido a cabeça. Que grosseria.

— Slime?! Não existem slimes na Toca do Lobo Branco! — exclamou.

Os cofres de tesouro geralmente eram habitados por espectros específicos daquele local. Mesmo que monstros externos acabassem entrando, normalmente eram eliminados pelos espectros nativos antes de durarem muito tempo. Por isso, na verdade, era bem raro encontrar outros monstros no fundo de um cofre.

Não dava pra culpar o Lyle por reagir assim quando mencionei o mais patético dos monstros.

— Como eu disse, não sei se vocês vão encontrar um.

— Não que eu esteja duvidando de você, mas... — Lyle insistiu — me diz uma coisa: por que você falou “slime”, de todas as coisas?

Apenas sorri para ele sem dizer nada.

O grupo de caçadores atrás dele começou a discutir maneiras de lidar com slimes— um nível preocupante de credulidade.

— Se vocês encontrarem um, não vai ser um slime comum. Então tomem cuidado — acrescentei.

— Não vai ser um slime comum...? O que quer dizer com isso?! — Lyle arregalou os olhos.

Como se eu soubesse.

Já que tem “slime” no nome, eu suponho que tenha fraquezas parecidas com outros slimes. Mas a Sitri pode ser bem meticulosa com essas coisas...

Lyle e os outros caçadores começaram a discutir freneticamente, tentando entender o que eu quis dizer.

Enquanto sorria para eles, em pensamento, eu me ajoelhava e pedia desculpas.

— O senhor vai mesmo, chefe? — perguntou Kaina, franzindo a testa com preocupação.

Gark Welter bufou em resposta.

Suas roupas não eram nada usuais para conduzir negócios na filial de Zebrudia da Associação dos Exploradores. Em vez de seu traje habitual, ele usava uma armadura vermelho-escura que oferecia proteção sem restringir seus movimentos, acompanhada por um capacete com chifres. A armadura e o capacete estavam cobertos de incontáveis marcas—provas das muitas batalhas que Gark havia sobrevivido. Junto a um cinto de utilidades para acessar rapidamente seus itens, ele também carregava um enorme facão que servia para muito mais do que apenas cortar inimigos. Mas, entre todo seu equipamento, a peça mais notável era a alabarda em sua mão direita, tão alta quanto ele. A arma azulada e negra era uma versão estranha de uma alabarda, com uma lâmina muito maior que sua ponta, como se tivesse sido feita para cortar, e não para perfurar. Todas essas eram peças de equipamento que Gark havia usado e guardado desde seus dias de caça a tesouros.

Muito tempo atrás, antes mesmo da existência dos Endurers—seres que alegavam ter vivido toda a história—, existiu um grupo de pessoas dedicadas à metalurgia e ao combate. Eles haviam dominado a arte da forja e desenvolvido uma habilidade única de infundir metais com poder mágico, criando novos metais. Como também eram guerreiros experientes que reverenciavam a arte da guerra, essas pessoas criaram inúmeras armas e as usaram para proteger sua prosperidade.

Eras se passaram, e agora quase não havia vestígios dessa civilização. A técnica de forjar esses metais únicos se perdeu no tempo—muitos Magos e ferreiros tentaram revivê-la, mas sem sucesso.

Os produtos dessa técnica, no entanto, não se perderam. Na verdade, a maioria dos Relíquias de armas encontradas em cofres de tesouro eram presumidamente recriações de itens dessa era de armamento mágico avançado.

Uma espada que controlava fogo. Uma lâmina leve e inquebrável. Uma lança que cortava o próprio ar e atingia metros além da ponta. Todas elas eram Relíquias capazes de dilacerar monstros e espectros de corpos mais duros que metal comum.

Como dominar uma Relíquia levava muito tempo, caçadores raramente carregavam muitas ao mesmo tempo. Para compensar, a maioria escolhia armas dessa era de armamento mágico avançado—armas nas quais pudessem confiar suas vidas.

A alabarda de Gark não era exceção. Ela estava constantemente envolta em um ar gélido, congelando o sangue daqueles que cortava.

Gark usou sua confiável arma—Presa de Granizo—para subir até o Nível 7. Apesar das inúmeras ofertas que recebeu para vendê-la quando se aposentou, ele nunca conseguiu se desfazer dela.

