Nageki no Bourei wa Intai shitai |
Let This Grieving Soul Retire
Volume 02 – Capítulo 02
[Um Pesadelo Persistente]
Tive um pesadelo.
Sonhei que a capital estava em chamas; sonhei que era o fim do mundo.
O céu ardia em um vermelho profundo, e o que o acompanhava era uma cacofonia de gritos. Caçadores, cavaleiros, mercadores e outros moradores corriam desesperados por suas vidas. As ruas largas ficaram abarrotadas de gente tentando fugir da cidade, apenas para serem encurraladas pelas muralhas que deveriam protegê-las. A capital, Zebrudia, era cercada por muralhas, mas suas saídas eram poucas e estreitas demais para a população. A evacuação estagnou à medida que as pessoas se amontoavam nos portões.
Eu assistia a tudo de um cômodo vazio, em algum lugar bem acima do escritório do mestre do clã. De um ponto de vista elevado, eu conseguia ver claramente o estado da capital e a razão do céu arder em chamas. A histórica capital imperial de Zebrudia — que estava se aproximando do seu tricentésimo aniversário — estava submersa em uma água que brilhava em um vermelho intenso.
O líquido viscoso engolfava a cidade meticulosamente planejada como se fosse um tsunami, mesmo sem haver um mar próximo. Além disso, de onde eu estava, dava para ver que o líquido se movia de forma estranha: ele estava perseguindo seres vivos. Dava prioridade a crianças e idosos em fuga, bem como aos cavaleiros que tentavam manter a ordem na multidão. Sem exceção, todos que eram tocados pelo líquido eram envoltos por chamas e consumidos em questão de segundos.
Não havia mais sinal de vida no castelo ao longe. Metade da cidade já tinha virado uma cidade fantasma. Uma cidade com todas as suas estruturas intactas, mas completamente desprovida de vida — nem sequer um corpo — era um presságio sinistro. Talvez ainda houvesse sobreviventes dentro dos edifícios, mas fugir da cidade com as ruas tomadas por essa água em chamas era simplesmente impossível.
A enchente ardente não mostrava sinais de recuar. Pelo contrário, parecia subir cada vez mais. Logo, aquela maré incandescente transbordaria os muros da cidade e engoliria o mundo inteiro.
Foi então que percebi o que estava devastando a cidade. Eu conhecia aquilo.
Aquilo não era água. Aquilo era uma criatura.
Era uma criação insana baseada na espécie mais fraca de monstros deste mundo — a coisa que eu tinha sido avisado para lidar com cuidado, mas que (talvez) eu tivesse libertado por acidente.
Uma garota estava ao meu lado, observando a cidade assim como eu. Seus olhos levemente caídos transmitiam uma impressão gentil, e seu rosto era emoldurado por cabelos curtos e rosados. Ela usava uma túnica cinza sem qualquer detalhe chamativo, mais parecendo um avental do que um dos trajes encantados que os Magos usavam ao explorar cofres de tesouro.
A garota olhou para cima com os olhos arregalados, como se só agora tivesse percebido minha presença. Apesar do apocalipse que se desenrolava abaixo, sua expressão estava relaxada.
Ela falou como se estivéssemos apenas batendo papo, mas sua voz era tão distorcida que eu não conseguia entender nada do que dizia. Ainda assim, seus olhos brilhavam de empolgação.
Tentei desesperadamente impedi-la, mas minha voz falhou. A angústia e o desespero tomaram conta de mim. Agarrei seus ombros, mas tudo o que ela fez foi me lançar um sorriso tímido antes de me abraçar.
Isso não foi um elogio!
Segurei-a pelos ombros e a afastei de mim. Com todas as forças, a sacudi enquanto ela assistia ao seu slime com enorme satisfação—
Então, acordei.
Me levantei de um pulo na cama, no meio de um quarto escuro, sentindo meu corpo inteiro estremecer. Meu dorso estava encharcado de suor frio, e meu coração martelava dentro do peito. Pesadelos eram comuns para um neurótico como eu. Mas esse… esse foi o pior em muito tempo.
Que sonho horrível. E foi tão realista, principalmente a parte em que ela me abraçou.
Respirando fundo e devagar, tentei me lembrar de que a capital não cairia tão fácil assim. Zebrudia era um império poderoso, com uma ordem de cavaleiros invicta, uma unidade mágica com centenas de Magos e uma legião de caçadores poderosos, tanto ativos quanto aposentados, baseados na capital. Além da sua força militar, o império também liderava o mundo em pesquisa e tecnologia, sendo a superpotência indiscutível da região. Cercada por uma rede de cofres de tesouro perigosos, a capital era, sem dúvidas, a cidade mais bem protegida do mundo. Nenhum país vizinho teria como lidar com uma calamidade capaz de destruir o coração do império.
O que significa que, se isso realmente acontecesse… estaríamos todos ferrados.
Tentei balançar a cabeça para espantar as lembranças do pesadelo, mas, por algum motivo, elas estavam mais vívidas do que o normal.
— Não tem como isso acontecer. Nunca tive um sonho que virou realidade antes.
— O que foi? — chamou uma voz sonolenta à minha esquerda.
Achei que estava sozinho.
Me virei para a direção da voz e encontrei Liz sentada ali, como se aquela cama fosse dela. Não pude evitar franzir a testa ao ver alguém que se parecia tanto com Sitri, a garota do meu pesadelo. Afinal, elas eram irmãs. E apesar de terem várias diferenças, como o comprimento do cabelo, o formato dos olhos, a altura, o tamanho dos seios e até o tom de pele, se realmente quisessem, poderiam se passar uma pela outra — e eu sabia disso por experiência própria.
Liz me lançou um sorriso sem vergonha e disse:
— Bom dia, Krai Baby. Sonhou comigo?
Ela se espreguiçou dentro de sua camisola fina e folgada e se agarrou ao meu braço, enquanto meu coração ainda batia acelerado. A temperatura do seu corpo era bem mais alta que a minha, então seu abraço só me fez suar ainda mais.
Identifiquei a fonte do meu pesadelo: ela com certeza não estava aqui quando fui dormir.
Liz sempre teve essa mania irritante de invadir minha cama. Pensei em reclamar, mas falar do pesadelo não parecia algo muito produtivo.
