Nageki no Bourei wa Intai shitai |
Let This Grieving Soul Retire
Volume 02 – Capítulo 01 [A Sombra Partida Retorna]
A grande janela do escritório do mestre do clã deixava entrar bastante luz do sol sobre a mesa e a cadeira desnecessariamente imponentes. Agora que o inverno havia passado e o ar estava mais quente, esse era exatamente o horário do dia em que eu gostaria de tirar uma soneca.
Sem nenhuma tarefa urgente em mãos, eu estava distraidamente polindo Relíquias na minha mesa quando a vice-mestre do clã, Eva Renfied, entrou. Ela usava seu uniforme impecavelmente passado e um par de óculos de armação vermelha, que contrastavam com seus olhos gélidos. Quando estávamos na mesma sala assim, formávamos um belo contraste entre a secretária exemplar e seu chefe cabeça-oca. Ao contrário do mestre do clã fantoche (no caso, eu), ela parecia estar passando por mais um dia cheio de trabalho, assumindo todas as responsabilidades da administração do clã.
— A Associação quer perguntar sobre os detalhes da Cova do Lobo Branco — disse ela, sem nem ao menos me dar uma bronca. Que vice-mestre de clã incrível. No começo, ela costumava me dar sermões de vez em quando, mas, pelo visto, já tinha perdido todas as esperanças em mim.
— O Ark já voltou? — perguntei, soltando um grande bocejo enquanto esfregava os olhos. Eu estava exausto, mal havia dormido de tanto me preocupar com o slime desaparecido.
— Acho que o Ark não conseguiria lidar com isso, já que ele nunca esteve na cova. E, além do mais, você depende demais dele.
Eu precisava de... mais Arks. Ele era forte, uma ótima pessoa e respeitado por todos. Não dava para me culpar por depender tanto desse meu companheiro de clã, especialmente quando a maioria dos caçadores de alto nível tinha um parafuso a menos na cabeça. Pela experiência, eu sabia que a maioria dos problemas podia ser resolvida simplesmente jogando a responsabilidade para o Ark—se ao menos eu pudesse fazer com que ele fosse o mestre do clã no meu lugar... Bem, apesar de essa dependência ter me levado àquela experiência traumatizante na Cova do Lobo Branco, a culpa era toda minha. O Ark não fez nada de errado—ele nunca fazia. E, por acaso, eu tinha certeza de que ele poderia dar um jeito no meu problema com o slime desaparecido.
— A Tino era a líder — falei. — Vai falar com ela. Eu só cheguei depois.
Eu tinha ido resgatá-los, mas não cheguei a derrotar nenhum fantasma ou ajudar a salvar o grupo da Tino de verdade. Embora, tecnicamente, como a Liz me seguiu até a cova, eu fui a causa indireta de ela ter salvo o grupo. Mas, olhando para trás, eu fui patético.
Antigamente, eu sonhava em me tornar o tipo de caçador que surgia no meio do perigo mortal para salvar qualquer um em apuros.
Agora, eu não me iludia mais com esse tipo de coisa. O que importava era que Tino e seu grupo haviam voltado para a capital a salvo.
Soltei um suspiro meio sábio.
— Deixa pra lá. De qualquer forma, aconteceu algo na capital?
— Algo? O que você quer saber exatamente?
Eva era extremamente competente. Ela pegou os meus conceitos vagos e sem rumo sobre administração de clãs e os transformou em realidade. Diferente de mim, ela tinha as habilidades necessárias para manter a Primeiros Passos funcionando, ainda mais agora que o clã tinha crescido descontroladamente. Na verdade, todos os membros do clã (exceto eu) eram muito talentosos.
Uma das habilidades da Eva era sua rede de informações pela capital. Se algo estivesse estranho na cidade, ela saberia. Como não havia nem um pingo de preocupação em sua voz, concluí que não tinha soltado o Slime Sitri na cidade.
Recostei-me na cadeira, soltando um suspiro de alívio. Tudo estava certo... eu esperava.
— Se não aconteceu nada, então tudo bem.
— Vou investigar imediatamente — disse Eva.
— Não, não precisa. Tá tudo bem, provavelmente não aconteceu nada... Melhor só relaxar.
Eva me encarou com desconfiança. Talvez seu único defeito fosse levar o trabalho a sério demais. Não precisava cutucar a colmeia; o tempo resolveria a maioria dos problemas do mundo.
Mas eu realmente precisava que a Sitri voltasse antes que fosse tarde demais.
— E a Tino está ocupada treinando com a Liz — acrescentou Eva.
— Hã, que estudiosa ela.
Nem todo mundo conseguiria voltar direto para o treinamento depois de uma missão de vida ou morte como a que ela acabou de passar. Ver o quanto a Tino cresceu desde os tempos em que era apenas uma garota comum era emocionante; agora, ela estava evoluindo para se tornar uma caçadora excepcional. E, pelo visto, a Liz estava sendo uma boa mentora... Isso me deu uma ideia.
Mas então, um cansaço repentino me fez bocejar—eu acabaria dormindo se continuasse sentado ali. O clã funcionaria bem enquanto eu cochilava, mas não seria bom para o moral da Eva me ver dormindo enquanto ela trabalhava sem parar. Não que eu me importasse se me tirassem do cargo, mas o clã não podia se dar ao luxo de perder a Eva.
— Talvez eu passe por lá para dar um oi. Onde elas estão treinando?
— Seria uma ótima ideia. Elas estão no campo de treinamento B2.
— Beleza. Cuida das coisas por aqui, tá?
Acenei para Eva, que manteve sua expressão estoica o tempo todo, e saí do escritório.
— Preciso de informações. Agora — disse Eva com uma voz gélida e sem emoção. — Descubram qualquer irregularidade na capital, por menor que pareça.
— E-Entendido! — respondeu um de seus subordinados, saindo apressado da sala.
Eva Renfied era uma ex-mercadora. Antes de começar sua carreira como vice-mestre do clã, ela fazia parte da Welz Trading, uma das maiores empresas do mercado competitivo de Zebrudia. Embora Eva não ocupasse um cargo alto na Welz na época em que Krai a recrutou, ela manteve suas conexões com a empresa mesmo depois de mudar de carreira. Desde os primeiros dias no trabalho, Eva vinha construindo uma rede de informações pela cidade para contribuir com o sucesso do clã.
Primeiros Passos era um clã enorme, e um grupo de caçadores talentosos era como um exército poderoso. Um clã do porte da Primeiros Passos sempre chamava a atenção do governo, dos mercadores, de outros caçadores e até de ladrões. Com as conexões que construiu, Eva coletava informações através de sua rede mercante, dos jornais, dos rumores entre os caçadores de tesouros e até de seus contatos na Associação.
Informações precisavam ser frescas, e Eva sabia bem disso. Seus subordinados a mantinham atualizada sobre os últimos acontecimentos da capital constantemente.
Por isso, quando o mestre do clã fez aquela pergunta, Eva ficou completamente chocada. Pelo que ela sabia, não havia nada fora do comum na capital ultimamente, além dos fantasmas poderosos surgindo na Cova do Lobo Branco. Mas Krai já tinha enfrentado aquilo pessoalmente e deveria saber melhor do que ela.
Eva se orgulhava de sua rede de informações; se não tivesse trabalhado com Krai por tanto tempo, não teria dado muita atenção à pergunta dele—certamente não o suficiente para mandar um funcionário investigar.
Eva achava seu chefe bastante misterioso. Quando se conheceram, Krai era apenas um garoto sem título ou o cobiçado Nível 8. Alguns anos se passaram desde então, mas ela ainda tinha dificuldades para entender aquele homem que sempre parecia entediado em seu escritório, polindo suas Relíquias. Ele nunca dava ordens sobre como administrar o clã, e Eva nunca o via participando de atividades tradicionais de caça ao tesouro. Ele não parecia forte, e, tirando algumas escolhas bizarras que fazia de vez em quando, sua personalidade também não tinha nada de extraordinário. Além disso, ele não demonstrava o mesmo espírito ardente dos poucos caçadores do clã que um dia se tornariam heróis—pelo menos, Eva nunca tinha visto isso nele. Na verdade, Krai vivia falando a maior besteira do mundo: que queria se aposentar da caça e ser apenas o mestre do clã. Se alguém observasse um dia de trabalho dele sem saber quem era, com certeza o chamaria de preguiçoso. Até mesmo Eva ficou incomodada com sua aparente incompetência quando começou a trabalhar ali. Mas agora, ela sabia que Krai era muito mais do que aparentava.
Eva confiava em cada palavra de Krai. Seus comentários aparentemente aleatórios sempre acabavam sendo previsões absurdamente precisas. Até mesmo Eva, que conhecia a capital como a palma da mão, ficava surpresa com isso. Inúmeras vezes, ela testemunhou Krai antecipando eventos que ninguém poderia prever: anomalias em cofres de tesouro distantes, dramas entre os nobres do império, crimes cometidos nas sombras por sindicatos e até desastres naturais como terremotos. Krai não deveria ter acesso a esse tipo de informação, mas, de alguma forma, ele sempre sabia de coisas que escapavam até das maiores redes de inteligência do mundo.
Ele sempre dizia que era apenas coincidência ou sorte, mas Eva tinha certeza de que nem ele esperava que ela acreditasse nessas desculpas. Uma vez poderia ser coincidência, mas com tantas “coincidências”, Eva não teve escolha a não ser aceitar que seu chefe possuía algum tipo de habilidade enigmática de previsão que ia muito além de mero talento.