Agora, segurando-a pela primeira vez em muito tempo, a alabarda respondeu com uma sensação gelada na palma de sua mão, trazendo memórias do passado.

Kaina notou o brilho de empolgação em sua expressão feroz.

— Chefe, o senhor não é mais um caçador — ela lembrou. — Lembra disso, né?

— Eu sei. Não vou exagerar — respondeu Gark.

— Essa missão deveria ser tranquila, já que a Primeiros Passos está dando suporte total. Com a Obsidian Cross já no local, não vejo necessidade alguma do senhor ir.

Gark estalou a língua e mudou o peso do corpo. Com isso, a ponta de sua alabarda arranhou o teto e deixou uma marca congelada para trás. Mesmo carregando mais de cem quilos de metal na forma de armas e armadura, ele ainda se movia com a mesma destreza de sempre.

— Não vou deixar a Liz sair dessa! — rugiu Gark. — Posso não estar no meu auge, mas tenho experiência ao meu lado. Nenhum caçador vai me tratar daquele jeito!

— Que infantil... — Kaina murmurou, enquanto Gark desviava o olhar.

Dado o apelido de Gark—"Demônio da Guerra"—, havia pouquíssimas pessoas em todo o império que subestimavam as habilidades do ex-caçador de Nível 7. Liz realmente tinha mexido com ele.

Como se tentasse justificar sua decisão, Gark acrescentou:

— Esse trabalho tem cheiro de encrenca. Ele precisa do Ark? Isso não é uma missão qualquer! Melhor eu estar lá quando as coisas acontecerem. E isso também serve pra mostrar serviço pro império, depois de arrancar aquele aumento de orçamento deles.

Gark tinha contratado o dobro de caçadores que o império esperava enviar. Conseguiu os fundos extras não só por causa do status de Krai, mas também porque era bem conhecido entre os figurões do império. O Escritório de Investigação de Cofres, a instituição responsável por administrar os cofres de tesouro, também estava de olho nessa missão com desconfiança, então Gark decidiu que seria melhor tranquilizar o governo comparecendo pessoalmente à linha de frente.

— Vou deixar sua papelada na sua mesa — disse Kaina. — Então espere trabalhar até tarde quando voltar.

— Não ficaria chateado se você cuidasse disso para mim — sugeriu Gark.

— Não, obrigada.

A recusa rápida de Kaina fez Gark soltar um suspiro melancólico.

O espaço parecia grande e iluminado demais para estar no subsolo. Ainda assim, o teto e as paredes de terra estavam compactados com tamanha precisão que o ambiente quase lembrava um cômodo comum acima da superfície.

Papéis estavam espalhados pelas fileiras de mesas; as estantes abarrotadas de pastas e livros; e um cheiro penetrante impregnava o ar frio. Frascos rotulados com medicamentos estavam enfileirados nas prateleiras. Sobre uma mesa redonda, quase inteiramente coberta, havia pilhas de relatórios escritos em uma linguagem estranha, bem diferente do idioma oficial do império.

Atualmente, magos, cada um vestindo um manto distinto, se reuniam no local. Suas expressões refletiam entusiasmo, hostilidade e um leve temor pelo confronto que se aproximava.

O Mestre dos Magos estava no centro deles e disse:

— Parece que a Associação não economizou gastos.

Noctus imaginava que o Covil do Lobo Branco, seu antigo centro de pesquisas, estava sendo saqueado por uma enxurrada de caçadores. Sua suposição se baseava no fato de que o número de caçadores enviados para investigar os acontecimentos incomuns no cofre de tesouros — conforme soube por um informante do governo — era muito maior do que ele esperava. Embora não fosse incomum que caçadores de alto nível assumissem investigações sobre perturbações em cofres de tesouros, havia caçadores demais para uma simples missão de reconhecimento. Considerando que a maioria deles pertencia à Primeira Jornada, ficava óbvio quem estava por trás da invasão.

— Mil Truques! — cuspiu Noctus. — Um mero caçador ousa enfrentar de frente a Torre Akáshica?!