Enquanto eu ficava em silêncio, as pernas dela se enroscaram nas minhas, e então senti uma sensação gelada quando sua tornozeleira tocou minha pele. Era a Apex Roots, a Relíquia de Liz, em seu modo inativo. Sua Relíquia era uma bota mágica que, quando não usada, se transformava em um anel de metal. Liz dizia que seu lema era "nunca pare de lutar", então ela usava sua Relíquia o tempo todo — no banho, enquanto dormia, sempre. Só o tirava por pouquíssimos momentos do dia.
Um doce perfume vindo da Liz me fez cócegas no nariz. Seus braços abraçavam os meus, seus seios pressionavam contra mim, e suas pernas esguias se esfregavam na minha pele quente. O prazer sutil dessa sensação provocava algo no fundo da minha mente. Por um segundo, quase parecia que ela era uma garota sofisticada ou algo assim. Pena que seu hobby era destruir os homens que caíam nessa armadilha.
Enquanto eu tentava controlar minha respiração, Liz sussurrou no meu ouvido:
— Quer sair comigo hoje, Krai Baby?
— E o treino da Tino?
— Bom, se eu forçar demais, ela pode quebrar. Então hoje é folga pra ela.
— E o seu treino? — perguntei.
Liz já havia dominado todos os ensinamentos de sua mentora e herdado o título de Sombra Partida, mas ela era uma trabalhadora incansável. Normalmente, ficava ocupada na capital treinando com Tino e se dedicando ao próprio aperfeiçoamento.
Ela sorriu de um jeito bobo.
— Hoje também é meu dia de folga!
Ela tinha certeza? Bem, não era meu lugar contestar.
Eu não sabia quais eram seus planos, mas me sentia seguro saindo do prédio com ela como minha guarda-costas. Não que eu tivesse algo melhor para fazer, de qualquer forma. E não era a primeira vez que ela me arrastava para dar uma volta pela cidade.
Desde que parei de explorar cofres com o resto do grupo, comecei a sair mais com ela. Ser um bom líder de equipe significava passar tempo com seus companheiros fora do trabalho também. Bem, no meu caso, era a única opção. Então, eu não queria decepcionar Liz quando ela chamava. Além disso, pelo menos quando estávamos passeando, não havia risco dela enlouquecer de repente.
Resolvi afastar aquele pesadelo infundado da minha mente. Era só isso: um pesadelo. Um fruto do aviso desnecessariamente enigmático de Sitri, somado ao fato de Liz praticamente me sufocar. Sério, o que eu poderia fazer em relação a isso?
— Certo, eu ando com você — respondi.
Liz soltou um gritinho e enterrou o rosto no meu peito.
— Obrigada, Krai Baby!
Acariciando a cabeça da minha amiga exageradamente carinhosa, soltei um suspiro discreto.
Vesti-me e desci para o térreo da casa do clã com Liz, justamente quando um rosto familiar entrou pela porta da frente.
Lá estava ele: um gigante careca que qualquer caçador da capital reconheceria à primeira vista — Gark. Ele vestia o uniforme da Associação, e aquilo não poderia lhe cair pior.
Ele me avistou na hora.
Tive que fazer um esforço consciente para esconder minha apreensão. Pela minha experiência, quando Gark batia à minha porta, significava uma de três coisas: algum grande problema estava surgindo, eu havia cometido um erro terrível, ou aquele era um péssimo momento para recusar seu chamado. Nenhuma dessas opções era exatamente uma boa notícia para mim. Como ele estava acompanhado de Kaina e mais dois oficiais da Associação, com certeza não viera apenas para uma conversa amistosa.
— Krai Baby está bem ocupado hoje! — disparou Liz antes que eu pudesse abrir a boca. — Então não perde nosso tempo com qualquer besteira que veio trazer! A gente não vai limpar a bagunça de caçadores fracotes que já deviam ter batido as botas faz tempo. Cai fora.
No rosto dela havia um olhar tão feroz que teria feito a maioria dos monstros recuarem. Um segundo atrás, ela estava perfeitamente tranquila, e agora já estava pronta para morder antes mesmo de Gark dizer uma palavra. Não importava se Gark era o gerente da associação à qual ela pertencia, ou se fosse um nobre, um cavaleiro, um guerreiro experiente ou alguém que ela conhecesse bem — sua atitude continuaria a mesma.
Liz, embora tivesse escolhido uma roupa toda preta como de costume, vestia algo bem mais casual do que o normal: em vez de seus shorts apertados, usava uma saia, tinha o cabelo solto e não carregava nenhuma arma. No entanto, sua bota prateada Relíquia permanecia nos pés, e ela batia o chão impaciente com ela.
Gark franziu a testa diante da pequena berserker e disse:
— Liz? Você não devia estar no Palácio da Noite? Já te falei para me relatar depois de explorar cofres de nível 7 ou superior.
Depois de anos lidando conosco, eles sabiam muito bem como era irritante lidar com Liz de mau humor, e isso ficava claro pelo modo como Kaina e os outros dois oficiais empalideceram. Não era uma boa hora para discutir.
A Associação dos Exploradores era uma organização gigantesca. E, para manter os caçadores sob controle, muitos de seus oficiais eram ex-caçadores — Gark Welter não era exceção. Na verdade, ele já havia sido um caçador de nível 7 que devastava cofres com sua fiel alabarda; seu apelido — Demônio da Guerra — ainda era sussurrado com temor por aqueles que o conheciam na época. Embora seus dias de glória na linha de frente tivessem ficado para trás, ele ainda conseguia enfrentar a maioria dos caçadores atuais.
Para ser mais específico, quando nós, os Grievers, chegamos à capital, Gark, que já era gerente do ramo na época, nos deu uma surra coletiva. Foi assim que fomos iniciados na caça ao tesouro na capital. Luke e Liz eram relativamente cooperativos com Gark, em parte, por conta dessa experiência. Brutos se entendem. Mas isso já fazia quase cinco anos.
— Vocês sempre precisam do Krai Baby para carregar vocês, né?! A gente paga aquela taxa absurda toda vez. Se virem sozinhos! — Liz continuou a resmungar para Gark.