Mil Truques, um apelido muito bem escolhido. Quando ouviu esse título pela primeira vez, Eva achou que não poderia haver nome melhor para o mestre do clã. Krai era a razão pela qual tantos caçadores talentosos se reuniram na Passos. Multidões de caçadores orgulhosos e egocêntricos acabavam seguindo as ordens desse jovem aparentemente comum. Às vezes, Krai parecia ser ainda mais assustador que todos os outros caçadores absurdamente poderosos juntos.
Eva se orgulhava de suas habilidades, mas sabia que era apenas uma mortal. Se Krai havia pressentido algo, ela levaria sua palavra a sério, não importava o quão aleatório pudesse parecer.
No escritório da vice-mestre do clã, um ambiente bem mais bagunçado que o de seu chefe, Eva deu ordens à sua legião de funcionários e observou as ruas pela janela. Ela afastou os pensamentos sobre suas tarefas programadas e tentou identificar se havia algo que pudesse ter deixado passar sobre a situação da cidade.
— O que está acontecendo na capital agora?
Esse era o ritual de Eva sempre que Krai soltava uma de suas premonições.
Explorar um cofre de tesouro era um desafio: armadilhas intermináveis, ambientes implacáveis e batalhas contra monstros e espectros sempre envolviam risco de vida, por mais precauções que os caçadores tomassem. Era por isso que os bons caçadores nunca paravam de melhorar.
Havia muitas instalações na capital para caçadores aprimorarem suas habilidades, e um dos maiores destaques da sede da Passos eram os campos de treinamento. Duvidei que muitos outros clãs da capital, mesmo os do porte da Passos, tivessem campos de treinamento internos. Os amplamente populares campos de treinamento da Passos, que se estendiam por cinco andares subterrâneos, estavam sempre disponíveis para todos os membros do clã.
Caçadores que enfrentavam cofres de alto nível eram absurdamente fortes—e destrutivos. Disseram-me que construir os campos de treinamento para suportar a força desses treinamentos custou uma fortuna. Não que eu soubesse muito sobre o processo de construção; só dei alguns palpites no projeto. Mas, aparentemente, Eva e sua equipe tiveram bastante trabalho para garantir que tudo fosse bem feito.
Enquanto descia as escadas de aço rumo aos campos de treinamento, passei por um grupo familiar de cinco pessoas. Um deles, um homem robusto de cabelos castanhos e uma cicatriz cortando sua bochecha, me encarou de olhos arregalados. Ele carregava uma alabarda que parecia capaz de partir uma armadura ao meio. Eu o reconhecia... Seu nome estava na ponta da língua.
— Mestre Krai, que surpresa ver você aqui embaixo. Veio treinar?
Como mestre do clã, eu definitivamente não conhecia o nome e o rosto de todos os membros. Mas, como todos tinham que passar por uma entrevista comigo antes de entrar, teoricamente, eu já havia conhecido cada um pelo menos uma vez. Ainda assim, minha mente estava completamente em branco no momento. Eles não perceberam que eu esqueci seus nomes, né?
Estampei um sorriso tranquilo para disfarçar.
— É, algo assim. Vocês estavam treinando?
O grupo trocou olhares. Isso não era bom. Era um sinal clássico de que uma péssima notícia estava a caminho.
Senti uma vontade absurda de sair correndo.
Um cara alto franziu a testa e falou pelo grupo:
— Sim, mas... talvez seja melhor não descer agora. Está meio... turbulento.
— Isso não foi treinamento... Foi tortura — disse um dos homens, com um olhar completamente abalado.
Ok. Talvez eu não devesse descer para os campos de treinamento.
Eu já tinha uma boa ideia do que estava acontecendo: Liz. Ela era sanguinária e não entendia o significado de “moderação”. Infelizmente, ela tinha esse dom especial de sempre estar no final de uma trilha de humanos desmaiados ou monstros mortos, ou no centro da confusão mais próxima, na verdade. Os treinamentos dela, que fizeram Tino melhorar tanto, aparentemente eram brutais até para caçadores experientes. Mas não me entenda mal: Tino era uma ótima caçadora; não eram muitos que conseguiam alcançar o Nível 4 tão rapidamente. Eu tinha certeza de que não era uma tortura de verdade. Embora... Liz podia estar um pouco empolgada por ter acabado de voltar de uma caçada.
— Relaxem. A Liz é turbulenta normalmente — tentei tranquilizá-los.
— É... A Sombra Partida é um dos membros do seu grupo, afinal.
Os cinco caçadores me lançaram olhares desconfortáveis.
Eu sentia muito por ter alguém do meu time sempre causando confusão.
— Disseram que ela está atacando qualquer um que tente pará-la — disse um dos caçadores. — Melhor esperar até a poeira baixar.
Eu realmente sentia muito por ter alguém do meu time sempre causando confusão.
Eu me perguntava o quão insano era lá dentro. Por que esses cinco caçadores, que lutavam contra monstros diariamente, estavam tão exaustos? Por que a Liz não podia simplesmente pegar leve depois do que aconteceu no Covil do Lobo Branco? Ela tinha o direito de treinar a Tino como quisesse, mas eu preferia muito mais que ela parasse de impactar negativamente o resto do clã no processo.
— Não se preocupem, eu vou dar um jeito nisso — eu disse.
— Se você diz, não vamos te impedir.
Eles estavam aterrorizados com ela. Suspiro... Tanto para a nossa regra de clã “todos devem se dar bem”.
Liz sempre foi impulsiva e estava longe de ser alguém equilibrada. Mas agora que tinha poderes sobre-humanos, parecia um pequeno monstro.
Continuei descendo as escadas para interromper a violência dela, seguido pelo grupo sem nome (pelo que eu sabia) por algum motivo. Havia vários membros do clã apenas vagando pela entrada do campo de treinamento do B2. Hã, que bizarro.
Um homem de cabelo verde-escuro virou-se para mim. Ele e eu tínhamos praticamente a mesma altura, mas dava para perceber pela sua estrutura que era um caçador experiente. Alguns anos mais velho que eu, mas ainda dentro da faixa etária considerada jovem para caçadores. Seu nome era Sven Anger, um dos veteranos do clã, alguém que eu conhecia há anos e um exímio arqueiro. Sven era o líder do grupo de Nível 6, Obsidian Cross, um dos melhores do clã. Ele era como um irmão mais velho confiável entre os companheiros.
Assim que me viu, Sven exclamou empolgado:
— Krai! Já era hora de vir buscar ela. Você precisa segurar as rédeas da Sombra Partida aí dentro—não conseguimos nem usar o campo de treinamento!
— Lidar com bárbaros super-humanos não é meu forte — respondi. Na verdade, Sven e seu grupo Obsidian Cross eram especialistas em lidar com monstros e feras, mais do que em explorar relíquias. Eu duvidava que o meu cargo de líder figurativo fosse me ajudar mais do que ajudou eles.
— Mas essa bárbara é sua! E ela ficou ainda mais forte! — rosnou Sven. Um pouco rude, considerando que eram companheiros de clã.
Então, ela ficou ainda mais forte, hein? Soltei um suspiro curto e disse, derrotado:
— Beleza.
Infelizmente, meus amigos já haviam superado completamente minha capacidade de compreensão; eu tinha perdido a noção de quão absurdos seus poderes haviam se tornado. Pelo visto, pegar balas no ar vendado já não era o bastante para eles.
Sven lançou um olhar sombrio para as portas reforçadas do campo de treinamento e disse:
— Sem Ansem, sem Lucia... Não tem ninguém aqui que possa pará-la! Por que a Liz voltou sozinha?!
Sven provavelmente conseguiria enfrentar Liz de igual para igual. Mas, bem... ela continuaria mordendo até que um dos dois caísse.
Em geral, havia duas facções nos Grieving Souls: os encrenqueiros e os (relativamente) sensatos. O padrão usual era Liz ou Luke começarem o incêndio, e Ansem ou Lucia apagarem depois. Sem um domador por perto, Liz podia ser muito mais perigosa que um monstro literal.
Eu sentia muito por ter alguém assim sempre causando problemas.
— Ela desativou todas as armadilhas, chegou até a sala do chefe sem um arranhão e depois simplesmente desistiu e voltou pra casa — expliquei.
— Ela estava no Palácio Noturno, não estava? — perguntou Sven, incrédulo.
Eu também não conseguia acreditar.
Liz realmente era um espírito livre. Abandonar seu grupo em uma exploração era um dos pecados imperdoáveis no mundo dos caçadores, mas nosso grupo tinha um jeito único de funcionar. Com exceção de um membro que adicionamos depois, como um tipo de experimento, todos nós éramos amigos de longa data e também éramos espíritos livres—e de alguma forma, funcionava. Bom, não era como se estivessem sem um curandeiro, e ainda tinham outro Ladino no grupo. Eles ficariam bem.
— Se você não parar ela logo, a Tino vai morrer — Sven me alertou.
— Aha! Você tá exagerando. As pessoas não morrem tão fácil assim.
— Não... Ela está realmente...
Ok, Liz tinha tendências genocidas às vezes; e não conseguia evitar rosnar para todo mundo; e já foi presa inúmeras vezes por brigar; e até tinha uma recompensa pela sua cabeça no submundo; ela tinha seus defeitos, mas não era do tipo que mataria a própria aprendiz.
Sven e seu grupo deram um passo para trás. Sorrindo, eu abri lentamente a porta do campo de treinamento.