Depois de tudo que aquele Caçador de Nível 8 fez para atrapalhar suas operações, Noctus certamente não esperava que ele simplesmente se afastasse. Mas essa resposta era um insulto ao sindicato dos magos: em vez de um ataque surpresa ou uma investida contra a filial da Torre na capital, ele simplesmente despejou mais caçadores no Covil do Lobo Branco.

De modo geral, magos se fortaleciam quanto mais tempo tivessem para se preparar para um combate. Para eliminar um grupo de magos, era essencial atacá-los antes que tivessem tempo de reunir seus recursos. Mas o Mil Truques ignorou completamente essa lógica — ele se deu ao trabalho de avisar o sindicato de que havia descoberto sua base de operações.

E agora estava enviando uma equipe para atravessar o cofre de tesouros de frente, como se a Torre não passasse de um obstáculo insignificante.

Que arrogância... Mas será que ele poderia se dar a esse luxo?

Esse desdém pelo sindicato de magos mais perigoso do mundo era o suficiente para enfurecer Noctus.

Ele não conseguia decifrar as intenções do Mil Truques, mas sua decisão já estava tomada. Os preparativos já haviam sido concluídos, e Sophia havia retornado a tempo. Se o Mil Truques ousava se colocar no caminho da busca pelo conhecimento supremo, ele seria exterminado.

Flick, o segundo aprendiz de Noctus, ergueu uma sobrancelha.

— Mestre, embora Ark Rodin esteja — felizmente — fora da capital, a equipe deles ainda conta com muitos caçadores de alto nível, sem mencionar os Grieving Souls. Eles podem ser um desafio.

O sistema de defesa que Noctus e sua equipe montaram era poderoso o bastante para dizimar um grupo de caçadores comuns. Além disso, os pesquisadores magos podiam lançar feitiços de grande destruição, impulsionados pelo material de mana que absorveram durante o tempo que passaram sob o cofre de tesouros. No entanto, a perspectiva de enfrentar os Grieving Souls — um grupo de caçadores de tesouros famoso por arriscar a vida em cofres de níveis cada vez mais altos — causava um leve receio nos magos.

Nesse momento, Sophia interveio:

— Eles não serão um problema. Esse grupo está fora da capital no momento, com exceção de dois — não, três membros. Temos o Mil Truques, que sempre observa o mundo a partir da capital. Liz Smart, a Sombra Partida, que fez um retorno repentino. E, por fim, Sitri Smart, a temível Alquimista, que a seguiu.

Seus olhos carmesim ardiam enquanto ela encarava o estranho instrumento no centro da sala.

A máquina era o ápice das pesquisas de Noctus. Apesar de seu exílio do império e do meio acadêmico, ele ainda havia conseguido quase completar um dispositivo capaz de interferir no fluxo do material de mana. Essa peça inacreditável de tecnologia havia reestruturado todo o ecossistema do Covil do Lobo Branco. Comparado a essa descoberta, Noctus considerava seus estudos anteriores, quando era Mestre dos Magos, meras brincadeiras de criança.

Pesquisas experimentais sobre material de mana, um dos elementos essenciais do mundo, eram proibidas em todas as nações. Essa força poderosa era tratada com reverência, e seus segredos eram considerados sagrados; o conhecimento sobre sua verdadeira natureza era reservado apenas aos deuses. Desde tempos imemoriais, profecias alertavam que estudar material de mana a esse nível poderia resultar em calamidades capazes de destruir o mundo.

Agora que Noctus finalmente alcançara o primeiro marco de sua busca pela verdade suprema, ele não toleraria mais nenhum atraso.

— Você sabe bastante sobre os Grieving Souls— comentou Flick, incrédulo. — Então metade deles está fora da capital? Como descobriu isso?

Sophia sorriu.

— Não enfio a cara apenas na pesquisa. Tenho meus próprios olhos, independentes da Torre Akáshica.

O espião na capital fez uma careta ao ouvir isso, mas Sophia não vacilou. Sua confiança foi suficiente para convencer os magos da veracidade de sua informação. A primeira aprendiz, talentosa em tudo, exceto em lançar feitiços, e que nunca hesitava em levar suas pesquisas ao extremo, certamente poderia ter sua própria rede de informantes.