Para um observador desavisado, uma garotinha (ainda por cima vestida casualmente) tentando intimidar um brutamontes como Gark poderia parecer apenas uma criança fazendo birra. Mas a expressão de Gark permaneceu tensa. Se eu estivesse no lugar dele, meus dentes estariam batendo. Definitivamente, ele tinha coragem.
— Espera. Se você está aqui, a Sitri voltou? — perguntou Gark.
— Não! Você está atrapalhando o nosso encontro. Some!
Com um único chute de Liz, Gark voou pelo salão. Derrapando pelo chão de mármore caro, acabou derrubando alguns vasos de plantas.
Eu só conseguia rir da rapidez absurda com que Liz entrava em brigas. Ela começava lutas mais rápido que qualquer outro caçador ou até mesmo bandidos que já encontrei.
Gark descruzou os braços que usara para bloquear o golpe e se levantou lentamente. Mérito para ele por praticamente ter ignorado um chute de uma das poucas caçadoras que enfrentavam cofres de nível 8. Mas, apesar de seu movimento controlado, sua expressão havia se transformado em algo demoníaco — lembrando bem seu apelido.
E mais, Gark agora estava pronto para brigar. Ele não teria durado como gerente da Associação se fosse do tipo que aceitava um golpe sem revidar. Então, de seu cinto, ele sacou uma adaga que parecia mais uma espada curta nas mãos de Liz.
— Agora você vai se arrepender, Liz. Você finalmente esgotou minha paciência imensa.
Como se fosse imensa. Ela já era fina como papel desde o começo.
Liz curvou os lábios, os olhos brilhando em desafio, enquanto sua pele bronzeada ficava ainda mais avermelhada. Eu mal tinha conseguido apagar o incêndio, e agora as chamas estavam rugindo de novo.
Por que vocês são tão violentos? Não dá pra todo mundo se dar bem?
Eles iam destruir a casa do clã de novo. E adivinha quem ia ter que aturar as broncas da Eva depois? Eu.
Kaina e os outros oficiais pareciam estar tentando encontrar o momento certo para intervir—mas esse navio já tinha zarpado. Poderíamos ter mil normais como nós do nosso lado e ainda assim não teríamos a menor chance de impedir dois malucos de trocarem golpes. Olhando ao redor do saguão, vi que todos os membros do clã que estavam ali já haviam evacuado.
Virei as costas para os malucos e perguntei aos oficiais da Associação:
— Querem subir e tomar um chá?
Liz estava vestida para um passeio, ou seja, desarmada, e nem queria matar Gark de verdade. Ele provavelmente sobreviveria.
Os sons vindos de baixo continuavam, fazendo o vidro da minha janela tremer.
Estranho. Muitos terremotos hoje, pensei comigo mesmo. Decidi ignorar e continuar minha conversa normal com Kaina e os outros oficiais.
Para falar a verdade, eu sentia que Kaina e eu éramos almas gêmeas no sentido de que ela também tinha que lidar com um gerente de filial aterrorizante e violento. Por isso, sempre me sentia confortável conversando com ela.
— Sua recepcionista é muito fofa — comentei brincando. — Onde encontrou ela? Queria ter uma garota assim na recepção do meu clã.
Tirei muita inspiração da Associação na hora de estruturar meu clã. Eva só veio trabalhar comigo porque eu revirei a cidade inteira procurando alguém como Kaina e supliquei até ela aceitar. O que a Primeiros Passos precisava agora era de uma recepcionista bonita. A filial da Associação em Zebrudia era famosa por sua recepcionista, que sempre era animada e educada, mesmo com caçadores assustadores ou imundos... ou quando eu aparecia pela milésima vez para responder uma convocação do Gark. Apostava que essa garota (cujo nome eu nem sabia) era uma peça fundamental para manter a filial funcionando sem problemas. Todos os homens têm uma fraqueza em comum: garotas fofas. Caçadores não eram exceção.
Kaina riu um pouco.
— Você quer dizer a Chloe? Ela é sobrinha do Gark.
— Ah — murmurei. — Então genética é um mito, afinal.
A ideia de que aquela garota simpática fazia parte da árvore genealógica do Demônio da Guerra era perturbadora. Mas, pensando bem, talvez ela fosse tão boa em lidar com caçadores justamente porque já tinha bastante prática com Gark.
Suspiro. Então eles conseguiram essa recepcionista através de nepotismo.
Depois de quebrarmos o gelo com um pouco de conversa fiada, perguntei a Kaina o motivo da visita deles. Pelo visto, para meu desespero, Gark estava sob a ilusão terrível de que eu tinha alguma informação sobre as mudanças na Toca do Lobo Branco. Mas, infelizmente para ele, eu não sabia de nada. Não tinha feito suposições e nem planejava fazer, porque dessa vez isso não era culpa minha! Eu só tive um gostinho do novo cofre por puro azar. Mas, como já tinha concluído a missão na qual fui pressionado a entrar, qualquer pesquisa adicional caía na responsabilidade da Associação e do império.
Gark não era o único, mas ele superestimava minhas habilidades de um jeito absurdo. Eu só tinha chegado ao Nível 8 por pura sorte. Se parassem para pensar por um segundo, perceberiam que, sem conhecimento útil nem habilidades, não havia chance de eu saber mais do que os especialistas do império ou da Associação tinham descoberto com suas pesquisas.
Não. É. Problema. Meu.
— Parece complicado. Então não tem nada a ver com as linhas ley? — comentei preguiçosamente, mas Kaina pareceu surpresa.
Eu sabia que as linhas ley eram como artérias no solo e que qualquer anomalia nelas era inconfundível para um especialista, mas esse era o limite do meu conhecimento—esse tipo de coisa era mais a área da nossa Alquimista, Sitri.
Os Alquimistas eram considerados uma mistura de Magos e estudiosos: dominavam as leis do universo e as manipulavam para produzir efeitos desejados. Alquimistas eram raros entre aventureiros porque não tinham poder de ataque como os Magos, que podiam usar suas vastas reservas de mana interna, e porque precisavam de muito conhecimento, experiência e itens raros para atingir seu verdadeiro potencial. Por outro lado, Alquimistas eram extremamente confiáveis em momentos de crise como este.