Liz estava majestosamente no centro do campo. Seu cabelo rosa-choque amarrado em um rabo de cavalo e sua roupa reveladora, que deixava à mostra boa parte de sua pele bronzeada, eram típicos dos Ladinos. Sem a Relíquia de botas metálicas quase na altura dos joelhos, Apex Roots, ela até poderia parecer uma garota normal. Para ser sincero, vê-la esbravejando contra o que parecia um grande trapo sujo a seus pés não era nem um pouco normal—nem feminino.
— Por que você não levanta? Hein? Já chegou no seu limite? Não pode ser! Tá se fazendo de preguiçosa? Tá tirando com a minha cara? Quer morrer? Hein, quer morrer, T? Acha que não vai morrer? Acha que eu não mato você? Mato sim! Você não tem nada que te importe? Nada que queira proteger? Seus braços e pernas ainda estão aí! Por que não mexe eles? Se é disso que precisa pra realmente tentar, então pode morrer agora mesmo!
— Certo, já chega! — chamei alegremente enquanto batia palmas. Por dentro, no entanto, eu estava enjoado—será que pra ela tudo tinha que ser uma questão de “matar ou morrer” todos os dias do ano?
Corri até o amontoado no chão (também conhecido como Tino) e ouvi seus gemidos misturando dor e desespero. Ela estava encolhida o máximo que podia e tremia sem parar.
O emaranhado de cabelo no chão se moveu levemente quando Tino tentou levantar a cabeça. E, antes que conseguisse, Liz bateu com força no chão. Um estrondo sacudiu todo o prédio. Tino estremeceu. O piso, que havia sido construído para suportar o treinamento rigoroso de caçadores, agora tinha uma marca profunda no formato da bota de Liz. Como ela conseguiu colocar tanta força naquele corpo pequeno, eu jamais entenderia.
— O que foi, Krai Baby? — perguntou Liz num tom casual. — Como pode ver, estou dando uma lição pra T agora.
Seus olhos cor-de-rosa quartzo me perfuraram.
Ela tinha um pavio ridiculamente curto, mas levava força a sério. Havia aprimorado suas habilidades passando por incontáveis provações, muitas vezes voltando da beira da morte. Ela colocava padrões altíssimos para Tino, mas também a treinava com sinceridade. Além disso, odiava ser interrompida durante o treinamento.
Nosso clã já existia há anos, e os grupos mais antigos conheciam bem Liz. Sua aversão a interrupções era tão conhecida que ninguém ousava interferir.
— T tem talento — continuou Liz. — Talvez até mais do que eu. Mas é fraca. Por quê? Eu era bem mais forte quando tinha a idade dela.
Tino já era bem forte (todo mundo era, comparado a mim). Isso não era o suficiente? Devíamos celebrar nossas diferenças.
— Aham — forcei um sorriso, me posicionando entre Liz e Tino.
O grupo de Sven permaneceu em silêncio na porta, assistindo com a respiração presa enquanto a tensão no campo de treinamento ficava cada vez mais densa.

Embora eu não conseguisse compreender a disparidade entre Liz e Tino, aceitei a palavra de Liz. Para ela admitir que Tino talvez fosse mais talentosa que ela mesma, essa afirmação devia conter uma verdade inegável. Ainda assim, isso não lhe dava o direito de destruir o espírito da nossa mascote, Tino.
Liz exibiu um sorriso arrepiante e falou com uma ameaça tangível de violência
em sua voz.
— Isso não é o bastante. Do jeito que está, T pode acabar sendo um peso morto
para você de novo, Krai Baby. Você é tão bonzinho e talvez já tenha perdoado
ela por isso, mas eu preciso que minha aprendiz seja mais forte do que isso no
mínimo. Se T for uma fracote, as pessoas vão achar que eu também sou uma
fracote.
Aparentemente, tudo isso era por causa do que aconteceu na Toca do Lobo Branco. De fato, Tino não conseguiu completar a missão sozinha e acabou ferida pelas mãos de um fantasma surpreendentemente poderoso; nós também teríamos sido exterminados naquele cofre se Liz não tivesse aparecido. Mas a culpa foi toda minha por ter enviado o grupo da Tino. Eu tinha explicado tudo para Liz assim que voltamos do cofre, mas, aparentemente, minha explicação entrou por um ouvido e saiu pelo outro.
Tino era tudo, menos uma fracote—ninguém pensaria isso. Nível 4 era uma posição respeitável para um caçador, e Tino certamente a merecia. Sua aparência poderia gerar algumas discussões, mas até agora ela tinha lidado bem com isso.
Liz se virou para a porta, seus olhos queimando de desprezo.
— Vocês, intrometidos, tentaram me parar, mas isso não é da conta de vocês. Ao
contrário de vocês, idiotas, T precisa ficar mais forte. E você não fica mais
forte se não estiver disposto a morrer tentando. Não há tempo para descansar;
não há tempo para brincadeiras. Estão tentando transformar minha aprendiz em
um saco de lixo? Primeiro eu corto a garganta de todos vocês.
Não era uma ameaça vazia—eu acreditava na disposição dela de agir em meio à fúria assassina. Por mais distorcido que fosse, isso mostrava sua paixão em treinar sua aprendiz.
Tino ainda estava encolhida no chão, tremendo.
Liz, olhando para mim, fitou meus olhos.
— Você entende, não é, Krai Baby?
A doçura na voz dela parecia uma lâmina contra minha garganta.
Com um sorriso congelado, respondi:
— Aham. Eu aprecio seu entusiasmo. Mas a Tino chegou ao limite, então vamos
encerrar por hoje.
Eu não sabia há quantas horas elas estavam nisso, mas Tino estava no chão. Sem Ansem aqui para curá-la, tortura em excesso poderia deixar danos permanentes. Eu não estava empolgado com a ideia de potencialmente irritar Liz, mas não havia mais ninguém que pudesse pará-la.
Liz piscou algumas vezes, como se não conseguisse me compreender, antes de
inclinar a cabeça e perguntar:
— Oh? Krai Baby? Você está me impedindo?
— Aham, estou sim.
Os olhos dela se arregalaram. Por trás daquelas íris rosadas girava uma energia poderosa, pronta para explodir a qualquer momento. Por alguns segundos, Liz me encarou com uma intensidade tão forte que senti como se ela estivesse olhando direto para minha alma.
O ar ficou pesado com a tensão.
Lentamente, Liz estendeu a mão e tocou minha bochecha. Então, sorriu
radiante.
— Então vamos encerrar por hoje!
Ela se virou para Tino e disse:
— Desculpa, T. Eu me segurei para não te matar. Você ainda estava se
contorcendo, então achei que pudesse continuar. Mas se Krai Baby diz que você
chegou ao limite, então deve ser verdade, né?
— Mestre...? — murmurou Tino.
Por que ela estava chamando a mim e não a Liz?
Tino levantou a cabeça devagar. Em seu rosto estava a máscara de caveira sorridente—o emblema dos Grieving Souls. Não havia aberturas para os olhos na máscara; não havia lágrimas escorrendo pelo sorriso eterno dela.
Por que ela estava usando a máscara?
Como se lesse minha mente, Liz explicou alegremente:
— Eu queria ver se a T seria um pouco menos inútil se estivesse conosco;
queria ver se a T melhoraria; queria ver se a T estava pronta. Mas não. Ela
não conseguiu fazer nada com a máscara cegando ela—não há espaço na nossa
equipe para alguém assim, né?
Apesar da convicção de Liz, os Grieving Souls não tinham tal exigência. Se tivessem, eu não estaria no grupo. Na verdade, o único requisito para entrar era uma recomendação de um membro existente.
Dito isso, ainda era cedo demais para deixar Tino entrar. Não era como se ela não pudesse carregar seu próprio peso, mas, por mais que eu quisesse recrutar novos membros, os cofres do tesouro que meus amigos estavam explorando agora eram perigosos demais para Tino. Eu não queria que ninguém arrastasse Tino para um cofre de alto nível para “treiná-la” e acabasse matando ela. Os outros Grievings provavelmente poderiam protegê-la, mas é melhor prevenir do que remediar.
— Aham. Acho que ainda não é o momento.
— Quando você acha que ela vai estar pronta, Krai Baby?
Não me pergunte. Eu era praticamente um líder figurativo que já nem sabia o
estado atual do grupo. Fingindo estar contemplando, mas sem realmente pensar
muito sobre isso, apenas disse, mantendo meu sorriso:
— Quando ela estiver no seu nível.
— O quê?! — guinchou Tino do chão, sua voz cheia de desespero.
Ela não precisava soar como um cachorrinho morrendo—eu só estava brincando! Liz era a mentora dela, afinal. Tenho certeza de que ela recomendaria Tino para o grupo quando fosse a hora certa. Que peso minha palavra tinha, afinal?
Por algum motivo, Liz se agarrou ao meu braço e soltou um gritinho de
felicidade.
— Você é tão malvado, Krai! Assim ela nunca vai entrar para o grupo.
— Agora, agora, isso não é verdade — disse eu. Eu estava ansioso para que Tino entrasse no grupo tanto quanto qualquer um. Depois de ver seu desempenho na Toca do Lobo Branco, eu tinha certeza de que não demoraria muito para ela se juntar a nós. Mas, é claro, não mencionei isso, pois tudo dependia da decisão de Liz.
— Então — disse Liz —, o que você está fazendo aqui, Krai Baby? Não conseguiu ficar longe de mim?
— Gark quer perguntar para a Tino sobre a Toca.
— Olha só você, Krai Baby, correndo atrás das coisas? Você podia ter mandado alguém.
