Rakuin no Monshou Volume 01 — O Dragão Ruge para a Estrela do Crepúsculo
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Capítulo 2.2 [Dois Garotos — Parte 2]
Era um pouco depois da alvorada quando Gil Mephius retornou.
Deixando seu cavalo nos estábulos e seguindo na direção do portão
dos fundos, ele imediatamente avistou a figura de Simon Rodloon e
ficou com uma expressão sombria. E então, como já esperado,
precisou ficar ouvindo seus sermões.
— Príncipe, eu não estou nem um pouco surpreso. O senhor tem
passado dia e noite farreando sem sentido.
— O seu hobby de emboscar as pessoas dia e noite também não me
parece muito correto.
Gil deu de ombros e se virou para os amigos que lhe acompanhavam.
Todos eles, sem exceção – entre 17, 18 pessoas – eram
aproximadamente da sua idade formando uma coleção de segundos ou
terceiros filhos da nobreza sem nenhum direito de assumir os
negócios de família.
— Eu também não quero ter de imitar um pai que fica esperando
pacientemente a filha voltar para casa a noite. No entanto, sua
alteza está oficialmente comprometido com a princesa Garberan. As
coisas não podem mais continuar assim. Por favor, peço-lhe que
tenha um pouquinho mais de consideração.
— Eu sei disso, não precisa me olhar assim. É justamente porque o
casamento está tão próximo que eu quero aproveitar ao máximo a
vida de solteiro, antes que seja tarde.
— É só que eu não tenho como lhe cobrir toda santa vez.
— Eu já disse... JÁ DISSE QUE SEI!
Gil estava prestes a perder a cabeça, como sempre. Porém...
— Se sua alteza entende, por favor apresse e troque de roupas.
Sua majestade está aguardando nos portões do palácio.
— Meu pai está?
O rosto de Gil empalideceu e a expressão de raiva foi rapidamente
substituída por uma de medo. Além disso, Simon não pode deixar de
notar que os amigos do príncipe riram em segredo.
— Bem, nos vemos na próxima de novo.
— Alteza, vamos repetir essa festa na noite após o casamento.
Como esperado, embora agissem de maneira amigável com ele, havia
um certo distanciamento entre eles. Seus pais eram respeitados e
renomados ao redor do reino, porém os filhos que cercavam príncipe
a todo momento não eram mais do que parasitas. No Império de
Mephius, abençoado por ricos cânions em cada ponto da nação, esses
jovens disputavam corridas de cavalos por entre as ruas,
convidavam jovens mulheres de casas distintas para se banharem nos
rios, faziam apostas, simulavam caçadas e se embebedavam a noite
inteira em festas selvagens e sem sentido.
Mas no final, a culpa é toda deles
– Pensou Simon.
A nação e os seus soldados estavam cansados da longa e extenuante
guerra. Porém, embora a paz com Garbera finalmente havia chegado
com o casamento político entre as duas casas reais para fechar as
cortinas, o desfecho não foi exatamente o que todos esperavam que
fosse. Para piorar, durante as negociações de paz, o território
sul de Apta, que havia desempenhado papel central durante a
guerra, foi dividido com Mephius assumindo a ponta curta da
vara.
Imprensado entre as duas nações, estava o Ducado de Ende. Este
não possuía um vasto território, mas a longa história do país
poderia ser traçada até o início da Dinastia Mágica também e sua
esfera política se estendia para além dos mares, até os reinos do
golfo. Mais ainda, devido a presença da poderosa nação de Arion no
oriente, a qual Ende compartilhava uma longa relação devido às
suas origens em comum, não era um país que se poderia levar
de ânimo leve, caso Mephius decidisse lutar pela supremacia no
centro do continente.
Rudy: Um golfo é uma extensão do oceano que segue para dentro do
continente, é o oposto de uma península, onde uma
extensão do continente adentra o mar.
Ende não havia interferido na guerra dos dez anos, mas apesar de
continuar mantendo relações comerciais com ambos os países, sinais
de uma aliança militar com Garbera tinham se mostrado.
Assim que o Imperador de Mephius recebeu a informação, ele
rapidamente voltou com as palavras que proferiu três anos atrás
durante a cerimônia de divinamento no Templo do Deus Dragão, “Até
que a cabeça do rei de Garbera seja apresentada a mim, jamais irei
embainhar a minha espada”, e sugeriu a reconciliação com o
reino.