Sitri se destacava entre seus colegas porque tinha muita experiência prática mergulhando em cofres do tesouro. E, apesar de ter algumas peculiaridades, também ocupava um cargo no instituto acadêmico do império. Ela, uma Alquimista brilhante que havia ganhado o apelido de "A Prodígio", era, sem dúvidas, o cérebro por trás da Grieving Souls. Apesar disso, era tão reservada e respeitosa que eu nunca teria imaginado que ela era irmã da Liz se não as conhecesse tão bem.
Ah, e vale mencionar que gerar criaturas mágicas como slimes era uma das especialidades de um Alquimista. Pena que ela não era tão boa em mantê-los seguros.
Mas, infelizmente para nós, ela ainda não tinha voltado para a cidade.
— Tem alguma coisa que você tenha notado? — insistiu Kaina.
Sem sorte. O medo de encarar um cofre do tesouro depois de tantos anos e o pânico trazido pela aparição surpresa da Liz me deixaram com pouca memória do lugar, que dirá de qualquer pista útil. Afundei na cadeira e tentei lembrar dos acontecimentos no cofre, mas nada—se houvesse algo estranho, eu teria percebido.
— Bom, nada demais — respondi. — Passei o dia preocupado com outra coisa...
Droga.
— Outra coisa? — Os olhos castanhos de Kaina me encararam com curiosidade.
Eu estava tão preocupado com o paradeiro daquele Slime da Sitri que não tinha dado a mínima para as mudanças no cofre; até agora, meu pesadelo da noite passada ainda se repetia na minha cabeça. Não que eu tivesse chance de descobrir alguma coisa sobre o estado anormal do cofre se tentasse, mas, se pudesse escolher, preferia procurar aquela maldita gosma do que fazer esse tipo de pesquisa.
— Não pode nos contar? — perguntou Kaina, genuinamente interessada.
Eu preferia morrer a admitir que tinha perdido uma criação da Sitri, logo da Sitri, ainda mais depois de ela me avisar para tomar cuidado com aquilo.
Quer saber? Eu não perdi o Slime da Sitri. Isso é só um grande mal-entendido. Estou me enganando à toa, decidi.
Entrelaçando os dedos, encarei minhas mãos de um jeito que parecia que eu estava refletindo profundamente. Um Caçador de Nível 8 carregava muitos segredos consigo.
— Não posso. Não agora. Tem ouvidos por toda parte — respondi, tentando despistá-la. Me senti péssimo com isso.
— Você quer dizer... — Os oficiais atrás de Kaina se enrijeceram.
Não suportava olhar para eles, então me levantei e virei de costas.
Olhe pelo lado bom, pensei. Talvez deixar isso escapar pudesse acabar me beneficiando: poderia ser uma desculpa para recusar o pedido do Gark. Como qualquer atividade irregular em cofres de tesouro afetava toda a comunidade de caçadores, eu estava totalmente disposto a fazer com que a Primeiros Passos cooperasse com os esforços de pesquisa. Mas agora eu poderia me livrar do trabalho pesado, o que significava que não precisaria arriscar minha vida nem minha sanidade no processo. A Associação não perderia tempo interpretando mal meus comentários desinformados, e passar um tempo com a Liz em vez de focar nessa pesquisa a deixaria satisfeita por um tempo — um arranjo em que todos saíam ganhando.
— Estou meio ocupado no momento — acrescentei —, mas minha guilda está à disposição para ajudar. Sei que o Ark é a melhor escolha para o trabalho; assim que ele voltar, pedirei que auxilie na pesquisa.
— Obrigada... pela cooperação — disse Kaina, mantendo o olhar baixo.
Me perdoe, Kaina. Não há nada que eu possa fazer. Meu conhecimento mais especializado se resume a uma lista dos melhores sorvetes da capital.
Quase me sentia mal por ser um Caçador de Nível 8, mas foram eles que me deram esse ranque em primeiro lugar. Além disso, estava oferecendo o Ark como um pedido de desculpas pela minha incompetência. Aquele cara brilhante e multitalentoso poderia resolver a maioria dos problemas, eu tinha certeza. Mas só para deixar claro: eu o estava emprestando, ainda precisava dele de volta.
Vendo que os oficiais ainda pareciam desanimados, tentei consolá-los.
— Não precisam se preocupar tanto. Se não houve mudanças nas linhas de energia, não vai demorar para que tudo volte ao normal.
O fluxo do mana e todos os aspectos ligados a ele (como a evolução dos espectros) eram uma força da natureza. Nós, meros mortais, podíamos fazer muito pouco a respeito.
Gark mal conseguia acreditar que os movimentos da garota não eram algum tipo de magia. Sua concentração extrema fazia cada segundo parecer vários; mesmo assim, ele não conseguia reagir rápido o suficiente, muito menos desviar dos ataques. Com toda a sua força, ele apenas conseguia bloquear os golpes da Liz por um fio, apesar de ela não usar feitiços nem portar armas. Seus únicos meios de ataque eram impulsos e chutes — mas a velocidade era absurda. A maioria dos Ladinos era ágil, mas, em todos os seus anos como caçador e gerente da filial da Associação, Gark raramente havia visto um caçador tão veloz.

Sombra Partida era o codinome de um caçador que já fora conhecido como o Ladino mais rápido da capital. Quando Gark ouviu que Liz havia herdado esse título depois de apenas alguns anos de treinamento, ele riu, incrédulo. Agora, a garota se movia pelo menos tão rápido quanto o antigo Sombra Partida.
Metal deslizou pelo chão, deixando um rastro de fumaça pelo atrito. Liz havia parado bruscamente de sua velocidade máxima num instante.
— Hmm, você amoleceu, Gark — disse ela, sem o menor traço da raiva de antes. — Isso é o que acontece quando você passa o dia todo encostado na mesa.
— Até parece! — grunhiu Gark, engolindo a reclamação. Eu não fiquei mais fraco. Você ficou mais forte.
Seu corpo implorava por ar fresco. Escondendo a respiração pesada, Gark lançou um olhar furioso para Liz, que exibia toda a sua falta de respeito.
Embora não fosse sua arma preferida, Gark tinha treinado com a adaga até certo ponto. Mas a lâmina sequer serviu para limitar a mobilidade de Liz, muito menos deixou um arranhão nela. Era como se Liz nem visse a adaga em sua mão. Cada membro de Gark doía ao bloquear os ataques da garota, onde cada golpe parecia chacoalhar seus ossos, apesar de serem desferidos por seus braços finos. Se um golpe direto acertasse, ele poderia ser nocauteado. Gark não podia deixar que uma simples caçadora o humilhasse, mas, mesmo assim, Liz tinha claramente a vantagem.