Então Liz cuspiu:
— Por que ninguém se voluntariou?
Afaguei a cabeça dela e passei os dedos por seu cabelo sedoso para distraí-la desse pensamento. Ela me deu um sorriso.
— Está tudo bem. Eu queria vir. Na verdade, foi a mim que ele pediu.
— É urgente? — perguntou ela, tocando os lábios com o dedo e olhando para a imóvel Tino. — Se for, eu jogo ela no escritório do Gark agora mesmo.
Era assim que Liz sempre tratava Tino. Eu nunca entenderia por que Tino, por mais que temesse Liz, ainda a admirava tanto.
— Não é urgente — respondi. Gark não era tão rígido a ponto de esperar que Tino aparecesse nesse estado. — Pode esperar até ela se recuperar. Tipo amanhã, ou depois de amanhã...
Ou poderíamos simplesmente não ir. Que ideia brilhante—eu só diria que esqueci!
— Você ouviu isso, T? Sei que ouviu. Entendeu? Se ouviu, acene com a cabeça.
Ao som da voz de Liz, a cabeça de Tino se moveu para cima e para baixo quase imperceptivelmente.
Tino estava em um estado pior do que quando estava na cova. Sentindo-me péssimo por ela, observei Tino e suspirei. Claro, Tino era uma caçadora e aprendiz da Liz, mas também era membro do meu clã e uma amiga minha.
Eu preciso tirar a Liz daqui por enquanto. Tino precisa de um tempo. Eu não estava exatamente caçando tesouros ativamente, mas isso fazia parte da minha função como líder da equipe, com certeza.
Fui para trás da Liz, segurei-a pelos ombros—ombros frágeis demais para uma garota que estraçalhava qualquer fantasma em seu caminho—e comecei a empurrá-la.
— Ok, Lizzie, vamos para outro lugar agora.
— Krai Baby, você tá me mimando?
— Não. Claro que não. Que menina boazinha você é.
Isso deveria acalmá-la, certo?
Meus companheiros de clã, que observavam apreensivos da porta, pareciam angustiados com essa reviravolta. Liz, por outro lado, não parecia se importar com a atenção. Essas minhas habilidades de domador levaram anos para serem desenvolvidas; eu sabia que Liz era naturalmente egocêntrica, e ter uma aprendiz não mudou isso.
— Então, pra onde é esse "outro lugar"? — ela perguntou. — Tipo um encontro?
— Ahm — murmurei —, que tal... tomar um sorvete?
Sugeri isso mesmo sabendo que Liz detestava doces—assim como Sitri, Lucia e Ansem. Eu era o único Griever que tinha um paladar para coisas açucaradas. Normalmente, eu chamaria a Tino para ir junto, já que ela era a única que compartilhava do meu gosto. Como esperado, a sugestão diminuiu a animação de Liz.
Justo quando Liz abriu a boca para falar, abaixo dela, uma mão ensanguentada e calejada chamou sua atenção ao se agarrar a uma de suas botas.
Um brilho perigoso surgiu nos olhos de Liz.
— Hmm? O que você tá fazendo, T? Eu tô conversando com o Krai Baby agora.
Tino, ainda no chão, não se moveu um centímetro; seu aperto fraco poderia ser facilmente quebrado com um simples passo. E ainda assim, ela arfou:
— Eu... ainda consigo... continuar, Mestra!
Não conseguia ver seu rosto sob a sufocante máscara que substituía toda emoção de quem a usava por um sorriso distorcido. Para ser franco, eu me arrependia da minha escolha de emblema do clã.
Liz gentilmente afastou minhas mãos de seus ombros e se virou para Tino. Ah, droga, isso não parecia nada bom para a Tino.
— Uau! — comemorou Liz, estranhamente animada. — Você não conseguia se mover até um segundo atrás. Achei que tinha quebrado seus ossos direitinho—não tem como você ter se recuperado tão rápido! Olha só, Krai, minha pequena T finalmente tá ficando mais forte!
Ela estava nas nuvens, mesmo tendo sido interrompida.
Eu nem ousava questionar o motivo. Só conseguia ficar parado, perplexo, enquanto Liz paparicava a Tino.
Tino parecia destroçada no chão, como se precisasse de cura imediata. Mas então, incrivelmente, ela se levantou aos poucos sobre os joelhos e—com muita dificuldade—ficou de pé. Ela estava tão tonta que até eu teria chance contra ela em uma luta. Naquele momento, agradeci de verdade pelo fato de a máscara esconder sua expressão.
— Você fez de novo, Krai Baby! — vibrou Liz. — Sempre senti que não conseguia dar aquele empurrão final nela. Tô morrendo de inveja de você, Krai Baby! Isso aí, T. Você pode fazer muito melhor! Era isso que tava faltando!
Fiquei ali parado, sem entender absolutamente nada do que ela estava falando. Mais uma vez, nem me atrevi a perguntar. Liz estava em overdrive: ardendo em uma energia tão intensa que era quase palpável.
O título "Sombra Partida" já pertenceu ao Ladino mais famoso de Zebrudia. Liz buscou seu treinamento e herdou o título em apenas alguns anos. Dizem que a vida de uma Sombra Partida se estendia além da dos meros mortais. E quando uma Sombra Partida usava seu poder máximo, seu coração tremia, e seu corpo ardia com um calor intenso.
Liz riu enquanto se espreguiçava casualmente.
— Foi mal, Krai Baby. Você se importa de ficar de fora por um tempo?
— Sério? — murmurei.
Ela vai continuar o treino da Tino?!
Tino, à beira do colapso, não tinha a menor chance em nenhum mundo contra uma Liz lutando a todo vapor. E o olhar de Liz deixava claro que ela não tinha intenção de pegar leve.
— Não me importo se você quiser ficar — disse Liz —, mas não acha que seria meio cruel com a T? Você não pode ver o rosto dela, mas ela não ia querer que você visse o que vai acontecer agora: tossindo sangue e se mijando toda. Não posso chegar muito perto de matá-la já que não temos um curandeiro aqui, mas, se fosse comigo, eu morreria de vergonha se você me visse nesse estado. Você entende, né? Você pode assistir da próxima vez, Krai Baby, mas essa é a primeira vez que ela vai chegar tão longe. Tenha um pouco de misericórdia dela, vai?
Droga. Liz tinha essa mesma energia tanto quando estava furiosa quanto quando estava feliz.
— Sim, senhora.
Só pude assentir diante do sorriso de Liz, que brilhava como um girassol. Ainda consegui dar uma olhada para Tino, que parecia disposta a continuar o treinamento. Eu nunca entenderia o que levava essas pessoas a esses extremos—caçadores realmente eram um enigma.
Subi as escadas enquanto me desculpava com o grupo do Sven.
— Foi mal por isso. Não tem como falar com a Liz quando ela fica assim.
Liz nunca teve nenhum dilema moral para começar brigas com os outros. Embora, pelo menos, ela ouvisse seus amigos de infância. Mas por "ouvir", quero dizer que ela apenas escutava e considerava o que dizíamos; nada além disso. Não tinha como mandar nela, não importava a situação.
Cada andar do porão da casa do clã possuía áreas de treinamento com diferentes equipamentos. A que Liz estava ocupando agora era a área projetada para Ladinos. Tinha de tudo: desde ferramentas para combate corpo a corpo, alvos para arremesso de adagas, armadilhas e até baús de tesouro. O problema era que essa era a única área de treinamento com essas instalações. Essas áreas não eram pequenas o suficiente para dois caçadores dominarem completamente, mas essa era uma exceção.
Já tentei de tudo para tirar a Liz de lá, então o grupo do Sven teria que se contentar com outra área de treinamento ou adiar o treino para amanhã.
— Acontece. Não é a primeira vez que você empurra alguém do grupo até o limite — disse Sven, resmungando diante do meu pedido de desculpas.
— Não, eu estava tentando impedir—
— Não precisa explicar — interrompeu Sven. — Eu sei, eu sei. Deixar a Tino mais forte vai ser benéfico para todos nós.
Ele acenou para si mesmo, claramente sem entender nada. Depois, trocou olhares com seus companheiros de grupo, e todos pareciam concordar.
Se ao menos eu e a Liz conseguíssemos nos entender tão facilmente...
Ah, tanto faz. Se eles estavam dispostos a ignorar a atrocidade da Liz, eu também deixaria pra lá.
Caçadores fortes eram todos meio malucos de um jeito ou de outro. Sven e seu grupo podiam ser meio excêntricos em comparação a pessoas normais, mas pareciam incrivelmente sensatos ao lado da Liz.
Socorro.
Gritos angustiados ecoaram na área de treinamento atrás de mim, mas decidi fingir que não ouvi nada.
Eu só queria largar tudo e ir tomar um sorvete.
***
— A estrada do norte está bloqueada? — perguntei, surpreso com a dica que Sven me deu durante nossa conversa casual.
A capital ficava praticamente no centro geológico do império. Estradas largas e bem construídas se estendiam para o norte, leste, sul e oeste, conectando-a a outras grandes cidades e cofres do tesouro. Por isso, mesmo apenas uma delas sendo bloqueada já era um grande problema. Eu tinha ouvido falar de um fantasma perdido da Toca do Lobo Branco atacando uma caravana, mas duvidava que isso fosse motivo suficiente para um bloqueio.
— Sim, avistaram vários fantasmas. Ainda estão investigando os detalhes, mas alguns cavaleiros da Ordem já foram eliminados — explicou Sven, sério.