O espião a desafiou:

— Tem certeza de que pode esmagá-los?

Sem se abalar nem um pouco, Sophia respondeu:

— Nosso sistema de defesa foi projetado para derrotar os Grieving Souls— os melhores caçadores de tesouros da capital.

O espião soltou um riso seco e disse:

— Espero que sim... Depois de todo o dinheiro que investimos nisso.

Embora a Torre Akáshica fosse um dos sindicatos de magos mais poderosos, seus fundos não eram ilimitados. O debate sobre quanto investir nesse sistema de defesa havia sido um ponto de discórdia que, mais uma vez, colocara Sophia em oposição aos outros aprendizes.

— A Sombra Partida é uma Ladra — continuou Sophia. — Ela é incrivelmente rápida, mas não muito ofensiva. Podemos neutralizá-la facilmente se nos prepararmos contra ataques físicos. E embora o Mil Truques tenha um número insondável de artimanhas na manga, ele é apenas o cérebro da operação — não será uma verdadeira ameaça sem a equipe completa para concretizar sua liderança; enquanto muitos membros dos Primeiros Passos são caçadores habilidosos, eles não são bons o suficiente para a liderança do Mil Truques.

— Um alívio, de fato — disse Noctus. — Então, devemos ter cautela contra… Sitri.

Pela primeira vez desde o início da reunião, a expressão de Sophia se obscureceu.

Todo Magus experiente na capital conhecia Sitri Smart, a Alquimista que antes era chamada de “A Prodígio”; ela havia sido rebaixada por um crime que não cometeu. Noctus nunca a encontrara cara a cara, mas ouvira histórias sobre seu talento. Sempre sentiu certa simpatia pela Alquimista; talvez, se ela não fosse uma caçadora, ele a teria recrutado para a Torre e juntos teriam conduzido pesquisas.

A hesitação de Sophia elevou a tensão na sala, mas isso durou apenas um instante.

— Ela não será um problema. Sitri pode ser talentosa, mas sua mentalidade é diferente da nossa. O material de mana fortaleceu seu corpo, mas apenas isso. Flick, você acha que uma Alquimista presa às leis do império pode romper um sistema de defesa que eu construí sem essas amarras?

Flick mordeu o lábio de raiva. Como um Magus poderoso e buscador do conhecimento, sabia muito bem que, por mais que superasse Sophia em puro lançamento de feitiços, não chegava aos pés dela quando se tratava de pesquisa. Apesar do protesto de seu coração orgulhoso, sua mente científica admitia isso. Noctus era mais voltado para a pesquisa em Alquimia, e Sophia possuía um talento extraordinário nessa área.

— Então, por que essa cara fechada, Sophia? — perguntou Noctus.

A primeira aprendiz, com seus cabelos e olhos flamejantes, elevou a voz de maneira incomum e disse:

— Mestre! Assim como o Mil Truques, Sitri está começando a perceber nossa existência e nossas pesquisas. Ela está procurando por seu trabalho, começando pela tese que você deixou no império.

Dessa vez, a expressão de Noctus mudou.

Noctus sonhava em controlar o material de mana desde os tempos em que fora membro oficial de uma instituição acadêmica na capital. Na juventude, cometeu o erro de expressar suas aspirações proibidas, o que levou à sua expulsão da capital. Porém, deixara sua tese — o ponto de partida de toda a sua obra — sob a posse da instituição acadêmica; não seria exagero pensar que uma cópia dela estava guardada em algum lugar.

Sophia, em contraste com sua habitual postura de “pesquisadora calculista”, agora ardia de emoção, inspirando medo nos outros aprendizes, que substituía a inveja habitual.

— Ela é minha rival na pesquisa; preciso destruí-la a qualquer custo. Mestre, permita-me utilizar todos os recursos que criamos para eliminar os intrusos.

— Muito bem. Terá carta branca, Sophia, minha aprendiz mais talentosa. Flick, todos vocês, sigam as ordens de Sophia como se fossem as minhas.

— Sim, Mestre! Tudo em busca de sua gloriosa missão — disse Sophia.

Uma alegria irreprimível iluminou sua expressão.


Tradução: Carpeado
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