Enquanto Gark mantinha sua guarda alta, Liz parecia relaxada, como se aquilo não passasse de um simples aquecimento. Ela estava mais forte do que nunca, carregada com a mana material que havia absorvido do Palácio da Noite, um cofre de nível 8—era a maior quantidade de mana interna que ela já teve. Em contraste, Gark estava longe dos cofres há anos. Ele era muito maior que Liz fisicamente (embora seus braços fossem longos para seu porte, Gark ainda tinha um alcance muito superior), mas ela transbordava a energia típica de caçadores ávidos, que nunca paravam de explorar os cofres.
Depois de enfrentá-la, Gark tinha certeza de que não conseguiria acertá-la nem mesmo se aceitasse levar um golpe direto para tentar um contra-ataque: Liz simplesmente sairia do alcance antes que sua lâmina pudesse atingi-la. A diferença de força que antes os separava quando os Grievers chegaram à capital agora estava completamente invertida. Gark já esperava que os Grievers ficassem dramaticamente mais fortes após explorar cofres de alto nível, mas sentir isso na pele enquanto enfrentava Liz fazia seu coração arder.
Liz bateu as botas no chão, zombando do Demônio da Guerra.
— Você precisa se exercitar, Gark. Engordou? Qualquer caçador por aí poderia te vencer desse jeito — disse Liz, olhando para ele como se estivesse diante de um homem à beira da morte.
— Chega! — gritou Gark, rangendo os dentes como se tentasse quebrá-los. Nem todo caçador na rua é um Griever! ele queria gritar. Eu sei que estou enferrujado, mas ainda estou no nível de um caçador nível 5!
Ele finalmente chegou ao limite. Por um momento, até considerou um golpe abaixo da cintura: rebaixar Liz de nível. Mas fazer isso por despeito seria um abuso de poder ridículo.
Liz sorriu e disse:
— A porta está logo atrás de você. Fiquei com pena de ver o quanto você ficou fraco, então vou deixar você sair andando. Viu? É assim que se espalha gentileza, não ódio.
Por um instante, Gark não processou o que Liz disse; no seguinte, só conseguia ver vermelho. A raiva borbulhou em seu estômago—uma sensação que não sentia há tempos—e ele apertou o cabo da adaga até ouvir um estalo.
Gark era um caçador da classe Guerreiro, um mestre em todas as armas. Uma das técnicas que dominava era canalizar sua raiva explosiva em força bruta, uma habilidade que foi crucial para que ele conquistasse seu título. Fazia muito tempo que não a usava, mas, aparentemente, seu corpo ainda lembrava.
— Hora da lição de vida, sua fedelha — disse ele, sua voz trovejando como se viesse das profundezas do inferno.
Liz bufou:
— Não, obrigada. Eu não sou boa com cuidados a idosos. Você tem que pedir isso pra Kaina.
Agora, vários caçadores da Primeiros Passos observavam o embate com interesse, e uma multidão curiosa começava a se formar do lado de fora.
Gark ainda reconhecia a diferença gigantesca entre os níveis de força dos dois, mas não ia deixar Liz sair impune sem pelo menos acertar um golpe.
O cabo de sua adaga se despedaçou em sua mão, e sua única arma caiu no chão. Mas Gark não se importou e deu um passo para frente, se aproximando de Liz.
Foi então que uma voz lânguida chamou:
— Vocês ainda estão nisso? — perguntou Krai. — Olha essa bagunça. Já resolvemos tudo lá em cima. Então, aqui, Gark, se acalma.
O timing dele era bom demais.
E, para piorar, Gark nem havia notado Krai saindo da sala, mas agora ele descia as escadas junto de Kaina, soltando um suspiro.
Liz, que manteve sua atenção em Gark durante toda a provocação, largou sua postura combativa e saltou para cima de Krai.
— Ei, Krai Baby, o Gark aqui simplesmente não quis ouvir a razão...
— Vamos ter que contratar reparos — continuou Krai.
Enquanto isso, Kaina se aproximava de Gark, visivelmente tensa. Ao ver a expressão de sua oficial, Gark finalmente relaxou. Ele respirou fundo, sentindo a dor pelo corpo todo começar a reaparecer. Não havia nenhum ferimento sério, mas ele suspeitava de algumas fraturas.
Gark franziu a testa, já temendo um sermão de Kaina—aparentemente, ela tinha completado o objetivo deles enquanto ele e Liz se enfrentavam. De qualquer forma, ele tomou uma decisão: iria treinar até recuperar a forma. Nunca mais deixaria uma caçadora pirralha ridicularizá-lo daquele jeito.
Os Grievers tinham muitos inimigos: isso se devia, em grande parte, ao fato de Luke e Liz iniciarem brigas por onde passavam. Eles eram capazes de viajar dias só para desafiar um mestre espadachim ou exterminar um grupo de bandidos que tivesse derrotado um batalhão de cavaleiros. Não era difícil imaginar o quanto eram um incômodo, já que não se curvavam a ninguém. Nossa reputação já não era das melhores, mas, se não fosse pelo apreço geral dos caçadores por força, provavelmente já teríamos sido expulsos da capital por causar tanta confusão.
Com um nome de grupo tão sinistro, também éramos alvos ocasionais de ataques por sermos confundidos com bandidos ou com um grupo fantasma, caçadores que aceitavam missões não exatamente legais. Esses mal-entendidos eram mais raros na capital agora, mas os outros Grievers ainda diziam que passavam por isso ao viajar para regiões mais afastadas.
— O tempo é cruel, não é? Gark caiu muito — disse Liz, andando ao meu lado. Mas não havia zombaria em sua voz. Ela pode ter provocado ele para fazê-lo explodir de raiva, mas agora parecia quase decepcionada por ter perdido um rival à altura.
— Não acho que ele tenha decaído — eu disse. — Não é justo compará-lo com você, que ainda está na ativa.
— Sim, senhor.