De modo geral, os fantasmas permaneciam dentro dos cofres do tesouro. Encontrar um fora deles era extremamente raro, e ver mais de um em um curto período de tempo certamente não era coincidência.
Agora que penso nisso, a Toca do Lobo Branco também estava meio estranha — lembrei de como a masmorra estava quando fui resgatar Tino.
Não fazia ideia do que poderia estar causando todas essas irregularidades, nem tinha qualquer interesse no bloqueio, já que eu permanecia nos limites seguros da capital. No entanto, essas estradas eram como as artérias do império. Os mercadores só se reuniam em Zebrudia porque presumiam que as estradas eram seguras para viajar. Sendo assim, era totalmente possível que nós, caçadores, fôssemos convocados para resolver o problema. Fiquei me perguntando se Gark me chamou para falar sobre isso. Ele tinha o costume de pedir minha opinião nessas situações só porque eu era de alto nível.
Depois de pensar nisso por alguns momentos, desisti. Suspiro. Não valia a pena me preocupar. Pelo menos eu tinha uma carta na manga — e não, não era a Liz, que abandonou os amigos dentro de um cofre do tesouro e voltou sozinha para a capital. Problemas como esse pediam por Ark Rodin.
As pessoas admiravam Ark. Ele era forte, inteligente, famoso e, além de tudo, um líder excepcional. E, o mais importante, ele era um cara decente. Os membros do seu grupo, embora não estivessem exatamente no mesmo nível de Ark, também eram muito competentes. Sendo um grande comandante e guerreiro, Ark era como um esquadrão inteiro de caçadores dentro de um único corpo. Na verdade, entre os caçadores orgulhosos que formavam a Passos, não havia ninguém que não respeitasse Ark (com exceção dos meus amigos de infância). As coisas simplesmente se resolviam quando eu deixava Ark assumir o controle. E se não se resolvessem, significava que não havia nada que eu pudesse fazer de qualquer forma.
Quando Ark vai voltar? Eu precisava ganhar tempo até que ele retornasse. Ele sempre me avisava antes de deixar a capital por muito tempo, então não deveria demorar. Assim, simplesmente fiquei ali, sem me preocupar muito com o bloqueio.
Sven torceu sua expressão intimidadora em um sorriso enquanto dava um tapa no meu ombro.
— Você continua tranquilo como sempre, CM.
Respondi apenas com um sorriso silencioso. Não era nenhum mistério o motivo de eu estar tão relaxado: isso não tinha nada a ver comigo. Sem querer me gabar, mas minhas habilidades de autopreservação eram excepcionais. E por "habilidades de autopreservação", quero dizer "empurrar minhas responsabilidades para os outros". Foi assim que sempre lidei com as coisas, e assim que continuaria. Só podia torcer para que alguém me expulsasse da minha posição antes que eu estragasse tudo de vez.
— Quem sabe o que está acontecendo lá fora? Estávamos nos preparando para qualquer eventualidade caso nos chamassem para agir — acrescentou Sven. — Mas acho que podemos fazer isso amanhã também.
Mais uma vez, eu me sentia realmente culpado por um dos meus sempre estar causando problemas.
Felizmente para mim, Sven não parecia irritado com a mudança em seus planos. Além disso, seu grupo e o meu se conheciam há tempos; Sven já lidava com a loucura da Liz muito antes de nos mudarmos para a capital.
Obsidian Cross era um grupo famoso por seus membros se complementarem e garantirem um desempenho confiável. Eles não teriam problemas em lidar com alguns fantasmas perdidos agora mesmo, especialmente se fossem como os cavaleiros-lobo da Toca do Lobo Branco.
Foi então que uma ideia brilhante surgiu na minha mente: se eu enviasse Obsidian Cross para Gark, o problema se tornaria deles! Gark não poderia reclamar de um grupo de nível 6. Era um encaixe perfeito. Diferente de mim, Sven não se importava em caçar fantasmas. Que ideia genial!
Juntei as mãos e observei os membros do Obsidian Cross. Com um sorriso, sugeri:
— Se vocês têm um tempinho livre, por que não pegam uma missão? Ah, e já que vão até a Associação, podem avisar ao Gark que estou meio ocupado demais para vê-lo hoje?
Krai Andrey saiu caminhando alegremente enquanto Sven o observava partir.
Henrik Hefner, o Clérigo do Obsidian Cross, finalmente se pronunciou:
— Eu nunca sei o que ele está pensando. Ele parece... — Henrik fez uma pausa, refletindo. — Tão despreocupado.
Sven riu, coçando a bochecha.
— Pois é. Mas ele não é um cara ruim.
Obsidian Cross era um dos grupos fundadores da Primeiros Passos. Seus membros eram alguns anos mais velhos, em média, do que os do Ark Brave ou do Grieving Souls, mas ainda faziam parte da era de ouro da caça ao tesouro. Com uma formação única, onde todos possuíam habilidades de cura, esse grupo bem equilibrado completou inúmeras missões graças à sua estratégia cautelosa. Mas isso também significava que não acumulavam tantos feitos chamativos quanto outros caçadores do mesmo nível. Obsidian Cross acabava ficando na sombra de dois grupos extremamente bem-sucedidos, mas se tivesse surgido uma ou duas décadas antes, seria considerado o melhor da geração. Naturalmente, era altamente respeitado tanto pela Associação quanto pelos outros grupos.
— Talvez você devesse ter dito não, Sven. O que ele faz o tempo todo, afinal? — perguntou Henrik, tentando esconder sua irritação.
Como um clã era uma aliança de vários grupos, não havia hierarquia dentro dele: nenhum grupo era obrigado a fazer favores para outro caçador — nem mesmo para o mestre do clã. Ter que fazer recados não caía bem para Henrik, especialmente porque orgulho e reputação eram tudo para os caçadores.
Todo caçador da capital conhecia a história do Grieving Souls. Em uma palavra, seu caminho tinha sido turbulento. Os Grievers enfrentavam cofres de alto nível como se não houvesse amanhã, arriscando a vida para subir na hierarquia da glória. Eram o completo oposto do Obsidian Cross, que preferia abordar um cofre de cada vez, com segurança.
Embora um caçador cauteloso como Henrik não conseguisse entender como os Grievers faziam isso, ele os respeitava por isso. Todos os caçadores carregavam uma certa reverência pelos Grieving Souls — o líder do grupo, no entanto, era outra história. Henrik nunca tinha visto o Mil Truques se aventurar em um cofre do tesouro. Quando entrou para a Obsidian Cross, meio ano atrás, Henrik reverenciava o infame Mil Truques — essa reverência havia desaparecido completamente nos últimos seis meses, conforme testemunhava Krai nos bastidores.
— Está tudo bem — disse Sven, tentando acalmar a insatisfação descarada de Henrik. — Temos tempo. E não é uma má ideia fazer com que ele nos deva um favor.
Henrik franziu a testa. Seu líder, Sven, normalmente se mantinha firme.
— O líder do grupo fica para trás enquanto o resto da equipe entra no cofre — eles não ficam irritados com isso?
— Krai sempre foi assim. Talvez você seja novo demais para saber, Henrik, mas o grupo dele simplesmente funciona desse jeito. Assim como este clã — Sven falou com leveza, mas com seriedade suficiente para avisar Henrik a não questionar Krai mais do que devia.
— Se você diz, Sven — respondeu Henrik. Por mais insatisfeito que estivesse, ele sabia que não era sábio criticar abertamente o mestre do seu próprio clã.
Henrik tinha uma experiência razoável como caçador. Já havia trabalhado com várias outras equipes antes de se juntar à Obsidian Cross e se considerava um bom juiz de caráter. Ainda assim, ele não conseguia entender Krai Andrey. Como a força dos caçadores era amplamente decidida pela quantidade de acúmulo de mana em seus corpos, a aparência nem sempre refletia seu verdadeiro poder. Era perfeitamente possível que um homem gigantesco perdesse em força bruta para uma garotinha. Com prática, era possível identificar o acúmulo de mana pelo olhar. E, tendo bastante prática nisso, Henrik simplesmente não conseguia enxergar em Krai alguém de alto nível. Ele não teria acreditado que Krai tinha um título, que era um Caçador de Nível 8, ou que era tanto o líder dos infames Grieving Souls quanto o mestre desse enorme clã. Mesmo agora, ele mal conseguia acreditar. Krai simplesmente não tinha nenhuma presença autoritária.
— Não estou reclamando, contanto que ele impeça Liz e Luke de sair espancando todo mundo pelo caminho — acrescentou Sven.
Henrik fechou os olhos e relembrou os eventos no campo de treinamento: Liz tinha uma aura ardente e uma animosidade quase assassina que nenhum caçador deveria exibir no meio de uma cidade. Mesmo através de uma porta fechada, sua presença esmagadora e sua voz arrepiante eram aterrorizantes o suficiente para dificultar a respiração de Henrik.
É claro que ele conhecia a Sombra Partida, a encrenqueira dos Grieving Souls; não existiam muitos caçadores de Nível 6 com um título. Depois do que viu hoje, Henrik podia afirmar que sua fama era bem merecida. Ele precisava admitir que, no mínimo, Krai tinha coragem de se colocar entre Liz e seu aprendiz.
— Mas ele não conseguiu impedi-la — murmurou, ainda não totalmente convencido.