Obviamente, o reino de Garbera não estava convencido da súbita
mudança de atitude do Império Mephius, mas eles estavam
enfrentando a sua própria cota de conflitos internos. Caso se
aliassem com Ende, provavelmente ganhariam contra Mephius. Porém,
o dano colateral poderia trazer ruína a Garbera e,
concomitantemente, iria expor seu território ao ducado.
Para o reino de Garbera, o qual estava no mesmo dilema com o
Império de Mephius ao seu lado, trouxe para a mesa de negócios o
território de Apta. No final, o ponderamento das possibilidades
pesou em favor da aliança com Mephius.
Para sua majestade imperial, esta também deve ter sido uma
decisão amarga...
Dentro e fora da nação, Guhl Mephius era aclamado “O Imperador
com Coração de Dragão”. Parcialmente como um símbolo de medo,
porém parcialmente também com tom de ironia.
Por volta do sexto ano de guerra contra Garbera – durante a
supracitada cerimônia de divinação – Guhl arbitrariamente
fortaleceu a influência da casa imperial para prevenir ruídos na
cadeia de comando. O conselho formado majoritariamente por
aristocratas, perdeu metade de sua autoridade e existe somente em
nome.
Simon Rodloom também fora um dos membros. A casa Rodloom não
tinha um sucessor no momento, pois doze anos antes, em troca de
uma cadeira no conselho, a família transferiu seus direitos sobre
a cidade fortaleza ao oeste para outra casa nobre. Portanto, sem
território para governar ou forças armadas para comandar, a casa
só existia em nome também.
A situação dele não era muito diferente da dos demais nobres.
Exceto para aqueles que mantiveram-se subservientes ao imperador
por diversas gerações, o império agora não passava de um sistema
sufocante.
Simon se via como aqueles garotos que se empoleiraram ao lado do
príncipe antes, tendo simpatia por quem não tinha uma promessa de
carreira a ser seguida ou um futuro brilhante lhes esperando. Se a
guerra realmente chegasse ao fim e aqueles que se destacaram no
campo de batalha recebessem seus títulos, não haveria nada para
eles no fim.
Claro, este era um mundo onde as nações estavam sempre em guerra,
ou em eminência de guerra. Embora não era como se todos os
conflitos fossem simplesmente sumir, o império entraria numa
hibernação de pós-guerra, onde a próxima oportunidade para subir
na vida viria apenas em cinco, dez, ou mesmo doze anos depois.
Quanto a parte da ironia no título de “O Imperador com Coração de
Dragão” se devia ao fato de que ele era dragão apenas nos
sentimentos, pois mesmo recebendo a autoridade ditatorial em seu
domínio, ele não tinha sido capaz de demonstrar esta influência
para além das fronteiras.
Apesar de que isso simboliza bem o atual estado de Mephius. —
Pensou Simon sem hesitação enquanto se autodepreciava
simultaneamente. Ele, que uma vez fora membro do conselho, deixou
seu cargo para virar a babá do príncipe.
Quando Gil saiu as pressas de seu quarto com roupas novas e o
cabelo arrumado, Simon pediu para que diminuísse o ritmo e andasse
ao lado dele.
— Pare de agir como uma cortesã me dando ordens o tempo
inteiro.
— Mantenha a calma, príncipe. Depois de casado, você vai ouvir a
mesma coisa praticamente todos os dias.
— Mantenha a calma uma ova! Acha que vou obedecer a uma pirralha
três anos mais nova do que eu?
— Mesmo sendo mais nova, a princesa Vileena de Garbera é alguém
que já passou por muita coisa. Não se esqueça que ela tomou a
coragem para vir até outro país, lhe confrontar, meu príncipe.
— Por que você fala como se isso fosse algum tipo de guerra?
— Porque o casamento é uma guerra. A linha tênue entre quem vence
e quem perde fica ainda mais fina e não se esqueça que numa
campanha, a coisa mais importante é ganhar informação sobre o
inimigo. Vai dar ouvidos ao que tenho a dizer, agora?
A ideia de Gil era fazer uma piada, mas, para sua surpresa, ele
acabou espetando um vespeiro, por acidente. E Simon não deu a
mínima para as contestações do príncipe enquanto iniciava a
narrativa sobre os contos da lenda de princesa Vileena.