Gark definitivamente não era fraco. Eu já o tinha visto apartar brigas de caçadores bêbados, espancando ambos os lados, e seu rosto continuava assustador como sempre. Mas era inevitável que um caçador perdesse força depois de se afastar dos cofres — até mesmo Liz, com toda sua confiança, um dia perderia parte de sua força.
Esse era um dos motivos pelos quais muitos caçadores se mudavam ao se aposentar. A maioria dos caçadores de tesouros que também trabalhavam como mercenários ou caçadores de recompensas acumulava inimigos ao longo da carreira. Enquanto estivessem fortes, isso não era um problema, mas o que aconteceria conforme perdessem a força? Eles não podiam correr o risco de serem atacados por velhas rixas quando estivessem vulneráveis.
Mas alguém como Liz nunca recuaria de uma luta. Enquanto o restante dos Grievers não tinha planos de se aposentar tão cedo, eu já vinha pesquisando alguns lugares para onde gostaria de me mudar quando chegasse minha hora.
Então, mais uma vez, percebi que Gark parecia furioso demais para ter recebido apenas uma provocação de Liz. Eu achava que ele já estava acostumado com o jeito impossível dela, mas talvez tenha chegado ao seu limite. Gark também tinha um lado competitivo — talvez ele estivesse indo para um cofre neste exato momento.
Liz e eu continuamos andando pelas ruas da capital, conversando enquanto caminhávamos. Apesar da aparente turbulência que assolava a Associação, a cidade em si parecia tão pacífica quanto sempre fora. No meio daquela tranquilidade, a roupa reveladora de Liz contrastava com suas botas metálicas e chamava muita atenção. Mas, como sempre, ela parecia completamente indiferente aos olhares e estava perfeitamente à vontade. Se ao menos ela fosse sempre tão tranquila assim.
Estávamos discutindo sobre a última caça ao tesouro dos Grievers no Palácio da Noite. Alguns cofres raramente eram explorados pelos caçadores por diversos motivos: localização difícil, terreno complicado, fantasmas poderosos, relíquias muito específicas, e assim por diante. Com o tempo, o acúmulo excessivo de mana nesses cofres os tornava extremamente perigosos. O Palácio da Noite era um desses casos — um castelo de nível 8 protegido por uma grande variedade de fantasmas. Aparentemente, ele era baseado em mitologia, o que explicava a diversidade de criaturas. No entanto, a dificuldade de se preparar para enfrentar tantos monstros desafiadores e sua localização remota faziam com que o cofre fosse ainda mais evitado do que a Toca do Lobo Branco. Enquanto a Toca era ignorada por não ser lucrativa, o Palácio da Noite era temido por sua dificuldade.
Nenhum caçador tinha conseguido explorá-lo com sucesso, e praticamente não havia informações sobre o lugar. Alguns caçadores, atraídos pelos rumores sobre suas relíquias, chegaram a ir até lá, mas desistiram só de olhar para o cofre de longe.
Fiquei apavorado quando os outros Grievers mencionaram o Palácio da Noite como seu próximo alvo, mas não tive coragem de impedir seu caminho rumo à glória. Eu era o líder do grupo, então a decisão final era minha. Talvez eles não tivessem ido se eu tivesse tentado impedi-los, mas como eu poderia sabotar sua busca por heroísmo? Além disso, Liz voltou são e salva, provando que fiz a escolha certa ao deixá-los ir.
Liz contou suas aventuras com mais empolgação do que o normal, mencionando uma impressionante variedade de fantasmas. Eu reconheci os mais famosos, como dragões e grifos, mas alguns nomes não significavam nada para mim. Squonks? Jaculis? Que tipo de criaturas eram essas?
— Sitri disse que eles podem ter vindo da lenda do Lorde Sombrio Graps. Havia muitos fantasmas humanóides inteligentes também, então parecia uma mistura de lendas. Eu não esperava nada tão grandioso, já que estávamos dentro de um castelo, mas havia uma fenda no espaço-tempo...
— Sério? Eles eram fortes? — perguntei, segurando a enxurrada de perguntas que queria fazer.
O Lorde Sombrio Graps era um tirano que supostamente governou o continente há milhares de anos. Segundo a lenda, ele controlava inúmeras bestas e criava criaturas proibidas por meio de rituais sombrios. Isso aconteceu muito antes do império ser estabelecido, mas sua influência ainda era visível nos fantasmas que lembravam seus servos e que apareciam em cofres por todo o continente. Resumindo, ele não era muito querido pelos caçadores.
Liz tocou os lábios pensativa, depois abriu um sorriso e disse:
— Hummm... Os mais fortes que já enfrentamos? Acho que fazem jus ao nível 8. As bestas de Graps são difíceis de lidar — aposto que eram muito mais fortes do que as dos contos. Ataques físicos quase não surtem efeito contra elas, e elas andam em hordas... Para ser sincera, eu já estava ficando de saco cheio delas. Pelo menos conseguimos fugir.
Então por que você parece tão feliz com isso?
Eu não conseguia imaginar o quão perigoso um fantasma deveria ser para até mesmo Liz — cuja força já era incompreensível para mim — dizer que estava cansada dele. Ela era capaz de pegar balas no ar e ainda assim teve dificuldades contra eles?
— Como eles se comparam ao chefe da Toca do Lobo Branco? — perguntei.
Aquele cavaleiro lobo com um crânio humano se destacava mesmo no cofre revitalizado, conseguindo deter um grupo liderado por um caçador experiente de nível 5. Eu não o enfrentei diretamente, já que Liz chegou bem a tempo de me salvar, mas só de lembrar daqueles olhos brilhando através da máscara de crânio eu já sentia vontade de me aposentar.
Liz parou de andar e franziu a testa, refletindo por mais de dez segundos antes de dizer, meio sem graça:
— Tinha um chefe?
— Ah. Verdade.
— Desculpa, desculpa! Eu acredito em você, Krai Baby. Se você diz que tinha um, então devia ter. É só que... não lembro muito bem do lixo que tinha lá dentro. Só lembro do quão patético a T foi e de algumas peças de lixo que não sabiam o seu lugar.