Sven sorriu e disse:
— Pode não parecer agora, mas Krai é tão esquisito quanto qualquer Griever. Para começar, ele é o único que já derrotou Ark Rodin — o descendente do herói e, provavelmente, o caçador mais forte vivo. Outra coisa: Liz e Luke obedecem suas ordens. É fácil esquecer tudo isso quando você passa tempo no clã dele. Não estou dizendo para seguir cegamente suas ordens. Só... não cometa o erro de julgá-lo pela aparência ou de interpretar suas palavras ao pé da letra. Ele sempre tem algo a mais por trás. Não é o que sempre fazemos?
Henrik ficou boquiaberto com o olhar de Sven. Não parecia que ele estava falando sobre o mestre do clã.
— Certo! — respondeu Henrik em alto e bom som, como se tentasse espantar suas próprias dúvidas. Um suor frio escorreu por suas costas ao perceber que não estava enxergando Krai como o Caçador de Nível 8 que ele realmente era, mesmo já sabendo de tudo aquilo antes. Olhando para trás, isso era impensável: se o Mil Truques tinha planejado tudo aquilo de propósito, Henrik não tinha sequer desconfiado até agora. Essa realização o aterrorizou.
Sven falou de forma encorajadora:
— Não esquenta. Você não está encrencado. Além disso, Ansem também é um Griever. Krai não pode aprontar nada muito absurdo enquanto ele estiver por perto.
Henrik finalmente parecia aliviado com essa ideia.
Cada membro da Obsidian Cross acreditava no Deus Sagrado. Todos eles possuíam algum poder de cura, e Ansem Smart era renomado entre os Clérigos da capital. Caçadores de alto nível costumavam desempenhar múltiplas funções e levar vidas agitadas, e Ansem era o melhor exemplo disso: mesmo para os próprios membros do clã, encontrá-lo não era algo frequente. Ainda assim, sua reputação como a consciência dos Grieving Souls era amplamente conhecida. Ansem, que se especializava em proteção e cura, ajudava qualquer um que precisasse — era um homem estoico, mas cheio de amor por seus companheiros caçadores.
Havia muitos rumores sobre Ansem, alguns mais críveis que outros: diziam que ele havia curado a filha de um grande nobre de uma doença considerada incurável ou que havia recebido convites para se juntar à Ordem dos Cavaleiros Imperiais, só para citar alguns. De toda forma, ele era o responsável por manter os Grievers inteiros durante suas aventuras brutais.
— O Imutável — um dos melhores Clérigos da capital — murmurou Henrik.
— Mas ele não tem piedade com os desleais. Talvez seja sério demais às vezes, mas é alguém em quem você pode confiar. Se ao menos ele pudesse se juntar ao nosso grupo... Bom, chega de conversa fiada; vamos até a Associação. Quero saber das atualizações sobre a estrada bloqueada também — concluiu Sven, ignorando o olhar curioso de Henrik.
A essa altura, não havia mais nenhum traço de insatisfação no rosto de Henrik. Ele não cometeria o mesmo erro de subestimar Krai novamente. Os Grievers tinham uma forma incomum de administrar seu grupo, algo que, no começo, também incomodava Sven. Deixando os outros membros de lado, ele simplesmente não conseguia enxergar Krai como nada além de um cara comum — como se ele nem fosse um caçador.
Sven precisava se lembrar disso de tempos em tempos. Embora achasse tolice dar mais importância ao status de alguém do que à impressão pessoal que causava, o Mil Truques e seu disfarce impenetrável precisavam ser uma exceção.
Enquanto observava Henrik, Sven se lembrou de como os Primeiros Passos foram criados.
O quarto escondido conectado ao escritório do mestre do clã, um cômodo sem janelas para evitar problemas de segurança, estava abarrotado com minha coleção de Relíquias — acumuladas com muito tempo e dinheiro. Conferi cada uma delas e só pude soltar um gemido.
Droga. A maioria está sem mana.
Era exatamente o que eu temia, e isso basicamente selava meu destino. Colecionar Relíquias era tanto um hobby quanto um dos poucos meios de autodefesa que eu tinha. Muitos caçadores habilidosos carregavam uma ou duas Relíquias como carta na manga. Mas, para alguém sem talento como eu, as Relíquias, que produziam os mesmos efeitos independentemente do usuário, eram uma tábua de salvação.
Ao longo dos meus cinco anos na capital, eu havia coletado mais de quinhentos Artefatos. Meu arsenal era composto por Artefatos de todas as formas e tipos, capazes de me permitir sobreviver a qualquer situação, desde que eu os utilizasse corretamente—e desde que estivessem carregados com mana. Recarregar mana regularmente era essencial para manter os Artefatos utilizáveis, pois a mana armazenada vazava em diferentes velocidades, mesmo quando os Artefatos não estavam em uso.
No momento, a maior parte da minha coleção de Artefatos era tão útil quanto um enfeite de parede: todas as minhas armas Artefato (que perdiam mana mais rapidamente) estavam inutilizadas; o mesmo acontecia com minhas armaduras Artefato. Me restavam apenas alguns poucos Artefatos ainda carregados, mas a quantidade insignificante de mana que eu possuía não era nem de longe suficiente para recarregá-los. A Associação geralmente recomendava que os caçadores carregassem apenas Artefatos que pudessem recarregar sozinhos, mas eu sempre tive Lucia—Maga dos Grieving Souls—para carregar minha coleção por mim. Embora ela tivesse recarregado todos os meus Artefatos antes de partir da cidade, eu não esperava que ela ainda estivesse fora. A essa altura, até os Artefatos que ainda estavam funcionais não durariam muito. Meus Anéis de Segurança eram uma exceção, pois retinham mana por mais tempo, mas eram apenas um seguro: não serviriam de nada se eu estivesse encrencado.
Por que tudo isso importaria para mim, já que eu nunca saía da capital? Eu sou um covarde. Apesar de sempre ter tentado me manter nas sombras, acabei me tornando bem reconhecível. Isso não seria um problema, se não fosse pela população de criminosos e caçadores querendo fazer seu nome ao eliminar caçadores de alto nível. Por isso, eu jamais ousaria andar pelas ruas sem ferramentas suficientes para me defender ou fugir.
Joguei de lado o Andarilho Noturno (agora que estava sem mana, não passava de um casaco estiloso) e me joguei na cama do quarto secreto. Eu não poderia nem sair para tomar um sorvete sem resolver essa situação. Pedir a um companheiro de clã para recarregar os Artefatos estava fora de questão: um ou outro, tudo bem, mas eu tinha centenas de Artefatos vazios. Não havia como um mago comum carregá-los todos, especialmente porque carregar qualquer quantidade de Artefatos era um fardo enorme—se eu exigisse algo assim, me tornaria um pária dentro do meu próprio clã; meus companheiros poderiam até considerar isso um abuso de poder.
Liz era a única outra Grieving na cidade, mas era inútil quando se tratava de magia. Uma vez, pedi para ela recarregar meus Artefatos, e depois do terceiro, ela mal conseguia ficar de pé de tão drenada. Ainda assim, tentou pegar o próximo, e eu tive que impedi-la.
Olhando para o teto, respirei fundo. O que será que os outros Grievings estão fazendo? Eu me sentiria muito mais seguro quando eles voltassem, mesmo sem Ark à minha disposição. Eles já deveriam ter voltado se tivessem seguido o cronograma e terminado no cofre. Pelo que Liz me contou, não parecia que estavam enfrentando problemas, mas era bem possível que tivessem se distraído no caminho.
Passos soaram no corredor.
Saltei da cama, peguei o Andarilho Noturno do chão e ajeitei minha aparência.
Como a única entrada para este cômodo ficava escondida atrás de uma estante no escritório do mestre do clã, e os membros eram proibidos de entrar sem permissão, a lista de pessoas que poderiam estar ali era curta. Os Grievings ignoravam todas as regras e invadiam onde queriam, mas nenhum deles fazia barulho ao andar. Havia apenas um nome nessa lista curta que fazia.
Houve uma batida na porta, e eu controlei minha respiração antes de responder. A porta se abriu lentamente, revelando a vice-mestra do clã, Eva, exatamente como eu esperava. Ela me viu segurando o Andarilho Noturno e ergueu uma sobrancelha.
— O que você está fazendo aqui embaixo?
Foi por pouco. Ela já estava acostumada a me pegar enrolando, mas eu não queria levar uma bronca por tirar uma soneca em pleno expediente. Ainda mais considerando que eu estava ignorando a convocação de Gark, imaginei que Eva teria algumas reclamações para fazer, já que eu sempre deixava toda a parte administrativa do clã nas mãos dela.
— Só... investigando uma coisa — murmurei, recebendo um olhar confuso de Eva.
Estranho, eu sei, considerando que este era meu quarto particular. O que eu poderia estar investigando em um cômodo com nada além de Artefatos e móveis básicos? Dito isso, Eva era uma das poucas pessoas que sabia o quão inútil eu realmente era. Achei que ela entenderia a situação e me deixaria em paz.
— Investigando o quê? Posso te ajudar com isso? — ela perguntou, completamente errando a leitura da situação. Não era possível que ela realmente acreditasse que eu estava investigando alguma coisa.
Evitei seu olhar penetrante.
— Tá tudo bem. Tinha que ser eu mesmo. E acabei de terminar.
Coloquei o casaco Artefato de volta no cabide.
O que eu estava investigando aqui embaixo? Como? O que era algo que só eu poderia investigar? Eu precisava mesmo fazer isso agora, em vez de atender ao chamado de um figurão da Associação?
Se eu estivesse no lugar de Eva, teria uma enxurrada de perguntas para mim mesmo, e eu não tinha uma resposta decente para nenhuma delas. O suor frio começou a escorrer pela minha testa.