Por volta de cinco anos atrás, quando Garbera estava no meio de
uma rebelião, devido a um plano orquestrado por um dos nobres de
Mephius, a vila onde residia o antecessor do rei de Garbera foi
tomada de assalto. A princesa Vileena, que estava visitando o seu
avô na ocasião, foi tomada de refém, porém os rumores dizem que
ela lutou bravamente contra seus raptores e inclusive ajudou na
soltura dos outros reféns.
Garbera também era conhecida pelos grandes depósitos de fósseis
de dragão, que podiam ser refinados em um metal desprovido de peso
chamado de Pedra-do-Dragão, tornando-se a maior fonte de renda da
nação. Deste metal eram criadas as aeronaves de batalha, as quais
a princesa foi reconhecida como uma das melhores pilotos do modelo
Garberan de um único assento.
— De fato, a cada poucos anos é realizado uma grande corrida de
aeronaves em Garbera e a princesa terminou em segundo
colocado.
— E mulheres podem participar da corrida? – Perguntou o príncipe
com um olhar aborrecido – Ela já fez catorze anos e continua
agindo como uma criança. Se fosse aqui em Mephius, nunca que uma
chegaria perto dos controles desses veículos. Eu não consigo me
imaginar casado com uma mulher passeando pelos jardins do palácio
numa aeronave. As pessoas apontariam o dedo e ririam de mim. “Por
que o príncipe da dinastia de Mephius permitiria sua mulher fazer
maluquices assim?”, eu preferiria casar com uma mulher bonita
qualquer no meio da cidade do que com ela! Simon, como eu faço
para cancelar esse casamento!
Gil deu um longo suspiro, mas era Simon quem gostaria de
suspirar mais. Como um príncipe de uma linha de conquistadores
poderia priorizar sua própria satisfação ao invés do império e de
seu povo?
O príncipe não é uma pessoa ruim, mas as coisas idiotas que ele
pensa e fala só causam intriga e confusão desnecessária.
– Pensou Simon internamente –
Mesmo perdendo uma parte do território ao sul, Imperador conseguiu fazer as pazes com Garbera e ainda frustrou os planos
de Ende. Como ele não consegue perceber isso? Seu pai é um
verdadeiro herói da nação.
Mas o que ele tem de grande herói, carece-lhe de bom pai...
— Pai, o senhor chamou por mim?
Os dois haviam chegado aos aposentos do imperador. Ainda era
muito cedo pela manhã e os portões do salão imperial continuavam
fechados. No entanto, o impaciente Imperador Guhl Mephius já se
encontrava em audiência com diversos homens na mesa do café da
manhã, ouvindo cada palavra que tinham a dizer.
Então, diante de todos os nobres – aqueles que futuramente se
tornariam os vassalos de Gil – o imperador bradou furioso a seu
filho.
— Quanto tempo acha que faz desde que lhe chamei! Você ainda não
tem território ou qualquer soldado para dar ordens. Não trabalha e
ainda consegue se afastar aonde meus olhos não consigam ver? Você
é uma vergonha que só se preocupa em vadiar a noite toda!
— M-mas, pai, eu...
— Meu único filho é um imprestável idiota! É patético saber que a
maior desgraça encontrada na longa história da nossa dinastia será
você!
Simon olhou penosamente para o príncipe que tremia ao
seu lado. Ele também observou por cima do ombro a figura do
imperador esbravejando de raiva com mais e mais rugas aparecendo
no rosto enquanto seu temperamento piorava.
— Você faz alguma ideia de quanta coragem a mais a princesa inimiga tem comparada a você, meu filho? Uma mulher que pilota aeronaves e segura uma arma
melhor do que a maioria dos soldados ordinários! E quanto a você?
Já viu a disparidade que há entre os dois? Talvez o maior mérito
na sua vida tenha sido ficar noivo dela! Você já teve a honra de
matar um dragão? Capturar um membro vivo da tribo do povo dragão?
Ou quem sabe descobrir uma nave espacial das antigas civilizações
enterrada em uma ruína? Ah, eu quase me esqueci, esses são feitos
que apenas um homem de verdade, nascido de uma longa dinastia
conseguiria cumprir!