Comparado aos fantasmas de nível 8, até mesmo aquele chefe não valia a pena ser lembrado, aparentemente. Pelo visto, nunca mais haveria uma caçada em que eu pudesse acompanhar os Grievers. Eu não estava chateado com isso, nem arrependido de ter criado um clã e me afastado das caçadas. Mas sentia um leve pesar ao perceber que a diferença entre nossas avaliações de cofres e fantasmas havia se tornado tão grande.
Liz percebeu minha expressão e segurou minha mão.
— Mas sabe! Esses lixos vêm com todo tipo de arma. Seriam ótimos para o treinamento da T! Eu queria que eles tivessem ataques não físicos também, mas não acha que seriam úteis para ela?
— Aham. — Eu realmente não me importava com isso.
— Certo? Vou levar ela lá da próxima vez. Quando você treina com humanos, eles sempre pegam leve. Não é um treino de verdade se sua vida não estiver em jogo, né?
Droga. Eu devia ter discordado. Agora a Tino estava condenada a uma série de treinos de vida ou morte. Vou ter que compensar isso levando ela para tomar um sorvete algum dia.
Com Liz me guiando, caminhar pela cidade de mãos dadas me fez relaxar pela primeira vez em um bom tempo—devíamos parecer um casal comum.
Liz era uma caçadora feroz e curiosa, que amava lutar. Mas sempre que saía comigo, preferia lugares típicos para passeios: lojas de roupas, joalherias e cafés. Ela não gostava de ir a bares, lojas de armas e nem mesmo de pescar atacantes caminhando por becos abandonados. Eu suspeitava que até mesmo Liz se cansava do estresse dos treinos e das incursões em cofres de tesouro de vez em quando. Talvez essa fosse a forma dela de recarregar as energias.
Quando os Grieving Souls saíam para caçar, nós dividíamos os lucros igualmente entre os membros, depois de descontar os custos dos suprimentos. Mas como Liz raramente queria muitas coisas, ela era cheia da grana—diferente de mim, que sempre torrava minha parte em Relíquias.
Liz usava uma pequena bolsa de couro presa ao cinto, que servia como carteira, e estava abarrotada de moedas. Sua bolsa cheia contrastava fortemente com a minha carteira. A minha só continha cinco medalhões de ouro imperial (equivalentes a quinhentos mil gild), que a Eva me deu para emergências, e meros dez mil gild do meu próprio dinheiro.
Era meio refrescante ver Liz comprando roupas e joias caras. O único problema era que eu sempre hesitava em responder quando ela perguntava se alguma roupa ficava bem nela. No fim das contas, não era tão ruim. Eu não entendia nada sobre as roupas caras que ela escolhia, mas todas pareciam ótimas nela. Eu queria poder comprar algumas para ela, mas só se houvesse dois zeros a menos no preço... Eu não poderia muito bem usar o fundo de emergência do clã, poderia?
Durante nosso passeio, fiquei atento a qualquer sinal do Slime Sitri, mas não havia nenhum indício dele. As pessoas comentavam sobre a estrada ao norte estar fechada, mas, considerando a linha do tempo, as mudanças no cofre e o aparecimento dos fantasmas na estrada aconteceram antes de eu perder o slime—não havia como isso ter sido culpa minha.
— O que foi, Krai Baby? Você parece meio abatido — disse Liz, preocupada, embora eu achasse que não estava demonstrando meu medo.
Me senti mal por estar deixando todos preocupados comigo. Então, depois de alguns momentos, perguntei com cautela:
— Liz, se, hipoteticamente, toda Zebrudia desmoronasse, o que você faria?
Liz poderia ter encarado a pergunta como uma piada, mas respondeu rapidamente sem questionar:
— Iríamos fugir juntos.
Bom, não podíamos fazer isso.
— Talvez para algum lugar tropical. Eu adoraria ver o oceano. Nunca vi.
Ela parecia muito otimista para alguém falando do possível fim do império. Ainda assim, ver Liz sonhando com uma viagem tropical aliviou um pouco do meu estresse.
Eu faria o que pudesse. Mas se isso não fosse o suficiente, talvez fugir como Liz sugeriu não fosse uma má ideia. Ver o oceano não parecia tão ruim.
— Você não pode correr debaixo d'água, sabia? — comentei.
— Como você sabe?
Fácil. Leis da física.
— Dizem que existem cofres no fundo do mar — continuou Liz. — Devem ser lindos. Vou ter que descobrir como respirar debaixo d'água. Ooh, e eu adoraria voar acima das nuvens também! A capital é um lugar conveniente para viver, mas depois de tantos anos... sabe como é.
Ela falava como se estivesse planejando férias.
Enquanto continuávamos andando pela rua, com Liz falando e eu apenas assentindo, de repente sua expressão ficou tensa. Antes que eu percebesse, ela soltou meu braço. Quando ouvi o som das sacolas de compras batendo no chão, ela já estava imobilizando um homem alguns metros à frente. Ela segurava o pulso dele com uma das mãos e pressionava as costas dele com o pé—uma imobilização perfeita. Eu estava andando ao lado dela e nem consegui acompanhar o momento exato em que ela derrubou o cara; duvido que ele mesmo soubesse o que o atingiu.
O infeliz soltava gemidos de dor. Ele era um homem barbudo, da minha altura, vestindo um casaco marrom; não parecia nada notável e definitivamente não tinha cara de caçador.
Fiquei ali, parado por um segundo, antes de correr até eles. Agredir um civil era um problema sério, ainda mais quando o ataque era injustificado. Apesar da natureza violenta de Liz, fazia um bom tempo que ela não atacava alguém que não fosse um caçador. Justo quando eu achava que ela estava ficando mais razoável, ela apronta isso?
— O-O que você tá fazendo, Liz? — perguntei, pálido de medo, sem dúvidas.
Os transeuntes apressavam o passo, constrangidos. Era só questão de tempo até os guardas aparecerem.
À beira de quebrar o braço do homem, Liz manteve a pegada firme, sem tirar os olhos dele. Com um olhar frio, ela pressionou ainda mais o pé contra as costas dele. O sujeito se debatia, mas o aperto dela nem sequer cedia.

— Ele estava nos encarando — disse Liz.
E daí?
Eu dificilmente achava que um simples olhar merecia ser retribuído com um ataque tão impiedoso. Com a personalidade vibrante de Liz chamando bastante atenção, eu já vinha notando muitos olhares ao longo do nosso passeio. O que tornava o olhar desse homem tão ofensivo para ela?