Eva suspirou baixinho.
Estou ferrado. Ela sabe que eu só estava me escondendo aqui em vez de trabalhar. Mas não era minha culpa: eu não tinha como sair lá fora!
— Tem algo em que eu possa te ajudar? — perguntou Eva.
— Não, não, não — respondi no reflexo.
Eva franziu a testa com minha resposta. Será que ela realmente acreditou? Eu não achava que havia nada em mim que fosse confiável neste momento. Não querendo me justificar, mas eu ficaria bem surpreso se ela acreditasse, já que conhecia bem meu modus operandi. Será que ela estava me provocando? Isso parecia mais provável do que ela simplesmente aceitar minha palavra.
Os olhos cor de lavanda de Eva analisaram meu rosto inteiro, como se estivessem tentando ler minha mente. Era impossível dizer, pela expressão dela, se ela realmente acreditava ou se essa era sua forma sutil de me repreender.
Limpei a garganta rapidamente e disse:
— Não é que eu não confie nas suas habilidades, Eva. É que... é uma tarefa extremamente sensível e... perigosa. Tem que ser eu. Nem Ark nem Liz podem me ajudar com isso.
Eva pareceu surpresa, então acrescentei apressadamente:
— Mas não é nada demais. Sério. Não precisa se preocupar. Agradeço a oferta, mas eu consigo lidar com isso sozinho. Foi isso que eu quis dizer.
Em nossa organização, a equipe administrativa tinha mais poder do que os caçadores. Essa era uma regra que eu havia estabelecido no começo para evitar que os caçadores desobedecessem as ordens da administração. Se eu preocupasse Eva a ponto de boatos estranhos começarem a circular sobre mim, eu ficaria numa posição complicada. Pensando bem, eu deveria ter dito que estava apenas inspecionando meus Artefatos—embora isso não justificasse eu ignorar o chamado de Gark.
— Isso é—
— Fim de discussão — falei antes que Eva pudesse continuar. — E nada de mais perguntas. Preciso que mantenha isso entre nós.
Eu tinha decidido varrer isso para debaixo do tapete antes que me incriminasse ainda mais. Mesmo que apenas nominalmente, eu ainda tinha uma patente superior à de Eva. Isso deveria mantê-la calada.
Um brilho de amargura passou pelo rosto de Eva, desaparecendo num instante.
— Entendido, senhor.
Eu não queria colocar as coisas dessa forma, mas o tempo de Eva teria sido muito melhor aproveitado se estivesse focada no trabalho dela em vez de lidando comigo.
Tentei aliviar a tensão com uma piada:
— Bem, se realmente quiser ajudar, pode sair pela cidade e procurar novas sorveterias para mim.
— Sim, senhor — respondeu Eva, insatisfeita. Seus lábios não esboçaram nem um mísero sorriso diante da minha impressionante demonstração de humor.
— Então, nenhuma mudança nas linhas ley locais?
Gark Welter, gerente da filial da capital da Associação dos Exploradores, soltou um grunhido ao ler o relatório em suas mãos. Suas feições intimidadoras se contorceram ainda mais em frustração. Isso, somado à sua presença imponente, que continuava tão robusta quanto nos seus tempos áureos, foi suficiente para fazer o mensageiro da Terceira Ordem ficar em posição de sentido.
Entre as várias divisões dos cavaleiros imperiais, a Terceira Ordem era responsável pela manutenção da paz dentro do império. Lidava não apenas com criminosos, mas também com monstros, espectros e até desastres naturais. Tradicionalmente, sempre que ocorriam problemas nos cofres de tesouro, seus cavaleiros uniam forças com a Associação para resolver a situação.
Gark observou o relatório em silêncio. Ele nunca tinha presenciado um incidente como esse.
As linhas ley eram como vasos sanguíneos da terra: alimentavam, de diversas formas, as terras por onde passavam, formando um labirinto de caminhos subterrâneos. Criaturas poderosas eram atraídas por grandes fluxos de energia; a manipulação das linhas ley permitia a realização de rituais mágicos em larga escala com poucos catalisadores; e, o mais importante, o mana material que fluía pelas linhas ley era a fonte da manifestação dos cofres de tesouro.
Assim, a maioria das mudanças na natureza de um cofre era causada por alterações na quantidade de mana material na região. Se as linhas ley mudassem de forma a não mais concentrar mana em determinada área, o cofre simplesmente desapareceria. Mas se a concentração de mana aumentasse, o cofre se tornaria significativamente mais perigoso. Em alguns casos, um cofre poderia até se expandir o suficiente para que espectros dele começassem a surgir nas estradas próximas à capital.
Porém, esse não era o caso agora.
As linhas ley raramente mudavam—tão raramente que a causa mais comum era um grande terremoto alterando a estrutura tectônica do subsolo. Mas não havia qualquer sinal de tremores recentes. Um desastre desse porte certamente teria causado grandes danos à capital, e, nesse tipo de situação, a análise das linhas ley teria sido tratada como prioridade máxima, assim como os resgates.
— Se as linhas ley não mudaram, qual é a causa? — resmungou Gark, forçando o cérebro.
O Covil do Lobo Branco era um cofre de nível 3, o que significava que os espectros nele deveriam ter uma força correspondente. Espectros não eram exatamente seres vivos, mas sim imitações de formas de vida geradas a partir do mana material. A força deles dependia da densidade de mana na área. O motivo mais óbvio para a alteração seria um deslocamento das linhas ley, mas o relatório produzido pela equipe especializada (escoltada por cavaleiros) não mostrava qualquer evidência disso.
Ainda assim, era inegável que o nível do cofre havia aumentado: os espectros dentro dele tinham se tornado muito mais fortes do que antes. Os detalhes ainda estavam sendo analisados, mas estimava-se que a força deles havia subido pelo menos de dois a três níveis.
Com a grande quantidade de caçadores na capital, o aumento no nível do Covil do Lobo Branco não era um problema imediato. Os espectros que aparecessem nas estradas poderiam ser facilmente eliminados agora que a Associação estava ciente da situação. No entanto, o fato de os investigadores ainda não terem descoberto a causa real da mudança deixava Gark inquieto.
Ainda analisando o relatório, ele começou a raciocinar:
— Alguém causou isso? Mas como?
Os cofres de tesouro eram ao mesmo tempo armadilhas mortais e os maiores mistérios da natureza. Desde os primórdios da humanidade, esses cofres eram estudados, mas muito pouco se sabia sobre eles.
Já haviam tentado manipular e distorcer as linhas ley para criar novos cofres de tesouro, capturar e transferir espectros de um cofre para outro, fundir diferentes cofres em um só e até vincular a geração de Relíquias a locais específicos dentro dos cofres para permitir extrações seguras e regulares.
Mas, pelo que Gark se lembrava, nenhum experimento artificial no passado havia produzido efeitos semelhantes ao que estavam testemunhando agora.
Além disso, todos os países proibiam qualquer tentativa de manipular a natureza de um cofre de tesouro ou interferir no fluxo do mana material. Esse tipo de experimento era um dos dez crimes capitais do Império Zebrudiano—infrações consideradas as mais hediondas de todas.
Gark imaginou que os pesquisadores do Escritório de Investigação de Cofres do império (um instituto dedicado ao estudo dos cofres de tesouro) estavam agora revirando seus arquivos em busca de respostas.
Ele refletiu por um momento, de olhos fechados, então os abriu lentamente e lançou um olhar cortante para o cavaleiro mensageiro.
— Vamos enviar uma equipe também. Mantenha-me informado sobre qualquer progresso.
Ao ouvir as palavras de Gark, o cavaleiro saudou e saiu da sala.
Embora o Covil do Lobo Branco ainda não fosse uma ameaça incontrolável para os caçadores de elite, Gark temia que a situação piorasse. Como o cofre ficava próximo à capital, se seu nível de ameaça continuasse subindo a ponto de nenhum caçador conseguir lidar com ele, o império seria forçado a transferir a cidade para uma localização mais segura.
Resolver esse mistério era uma questão de extrema urgência.
Gark não tinha pistas concretas, mas sabia de alguém que poderia ter. Ele soltou um longo suspiro e se virou para sua assistente, Kaina.
— Quero falar com Krai. Chame-o.
— Ele recusou seu último pedido dizendo que estava ocupado demais — lembrou Kaina.
— Se ele recusar de novo, diga que eu mesmo irei até ele — rosnou Gark.
Os caçadores registrados na Associação dos Exploradores eram obrigados a atender às ordens em caso de emergência, mas não havia uma definição clara do que constituía uma emergência. Caçadores frequentemente recusavam pedidos da Associação, ainda mais quando pertenciam a um clã tão influente quanto o Primeiros Passos.
Percebendo a hesitação de Kaina, Gark acrescentou:
— Não se preocupe. Nem mesmo o Krai vai fugir disso. Ele sabe de algo—eu tenho certeza.
Ele alisou os papéis que havia amassado e os entregou para Kaina, que ainda parecia pouco convencida.
— Ele não pisa em nenhum cofre há anos, mas decidiu ir pessoalmente até a Toca do Lobo Branco? Só isso já me diz que tem algo lá que vale o tempo dele — disse Gark.
Se qualquer caçador comum tivesse escolhido aquela missão no meio da pilha, Gark teria apenas considerado um golpe de azar. Mas quando se tratava do Mil Truques, a sorte não interferia em suas ações. O legado que Krai havia construído nos últimos anos era suficiente para que Gark depositasse sua fé nele.
Kaina assentiu ao comentário de Gark sem mais objeções.