O imperador deu um tapa cômico sobre a mesa, ganhando a
gargalhada dos vassalos ao redor dele. Quando todos presentes
acompanharam a zombaria, ele adicionou mais uma linha em
satisfação.
— Você deve tomar cuidado, meu filho. Ou então na noite de
núpcias, quem vai usar um vestido e ser carregado para alcova será
você pela princesa.
Que cena deplorável... –
Mas claro, Simon não proferiria em voz alta seus sentimentos.
Entre os presentes na mesa estava Ineli, a filha mais velha da
segunda esposa do imperador, Melissa. Simon sabia que na frente da
garota de pele branca e macia, e de cabelos lisos e sedosos, o
príncipe sempre agia com mais maturidade. Porém agora, mesmo tendo
sido ela a tomar a iniciativa ontem de convidar Gil para assistir
a arena dos gladiadores, a princesa não conseguia esconder a
risada, abaixando a cabeça para tentar suprimi-la.
Rudy: Eu só gostaria de lembrar que a Melissa já tinha a Ineli
antes de se casar com o imperador Guhl Mephius. Gil e Ineli são
irmãos apenas no papel.
No final, Gil mal pode proferir uma palavra em sua defesa.
— Não posso dizer que eu esteja satisfeito com esta situação
também. – Quando o imperador fez sua saída, Fedom Aulin se
aproximou de Simon.
Mesmo sendo mais jovem que Simon, o corpo obeso e a cabeça quase
careca de Fedom o faziam parecer muito mais velho. Este homem era
o nobre encarrego pela Fortaleza de Birac e a área ao redor, sendo
também o principal orquestrador das negociações de paz e o mais
proeminente senhor de terras entre os aristocratas com olhares
mortificantes ao seu redor. Porém, Simon manteve-se vigilante
sobre ele.
Embora tamanhas qualidades, em verdade, dificilmente significavam
que ele era um grande homem.
— O príncipe não poderia carregar o império com ombros tão
frágeis e inconfiáveis. Se comparado com as massas que nasceram
destinadas a viver na rua, só podemos dizer que o príncipe nasceu
nada mais e nada menos com boa sorte.
Fedom balançou a cabeça em decepção e baixou sua voz ao tom de um
sussurro.
— (A insatisfação com a família real tem ganhado força. Por
enquanto, o imperador Guhl Mephius tem mantido as coisas sob
controle com respeito e temor em razão de seus feitos, porém
quando chegar a vez do príncipe Gil assumir ao trono... Do jeito
que as coisas estão, é só uma questão de tempo até que
oposicionistas façam a sua jogada. No entanto, considerando o
futuro da nação, quem poderia julgá-los como traidores?).
Era óbvio que quando ele se referia aos “oposicionistas” estava
falando de si mesmo. Todo aquele teatro para cima de Simon servia
apenas para mensurar se ele poderia se tornar um aliado ou não.
Pois caso a conspiração vazasse, o número de casualidades em
Mephius seria superior até mesmo ao ocorrido na guerra dos dez
anos com Garbera.
— O príncipe ainda é jovem. – Disse Simon, sem demonstrar
qualquer alteração em seu rosto – Qualquer coisa poderá acontecer
ainda. Até mesmo sua majestade quando jovem, era indigna do título
de “Coração de Dragão”. O que precisamos fazer é nutrir o príncipe
para que juntos possamos guiar a nação a um futuro melhor.
— Hahaha! Isso é a sua cara mesmo, lorde Simon! Seus olhos não
estão no presente, mas sim no futuro!
Fedom acariciou em satisfação o seu queixo nu. Quanto a
Simon, um sorriso involuntário se formou em seu rosto.
Bem, espero que a esperteza deste homem tenha compreendido
o significado das minhas palavras de um estudante de honra.
Simon estava preocupado com a situação atual de Mephius e sabia
que era impossível para o príncipe no presente momento fazer
qualquer decisão meritosa também.
No entanto, não importava quais fossem seus temores, tudo
começaria a se decidir de maneira inesperada muito em breve e
Simon não se distanciaria de tais acontecimentos. Tendo
presenciado de perto as mudanças que guiariam o destino de Gil
Mephius, o pensamento de Simon era que o que o destino reservou
para a nação era muito mais promissor do que as maquinações que
Fedom Aulin arquitetou com seus métodos.
Tradução: Rudeus Greyrat
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