O homem soltou outro gemido agonizante, então peguei o braço de Liz e o afastei do dele.
— Uh, que tal começarmos soltando ele? Tudo bem?
O homem se sentou e tossiu enquanto Liz saía de cima dele, nos olhando com medo nos olhos. Ele realmente parecia um cidadão comum de meia-idade, com um físico normal, sem cicatrizes ou armas—apenas mais um sujeito cumpridor da lei. Já a ação de Liz estava longe de ser algo dentro da lei. Por mais permissiva que fosse a administração da capital com os caçadores, eles não chegavam ao ponto de permitir que atacassem civis impunemente.
Estendi a mão para ajudá-lo a se levantar e disse:
— E-eu sinto muito; ela tem problemas mentais. Você está machucado?
O cidadão atacado ignorou minha mão e fugiu em disparada—com a marca da bota de Liz ainda em suas costas—soltando um grito curto antes de sumir. Atrás dele, Liz franziu a testa enquanto ele corria.
Então ele não se machucou. Que alívio. Bem, não exatamente. Nunca dava para saber o que poderia acionar o gatilho de Liz, e isso não fazia nada bem para o meu coração.
E agora? O que nessa interação te irritou?
Até o momento, Liz tinha se comportado de forma (relativamente) aceitável. Mas eu precisava nos tirar dali antes que uma multidão se formasse e me encarasse com aquela expressão familiar que dizia "Você de novo?"
Enquanto eu me remoía querendo sair logo, Liz permaneceu imóvel em contemplação, então inclinou a cabeça e disse:
— Espera aí. Você estava enrolando ele.
Enrolando ele? Do que diabos ela estava falando?
Eu não podia me dar ao luxo de me importar com cada olhar que recebia; não era como se estivessem me machucando de verdade. O que Liz esperava ao usar botas Relíquias que podiam ser vistas do outro lado da capital?
— Você vai levar uma bronca depois, Liz — falei.
— Você é bom demais atuando! — respondeu ela, voltando ao seu humor animado. — Eu nem percebi, e eu geralmente sou boa nessas coisas. Vou prestar mais atenção da próxima vez.
Navegar pela capital era tão natural quanto passear pelo próprio quintal para aquele homem. Ele conhecia cada caminho, desde as avenidas mais movimentadas até os becos mais escuros que a maioria dos cidadãos cumpridores da lei evitava. Mas agora, enquanto corria com todas as suas forças como uma presa fugindo de um predador supremo, não havia espaço para pensamentos. Seu cérebro, privado de oxigênio, estava marcado pela imagem daqueles olhos gélidos que se fixaram nele; nenhum pedestre ousava ficar no seu caminho ao ver sua expressão.
Só depois de correr por meia hora o homem se virou, com os ombros subindo e descendo a cada respiração ofegante, para confirmar que não havia sido seguido. Ele havia chegado diante de um prédio decadente no “distrito em ruínas”, o bairro mais deteriorado e tomado pelo crime na parte sudoeste da capital. Ele sabia que não teria chegado tão longe se sua agressora realmente quisesse impedi-lo. Na verdade, nunca teria escapado de seu aperto em primeiro lugar se ela realmente quisesse mantê-lo ali. Por mais esguios que fossem seus membros, pareciam um par de tenazes que o prenderam da maneira mais eficiente possível; a sensação era de estar amarrado da cabeça aos pés.
Um feixe de luz empoeirada atravessou o beco e iluminou sua visão, agora embaçada pelo esforço, enquanto ele recuperava a compostura.
— O que... acabou de acontecer...? — Sem fôlego, ele apertou os braços, que tremiam sem parar.
Ele não havia entrado nessa missão contra um Caçador de Nível 8 e um de Nível 6 de forma descuidada. Tinha certeza de que não havia feito nada que traísse sua identidade. Seus alvos já estavam atraindo muita atenção nas ruas lotadas—não havia como distinguir seu olhar do de qualquer outra pessoa, já que ele nem mesmo havia feito qualquer movimento contra eles.
O único objetivo do homem, que não era um Caçador, era observá-los, com a maior prioridade sendo evitar ser detectado. Ele estava confiante em sua habilidade para isso. Tinha se vestido e agido de maneira discreta, seguido o casal a uma distância segura sem encará-los por muito tempo nem demonstrar qualquer hostilidade; até mesmo se certificou de sempre permanecer em seus pontos cegos. Como alguém mestre em técnicas de Ladrão, ele havia tomado todas as precauções perfeitamente. A verdade era que ele nem sequer suspeitou que havia sido notado—até que seu rosto estava no chão.
Segurando o braço, que ainda pulsava de dor por causa da detenção, o homem controlou sua respiração. Por mais que quisesse colocar isso na conta do azar, não havia como negar que sua cobertura foi comprometida pela Sombra Partida. A questão era: "Por que o Mil Truques o soltou depois de todo o trabalho para capturá-lo?" Ele não conseguia entender por que o haviam deixado ir sem mais nem menos. Se era essa a intenção deles, então não havia razão para a detenção feita pela companheira do Mil Truques. Mais ainda, o Caçador de Nível 8 lhe deu um pedido de desculpas obviamente falso. Embora o homem jamais revelasse informações mesmo sob tortura, o fato de ter sido libertado o deixava inquieto.
Isso foi um aviso? Droga! O quanto ele sabe?
Ele rangeu os dentes. Era inconcebível que informações sobre a organização tivessem vazado—o plano era perfeito, ou assim parecia.
Quando Noctus Cochlear ordenou que ele vigiasse o Mil Truques, ele achou que o cientista estava sendo excessivamente cauteloso. Mas agora a imagem do rosto jovem daquele Caçador voltou à sua mente, fazendo-o tremer mais uma vez.
Atrás daquele prédio, o homem permaneceu até o anoitecer cair sobre a cidade.
O Covil do Lobo Branco acabou. Pior ainda, ele sabe sobre nós, pensou.
Independentemente do que o Mil Truques fariam com essa informação, a situação da organização não poderia estar pior. Ele teria que avisar a equipe de que precisariam mudar seus planos.
Nenhuma alma testemunhou o homem cambaleando para dentro do beco escurecido.
Tradução: Carpeado
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