Um velho suspirou, olhando para cima. — Que inesperado. Nem mesmo os deuses poderiam prever que caçadores de alto nível se envolveriam.
Ele estava em uma sala espaçosa, sem janelas. As paredes e o chão eram feitos de terra processada com alquimia e, por isso, pareciam refinados. Além de móveis básicos como mesas, estantes e cadeiras, a sala estava repleta de instrumentos bizarros. O mais notável deles era um tubo de vidro espiral no centro da sala, com uma das extremidades cravada no chão. O tubo vibrava levemente enquanto emitia um brilho fraco.
Diante do tubo de vidro estava o velho. Seus cabelos brancos e traços enrugados condiziam com sua idade. Ele vestia uma túnica preta simples, encantada com magia poderosa, um indicativo de sua excepcional carreira como mago.
Na verdade, aquele homem já fora considerado um dos melhores magos da capital—seu título era Mestre dos Magos. Seu nome era Noctus Cochlear, e agora ele servia como diretor de pesquisas da base capital da Torre Akáshica, um sindicato maligno de magia.
Atrás dele, estavam quatro de seus aprendizes. Seu segundo aprendiz, um homem de olhos serpenteantes, relatou em um tom baixo:
— Pode ser apenas uma questão de tempo até que a Associação dos Exploradores descubra este local. Duvido que as massas tolas do império consigam compreender a grandiosidade de sua conquista, mestre, mas eles não sairão de cima até descobrirem a causa.
Passos ecoavam acima deles, vindos da caverna que era a Toca do Lobo Branco. O barulho era projetado magicamente na sala onde estavam, o que significava que os caçadores não estavam necessariamente bem acima deles. De qualquer forma, eles não mostravam sinais de abandonar sua tarefa ou de sair dali.
Os cofres de tesouro eram uma prioridade para Zebrudia, pois eram considerados os epicentros da caça ao tesouro. Eram tão importantes que Zebrudia possuía um departamento dedicado à investigação de cofres.
— Eu disse que era cedo demais para jogar caçadores lá dentro — disse Noctus com decepção audível.
O instrumento de vidro à sua frente ainda estava funcionando perfeitamente como planejado, extraindo uma quantidade enorme de energia das linhas ley e acumulando-a onde estavam. Esse era o fruto da obsessão de Noctus Cochlear—um sonho que ele realizou ao priorizar sua pesquisa acima de qualquer status ou reconhecimento. À medida que o experimento progredia, Noctus esperava que seu dispositivo fosse capaz até mesmo de gerar cofres de tesouro à vontade. Mas ainda havia um longo caminho a percorrer: sua pesquisa ainda era amplamente teórica e definitivamente não estava em um ponto em que pudesse controlá-la.
— Eu sabia que deveria ter recusado, independentemente da pressão que me fizeram — murmurou Noctus.
Ele esperava que as mudanças no cofre fossem descobertas, mas não tão rapidamente. Elas deveriam ter passado despercebidas até que o experimento tivesse progredido um pouco mais e o cofre se tornado um pouco mais letal. Foi por isso que ele escolheu a Toca do Lobo Branco: era um dos cofres menos populares da região ao redor da capital. Mas agora, toda a sua preparação havia sido em vão. Jogar caçadores lá dentro antes que estivesse devidamente fortalecido levou ao envio de uma equipe de resgate poderosa, o que fez com que a Associação descobrisse os resultados do experimento.
O experimento de Noctus só foi possível graças a um investimento financeiro monumental. Ele não podia culpar seus investidores por exigirem resultados, mas não conseguiu evitar um suspiro irritado com a política acadêmica que o perseguia até mesmo dentro desse sindicato ilegal de magia.
Ele não esperava que a entrada para aquele laboratório (que não estava conectada à Toca do Lobo Branco e era bem escondida) fosse descoberta tão cedo. Mas, agora que haviam atraído tanta atenção para o cofre, não havia outra escolha.
— Teremos que abandonar este laboratório. De volta à estaca zero.
Ele não estava pronto para enfrentar o império.
Contratempos eram comuns em qualquer experimento, e Noctus sabia lidar com atrasos. Ele estava acostumado com resistência, já que um dia foi banido do império por propor uma teoria que violava descaradamente a lei. Esse experimento só começou a mostrar resultados promissores há uma ou duas semanas, e ainda havia muito a melhorar—os fantasmas poderosos que ele havia criado foram completamente aniquilados pelos caçadores. Enquanto seu equipamento estivesse intacto, ele poderia continuar seu experimento em qualquer cofre de tesouro. Mesmo assim, estava decepcionado.
— Os fantasmas derrotaram o grupo de Rudolph. Eu não esperava que um dos três nível 8 da cidade aparecesse — resmungou Noctus.
— Talvez fantasmas sempre sejam apenas fantasmas, não importa quão poderosos se tornem—eles nem percebem quando estão fora de seu alcance — comentou um dos aprendizes. Todos eles haviam ajudado no experimento também.
Os fantasmas de alto nível gerados pelo experimento haviam derrotado um caçador de nível 5 e seu grupo, o que os tornava equivalentes a fantasmas de nível 6 ou 7—muito além da ameaça esperada para a Toca do Lobo Branco. Noctus só concordou em colocar caçadores lá dentro porque achava que os fantasmas seriam capazes de eliminá-los. Ele esperava que uma missão de resgate fosse enviada, mas não que chamassem um caçador de nível 8 para um cofre de nível 3. Nem mesmo os superfantasmas tiveram chance contra um nível 8.
— Não havia como ele saber de antemão. O Mil Truques é mais astuto do que sua reputação sugere — admitiu Noctus.
Noctus não era um caçador, mas estudara bem aqueles que poderiam se tornar seus adversários. Caçadores que sobrepujavam a magia com força bruta eram inimigos naturais dos Magi.
O Mil Truques era um caçador famoso de nível 8; seu nível por si só já sugeria que ele possuía algum tipo de poder extraordinário. Mas, por mais que investigasse, Noctus não encontrou nenhuma pista sobre qual era esse poder. Aparentemente, o Mil Truques era um mestre em ocultar informações.
Noctus não conseguia imaginar como seu experimento, protegido por camadas e mais camadas de preparação meticulosa, poderia ser descoberto, mas acreditava que nunca se podia ter cuidado demais.
Flick Petosin, o segundo aprendiz de Noctus, estalou a língua em frustração com o contratempo tão perto do sucesso.
— E a Sophia está de férias agora? O que ela está fazendo? Ela era responsável pelos mecanismos de defesa.
Os outros aprendizes se apressaram em culpar Sophia Black, a primeira aprendiz de Noctus.
Embora pudesse aprender a ser mais cuidadosa, ela — apesar de não ser sua aprendiz há tanto tempo quanto os outros — possuía uma sabedoria extraordinária que lhe permitiu contribuir de forma significativa para o experimento. Como resultado, todos presumiam que ela seria a sucessora de Noctus.
Grandes talentos geram grande inveja, e os aprendizes que serviam Noctus há mais tempo não estavam nada felizes com o tratamento preferencial que ela recebia. No entanto, seu talento avassalador logo esmagaria qualquer vestígio de inveja.
Parecia mais um golpe de azar que seus experimentos no Covil do Lobo Branco tivessem vindo à tona exatamente quando a braço-direito de Noctus estava fora por motivos pessoais. Se ela estivesse no laboratório, talvez tivesse sugerido uma solução melhor ou até mesmo impedido o Mil Truques de sair vivo do cofre do tesouro.
Noctus suspirou baixinho, acariciando o cabo de seu cajado mágico.
— O experimento ainda nem havia começado quando ela esteve aqui pela última vez. Nem mesmo ela poderia ter previsto esse desdobramento.
— Pode ser... — admitiram os aprendizes, relutantes.
O experimento deles era considerado um tabu. Por isso, haviam tomado medidas para protegê-lo das autoridades. Ainda tinham algumas contramedidas à disposição, mas era arriscado demais partir para a ofensiva, especialmente sem Sophia, que era a mais forte do grupo depois de Noctus. No entanto, Noctus suspeitava que seus aprendizes não estavam hesitantes apenas por esse motivo.
— Entrei em contato com Sophia por meio de uma Pedra de Comunicação. Ela voltará em breve.
Ao ver que essa afirmação animava a expressão de seus aprendizes, Noctus sentiu-se secretamente decepcionado. Todos eles já haviam sido Magi de elite, banidos da área por causa de seus caráteres falhos ou ambições desmedidas. Eram inegavelmente talentosos, mas nenhum deles hesitaria em realizar experimentos cruelmente antiéticos.
Ainda assim, pensou Noctus, eles não são bons o bastante para buscar a verdade.
— Contatem a capital. Não podemos permitir que o Mil Truques continue a se intrometer. Precisamos reunir informações.
Ao comando de Noctus, um de seus aprendizes saiu correndo da sala.
Ter um experimento arruinado uma vez não era o fim da causa de Noctus. O preocupante era o fato de que ele não sabia como o Mil Truques havia descoberto seus planos, nem até onde essa descoberta ia. Enquanto houvesse a possibilidade de que o caçador pudesse continuar atrapalhando sua operação, precisavam agir.
Noctus suspeitava que, no pior cenário, teria que enfrentar um caçador de nível 8 frente a frente. Mas, mesmo com essa possibilidade, não demonstrava qualquer sinal de preocupação. Enfrentar um único caçador não era nada comparado a perseguir a verdade no abismo do desconhecido.
Tradução: Carpeado
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